sábado, 25 de outubro de 2014

Querer nata sem ter leite

Acabou uma semana em que muito se falou do orçamento para 2015, aquilo a que Rui Duarte Morais, líder da comissão da reforma do IRS nomeada por este (des)governo, não hesitou em classificar de «salganhada» tão só iam sendo conhecidas as sucessivas alterações motivadas pelas reações públicas de desfavor para com um documento sobre o qual Pedro Santos Guerreiro perguntava: “faz sentido beneficiar as famílias que ganham mais e as empresas que lucram no mesmo orçamento em que se corta metade dos apoios aos pobres?”.
Ora um estudo apresentado pelo Observatório da Família relativo a dados de 2013 já mostrava que, em 2013, a verba gasta com o Rendimento Social de Inserção baixara de 40%. Apesar de terem aumentado exponencialmente os que dele careceriam...
Até mesmo os que habitualmente costumam apoiar acriticamente as políticas da Direita não puderam agora silenciar as suas críticas, como foi o caso de Martim Silva: “ao fim de quatro anos temos a maior carga fiscal de sempre, a despesa do Estado não foi cortada como prometido e os ganhos conseguidos estão longe de se poderem considerar estruturais”.
Aquela que será a herança a enfrentar pelo próximo governo anuncia-se problemática, como postula Pedro Adão e Silva: “o lastro de destruição nas políticas públicas que este governo deixará como legado estará agora acompanhado por um buraco orçamental a corrigir pelo próximo governo”. Porque, baseando-se em premissas macroeconómicas impossíveis de se verificarem, quando chegarmos a outubro de 2015 e assistirmos à tomada de posse de quem sucederá a passos coelho, sabemo-lo confrontado com umas finanças públicas tão deficitárias, que a agenda para dez anos terá de ser adiada em prol das medidas de emergência, a que o plano de recuperação da economia obrigará.
Mas a capacidade de causar danos por este governo - tão largamente demonstrada com o caos na justiça e na educação das últimas semanas, teve mais um episódio lamentável quando surgiu uma vez mais o ministro dos negócios estrangeiros a abrir a boca e, como de costume, a sair asneira.
Afirmar que há jihadistas portugueses arrependidos da sua opção e interessados em regressarem a casa, é tão grave e demonstrativo da completa falta de sensatez do governante, que bem se podem temer as retaliações aplicadas àqueles compatriotas, cujas intenções só ganhariam em continuarem secretas. Pelo menos até regressarem sãos e salvos…
Existirá, igualmente, quem, no governo, aproveite todas as oportunidades para disparar farpas contra António Costa ao confirmarem-se as expectativas geradas nos eleitores, que o querem ver como primeiro-ministro e já quase chegam a um em cada dois portugueses. O ainda habitante do edifício da Rua da Horta Seca atirou-se a ele com as ganas de um raivoso pitbull, temeroso das dificuldades com que contará quando vir a direita justamente castigada nas próximas eleições. Apesar de ter bons motivos para se inquietar seria de esperar de pires de lima uma melhor compostura…
Mas talvez a melhor forma como este (des)governo atua tenha sido a descrita pelo novo presidente do Conselho de Reitores, que denunciou os esforços da tutela em acabar com a Ciência em Portugal: “O discurso do Governo é errado: acham que é possível conseguir excelência na ciência a partir do nada, Mas a excelência só se atinge a partir de uma certa massificação da produção científica. Quando nós queremos ter a chamada ‘nata’ temos de ter leite. O Governo quer que haja nata sem haver leite”.

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