sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Contra mais factos não sobram quaisquer outros argumentos

Confesso a minha satisfação pelo resultado das eleições catalãs, que deram a maioria absoluta aos independentistas e reduziram o partido de Rajoy a quatro exíguos deputados. É certo que Inês Arrimadas, do Ciudadanos, terá tido mais votos, mas de que lhe servirão se não lhe garantem o acesso à Generalitat?
A supremacia do Ciudadanos sobre o Partido Popular significa a iminente ultrapassagem deste último como maior partido da direita espanhola. Rajoy quis tanto conservar o seu pífio poder, que deu de si a imagem de um político inflexível nos seus preconceitos, incapaz de estabelecer pontes de diálogo com quem se lhe opõe. O facto de estar bem viva na memória dos eleitores a catadupa de casos de corrupção verificados no seu partido será igualmente de molde a dele fugirem para o que está em ascensão na mesma área ideológica.
Que fará Rajoy, agora que os catalães lhe deram tão violento chapadão? Mantém a situação colonial alicerçada no mal-afamado Artigo 155 e a sua vice como governadora-geral da colónia?  Reconhece o sombrio crepúsculo da sua atividade política e abre espaço a quem possa aparentar mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma?
As perguntas sobre o que ocorrerá nos próximos dias não se ficam por aí: será que o poder judicial resistirá a contestação de ter mantido presos ou ameaçados os líderes agora vencedores das eleições? Até que ponto a sociedade espanhola tolerará que juízes de mentalidade franquista a sujeitem aos seus ditames, quando a vontade popular expressa nas urnas, os contrariam? E que fará agora Filipe VI depois de tanto se ter colado a Rajoy? Tentará recuperar o estatuto suprapartidário  que desprezou no discurso em que surgiu com o quadro de Carlos III por trás, dizendo-se assim na linha ideológica do antecessor, que impusera o castelhano como língua única em todo o território espanhol?
A direita anti independentista nem sequer poderá alegar a falta de representatividade de quem decidiu estas eleições: com menos de 20% de abstenção, elas foram uma exemplar demonstração democrática. Doravante a realidade será definida pelo facto de quase todos os que vivem na Catalunha se terem pronunciado e os que exigem a separação política em relação a Madrid somarem 70 deputados nos 135 eleitos. Contra estes factos não há mais argumentos...

1 comentário:

  1. Por acaso, a interpretação dos factos pode bem ser outra. O campo unionista somou mais de 50% dos votos, e o Ciudadanos, PP e PSC aumentaram a votação em 250.000 votos. Simplesmente, o sistema eleitoral catalão de círculos premeia os Partidos com mais votos, pelos vistos (como o nosso aliás, que também não é completamente proporcional).

    É claro que esta observação não serve de muito a não ser para mostrar que a sociedade catalã está dividida, porque os resultados podiam ser outros com outro sistema eleitoral, ou em caso de referendo.

    Mas querer olhar para isto como uma suprema vitória dos independentistas parece-me manifestamente exagerado.

    O meu caro tem o hábito de declarar que o seu lado vai ganhar tudo e a mais das vezes engana-se. Foi assim em 2015 (o PS perdeu as eleições, goste-se ou não), foi assim em França e na Alemanha com o SPD (e mesmo Corbyn perdeu as eleições de Junho, mesmo se por pouco).

    Convém ter cuidado com as previsões, em particular as que dizem respeito ao futuro...

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