segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Acaso se confirme, abençoemos o covid


Se acompanhei a convenção do Partido Democrata com o relativo desinteresse de quem quer que Biden ganhe, mas descrê das suas capacidades para alterar profundamente a natureza imperialista de um país, que se julgou única superpotência, e conta agora com a China como contraponto, muito menos tempo perderei com o programa de reality show em que Trump configurará iniciativa semelhante do Partido Republicano. A distrair-me de assuntos mais interessantes, que me prendam a atenção, apenas se ocorrer uma daquelas situações estapafúrdias como, anos atrás, Clint Eastwood protagonizou e ninguém verdadeiramente entendeu. No fundo, tão-só para confirmar que aquela gente ainda consegue ser pior do que dela mal penso!
Estou convencido em como a provável derrota de Trump não ocorrerá por mérito do oponente, mas por demérito próprio, como quase sempre sucede a quem está no poder e o perde. E ainda muito haveremos de elogiar o covid 19 pela ajuda que terá dado para nos livrar de tal sacripanta... 

Confio que os acordos à esquerda sejam possíveis


Há quem ande a fazer figas para que o Bloco de Esquerda repita os erros de 2010 e condene António Costa a tornar-se presa fácil das direitas. Podem sentir a inexistências nas direitas qualquer noção do que devem fazer para solucionarem os problemas do país no atual contexto, mas comprazem-se com a possibilidade de verem o patronato recuperar o desregulado ascendente dos anos cavaquistas e passistas. Por muito que o neoliberalismo dê mostras de crescente putrefação, ainda teimam em querer ressuscitar o morto.
Apesar da fala grossa de Catarina Martins nos dias mais recentes julgo tratar-se de mera estratégia negocial, substituída por comportamento assertivo e aberto a consensos nos mínimos denominadores comuns quando se sentar à mesa em que tudo se discutirá.  
É que dificilmente será esquecida a lição colhida no ano em que Louçã deu a mão a Passos Coelho para derrubar o governo de José Sócrates. Na eleição seguinte o grupo bloquista no Parlamento decresceu para metade. Razão bastante para sentir-me confortado no otimismo em como existirá acordo escrito, com duração de um ou mais anos, capaz de garantir a maioria de esquerda na Assembleia da República e assim melhor serem contornados os bloqueios intentados por um Marcelo confortado pela recondução presidencial.
E também acredito em acordos - escritos ou de palavra! - com os partidos da CDU. Não só pela tendência dos votos nos sucessivos atos eleitorais, que aconselharão a só eles voltarem no fim da legislatura, mas também porque costuma haver um pragmatismo na atual direção comunista, que valorizará o pouco que se conquiste em detrimento do muito a perder caso as direitas regressem ao poder.
Sentir-me-ia ainda mais confiante se a missão de conseguir esse acordo fosse entregue a quem o conseguiu há quase cinco anos, mas esperemos que os substitutos de Pedro Nuno Santos  saibam imitar-lhe a competência negocial e todos sentirem terem ganho o essencial.

sábado, 22 de agosto de 2020

O que eles querem, bem o sabemos!


