quarta-feira, 24 de junho de 2026

Quatro Espelhos do Mesmo Mundo

 

Há semanas que os assuntos cruzam-se por puro acaso e ainda assim contam a mesma história.

Em Londres, António Guterres exigiu que as gigantes da inteligência artificial revelem o seu verdadeiro custo ambiental. "Chega de custos escondidos", disse, lembrando que os centros de dados consumiram 448 terawatts-hora de eletricidade em 2025 — mais do que a maioria dos países do mundo. O secretário-geral da ONU não pediu caridade. Pediu contabilidade. Quem promete revolucionar o futuro devia começar por dizer quanto isso custa hoje, e a quem.

Em Genebra, a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU divulgou novo relatório sobre Gaza: crianças palestinianas têm sido deliberadamente alvejadas e mortas pelas forças de segurança israelitas, num padrão que persiste mesmo depois do cessar-fogo de outubro. Pelo menos 20 179 crianças mortas entre outubro de 2023 e outubro de 2025 — cerca de 30% de todas as vítimas, proporção superior à de qualquer conflito anterior em Gaza. A comissão fala de ataques aos serviços de maternidade, de fome usada como arma, de uma estratégia para destruir a continuidade biológica de um povo. Israel chama-lhe farsa caluniosa. Os números, voláteis e mortais, não se importam com o nome que lhes dão.

Em Lisboa, os dados do Eurostat mostram outra forma de violência, mais lenta mas igualmente concreta: Portugal é o sétimo país da União Europeia com maior esforço real das famílias face ao custo dos combustíveis, à frente de praticamente toda a Europa Ocidental — mais penalizado do que a Espanha, a França, a Alemanha, a Suécia. Não é fatalidade geográfica. É política fiscal de um governo que prefere tributar quem enche o depósito a tributar quem acumula lucros, e que descobre nos impostos sobre combustíveis a receita que falta noutro lado.

Em Nova Iorque, as ações da SpaceX perderam 600 mil milhões de dólares de valor em três sessões, depois de uma estreia em bolsa que tinha feito de Musk o primeiro bilionário a tornar-se trilionário. A empresa que prometia o maior mercado da história humana lembrou Wall Street de uma lei mais antiga do que qualquer foguetão: quem sobe pela euforia desce pela física. Avaliada a 175 vezes os seus resultados, sem fundamentos que sustentassem a fantasia, a queda não foi acidente — foi correção.

O que une estes quatro episódios é a mesma pergunta sem resposta satisfatória: quem paga a fatura do que outros decidem? As famílias portuguesas pagam a fatura da política fiscal de Montenegro. As crianças de Gaza pagam a fatura de uma guerra que escolheram não fazer. O planeta paga a fatura de uma corrida tecnológica cujos custos ambientais ninguém quer revelar. E os investidores que compraram a fantasia espacial de Musk pagam, finalmente, a fatura da sua própria euforia — a única fatura desta lista que tem alguma justiça poética em ser paga por quem a contraiu.

As outras três, infelizmente, continuam a ser pagas por quem nunca assinou a conta. 

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