sábado, 8 de setembro de 2012

ESPETÁCULO: Quinteto Lisboa na Culturgest



Helder Moutinho e Maria Berasarte são excelentes intérpretes, embora ela não tenha passado incólume pela colaboração com a gritante Dulce Pontes, imitando-lhe os agudos quase insuportáveis.
Júdice, Peixoto e Gil são exímios guitarristas.
E João Monge já deu provas de bastante qualidade em projetos musicais anteriores desde os Trovante, aos Rio Grande culminando noutras gratas colaborações com o mesmo João Gil.
O que faltou então para reconhecermos um grande evento musical no acontecido na Culturgest? Por um lado, apesar das vozes possantes, os sons das guitarras taparam a compreensão dos textos com demasiada frequência. E, para além de alguns temas resgatados do passado dos cantores e guitarristas, não houve nenhum capaz de suscitar uma imediata empatia dos espectadores. As tentativas de Moutinho e de Berasarte para pôrem o público a cantar saldou-se por inexorável fracasso.
Mas se não foi experiência memorável pelos melhores motivos, também o não foi pelos piores. O que o classifica como  um espetáculo de qualidade acima da média, mas a que faltou o tal grão de asa…

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

FILME: «Nosferatu, o Fantasma da Noite» de Werner Herzog (1978)



Já passaram quase  trinta e cinco anos desde que Herzog rodou esta versão de «Nosferatu», que lhe permitiu, ao mesmo tempo homenagear o expressionismo alemão dos anos 20, e sugerir a proximidade entre o nazismo e a ameaça representada pelo vampiro.
Para tal projeto contou com esse ator inigualável, quer era Klaus Kinski, seu alter ego em tantos dos seus filmes mais emblemáticos e com quem mantinha uma relação de amor-ódio. Quando os papéis lhe exigiam desmesura, Kinski encontrava formas de se superlativizar!
Os filmes de vampiros, sobretudo quando bem feitos, como é aqui o caso, têm o condão de metaforizar subtilmente esta sociedade em que uns quantos monstros vorazes sugam o sangue das suas vítimas até as deixarem exangues.
Vale a pena vê-los não só como entretenimento inteligente, mas sobretudo como alertas para este tempo em que nos é exigida a capacidade de Van Helsing  e o recurso a armas tão eficazes como o eram as cruzes, o sol ou alhos na época em que Bram Stocker os começou por situar.

FILMES: fumar ou não fumar, eis a questão!



Na noite temática de domingo, dia 9, que o canal franco-alemão dedica ao tema de fumar e deixar de fumar, já abordámos aqui dois dos filmes, que a integrarão. Desta feita trataremos dos dois outros filmes, um documentário de título «J’Arrête!» de Andrés Jarach, datado de 2005 e a curta-metragem
«Une Dernière Cigarette» de Geraldine Maillet, de 2009.
Começando pelo documentário de pouco mais de cinquenta minutos, ele diz respeito ao diário de Thomas que, após vinte anos de tabagismo, decidiu deixar de fumar, anotando os seus estados de alma e reflexões sobre todo o processo subsequente.
Em tom de comédia fica demonstrado que um filme científico pode ser divertido e eficiente.
Ele começa por se interrogar: «Sou um fumador feliz! Será que serei um não fumador feliz?»
É o adeus ao cigarro matinal, à passa dada com prazer.  As primeiras semanas são decisivas e a personalidade de Thomas fica virada do avesso com todas as implicações psicológicas decorrentes da decisão tomada.
Através de entrevistas face à câmara, de confidências gravadas ao acordar e ao deitar, de discussões com amigos e em consultas com o médico, o realizador acompanha as dúvidas e as crises do protagonista a contas com os efeitos da sua dependência.
É a partir dessas vicissitudes, que o filme organiza um conjunto de explicações sobre os mecanismos da dependência , demonstrados em laboratório com experiências em ratos.
Thomas vai ver alteradas as suas relações sociais, questionando as vantagens e as desvantagens da sua decisão. Porque se trata de um percurso subjetivo, que diz respeito a um fumador específico, o realizador não se arroga de o generalizar. E é afinal mais direcionado para o conhecimento do seu protagonista do que para o seu problema em si mesmo.
Para a sua curta-metragem de dezanove minutos, a romancista e ex-manequim Géraldine Maillet apresenta dois casais a jantarem em mesas adjacentes num restaurante.
Stéphane e Julie estão numa mesa, François e Audrey na outra. E, para darem vazão ao seu vício os fumadores vão entrando e saindo para pegarem no cigarro no passeio.
Dessas idas e vindas surgirão encontros imprevisíveis com os cigarros a influenciarem os destinos dos quatro personagens, suscitando encontros efémeros, mas decisivos entre os dois casais.
A música é bucólica e os movimentos dos personagens são poéticos e divertidos.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

POLÍTICA: Ingenuidade ou despudorada mentira?


