quinta-feira, 22 de março de 2018

A questão da trasladação dos corpos dos que tombaram nas guerras coloniais


Há um par de anos  fiquei surpreendido com a importância conferida pelo meu amigo Manuel Ramos à questão dos restos mortais dos soldados portugueses falecidos nas guerras coloniais e que o Estado Português descurara depois da Revolução de Abril, nunca corrigindo o crime salazarista de só se incumbir do transporte dos militares na ida ou no regresso de África, estando vivos.
Em «Os Anos da Guerra Colonial, 1961 - 1975»  Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes lembram, segundo transcrição no «Público» que “a trasladação de corpos de Angola custava à família 10 mil escudos (o que equivaleria a cerca de 4000 euros aos preços de hoje); trazer um corpo de Moçambique era ainda mais caro, 12 mil escudos; da Guiné, ficava um pouco mais barato, 7500 escudos”, autênticas fortunas para as famílias paupérrimas, que mal tinham com que mitigar a fome, quanto mais pagar pelo resgate dos despojos mortais dos seres queridos, que o regime transformara em carne para canhão nas guerras de África.
A minha incompreensão para a acuidade atribuída por aquele amigo à questão prende-se com o desapego que sinto por este corpo, que me carrega, tão só dele se me escape o derradeiro sopro da vida. À matéria morta, exijo a cremação, sendo-me indiferente o sítio para onde despejem as cinzas. No assumido ateísmo recuso liminarmente a hipótese de uma qualquer vida além-morte, nem sequer para essa “alma” cuja perdurabilidade finda com a da matéria de que sou feito.
Admito, porém, que outros pensem de forma distinta e vejam a questão à sua maneira. Assim se explica o caso hoje noticiado no matutino da SONAE segundo o qual uma senhora conseguiu finalmente trazer as ossadas do irmão morto em Angola cinquenta e sete anos depois do incidente trágico que o vitimou. Nessa persistente vontade de cumprir um desígnio tão importante para ela só posso dar razão ao que, a principio, não entendera e que fará todo o sentido para quem tem todo o direito de ver o Estado português a mostrar um respeito por aqueles a quem chamou a servir, que Salazar nunca teve a mínima intenção de satisfazer.

quarta-feira, 21 de março de 2018

O uso e abuso dos incêndios de 2017 como estratégia política

No vale tudo para prejudicar a imagem do governo está na ordem do dia o Relatório da Comissão Independente sobre os incêndios do ano transato. As televisões exploram-lhe o que possam de conter de mais negativo para quem teve de tomar decisões naquela altura, em cima dos acontecimentos, e escamoteando o que nele se diz objetivamente de mais concreto: que o país foi sujeito a situações  meteorológicas extremas, sobre as quais não havia experiência bastante para com elas lidar. Ouviu-se, por exemplo, um deputado do CDS, dar como então adquirida a informação sobre os possíveis efeitos da localização do anticiclone dos Açores, quando basta a consulta dos jornais de então para concluir que apenas se conjeturava sobre a possibilidade de tal vir a suceder.
É por isso que importa às vezes fazer as perguntas ao contrário: hoje as direitas e os seus altifalantes mediáticos criticam o governo por ter dado por concluída a fase Charlie, na altura habitualmente considerada sazonalmente para o efeito, não tendo prolongado por mais tempo a alocação dos meios então mobilizados. Mas não sabem ou não querem ler a opinião dos peritos segundo os quais nem com a multiplicação de meios de prevenção teria sido possível colmatar o rápido avanço das chamas? E, por outro lado, imagine-se que o governo decidia, efetivamente, esse prolongamento e nada sucedia: quem calaria Cristas e seus cúmplices quanto a terem-se gasto milhares de euros desnecessariamente, quiçá para propiciar grandes negociatas aos que Paulo Morais logo se apressaria a suspeitar como indevidamente favorecidos por tal decisão?
A demagogia das direitas passa por esta estratégia: apelar-se-á sempre á prisão de António Costa e dos seus ministros, quer por terem cão, quer por o não terem! Mas será que acreditam que o eleitorado é tolo e não lhes compreende a trapaça?

terça-feira, 20 de março de 2018

Cuba: um socialismo viável ou a resiliência de um regime dissociado dos seus ideais»