Na «Visão» de há três semanas recordava-se aquele dia de fevereiro de 2004 em que a elite - promovida pelas revistas e jornais económicos como gestores de excelência como quase não se vislumbravam alhures -, reuniu no convento do Beato e aprovou um documento pomposamente intitulado «Compromisso Portugal». Estavam lá todos aqueles que Ricardo Salgado formatara e continuaria a formatar para que Portugal enveredasse pelo mais acelerado ultraliberalismo económico com o Estado a reduzir-se a migalhas e grandes grupos económicos a ajudarem o putativo mestre de cerimónias a ser dono disto tudo com uma entusiasmada corte a secundá-lo. No governo Durão Barroso tudo faria para que os seus planos se concretizassem.
Dessa geração de «crânios» avultavam Zeinal Bava, Henrique Granadeiro, António Mexia, António Carrapatoso, Filipe de Botton, Alexandre Relvas, Diogo Vaz Guedes, Fernando Ulrich, Paulo Azevedo e António Horta Osório, o único que ainda mantém em torno de si uma ilusória aura mística por ter salvo um conhecido banco londrino à conta dos milhares de despedimentos, que nele impôs. E não esqueçamos o seu guru teórico, esse António Borges, que saíra da Goldman Sachs por porta bem pequena, mas aqui surgira a abitaitar teses, que os embevecidos prosélitos decoravam e milhentas vezes repetiam como forma de as querer transformar em verdades absolutas.
Dezasseis anos depois, e uns quantos processos judiciais pelo meio, subscreve-se a conclusão de Clara Teixeira, a autora da referida peça jornalística: em vez de criarem condições para salvarem e desenvolverem o país, como diziam ser seu fito, “percebeu-se que muitos deles, a partir de confortáveis gabinetes em grandes empresas e escritórios de advocacia e consultoria, empenharam-se, sim, em lucrar com os seus próprios negócios, premiando-se com generosos salários e bónus. Aos poucos, foi construída uma teia de interesses que se alimentou do (fraco) crescimento económico nacional, por via das participações cruzadas entre bancos e grandes empresas e Estado. Um triângulo fatal.”
De toda essa desmistificada geração - afinal mesquinha nos egoísmos pessoais e medíocre na forma como os quis potenciar! - resta o atual CEO do Novo Banco, António Ramalho, também associável a esse grupo, um jornal online (Observador), que acolhe as carpideiras da cartilha neoliberal, agora na fase de zombie, sem porém competirem com essoutra, mais animada, que multiplica aparições nos ecrãs da SIC na pose do «economista» sem diploma, mas capaz de proferir as mais absurdas patacoadas no autoconvencimento de serem incontestáveis axiomas.
Embora não pareça todo este texto tem a ver com o facto de Steve Bannon ter sido preso por locupletar-se à conta dos dinheiros a ele confiados a pretexto de construir o famoso muro de Trump. Esse acontecimento vem confirmar o que é regra nas direitas: sem qualquer pingo de sentimento solidário para com os mais desfavorecidos (cujos votos procuram garantir, mentindo-lhes, manipulando-os!) os políticos dessa área só pensam na forma de melhor enriquecerem. Isso foi válido para Dias Loureiro, Duarte Lima ou Paulo Portas que vieram de famílias, que o salazarismo considerava remediadas, e enriqueceram à conta do que a passagem pelos governos ou pelo parlamento lhes propiciou. Como o é para o Aldrabão do Chega, que tem levado ao paroxismo essa capacidade de enganar os tolos prometendo-lhe os bolos.
Houve um tempo em que os jornais, as rádios e as televisões quiseram-nos convencer de quanto estava fora de moda a divisão entre o ser-se de direita ou de esquerda. Hoje já poucos se atrevem a repetir a atoarda porque é evidente para grande maioria quanto essa separação de águas é a única justificável para alcançar um país mais desenvolvido e justo. Sem cidadãos de primeira ou de segunda. Com a riqueza distribuída de forma menos desigual.
No dia a dia temos de prosseguir no continuado esforço de remeter as direitas para a acantonada defensiva em que se vê neste cantinho à beira-mar plantado.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Um bastonário preso no seu solitário labirinto


1. O bastonário da Ordem dos Médicos recebeu subtil ricochete da sua insidiosa campanha contra o governo. E não gostou. Muito embora a SIC tenha querido transferir para a ministra Ana Mendes Godinho a referência de António Costa sobre quem se senta no conforto dos gabinetes a multiplicar-se em perniciosos alvitres por skype para as televisões, poucos terão sido os que não viram nessas palavras uma acusação inteligente a Miguel Guimarães.
Percebendo a estocada ouviram-se-lhe ameaças de retaliação: que os médicos declarar-lhe-iam guerra! Como se tivesse sido a classe a ser posta e causa e não apenas o pequeno número dos que, em Reguengos de Monsaraz, recusaram o cumprimento dos deveres e por isso mesmo foram confrontados com a possibilidade de um processo disciplinar.
Duvida-se, aliás, que Miguel Guimarães tenha o respaldo da generalidade da classe médica. Esta mostra-se incansável na forma como faz todos os possíveis para que os doentes tenham os melhores cuidados nestes tempos de crise sanitária. O comportamento criticado a alguns não é objeto de generalização. Pelo contrário! Daí que Miguel Guimarães fala, fala ...  e os médicos, de que se diz responsável ignoram-no, revelando denodo e competência e escusando-se a secundar-lhe as controversas afirmações.
O problema com que Guimarães pode vir a confrontar-se é acontecer-lhe o mesmo que à bastonária dos enfermeiros: conseguiu ser reeleita para manter o estatuto, que o poleiro lhe garante, mas é completamente ignorada pelo governo. A estratégia politiqueira foi tão óbvia, que deixou de ser encarada como séria interlocutora para a abordagem de todas as questões da classe dos enfermeiros que vão para além das que se cingem ao âmbito sindical. Miguel Guimarães está a candidatar-se ao mesmo merecido tratamento: ignorando os próprios telhados de vidro, tornou-se tão afadigado atirador de pedras ao governo, que arrisca-se a ficar sozinho na praça pública a perder o pio perante quem justificadamente o ignore...
2. Vestindo farpela de coitadinha veio a direita  «denunciar» que o Partido Socialista controla todos os centros de poder relacionados com o sucedido em Reguengos. Não compreendeu ter-se assim desmascarado quanto ao facto de, ignorando o sucedido em tantos outros lares, se escolhesse o dessa vila alentejana para merecer a ilegítima auditoria da Ordem. Mas agora acresce mais uma deliciosa informação: José Robalo, o dirigente da ARS Alentejo que desmascarou a metodologia e fundamentos daquele documento, foi nomeado para essas funções pelo governo de ... Passos Coelho. Pois!