A personalidade de Pedro Passos Coelho pode suscitar muitas perplexidades por muito primário que se revele a expressão do seu pensamento. Para Fernando Sobral, no Negócios, ele mostra ingenuidade ao ver-se privado do seu guru, Miguel Relvas, a quem a morte ministerial já ceifou sem que alguém se dignasse a disso o avisar.
Agora que se vê privado desse inspirador, Passos Coelho vira-se para os livros de auto-ajuda e quer à viva força acreditar na transformação do verbo em realidade se o repetir até à exaustão. Vejamos então as palavras de Sobral. Pedro Passos Coelho descobriu um novo caminho para influenciar as pessoas. Para isso ajuda-se a si próprio.
Fala para acreditar no que diz, pensando que assim está a ajudar os portugueses. Parece dizer: acreditemos na sagrada importância da austeridade e o futuro concretizar-se-á.
Ou seja, a austeridade, na falta de estratégia política e de economia real, tornou-se o princípio, o meio e o fim deste Governo. 
Já Baptista Bastos é menos complacente e considera-o um despudorado mentiroso :  o descaramento com que o primeiro-ministro mente já deixou de provocar assombro: suscita repugnância. Para limitar as vias de acesso de outros ao poder, ele é capaz de nos dizer que tudo caminha pelo melhor. A impostura fere muitos milhares de portugueses, e indigna-os porque os humilha e castiga.
Agora que a troika se prepara para deixar o Governo irremediavelmente sozinho na cadeira dos réus quanto à responsabilidade pelo fracasso de tudo quanto prometeu e não cumpriu, Nuno Serra lembra, no blogue «Ladrões de Bicicletas», que esta gente não é vítima de um elefante que se instalou, por vontade própria, no meio da sala. Nem sequer se pode queixar que o paquiderme entrou por uma porta que foi deixada inadvertidamente aberta. Esta gente (troika incluída) fez uma coisa muito mais simples: empurrou o elefante para o meio da sala.
E Tomás Vasques, no «i», confronta Francisco Louçã com a partilha dessa responsabilidade:  Francisco Louçã, disse: “o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas é o mais perigoso que temos na democracia portuguesa”. É interessante ouvir tais palavras do ainda “porta-voz” do Bloco de Esquerda, partido que votou ao lado do PSD e do CDS-PP para derrubar o anterior governo. Será uma autocrítica em fim de mandato?
Continua a ser a doença infantil, que o próprio Lenine denunciou, essa tendência de certa esquerda para se firmar no terreno dos princípios invioláveis, esquecendo-se de pensar estrategicamente a curto e a longo prazo sobre as consequências das suas decisões. E poucos duvidarão ainda que, se há quinze meses, os portugueses tivessem rejeitado a demagogia fraudulenta da direita e continuassem a apostar no Partido Socialista a realidade atual seria muito diferente: difícil, não duvidamos, mas menos nociva para tantos, que padecem hoje os efeitos das suas más escolhas enquanto eleitores.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

FILME: «La fumée vous dérange?» de Marie-Pierre Jaury e Grégoire Bénabent



Como é que fumar se tornou num vício? O que se esconde por trás da guerra contra o tabaco?
Este documentário é uma análise sem tabus da evolução do papel social do tabaco.
«Fumar mata», «Fumar incomoda quem o rodeia», «Fumar cria uma forte dependência»: as proibições expandem-se e os métodos e terapias abundam, com consultas de tabacologia em todos os hospitais.
E, no entanto, fumar ainda era até muito recentemente, uma atividade perfeitamente normal, um ritual de passagem para os jovens, um sinal de afirmação para os homens ou de emancipação para as mulheres.
Não é que, então, fossem desconhecidos os perigos do tabaco, mas as preocupações com a saúde e com a prevenção estavam muito longe de terem o papel relevante hoje manifestado.
Vamos olhar para o cigarro, olhos nos olhos, para identificar o que vos faz acreditar em ter essa coisa nojenta na boca na única vida com que podem contar. Eis como começa o documentário pela voz de uma terapeuta.
Os realizadores mostram então como a mediatização dos perigos do tabaco e o reconhecimento do tabagismo passivo contribuíram para tornar o tabaco fora de moda.
Cada vez mais caro e a perder influência enquanto fator de sociabilidade, passou a ser rejeitado por uma sociedade decidida a ser responsável e preventiva.
Partindo da primeira lei que limita a publicidade ao tabaco em 1976, o filme mostra como não fumadores e ex-fumadores se tornaram modelos de bom comportamento à medida que se multiplicaram as restrições.
Mas os preconceitos contra o tabaco são confrontados inteligentemente confrontados com a crescente obsessão por uma vida sempre mais sã numa sociedade cada vez mais proibitiva.
(filme a transmitir no canal ARTE a 9/9/2012)