Esta noite, pelas 21.30, na Associação Gandaia na Costa da Caparica, vamos discutir a situação política e económica em Cuba e todos são bem vindos para darem a sua opinião e vivificarem um debate, que se pretende animado e plural.
Poder-se-á equacionar até que ponto a situação revolucionária, que levou os «barbudos» ao poder, estava suficientemente amadurecida para concretizar o projeto inicial. É que o progressivo alinhamento do novo regime com a União Soviética só viria a incrementar-se depois de frustrados os esforços de Fidel para dialogar com a Administração norte-americana e dela conseguir, senão o apoio, pelo menos a complacência com a pretendida implementação de uma democracia com grande participação popular. Convenhamos que Fidel não teria outra alternativa senão virar-se para Moscovo, quando logo surgiram tantas ações da CIA para derrubarem o regime e o assassinarem.
Economicamente, e face ao bloqueio naval, que impedia a importação de mercadorias tão necessárias para satisfazer as carências de consumo da população, aferir-se-á se era possível conseguir a autossuficiência num tão pequeno mercado, onde os custos de produção seriam sempre elevados devido à insuficiente economia de escala. A criação do mercado negro, que tanto sabotaria os esforços das autoridades para cumprirem os objetivos da igualdade entre os cidadãos logo se tornou numa das mais úteis ferramentas dos que queriam ver a ilha devolvida às lógicas da exploração capitalista!
Culturalmente será judicioso ponderarmos se, perante a inexistência de uma vanguarda revolucionária, que estivesse consciente dos desafios a enfrentar e das transformações a impor, terá tal carência sido suprida com o forte investimento na educação e na saúde da população dando-lhe prova de como a utopia seria sentida como exequível se os avanços nessas áreas fossem replicadas em todas as outras.
Poder-se-á ainda olhar para Fidel Castro e Che Guevara e discutir até que ponto os cultos de personalidade em seu torno foram positivos ou contiveram as inconveniências das que se verificaram noutras latitudes.
E não se deixará de tecer alguma futurologia para perspetivar até que ponto, nas circunstâncias do futuro próximo - mormente com o desaparecimento da geração que protagonizou a Revolução - a ilha continuará a ser uma espécie de trémulo farol dos ideais de uma certa esquerda ou, se pelo contrário, verá a herança castrista reduzida a escombros para que os conglomerados capitalistas a transformem numa réplica dos «paraísos caribenhos» particularmente apetecíveis para os turistas, que usufruem as suas privilegiadas condições naturais em luxuosos resorts, mas não impedirão quem trabalha de viver apenas um degrau acima da mais desesperançada das misérias.
Estão criadas, pois, as expetativas para um debate animado e enriquecedor para quem quiser aparecer e contribuir com as suas opiniões.

Muito rastilho para tão escassa pólvora


Há semana e meia, quando se cumpriram dois anos sobre a tomada de posse de Marcelo como presidente da República, Bernardo Ferrão questionava no «Expresso» se ele já conquistara um ligar na História. A pergunta era parva e condizia com quem a formulava, porque, olhando para este tempo de mandato podemo-nos questionar o que já contribuiu Marcelo para que os portugueses vivam hoje melhor do que quando preparava ativamente a sua conquista do poleiro através das suas charlas dominicais na TVI? Propôs ou decidiu algo nesse sentido? Saiu da sua cabeça alguma proposta ou projeto, que a desocupasse das suas costumeiras elucubrações invariavelmente traduzidas em intrigas contra quem elege, no íntimo, como inimigos de estimação?
Se o PIB cresce, contam-se menos desempregados e o rendimento médio sobe, apenas se deve à boa governação da equipa de António Costa e ao apoio dos partidos das esquerdas parlamentares.
Para além de selfies e abraços, que papel tem sido o de Marcelo? Há substância consistente, que negue a volatilidade da frenética atividade mediática a que se entrega com a noção de ser a única com que poderá enganar os incautos, garantindo-lhe aprovações amplamente maioritárias?
E, no entanto, se o embaixador Seixas da Costa formulava o desejo de ver “o segundo presidente civil oriundo da direita política” a usar “da sua autoridade para ajudar esse mesmo setor a distanciar-se do regime que vigorou até 1974”, ele demonstraria não ser esse o seu objetivo, quando assinou uma deplorável nota a respeito da morte de Varela Gomes.
Dias atrás apostei com um casal amigo em como ele não se atreverá a concorrer a um segundo mandato se o PS conseguir a maioria absoluta nas legislativas. O orgulho não lhe permitirá ver-se reduzido à função de corta-fitas sem ter o veneno do escorpião, que gosta de destilar tão só a ocasião se lhe proporcione. Não tenha ele continuado a fazer mais do que o até aqui produzido e que terá a História para registar sobre a sua passagem por Belém? Much ado for nothing, como Shakespeare intitulou uma das suas mais singulares comédias.