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Relatórios, sondagens e um personagem acaciano


1. Até anteontem foi um  regabofe: as televisões, as rádios e os jornais exploraram sem pudor o falacioso relatório da Ordem dos Médicos dando do sucedido no lar de Reguengos de Monsaraz uma versão que, agora, veem-se obrigados a contrapor com a outra, assente em factos concretos e indesmentíveis: no pico da crise houve médicos que se recusaram a prestar assistência a quem dela urgentemente carecia e quem assim os incitou foi quem viria a servir de relatora ao referido documento. O Ministério Público já possui essa contraprova e poderá dela extrair conclusões, que tenderão a comprometer uma instituição cujo fito tem sido o de, nos últimos anos, servir de contínua contestação ao governo socialista. Sempre justificando a questão por que se terá mantido tão silenciosa quando Passos Coelho era primeiro-ministro e a saúde dos portugueses era continuamente posta em causa pelas medidas de destruição do SNS então implementadas a pretexto das (falsas) exigências da troika.
2. No último fim-de-semana também se conheceu a última sondagem da Intercampus, que deu azo a uma manipulação de números para demonstrar que o PS poderia perder o governo se toda a direita se associasse, nela se incluindo o partido fascista. Quem produziu esses títulos continua a promover uma força política que, se cingida aos 7-8 % com que a avaliam, será inimigo a ter em conta, mas a não sobrestimar - continuará muito aquém das percentagens de Le Pen em França, de Salvini na Itália, quiçá mesmo dos seus émulos holandeses, alemães ou austríacos - mas a obrigar as esquerdas a saírem das posições sectárias e a entenderem séria uma ameaça, que deverá ser aniquilada enquanto se mantém na dimensão atual.
3. Sabíamos que Henrique Monteiro, ex-diretor do «Expresso» e ainda um dos seus principais colunistas, é aquilo que sempre mostrou ser. Mas não deixa de abusar da paciência de quem o lê por obrigação de acompanhar o que pensa essa gente, quando vem protestar pelo facto de serem facultativas as aulas de Religião e Moral nas escolas e obrigatórias aquelas em que os petizes podem ser elucidados sobre os mistérios da sua sexualidade.
Que a escola laica e republicana ainda mantenha um privilégio, que a Igreja Católica usufrui por via da malfadada Concordata, já é absurdo que deveria ser corrigido. Mas que o pernóstico conselheiro Acácio dos nossos dias insista em comparar a inexistência divina com as buliçosas e bem reais hormonas dos adolescentes é algo que só confirma o que dele há muito pensamos...