FILME: «Thank you for smoking» de Jason Reitman



Esta comédia politicamente incorreta, protagonizada por Aaron Eckhart, conta as desventuras de um homem de negócios sem escrúpulos ao serviço do lobby do tabaco.  Ele chama-se Nick Naylor e é um ás da comunicação da Big Tobacco cujo dia-a-dia consiste em contrariar as políticas de prevenção contra o tabagismo.
Explica-se, assim, que multiplique as cruzadas, as conferências de imprensa e as participações em programas televisivos. O que prejudica a sua vida pessoal, que é um fracasso: não lhe será fácil convencer a ex-mulher do seu potencial enquanto modelo paternal para o filho de ambos.
O filme, mais do que uma crítica aos lobbies, que tanto influenciam as instituições norte-americanas, propõe o retrato de um arrivista cínico disposto a investir em todos os meios para alcançar os seus fins.
(filme a transmitir no canal ARTE a 9/9/2012)

POLÍTICA: voltar a ter a coluna na posição vertical!


Começa a ser confrangedor assistir aos debates televisivos de João Galamba com deputados ou outros representantes da direita governamental. É que até dá pena ver a triste figura em que estes últimos incorrem ao serem esmagados pela argumentação do deputado socialista.
Esta noite, no «Vice-Versa» da RTP Informação, coube  a vez a Luís Meneses do PSD.
Avisado e já ciente da tareia esperada, o filho do munícipe de Gaia, julgou munir-se de munição suficiente levando consigo uma citação do oponente julgando apanhá-lo em contradição. O que se seguiu foi uma disparatada tentativa de justificação da falência do Governo de Passos Coelho procurando dissociar este do desastre para que empurrou o país. E as circunstâncias eram tanto mais desfavoráveis a Meneses quanto a troika decidira nessa mesma tarde alijar quaisquer responsabilidades suas nesse mesmo desastre, atribuindo-o por inteiro ao seu suposto «bom aluno».
E foi aí que João Galamba destroçou quaisquer veleidades de Meneses justificar o injustificável: nunca Passos Coelho deveria ter esquecido que a troika representa os interesses dos credores enquanto o Governo português deveria ter sempre presente a defesa dos que cabem aos seus cidadãos.
Não o disse, mas esteve implícito que, enquanto o Governo anterior era liderado por quem demonstrava ter coluna vertebral, mesmo que considerado arrogante por uns quantos, o que se lhe seguiu foi com gente de espinha gelatinosa, tão apostada em se curvar que nunca mais se conseguirá verticalizar.
A visita da troika promete - para mal de todos nós! - demonstrar que nada se ganha em ser-se hipersubserviente, só se ganhando o respeito das instituições com que lidamos se soubermos trata-las como parceiros com interesses a considerar, mas com a obrigação de atenderem aos nossos.
Vem, pois, aí mais um pacote de medidas altamente lesivas das mais desfavorecidas classes sociais do nosso país, incluindo esse estrato intermédio tão importante para garantir o consumo interno e empurrada para tão súbita quanto gravosa pauperização.
Se na sua mais recente crónica no «Expresso», Miguel Sousa Tavares fazia um diagnóstico objetivo da presente realidade e questionava o que sobre ela iriam fazer o Governo e a troika, os sinais hoje transmitidos aos parceiros sociais dão ainda maior ênfase ao último parágrafo desse texto, que concluía assim:
Um ano e meio decorrido, depois de ter aceitado os sacrifícios impostos com uma resiliência que todos reconhecem, os portugueses têm o direito de esperar que o Governo e a troika lhes digam o que correu mal e porquê, e o que vai ser mudado ou revisto.
E não adianta vi rem com desculpas sobre a conjuntura externa, porque esta é a mesma maio ria que não aceitava essa explicação ao governo anterior.
Não adianta virem di zer que a situação era bem pior do que esperavam, pois que nos juraram que conheciam bem a situação e estavam preparados para governar (e ainda espe ramos prova do "desvio colossal"...).
Su pondo que, quer o Governo quer a troi ka, não tenham a humildade de reco nhecer que falharam no diagnóstico e na solução, é de esperar, pelo menos, que não venham, simplesmente, propor-nos mais do mesmo. Estamos pobres e descrentes, todavia ainda não estúpidos de todo.
De facto estamos mais pobres, mas não nos deixamos comer por parvos. Como, aliás, Paulo Portas, assisadamente, também o vai demonstrando ao negar a reforma autárquica ao parceiro da coligação, depressa condenado à solidão dos derrotados.
O que significa que a crise política está bem mais próxima do que a maioria dos comentadores previa. E o país irá precisar de recuperar a atitude manifestada por João Galamba no debate com que começámos este texto: respondendo com firmeza aos credores confrontando-os com a inevitabilidade de se recuperar a lógica de ganhos mútuos num negócio, que extravasa este cantinho à beira-mar plantado e diz respeito a toda a economia do eixo atlântico.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