segunda-feira, 19 de março de 2018

A soberba como doença a evitar nos líderes que elegemos


A reeleição de Putin e a recente decisão do Partido Comunista Chinês em alargar o mandato de Xi Jinping e dar-lhe uma amplitude de poder só comparável a Mao Zedong nos seus anos áureos, permite-nos aferir a validade da teoria defendida pelo antigo ministro inglês David Owen no seu livro «Na Doença e no Poder» e citada num artigo bastante interessante assinado por Arménio Rego e Miguel  Pina e Cunha num dos  «Expresso Revista» dás semanas mais recentes. Segundo essa tese o exercício do poder, sobretudo quando exercido em prazos dilatados, promove uma tal transformação cerebral, que os líderes perdem discernimento, ganham uma inabalável autossuficiência e deixam de ouvir quem deveria estar sempre presente no seu foco de atenção: os governados. É a corroboração da velha máxima sobre a impulso para a corrupção quando se exerce o poder sem suficientes mecanismos de controle do seu exercício.
Owen conta até um episódio esclarecedor sobre a jactância de Blair, quando um experiente diplomata o alertou para os perigos decorrentes de uma desaconselhável invasão do Iraque de Saddam Hussein, equiparando-se a Churchill quando enfrentara Hitler e associando o lúcido mentor a uma réplica de Neville Chamberlain.
Terá sido essa uma das razões para a progressiva degenerescência do regime soviético com Estaline que sem nunca perder a retórica comunista, implementou práticas nada consonantes com os valores originais do bolchevismo.
A hubris - designação feliz de tal doença, que tem por sinónimo a soberba - encontra-se ainda mais explicitada no ambiente empresarial valendo-nos particular expressão nas habituais atoardas de Soares dos Santos, o dono do Pingo Doce, que diz com o maior dos descaramentos, a forma como o país deve ser gerido quando, na condição de trânsfuga fiscal, é um reconhecido causador da limitação de receitas disponíveis por quem as deve aplicar no bem coletivo. Ou quando reclama salários mais elevados para os trabalhadores lusos e paga o que sabe aos funcionários dos seus hipermercados.
Muito embora se possa criticar o revisionismo de Deng Xiaoping,  ele estava certo quando impôs uma direção colegial do regime chinês com os mandatos a durarem períodos muito limitados. A consagração de homens providenciais é um perigo, que sujeita os povos a provações, que custam a superar. Senão atenda-se à persistência de tiques salazarentos no imaginário coletivo dos portugueses, que explicam o imerecido sucesso político de gente medíocre como Cavaco Silva ou Rui Rio, cujos traços de carácter remetem para algumas das características do seu inconfessado antecessor..
Vivendo atualmente numa época em que os povos, confundidos nas suas angústias, imaginam-se potencialmente salvos por figuras paternais, que mais não são do que meros ditadores sem outra capacidade para planearem melhores futuros coletivos do que cuidarem do exclusivamente seu, a vitória de Putin - mas também assim sucederia com o fascista Navalny se o Ocidente o tivesse conseguido opor como seu credível rival! - mostra como a Rússia tarda em reatar um trilho centenário de que se desviou, quando a soberba tomou conta dos seus líderes revolucionários.

