A
economia espanhola é, neste momento, a referência da zona euro. Cresceu 2,8% em
2025, mais do triplo da média da União Europeia, criou meio milhão de empregos
por ano e reduziu o desemprego para níveis que não se viam há décadas. O FMI
elogia. O Banco de Espanha revê em alta. Mesmo a guerra no Irão, que está a
complicar tudo à escala global, mal arranha as previsões espanholas. É um
desempenho que qualquer governo europeu assinaria de cruz.
E é
precisamente por isso que a direita espanhola, incapaz de o contestar nos
números, foi à procura de outro terreno: os tribunais.
Begoña
Gómez, mulher de Pedro Sánchez, está indiciada por uma cátedra universitária
após dois anos de instrução em que o próprio Ministério Público pediu o
arquivamento por falta de provas. David, irmão do primeiro-ministro, é julgado
em Badajoz por um posto de trabalho atribuído em 2017, quando Sánchez nem
chefiava o governo. São casos que, noutro país europeu qualquer, dificilmente
sairiam da secção de notícias locais. Em Espanha, ocupam capas de jornais e
moções de censura.
Há uma
distinção que importa fazer, e que o próprio Sánchez faz: quando os indícios
são sólidos — como nos casos de Ábalos e Santos Cerdán, antigos dirigentes
socialistas com fortes suspeitas de corrupção —, o primeiro-ministro
reconhece-os e pede desculpa. Quando os casos envolvem a mulher e o irmão, com
instrução conduzida por um juiz que o próprio Ministério Público contraria,
Sánchez fala de "máquina de lodo" e de juízes "a fazer
política". A diferença entre os dois tipos de processo é precisamente o que
torna a acusação de perseguição credível em vez de conveniente.
O Partido
Popular e o Vox não têm projeto económico que rivalize com os números atuais. O
que têm é paciência judicial e magistrados ideologicamente alinhados, dispostos
a transformar processos fracos em desgaste político permanente. As sessões nas
Cortes tornaram-se, por isso, um exercício de agressão verbal sem
correspondência na gestão do país — porque é mais fácil gritar sobre uma
cátedra universitária do que explicar por que motivo a alternativa governaria
melhor.
A ânsia
pelo poder, quando não tem como se justificar pelo mérito, recorre ao
expediente mais antigo da política: já que não se pode vencer pelos resultados,
tenta-se vencer pelo desgaste. A história julgará se a justiça espanhola serviu
a lei ou a inveja.

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