FILME: «A casa dos sonhos» de Jim Sheridan



Ao concluir a visão deste filme de Jim Sheridan a questão mais óbvia, que se me colocava era esta: mas com tal realizador e elenco não seria de esperar muito mais? E ao consultar alguns sites de quando ele foi estreado deu para perceber o porquê desse incómodo: não só o realizador solicitou à Associação dos Realizadores Americanos, que retirasse o seu nome da ficha técnica por não haver correspondência entre a montagem chegada ao público e a que ele conjeturara, como também Daniel Craig e Rachel Weisz recusaram promover o filme.
Temos, pois, um daqueles objetos híbridos retrabalhados pelos estúdios de forma a conterem as fórmulas passíveis de virem a agradar ao seu mercado-alvo. Mesmo que a psicologia aqui revelada seja de pacotilha e o final dececionante.
Temos, pois, um suposto criminoso cuja amnésia leva à recriação de fantasmas na sua mente, mas suficientemente persistente para ver esclarecida a verdadeira autoria da morte da própria mulher e das filhas.
Ainda nos sentimos tentados a encontrar algo de semelhante ao brilhantismo de «Shining», mas será esperança vã e pouco duradoura. Para os produtores, que se apossaram do trabalho dirigido por Sheridan, a vingança final garantirá a tranquilidade dos habituais ruminadores de pipocas, que poderão ter estado meio adormecidos a ver uma história que, passada a surpresa verificada mais ou menos a meio, evolui para a solução por aqueles desejada.
Só abona a favor de Sheridan, de Weisz e de Craig o terem-se querido dissociar de um título, que nada acrescenta às duas biografias e facilmente olvidável no mais curto lapso de tempo...