Putin reeleito com justificado mérito


Há uns dias o presidente chinês depreciou o modelo de democracia ocidental sob o argumento - reconheçamos que pertinente! - de não acolher as virtudes meritocráticas, pois se as tivesse nunca possibilitaria, que um Trump viesse a ser presidente dos Estados Unidos.
Uma das constatações que vou fazendo nas interações com muitos amigos com que converso de política é a persistência de um conjunto de ideias feitas, tidas como axiomas inquestionáveis na sua veracidade, e que impossibilitam uma análise mais rigorosa dos acontecimentos atuais.
Tomemos por referência a forma como se olha para a Rússia, onde Putin acaba de ser reeleito como seu líder máximo para os próximos seis anos com mais de 75% dos votos. Faz sentido que nos deixemos obnubilar pela visão dita atlantista, tão cara a toda a direita e a uma parte significativa de altos dirigentes socialistas? Tardará muito a reconhecer-se que, tendo mantido a Nato depois da Rússia se ter visto privada do pacto de Varsóvia, é no mínimo compreensível o apoio de uma larga fatia do eleitorado ao perfil autocrata de Putin apenas porque ele lhe dá a garantia de uma resposta firme e poderosa contra o permanente acosso de que se sente alvo? Quando se levam ao pelourinho os principais dirigentes europeus dos anos 90 por terem desperdiçado a oportunidade de construírem a tal Europa do Atlântico aos Urais de que chegara a falar De Gaulle e que só os preconceitos oriundos da Guerra Fria inviabilizaram?
Se a Europa vive uma das piores crises de identidade das últimas décadas muito deve à visão atlantista, que levou os políticos a preferirem sujeitar-se aos ditames de Washington do que em ajudarem a Rússia a libertar-se da paranoica forma de encarar as relações internacionais. As consequências são devastadoras, porque Putin explora eficientemente os piores demónios ocidentais - particularmente os dos extremismos xenófobos - para dividir quem se deveria melhor entrosar não enjeitando o recurso ao terrorismo informático para fortalecer esses movimentos, que se constituem em seus agentes dedicados nos países em que promovem o euroceticismo.
Os russos sentem-se confortados por se dotarem de um líder completamente oposto ao tolo que abriu com a perestroika uma caixa de pandora de que saíram tantos monstros capazes de transformarem a vida de milhões de russos num inferno, ou do bêbedo que lhe sucedeu e cuja desfaçatez boçal tantos embaraços suscitou. Os indicadores, desde o da esperança de vida ao do rendimento médio, têm melhorado significativamente nos últimos anos e assim prometem continuar, mesmo depois das prováveis conspirações para enfraquecer a Rússia e a Venezuela mediante uma redução drástica do preço do barril do petróleo no mercado internacional.
Ao invés de Putin, a União Europeia conta com um pequeno napoleão com mais prosápia do que talento para revigorar a enfraquecida França ou uma envelhecida e, crescentemente tida como obsoleta, líder alemã. Na ponta ocidental há quem tenha uma visão ambiciosa e consistente de quais os melhores trilhos a seguir, mas se há quem repute de brilhante o discurso de António Costa em Estrasburgo, ainda há quem no Velho Continente olhe para Portugal e para os portugueses com a arrogância de quem acha que o tamanho (do país ou da sua economia) efetivamente conta...

domingo, 18 de março de 2018

Hospitais, exageros publicitários, universidades (brasileiras) e um enormíssimo senhor