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

À margem das polémicas artificiais


«Polémicas artificiais» assim designou António Costa todo o burburinho dos últimos dias tendo epicentro na Ordem dos Médicos e potenciado por uma imprensa que, sem incêndios e com os números dos afetados pelo covid a ficarem nas meias águas, agarra-se ao assunto como náufrago a boia de salvação.
As direitas políticas mostram-se inconsequentes, ora chamando ministras a Comissões Parlamentares a que ninguém verdadeiramente liga pela banalização decorrente do seu recurso por tudo e por nada, ora exigindo-lhes a demissão.
Quem começou a emergir para imitar o colega dos médicos nas táticas oportunistas, foi o bastonário dos advogados, um narcisista com longa carreira a guerrear inquilinos por conta dos interesses imobiliários e agora disposto a também auditar os escombros do caso de Reguengos de Monsaraz. Assisadamente os presidentes da Confederação Nacional das IPSS e da União das Misericórdias Portuguesas vieram perguntar pela legitimidade com que as Ordens querem vir meter-se onde não são chamadas. Contestando-as claro! E aí algumas direitas ter-se-ão sentido desconfortáveis porque merecendo a ministra o apoio das estruturas de Igreja Católica como podem explicar aos seus prosélitos, que estão momentaneamente na trincheira contrária?
Uma vez mais foi Catarina Martins quem apareceu desafinada no meio desta controversa história. Em vez de imitar o prudente silêncio dos comunistas, que consideraram muito justamente nada terem a opinar sobre o que minguava em substância, a líder do Bloco veio juntar-se ao Chicão e ao Chega nas críticas à ministra. O que continua a ser um sinal preocupante para quem desejava vê-la a mostrar outra sensatez e começar a negociar com o governo o acordo escrito agora proposto por quem, outrora, se mostrara a ele tão avesso. A viragem de Carlos César a 180º revela que, dentro do Partido Socialista, já perderam gás os defensores de um mirífico Bloco Central, que Rui Rio ajudou a enterrar com a sua colagem à extrema-direita. Algo de tão surpreendente que até a insuspeita Paula Teixeira da Cruz veio contestar como erro indesculpável e mereceu de Daniel Oliveira o comentário assassino de considerar que “raramente um líder partidário exibiu tamanha estupidez tática.”
Noutra vertente completamente diferente o «Público» faz capa com um estudo do Centro Nacional Oceanográfico do Reino Unido que demonstra existir dez vezes mais plástico no Atlântico do que se estimava. Com os consequentes danos na cadeia alimentar, com espécies animais enroladas ou empanturradas de plásticos e a nossa ingestão de fragmentos muito pequenos de tão nociva substância na comida, que nos chega ao prato.
Virando o mesmo jornal ao contrário damos com a crónica de Rui Tavares na última página tendo por tema a constatação de ser exatamente o contrário o que se passa relativamente à acusação dos liberais sobre o problema do socialismo ser o de esgotar-se quando acaba o dinheiro dos outros. De facto o governo do neoliberal holandês está a querer evitar a saída dos impostos da multinacional Unilever para o Reino Unido onde lhe está prometida taxa fiscal mais baixa.  De repente os frugais, que têm tido sucesso à conta dos recursos dos outros, ficam em pânico com a ingestão do veneno, que julgavam exclusivamente seu. O que poderá facilitar, segundo o autor do texto, a criação futura de um sistema fiscal comum a todo o espaço europeu. Assim desejamos que aconteça.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

A Ordem dos Médicos e a metáfora do ladrão


Filipa Lança, a relatora da «auditoria» da Ordem dos Médicos às condições do surto de covid 19 no lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva em Reguengos de Monsaraz criou um documento em defesa própria por, segundo a ARS Alentejo, “ter sido a responsável pela falta de médicos no lar”. De facto, quando o número de casos começou a crescer na instituição, alguns médicos indigitados como equipa de primeira linha para cuidar dos doentes recusaram-se a fazê-lo não só violando um dos seus mais importantes deveres deontológicos como escusando-se a cumprir a sua obrigação para com a entidade, que os emprega, o SNS, porque tanto são utentes do mesmo os que os procuram no conforto dos seus consultórios como os dos lares, que exijam a sua deslocação. Que agora venham armar-se em coitadinhos porque foram “ameaçados” por José Robalo, diretor da ARS, com a instauração de processos disciplinares, só pode suscitar espanto: se estavam a descumprir os seus deveres deontológicos e os que têm para com a sua entidade patronal, o que esperam? Sem quaisquer tibiezas, José Robalo afiança que nessa, e em qualquer situação idêntica, é esse o normal procedimento da tutela.
Daí que a mesma ARS venha muito justamente considerar que a Ordem dos Médicos de cujo Conselho Regional do Sul, Filipa Lança é vogal, tenha querido esconder os obstáculos que colocou à prestação de cuidados a quem deles necessitava, obrigando o governo a recorrer a médicos das Forças Armadas para contornar esse inaceitável procedimento. Explica-se assim que, na sua mais do que duvidosa metodologia, a coordenadora da auditoria nem sequer tenha cumprido a elementar audição daqueles a quem, desde início, pretendia acusar como culpados. Ou tenha optado por apenas ouvir os profissionais médicos que se recusaram a cumprir os seus deveres funcionais.
Se se justifica alguma auditoria por parte da Ordem dos Médicos ela deveria cingir-se à dos seus próprios membros, que violaram grosseiramente aqueles que deveriam ser os seus imperativos deontológicos. Mas compreende-se que, na sua ânsia de tudo aproveitar para pôr em causa o governo, o seu bastonário opte pelas mais ignóbeis estratégias. Mesmo sendo este um daqueles casos que lembram o do ladrão que, para desviar de si as atenções, opta por gritar tão alto quanto possível, que outro está a fugir mais adiante.