POLÍTICA: recordar a fábula do sapo e do lacrau


Afinal a Universidade de Verão do PSD sempre serviu para alguma coisa, quando ouvimos a insuspeita ministra da Justiça a defender que estamos ainda longe de encontrar a demonstração em como a gestão privada consegue ser mais qualificada e eficiente do que a gestão pública.
Não é que discordemos, pelo contrário! Concordamos em absoluto com a senhora ministra. Só nos podemos interrogar sobre duas possibilidades: o que é que ela anda a tomar para dizer algo que é exatamente o contrário da filosofia ultraliberal do Governo que integra? Ou, se ela acredita mesmo no que disse, o que é que ainda está a fazer nesse mesmo Governo?
Na outra Universidade de Verão, a do PS, Ana Gomes também se distinguiu por dizer aquilo que muitos de nós estão convictos: chegará o momento em que Paulo Portas não quererá associar-se ao desastre social e económico promovido por Passos Coelho e pelos demais ministros do PSD ou independentes e quererá afirmar a diferença do CDS na sua estratégia de querer vir a liderar a direita. Disse a eurodeputada em causa: Nunca tive dúvidas em que chegaria o momento em que Paulo Portas arranjaria um pretexto qualquer para começar a fazer exigências dentro da coligação e, eventualmente, a lançar os olhos para alternativas, quando as coisas começassem a aquecer. E Ana Gomes lembrou, a propósito, a conhecida fábula do sapo e do lacrau: O sapo vai atravessar o canal e o lacrau vai de boleia, mas, a certa altura, pica o sapo, tem que picar porque lhe está na natureza, mesmo correndo o risco de ir ao fundo.
Mas são os próprios comentadores de alguns jornais quem surgem a avançar com a mesma tese, como é o caso de Nuno Saraiva no «Diário de Notícias»: Nos últimos tempos, temos assistido a um crescimento das divergências públicas entre os dois partidos que compõem a coligação no Governo. Primeiro foi a oposição do CDS a novos aumentos da carga fiscal e ao alargamento aos privados do corte dos subsídios de Natal. E, mais recentemente, o dossiê da privatização da RTP trouxe a lume novos sinais de tensão política. (…) Fôssemos um país saudável do ponto de vista económico, e não se desse a circunstância de estarmos sob a alçada de um programa de assistência financeira, e já a coligação no poder tinha metido os papéis para o divórcio político.
Esse divórcio anunciado entre os dois partidos da coligação será desejável, mas os danos por eles causados poderão ser extremamente perigosos como lembra no mesmo jornal um conhecido comentador de direita, Pedro Marques Lopes: a democracia corre sérios riscos. Atirar ainda mais pessoas para a pobreza, retirar ou dificultar o acesso à saúde e educação não será sustentável politicamente numa fase em que tanta gente está privada dos mais básicos bens. Ou, num blogue de esquerda, o Arrastão, o Sérgio Lavos: o país está a ser destruído por esta turba de fanáticos incompetentes, é preciso parar esta gente que não irá retroceder no caminho escolhido. A austeridade não é solução - e não é preciso vir o hipócrita Cavaco vir sugerir isto, ainda por cima culpando a troika pelo programa além da troika que o Governo PSD/CDS decidiu implementar. Até quando aguentará o país um Governo comandado por alguém como Miguel Relvas?
A urgência de outras práticas políticas é sentida por uma ampla maioria dos portugueses, que se vai dissociando da abulia em que se deixou convencer da inevitabilidade das malvadezas sobre ele cometidas. E que precisa de ser associado à resolução da tremenda trapalhada para que foi arrastado por quem só se deixou guiar pela pressa em chegar ao «pote». No «Jornal de Notícias» defende o jurista Pedro Bacelar de Vasconcelos: Sem políticas capazes de gerar confiança, sem motivos de esperança que projetem o futuro, é difícil resistir aos apelos da selva e à lógica do "salve-se quem puder". As dificuldades que enfrentamos requerem o envolvimento e a mobilização dos cidadãos se quisermos preservar a sociedade democrática que, embora tardiamente, conseguimos construir.