1. Cem milhões de euros por ano é muito dinheiro. Quando é esse o prémio do Euromilhões lá aparecem aquelas reportagens tontas com uns palermas sorridentes a usufruirem o seu minuto de fama para confessarem o que fariam com tal fortuna. Mas segundo o 2º Barómetro de Internamentos Sociais esse valor  equivale ao custo anual imputado ao Serviço Nacional de Saúde pela permanência média de quase mil pessoas em hospitais, que não têm como as devolver às famílias ou a quaisquer instituições onde possam continuar a usufruir dos cuidados devidos à sua frágil condição.
Num país onde as Misericórdias e instituições afins não chegam para as encomendas nos seus serviços assistencialistas, uma verdadeira política social direcionada para os mais desvalidos tem de ser assumida a nível estatal. Até porque o aumento da longevidade vai dilatando a dimensão do problema.
2. A bastonária Cavaca dos enfermeiros veio indignar-se por se atribuir a representantes da classe a responsabilidade pelo surto de sarampo no norte do país. Mas é caso para perguntar se não são essas as evidências já recolhidas no terreno? E, sobretudo, como se atreve a criatura a protestar contra quem defende a obrigatoriedade de vacinação para quem presta cuidados de saúde em instituições públicas?
3. Há poucas dúvidas sobre a origem das notícias, que têm posto em polvorosa o estado-maior de Rui Rio nestas primeiras semanas à frente dos destinos do PSD. Mas convenhamos que se lhe ajusta bem um célebre ditado popular sobre quem não quer ser visto como lobo. As práticas do secretário-geral escolhido por Rio mostra bem como os seus padrões de comportamento nada têm a ver com a imagem impoluta com que esta nova equipa dirigente se quis apresentar. Caso para dizer que estes publicitários eram, de facto, uns exagerados…
4. Estimulante está a ser a luta de algumas universidades brasileiras por promoverem o estudo dos acontecimentos de 2016 qualificando-os de golpe de Estado. Apesar da reação destemperada dos capangas de Michel Temer e de algumas investidas judiciais, a luta contra a deriva autoritária assumida pelos que se apossaram ilegitimamente do poder não conhece descanso. Se, inicialmente, houve quem ficasse apático perante uma estratégia tão bem coordenada entre juízes, políticos anti-PT e os principais órgãos de comunicação do país, a maré parece estar a virar. E o assassinato de Marielle Franco constitui mais um momento crítico, que tende a acentuar o revigoramento da indignação popular.
5. Nos últimos dias andamos cá em casa a revisitar os mandatos de Jorge Sampaio como presidente por «culpa» da biografia de José Pedro Castanheira e a conclusão é óbvia: ele terá sido o mais profícuo titular do cargo em Democracia apesar da discrição com que sempre procurou intervir. Não admira, por isso, que depois de abandonar Belém, dois secretários-gerais da ONU (Kofi Anan e Ban Ki-moon) tenham recorrido aos seus préstimos para missões internacionais de grande relevância no combate contra a Tuberculose e a favor do diálogo entre as sociedades muçulmanas e as ocidentais.
Olhando para o seu riquíssimo percurso político é de bradar aos céus a circunstância de ter-lhe sucedido o ignaro filho do gasolineiro de Boliqueime, que seria impensável ver investido em tão relevantes desafios. E convenhamos que, com Marcelo, as melhorias foram mais de forma do que de conteúdo...

sábado, 17 de março de 2018

As tendências estatísticas do nosso contentamento


Não é por as sondagens favorecerem os nossos, que nos devemos iludir com os seus resultados: por muito científicos que sejam os métodos estatísticos utilizados, quase se torna irresistível orientá-las numa determinada direção conquanto seja essa a tentação inconsciente de quem define os critérios e a amplitude da amostra. Ainda assim a que ontem foi conhecida confirma as tendências anteriores,  mesmo as de outras proveniências, e coincidentes em três sugestões principais: mesmo que a quase dois anos de distância não é descabido prever a forte possibilidade do Partido Socialista alcançar a maioria absoluta; os parceiros à esquerda tenderão a manter a dimensão atual do apoio do eleitorado; à direita, as habilidades de Cristas dificilmente surtirão efeito para que o CDS abandone a condição de potencial apêndice menor do seu putativo aliado numa coligação de interesses, que se sobrepõe à dos valores porque, desfeitos muitos dos mitos neoliberais, ambos os partidos limitar-se-ão a emitir ideias vagas para abocanharem o que mais lhes interessa - uma fatia significativa de poder.
A episódica subida de Rio explicar-se-á pelo efeito de novidade decorrente do Congresso do PSD, substituindo o mais do que desacreditado antecessor. Mas, apesar da promoção garantida pelas televisões, o CDS não conseguiu replicar esse efeito, até pressupondo-se o contrário: em vez de encararem séria a empáfia de Cristas, os que a ouviram devem ter detetado, sobretudo, o seu ridículo.
Insatisfeitos com Rio, em cujo insucesso vêm apostando, e não encontrando na sucessora de Portas a estrela ascendente, que pretendiam fazer brilhar no firmamento, os que dão tratos à cabeça para evitar o sucesso socialista em 2019 devem andar atarantados com os flops sucessivos da sua estratégia. Sobretudo , porque de nada lhes parece valer a frequência quotidiana com que bombardeiam mediaticamente os portugueses com os diabólicos perigos em que incorrem em pontes, comboios ou  sarampos.