Estamos, pois, num impasse para o qual não faltarão soluções tão só se expulse do poder esta gente sem qualidades. E, por falar de gente que, direta ou indiretamente, tem causado tanta morte e sofrimento em quem lhe padece os efeitos das suas decisões, o fim-de-semana ainda ficou marcado pela voz lúcida e sábia do Prémio Nobel sul-africano, o bispo Desmond Tutu, que propôs algo que só podemos apoiar: que George W. Bush e Tony Blair devem ser julgados em Haia por causa da guerra no Iraque.

domingo, 2 de setembro de 2012

FILME: «NESTLÉ E O NEGÓCIO DA ÁGUA EM GARRAFA » de Urs Schnell e Res Gehriger



Ao comprar o grupo Perrier em 1992, que lhe abriu o mercado norte-americano, a multinacional suíça tornou-se a líder mundial da indústria agroalimentar e tornou-se o primeiro produtor de água engarrafada. Trata-se do setor de maior crescimento dentro do grupo: Peter Brabeck, o presidente austríaco do conselho de administração, anunciou em 2010 resultados globais a crescerem 10%, com o volume de negócios a mais que duplicar para atingir os 7,2 mil milhões de euros.
Um exemplo: em Fryeburg, (Maine, EUA), Poland Spring, a sua filial para o mercado norte-americano, paga dez dólares ao proprietário de um terreno em troca de 30 mil litros de água dali bombeada. Ora, a garrafa de 0,5 litro pode ser vendida até 2 dólares ao consumidor.
Para Peter Brabeck, a água poderá garantir ainda mais cento e quarenta anos de vida à Nestlé., empresa fundada em 1886 em Vevey.
A quem pertence a água? É a questão crucial do documentário. Numa das suas intervenções filmadas Peter Brabeck explica que reivindica-la enquanto bem público acessível a todos, é uma posição «extremista», só defendida por algumas ONG’s. Segundo ele trata-se de um bem alimentar como qualquer outro e como tal passível de como eles ser vendido. Esquece-se é de considerar que a água é um recurso natural que, em grande parte, escapa ao conceito de propriedade.
A Nestlé contenta-se em pagar os terrenos aonde implanta as suas infraestruturas de bombagem e de embalamento.
Quando as populações locais se insurgem, os advogados e os lobistas a seu cargo, sabem aproveitar o vazio jurídico na matéria para reivindicarem o direito de bombagem ilimitado e quase gratuito.
No Paquistão, próximo de Lahore, a sua fábrica Pure Life fez abaixar em 90 metros o nível do lençol freático local. As garrafas são exportadas para o Afeganistão e os aldeões a viverem junto á fábrica não têm acesso a elas.
Um pouco por todo o mundo, a Nestlé consagra um investimento significativo na busca de novas fontes. A exemplo dos pioneiros da corrida ao ouro, os seus estrategas sabem bem que os recursos em causa não são inesgotáveis.
Maude Barlow, especialista da ONU, lembra que a água é, hoje em dia, a primeira causa de mortalidade no mundo.
A Nestlé, que recusou qualquer participação no documentário, compreende que as opiniões públicas estão cada vez mais conscientes da rarefação dos recursos aquíferos e do que está em causa com o chamado «ouro azul». É por isso que é desenvolvido um marketing muito eficaz: nos países desenvolvidos e nos EUA em particular a água da torneira, mesmo sendo de ótima qualidade, como ocorre em Nova Iorque, é desvalorizada na perceção coletiva.
A Nestlé propõe fornecer aos domicílios a melhor água para a saúde se se beber muito e de características ecológicas, apesar dos camiões que a transportam e das garrafas de plástico em que estão acomodadas. Nos países do Terceiro Mundo, aonde o mau estado das infraestruturas dificulta a maioria da população á água potável, a Nestlé orienta as suas vendas para as classes mais abastadas, praticando preços elevados que a tornam inacessível aos mais pobres.
A Nestlé é, igualmente, pródiga em desinformação, como ocorre quando se autoelogia a pretexto da sua «responsabilidade social». Urs Schnell e o jornalista Res Gehriger quiseram comprovar no terreno: a comunicação do grupo vangloriava-se de compromissos humanitários já abandonados, como ocorreu no leste da Etiópia, aonde mandou construir canalizações para o aprovisionamento de um campo de refugiados com mais de 20 mil pessoas, mas que está obsoleto por falta de manutenção.