A escravatura de que vamos sendo cúmplices


Ao nos vermos obrigados a suportar novas prosápias mediáticas do dono dos Pingo Doce é inevitável lembrarmo-nos como, de 2016 para 2017 os valores brutos por ele recebidos dos cargos desempenhados no seu grupo retalhista, aumentaram de 1,269 milhões de euros para 2,009 milhões. Ou seja, Pedro Soares dos Santos atribuiu-se um aumento de 58,3%.
Comparativamente com ele, mais de 50% dos trabalhadores do setor - e aqui somam-se aos dessa cadeia de hipermercados, os do Continente, do Auchan, do Corte Inglês e demais insígnias de super ou hipermercados - ganham o salário mínimo, com o patronato a exigir em sede de negociação do contrato coletivo, que os aumentos miseráveis aí em causa sejam «compensados» com perda de direitos que equivalem a 3% dessas remunerações, nomeadamente através de menor remuneração do trabalho em feriados ou em horas extraordinárias. Mantendo no essencial as normas internas, que impõem um ritmo de trabalho infernal, sem tempos aceitáveis para pausas ou refeições.
Dando razão à minha cara metade que se insurge sempre que a arrasto para essas grandes superfícies, temos de assumir a noção de, ao fazê-lo, estarmos a pactuar com a proliferação do trabalho escravo, mesmo que eufemisticamente ele não seja assim qualificado. Sem esquecer as fugas aos impostos que tais negreiros assumem ao terem mudado para a Holanda as sedes fiscais das suas empresas.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Um crime, que revela o medo sentido pelos seus comanditários


A execução de Marielle Franco é a melhor demonstração da ilimitada capacidade dos senhores do capital em abandonarem os escrúpulos, quando sentem quanto o tapete lhes anda a fugir debaixo dos pés. No Rio, em São Paulo ou no Recife os que arranjaram forma de correr com Dilma do Palácio do Planalto para lá colocar a marionete Temer sentem quão frágil é a possibilidade de manterem os miseráveis acorrentados às suas grilhetas.
Bombardeiam-nos com fluxos ininterruptos de desinformação, agitando a Venezuela como papão. Procuram destilar-lhes o ópio das mensagens cristãs, evangélicas e outras que tais com que se conformem com a pobreza. Caricaturam o exercício da Justiça até ao extremo de criarem um processo a Lula, que nenhum tribunal digno desse nome aceitaria como viável, mas quase por certo suficiente para o impedir de concorrer a novo mandato presidencial. Metem os militares nas ruas para matarem os jovens das favelas, sejam ou não delinquentes. Matam políticos corajosos que se lhe oponham.
A classe dirigente brasileira continua a nada aprender com a História do passado. Também nos tempos de Castelo Branco se julgavam capazes de eliminar as esquerdas de Roraíma ao Rio Grande do Sul, do Pernambuco ao Acre, mas, mesmo assassinando grandes líderes como Marighella, nunca conseguiram vencer a resistência dos que insistem em dizer não. Assim como, mesmo na dita Democracia, jamais abafaram o Movimento dos Sem Terra, apesar de lhes matarem um dos seus mais conhecidos defensores - Chico César.
A Natureza ensina-nos que os predadores ficam particularmente enraivecidos, quando se sentem com medo. A sua venalidade cresce na proporção do pressentimento de se sentirem ameaçados de extinção.
Marielle Franco foi trágica vítima a somar-se às milhares, por quem os povos se têm enlutado, quando anseiam pelos tais futuros radiosos, que Marx e outros ideólogos formularam como possíveis, conquanto por eles combatam. E quase sempre esses lutos revigoram a indignação, aumentam a vontade dos que a tinham como inspiradora para prosseguirem a luta com determinação mais substantiva. Os muitos milhares que se manifestaram em protesto contra o crime quiseram expressar isso mesmo: os que a mandaram matar não sabem o que os espera!