sábado, 1 de setembro de 2012

LIVRO: «Jesus Cristo Bebia Cerveja» de Afonso Cruz (excerto)


O salão da casa de Miss Whittemore está soberba­mente decorado, num exagero de cores e brilhos. O lustre de teto que ilumina o espaço tem dimensão suficiente para albergar uma pequena família e deita uma luz suave e amarelada, como um doente a morrer num hospital. Há cortinas e panos pendurados, de várias cores e tecidos. As mesas estão cheias de comida de todo o tipo, doces empilhados a querer chegar ao teto, cabritos e borregos assados, sopa dourada, vinhos, e toda a espécie de doçaria conventual. Na mesa junto à janela virada para Poente, ensaia-se uma Ultima Ceia: a companhia de teatro arranjou doze apóstolos e um Cristo. Têm a mesa mais austera, para não atrapalhar a estética do momento.
Do outro lado do salão, uma banda filarmónica de metais toca músicas levantinas, mesmo junto à mesa onde se senta Miss Whittemore com o sábio hindu e o feiticeiro.
Antónia está maravilhada com o salão e com as de­corações. Borja explica-lhe, aos gritos, que irá ser apresentada uma encenação da Ultima Ceia, que o banquete é a coisa mais importante da religião, foi o próprio Jesus Cristo que o disse ao mandar repetir o ritual e tornar o ato de nos sentarmos à mesa no maior sacramento da Santa Madre Igreja. A religião deve fazer-se à volta da mesa. Ao comer enquanto se conversa, dá-se carne às palavras e elas ganham corpo. A comida entra-nos no estômago ensopada em histórias. Há um casamento das palavras com a salada, das histórias com o bife, das conversas com o vinho. Antónia não o ouve, os olhos andam perdidos pelos panos tecidos por viúvas iranianas, pela pedraria do lustre, pelo enorme crucifixo de madeira que está pendurado no salão, como um anjo a voar. Rosa sorri, pois sente a felicidade da avó.
O professor agarra as mãos de algumas pessoas e obriga-as a dançar em roda, cruzando as pernas, com a variante fugaz de se dirigirem ao centro e levantarem as mãos. Vai buscar Antónia e empurra a cadeira para o meio do salão, e todos começam a girar à volta dela. A velha ri-se como há muito não fazia e Rosa também se sente feliz. De repente, a meio de uma dança, Borja caminha para a mesa onde se desenrola a Ultima Ceia e manda retirar o vinho, pois é um erro histórico. O Cristo está impávido, mas São João acha que não faz sentido e afasta o seu copo do alcance do professor, que começa a discursar:
- Ninguém sabe, caros Jesus Cristo e seus apóstolos, por que razão o homem se sedentarizou, já que está provado que ser nómada dá muito menos trabalho. Então porque sucedeu essa mudança radical? Muito simples, vou explicar-vos, queridos apóstolos e Nosso Senhor: foi a cerveja. Para ter cerveja era preciso cultivar. E assim nasceu a sociedade como a conhecemos. Graças à cerveja, temos hospitais e bibliotecas. Não existiriam livros se não fosse a cerveja. Não existiriam escritores nem ciência. Os nómadas não têm prisões nem conhecem o castigo, mas por outro lado não têm bibliotecas. Os nómadas não têm nada disto, porque andam de um lado para o outro e as prisões não po­dem ser transportadas, tal como as tipografias e os hospitais e as livrarias. E tudo isso se deve ao facto de alguns povos terem querido beber cerveja e, para isso, precisarem de se sedentarizar. No tempo de Cristo, no vosso tempo, andavam todos a beber cerveja. Na verdade, as bebidas alcoólicas confundiam-se entre si, pois era normal juntar frutos a bebidas de cereais e cereais a bebidas de frutos. Mas o que é certo é que o Egipto tinha inúmeras cervejeiras e exportava grandes quantidades para a Palestina. O que se bebia no espaço geográfico em que Cristo habitava era cerveja. O vinho era uma bebida de romanos, dos invasores. Cristo não iria beber a bebida dos ricos, dos opressores, como a inglesa que nos governa, mas a dos pobres, das putas e dos pecadores. Isso é que era a cerveja, um símbolo do povo. Jesus Cristo bebia cerveja, que sempre foi chamada de pão líquido, pois é verdadeiramente pão com água. E a mesma levedura a transformar o cereal. Fouqueret dizia que a cerveja deveria substituir a hóstia, pois é um pão vivo, que borbulha, não é essa coisa insípida e espalmada e sem fermento que os padres espetam na boca dos fiéis. Em verdade, em verdade vos digo que se o grão não cair na terra e morrer, não dará fruto. A cerveja é a ressurreição dos grãos, a sua nova vida. É preciso morrer para isso, é assim que se inicia a fabricação da cerveja. O grão apodrece e transforma-se em malte, que depois se torna álcool, que os antigos chamavam espírito. Deviam acabar com essas porcarias achatadas e dar às pessoas algum motivo de alegria. Deus não esconde a sua inexistência nessas coisas por levedar.
O caseiro Rato, vestido de padre ortodoxo, manda calar Borja: - Calem-no! - e sobe para cima de uma cadeira e tira o dente que traz sempre consigo. É o dente que ele partiu ao professor Borja, quando eram miúdos. O professor corre para ele, mas agarram-no no preciso ins­tante em que chega o padre Teves, de braços abertos como um crucificado. Manda parar a música e sobe para cima de uma mesa. Parece possesso. Tem de acabar com a farsa, que não se brinca com coisas daquelas. Grita para que Antónia o ouça, diz que aquilo não é Jerusalém, que ela foi enganada e que ele não pode permitir isso.
Rosa corre para perto da avó, que dorme profunda­mente, de boca aberta e queixo encostado ao peito, mesmo no meio do salão. O padre tenta aproximar-se, mas barram-lhe a passagem. Miss Whittemore expulsa-o e ameaça chamar a polícia.
- Não é preciso - diz o padre. - Que Deus vos castigue pelas mentiras monstruosas que criaram.
- Platão também não gostava de ficção, padre - diz o professor. - É a única coisa em que eu não concordo com ele.
A partir desse momento, a calma instala-se, a banda recomeça a tocar, o barulho dos talheres sobrepõe-se ao das vozes e a Ultima Ceia continua como tinha começado: com cabrito e vinho tinto.
Já no final da noite, cheio de vinho tinto, o professor grita, antes de cair completamente bêbedo: Jesus bebia cerveja!
Mas nem aquele grito, dado mesmo ao lado de Antónia, a acorda. Nem sequer os membros da ordem ma­cedónia a correr todos nus pelo salão a gritar poesias de Stamboliski.