quinta-feira, 15 de março de 2018

A realidade a mover-se apesar de Trump, apesar de Theresa May


1. Sobre Stephen Hawking já quase foi tudo dito restando-me pouco a acrescentar. A não ser duas notas pessoais complementares: em primeiro lugar a sua permanente escusa em aceitar as adversidades contornando-as para concretizar tudo quanto o seu espírito genial era capaz de formular; em segundo lugar o ateísmo convicto de quem sabe ser do foro da Ciência a explicação para tudo quanto muitos julgam oriundo do «transcendente» e do «metafísico». Por isso mesmo não acreditava na vida além-túmulo, que qualificava como “conto de fadas para pessoas com medo da escuridão”. Era evidente a forte probabilidade de Hawking subscrever a célebre máxima de Karl Marx para o qual a religião é sempre o ópio do povo.
Na vontade de superar as dificuldades e rejeitar que elas o condicionassem, tem-se um bom motivo de inspiração para quantos olham para o mar e o julgam mais alto do que a terra, poupando-se aos esforços necessários para chegarem bem mais longe do que pressuporiam as circunstâncias. Mudá-las é sempre a melhor alternativa, sobretudo se permitir que a História prossiga na sua evolução mais positiva.
2. Não sabemos se foi o Kremlin quem mandou atentar contra a vida de um espião, que se passara de armas e bagagens para o Ocidente depois de divulgar a lista dos confrades a soldo dos russos deste lado do continente. Mas a resposta de Theresa May, parecendo forte, revela a fraqueza de quem não sabe como coincidir o Brexit com as promessas ilusórias dos seus proponentes e busca na política externa a fuga em frente para dar prova de existência. Como Jeremy Corbyn constatou a polícia inglesa ainda não revelou qualquer prova consistente da grave acusação de May contra a Rússia, para a qual busca o apoio da Nato e dos países da União Europeia. É que não basta dizer que o químico em causa costuma ser produzido na Rússia, tendo em conta a possibilidade de ser possível a qualquer serviço de espionagem ocidental obter uma amostra suficiente para um pequeno ataque letal, que depois imputa à outra parte.
Podemos fingir-nos de ingénuos e aceitar a tese inglesa, mas somos suficientemente formados por John Le Carré para concluir que, no mundo da espionagem, o que muitas vezes parece está longe de coincidir com a verdade dos factos.
3. A vitória do democrata Conor Lamb na eleição parcial na Pensilvânia abre expetativas quanto aos resultados de novembro, quando será possível a perda da maioria republicana no Senado e na Câmara dos Representantes. Apesar do Partido Democrata revelar-se demasiado caótico para merecer tal vitória, tudo aponta para a forte probabilidade de os norte-americanos já estarem esclarecidos quanto às «virtualidades» da Administração Trump cuidando de lhe tolher a ação no curto prazo. Mas que gostaríamos de ver os apoiantes de Bernie Sanders ganharem uma primazia, ainda por conseguir, é desejo ainda não traduzido em animosa realidade. Para já contentemo-nos com estas vitórias pontuais e com o estrondoso sucesso do protesto estudantil contra o poderoso lobby das armas...

quarta-feira, 14 de março de 2018

Uma estratégia de casos para corroer a boa imagem do governo


1. A campanha catastrofista em torno da situação do país, que procura dele dar um estado de alma depressivo, a contraponto com o suscitado pelos resultados da governação, voltou a manifestar-se com novo episódio: o do estado das infraestruturas ferroviárias em Portugal.
Não interessa que os factos coligidos no relatório tenham origem num desinvestimento público, que dura há muito mais tempo do que o da vida deste governo. Para a segunda metade da legislatura as direitas acossadas nos órgãos de comunicação social andam a recorrer a munições, por agora relativamente eficazes, silenciando as boas notícias suscitadas pelos resultados da governação: criam «casos», que abram telejornais e suscitem em quem é mais ingénuo a sensação de viver num país à beira do desastre. Dando depois tempo de antena injustificável à líder de um pequeno partido como se ele tivesse apoio popular e propostas, que pudessem justificar tal atenção.
A guerra está acesa e será judiciosa a atempada resposta do governo em particular, e das esquerdas em geral, a esta campanha, que tem o claro propósito de cativar para a oposição ativa os que, até agora, possibilitaram a sobrevivência deste governo. Será estúpida a reação do Bloco e dos comunistas se se deixarem arrastar para tal logro. Porque as direitas recorrem ao velho truque de dividirem para reinar…
2. Que Assunção Cristas se contradiz com a maior das facilidades denuncia-o Pedro Adão e Silva, que nos convida a reparar como, por um lado, ela afirma-se com vontade de chegar a primeiro-ministro tornando o CDS o maior partido das direitas, mas, por outro lado, coloca como objetivo conseguir um segundo deputado para acompanhar Nuno Melo no Parlamento Europeu reconhecendo a impossibilidade de ir mais além. Daí que se questione como, com objetivo tão explicito para as europeias, pretende alcançar um muito mais ambicioso meses depois, quando for tempo de legislativas?
3. Mas se a presidente do CDS vai repetindo balelas à espera de ver a realidade dobrar-se à sua vontade, Rui Rio segue outro caminho de pedras por culpa própria, que só tende a danificar-lhe a já muito comprometida imagem: depois das praticas indecorosas do seu cacique de Ovar, ei-lo a defender o seu secretário-geral cuja criatividade na elaboração do curriculum académico foi desmascarada e já está a ser objeto de investigação pelo Ministério Público. Os alegados padrões morais do novo presidente do PSD seguem a regra de São Tomás, exigindo que olhem para o que ele diz, mas não tanto para os que os seus fazem…
4. Uma boa demonstração de como os partidos ditos sociais-democratas perdem a alma, quando se coligam com as direitas, reside no SPD alemão, que se preparava para fazer aprovar uma lei a eliminar alguns dos constrangimentos à Interrupção Voluntária de Gravidez e para a qual contava com o apoio dos Verdes e do Die Linke e agora deixada cair devido aos constrangimentos com o seu novo conúbio. Os direitos das mulheres alemãs são, assim, uma vez mais atirados às malvas por execráveis razões políticas …

terça-feira, 13 de março de 2018

Quanto tempo ainda durará a ilusão «social-democrata»?


Num dos textos mais pertinentes, publicados em jornais neste fim-de-semana, avulta o de Manuel Carvalho da Silva, que aborda a crise existencial por que passa a social-democracia nestes dez anos mais recentes e se tem saldado por sucessivas derrotas. Hoje, da Grácia a França, da Holanda a Itália, os que se reclamam da social-democracia têm sido condenados à irrelevância, não parecendo de forma alguma capazes de retomar fôlego e voltarem a dar prova de vida.
A alternativa ás receitas neoliberais, que aumentam desigualdades e promovem injustiças, que não se restringem ás de rendimentos, entre os que tudo querem abocanhar e todos os demais, tem residido em movimentos xenófobos, entusiastas seguidores de réplicas do ideário fascista. Daí que o antigo líder da Intersindical e hoje respeitado professor catedrático - cujo currículo para tal ninguém pode contestar! - escreva com pleno sentido: “a social-democracia europeia não conseguiu ou não quis interpretar objetivamente a nova situação, acentuou contradições genéticas e, desde aí, caminha de recuo em recuo subjugada a medos decorrentes do irrealismo do compromisso que tem com forças conservadoras: entrega da finança e da economia aos mercados, e atribuição aos estados  da missão de assegurar as políticas sociais, em parte com o Estado a financiar e os privados a executarem.”
E logo constata que esses sociais-democratas nada têm aprendido com as consequências desastrosas da sua deriva ideológica em direção aos valores indisfarçáveis das direitas disponibilizando-se para manter uma rota errática, que só redundará em mais clamorosos desastres: “As mensagens que chegam do topo da UE, nomeadamente pelas vozes sociais-democratas mais relevantes, prosseguem reclamando "mais Europa" numa espécie de obsessão pelo abismo. Continuam teimosamente na fuga para a frente, indiferentes ao que vem de baixo, expresso nos protestos contínuos dos cidadãos e nas suas opções de voto, como agora em Itália.”
Sobram, no entanto, exemplos mais do que suficientes para demonstrar que a resposta é outra, fundamentando-se no abandono dessas cumplicidades equívocas com o outro campo ideológico e a assumpção plena das virtualidades das propostas socialistas para dissociar os eleitorados dos argumentos demagógicos e redondamente falsos dos que intentam coartar-lhes os propósitos reivindicativos através de bodes expiatórios ainda mais miseráveis do que se sentem num futuro, que a uns e a outros parece excluir.
António Costa em Portugal, juntamente com os seus parceiros parlamentares, os jovens apoiantes de Corbyn ou Bernie Sanders ou quantos enjeitam a atual coligação governativa alemã, por continuar a prender os tais sociais-democratas aos ditames de Angela Merkel, são a melhor evidência, que a resposta está em mais e melhor Socialismo, devolvendo ao Estado o seu papel dinamizador e regulador da economia das nações.