LIVRO: «Jesus Cristo Bebia Cerveja» de Afonso Cruz


Não foi fácil encontrar o romance mais recente de Afonso Cruz e que alguma crítica tanto elogiava. Apanhados pela falência da empresa contratada para os distribuir, os livros da Alfaguara andaram arredados dos seus leitores e só alguma persistência nos levou enfim à sua compra.
Mas valeu a pena o esforço: estamos perante um dos melhores romances portugueses do ano, empurrando para a irrelevância aquilo que Peixoto ou Gonçalo Tavares têm produzido ultimamente. Se existem escritores que valem a pena ler da geração mais jovem, Afonso Cruz e Valter Hugo Mãe estão claramente na dianteira.
Este Jesus Cristo Bebia Cerveja  mostra o Alentejo como se fosse um cenário de westerns spaghettis, povoado de gente singular. Mas, de entre os muitos personagens salientam-se Rosa, cujo buço e pelos nas pernas não eximem do fervilhar da testosterona dos machos em volta entre os quais o velho professor, já septuagenário, apostado em ajudá-la a cumprir o sonho da avó: ver Jerusalém antes de morrer.
É assim que o avião convertido em bar de alterne volta a momentaneamente parecer ganhar altitude nos ares para uma Terra Santa, que não é mais do que a aldeia comprada por uma inglesa abastada e cujos habitantes são forçados a disfarçarem-se de muçulmanos e de judeus.
A imaginação de Afonso Cruz é delirante e, nesta altura em que as escritas, as imagens e os sons parecem espelhar o estado depressivo de toda a gente, Jesus Cristo Bebia Cerveja acaba por se revelar um belíssimo romance, muito bem escrito e onde um certo espírito bunueliano parece reinar à solta por entre os personagens.
E, ainda como complemento, temos um excelente livrinho em que um cowboy se apaixona pela rapariga que viera matar por contrato a um bar do velho Oeste.

POLÍTICA: é altura de deixar de ser bom aluno!


Se hora a hora Deus melhora, dia-a-dia o desemprego piora em Portugal. Segundo o Eurostat a taxa de desemprego em Junho e Julho foi de 15,7%, os valores mais elevados alguma vez registados no país, e que João Proença, secretário-geral da UGT, estima vir a chegar rapidamente aos 17%. E não estaria apenas a pensar nos quarenta e três mil professores, que se candidataram ao concurso para contratação inicial e renovação de contrato e ficaram de fora. O que equivale a dizer que mais de 85% dos professores contratados que se apresentaram a concurso não foram colocados para o próximo ano letivo, que arranca dentro de dez dias.
Hoje é  evidente o falhanço completo da estratégia de Passos Coelho e dos seus ministros em irem muito além do memorando assinado pelo Governo de José Sócrates com a troika e aplicarem um conjunto de medidas, que arrastaram o país para a recessão e para o desemprego massivo da sua população ativa.
Para quem fez cair o governo anterior por considerar inaceitáveis as medidas anunciadas no PEC4, o balanço da sua ação só pode ser comparado como extremamente dececionante por quem quis crer na competência e nas boas intenções dos que se apressaram a agarrar o “pote”, expressão emblemática de Passos Coelho. Escreve Mariana Vieira da Silva no «Económico»: O governo falhou na sua estratégia de ir além da troika e de acelerar o processo de ajustamento. O desemprego é bem mais alto do que o governo esperava, a economia abrandou mais do que o governo previa, a receita esteve abaixo do previsto apesar do aumento generalizado de impostos e o défice anunciado pelo governo não vai ser cumprido. Resumindo: mais sacrifícios trouxeram piores resultados orçamentais.  
Que os sacrifícios não são para todos informaram-nos os jornais com a notícia de terem sido 131 os assessores do Governo a receberem subsídios de férias e de Natal, quando funcionários públicos, reformados e pensionistas eram deles espoliados.
Mas podemos sempre contar com o inefável António Borges a dizer que o país vive, finalmente, "dentro das suas possibilidades", ou seja, como diz Paulo Pinto no «Jugular», com 1/4 de desempregados, empobrecido, mal-pago e com a educação pública, o serviço nacional de saúde e a proteção social a saque. É, portanto, este o radioso horizonte que é apresentado.
Mas João Rodrigues convida-nos a não diabolizarmos António Borges no «Ladrão de Bicicletas»:  Ele está apenas a tratar da vidinha e dos interesses que o rodeiam. Não se perde uma oportunidade destas para ir ao pote e abocanhar serviços públicos e bens coletivos. É por isso que o «aquashow» tem que continuar. À custa da economia e de todos nós, evidentemente.
Liberto dos seus compromissos na CGTP, Carvalho da Silva comenta no «Jornal de Notícias» que a austeridade empobrece e quanto mais se empobrece menos possível se torna pagar dívidas. Para pagar dívidas é preciso, no mínimo, que os portugueses tenham um trabalho produtivo e um salário digno (emprego) e nós estamos a ficar ou desempregados, ou com piores empregos.
Para Elisa Ferreira, que deu uma aula na Universidade de Verão do PS, o único caminho possível para Portugal é deixar de se menorizar a condição de bom aluno, mas exigir o respeito pelo seu papel de parceiro europeu: tem de atuar ao nível europeu, não pode estar passivo em relação à agenda europeia. Porque a promessa da integração europeia estão longe de se cumprir: os desequilíbrios aumentaram imenso e os países são chamados a resolver, praticamente só pelos seus próprios meios, as crises e os ajustamentos quando entregaram a nível europeu a maior parte dos instrumentos necessários ao relançamento da economia.