quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Como somos manipulados por grandes empresas de relações públicas

O major general Carlos Branco publicou agora um livro sobre a sua experiência na guerra da ex-Jugoslávia, que vem confirmar o que, então, intuí: os croatas estavam imbuídos do rancor fascista dos seus antepassados, os Ustaše , que tinham servido de milícias ao lado das tropas nazis de ocupação durante a Segunda Guerra Mundial. Os bósnios contavam com um partido, que pretendia impor um Estado Islâmico. E, no entanto, foram os sérvios, quem se viram diabolizados numa guerra em que inocentes eram apenas os milhares de vítimas encurraladas nos jogos de poder das várias lideranças crapulosas. Se Milosevic mereceria, porventura, ser confrontado com o Tribunal Internacional desta cidade donde escrevo, também Tujman e outros criminosos aqui deveriam ter sido julgados pelos seus atos.
Então como agora continuo a defender que os sérvios só ficaram como os culpados do conflito, porque era esse o interesse das potências exteriores (Alemanha, Vaticano, Estados Unidos), que ansiavam pelo desmembramento da Jugoslávia. Continuo a ter presente a memória dos tempos em que palmilhei as ruas de Dubrovnik ainda Tito era o líder incontestado do país e nada apontava para o que viria a suceder. Respirava-se então uma atmosfera pacífica e até de liberdade sem grandes restrições.
O que virou as opiniões públicas internacionais contra os sérvios foram as poderosas agências internacionais de manipulação das informações e é isso que vemos consagrado no testemunho deste prestigiado militar português, que conheceu como poucos aquilo de que fala, como se comprova na entrevista hoje concedida ao «Diário de Notícias»: 
“Todos os grupos étnicos, ou antes, as elites, sobretudo as políticas, têm a sua quota-parte de responsabilidade no desenrolar dos acontecimentos.
Naquele conflito, como em quase todos os conflitos desta natureza, não há santos de um lado e pecadores do outro. Em última análise, cada grupo via o oponente como uma ameaça à sua sobrevivência.
A diabolização do oponente faz parte da guerra. Contudo, o que aconteceu nos Balcãs foi mais do que isso e envolveu a participação direta das grandes potências.
A tarefa estava facilitada porque os interesses de certos grupos coincidiam com os interesses das grandes potências. Por isso, tanto os croatas como os muçulmanos da Bósnia tiveram empresas de relações públicas a trabalhar para si, pagas pelos seus mentores.
O tratamento desigual dado aos diferentes grupos foi a consequência do discurso imposto pelos mais fortes na defesa dos seus patrocinados e, por conseguinte, dos próprios interesses.
É nesta lógica que se deve entender a diabolização dos sérvios. A pouca clarividência das lideranças sérvias da Croácia e da Bósnia também ajudou.” 
Zdravko Mandic


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A tranquilidade sob a ameaça de intensos furacões transatlânticos

1. Os próximos anos vão-nos obrigar a acompanhar mais atentamente a política interna norte-americana do que o fizemos naqueles em que Obama nos sossegava, apesar de o sabermos apenas capaz de «mais do mesmo». Agora com Trump as coisas fiarão mais fino, tão igual a si mesmo continua na imprevisibilidade de conseguir ir dizendo uma coisa e o seu contrário, muito embora as nomeações para a sua Administração pendam todas para a mesma direção.
Compreendem-se, por agora, as contradições dentro do Partido Democrata, ainda incapaz de definir uma estratégia para fazer oposição, tanto mais que falta clarificar quem o liderará a breve trecho: se os do establishment, que foram os responsáveis pelas derrotas de 8 de novembro, se os da sua ala mais à esquerda, personificada em Bernie Sanders e Elizabeth Warren, que o querem transformar à luz das lições aprendidas tão recentemente.
No seu site, o ex-senador do Vermont faz o retrato sociológico, que explica o sucedido: “As pessoas estão cansadas de trabalharem mais horas por menos, de verem postos de trabalho a irem para a China, de multimilionários que não pagam impostos federais e de não conseguirem pagar uma educação superior aos seus filhos — tudo isto enquanto os muito ricos ficam muito mais ricos”. Mas ele faz-se demasiado otimista quanto à possibilidade de Trump vir a aprovar políticas que melhorem as vidas das famílias trabalhadoras, situação em que admitiria associar-se-lhe em tal estratégia.
Raposa velha da política norte-americana só posso entender essa possibilidade de se estabelecer uma ponte entre a Administração Trump e os Democratas, se se tratar de mera tática destinada a fazer-se ouvir por tais famílias, mesmo enquanto elas andarem iludidas com os amanhãs que cantam do burlão, que ajudaram a pôr na Casa Branca.
É que, mesmo avançando o imperioso programa de requalificação de estradas e aeroportos, cuja degradação se acentuou nos últimos anos, os salários aí praticados continuarão a ser miseráveis, muito abaixo do que operários e capatazes recebiam antes da crise de 2008.
Sanders poderá, então, cavalgar o descontentamento de quem, pelo facto de ter arranjado trabalho, não verá forma de fugir da miséria  e aceder ao cada vez mais distante «sonho americano».
Tim Ryan, um congressista do Ohio, quase desconhecido, mas pertencente à mesma tendência que Sanders e Warren, acrescenta: “Temos de voltar a apresentar este partido como o partido que vai ajudar as pessoas da classe trabalhadora, sejam brancos, negros, gays ou heterossexuais, que vai melhorar as suas oportunidades de ganharem mais, de terem mais segurança económica. Desviámo-nos dessa mensagem. E quando não queremos falar sobre a economia, perdemos eleições”.
Como muito provavelmente ele substituirá Nancy Pelosi como líder dos Democratas na Câmara dos Representantes, quase por certo isso significa posicionar o partido em oposição tenaz do campo contrário desde o primeiro dia do novo mandato. E com os olhos postos nas eleições intercalares, onde o desagrado dos agora iludidos com os Republicanos, poderá retirar-lhes a maioria em pelo menos uma Câmara do Capitólio.
2. Está-nos na alma: gostamos de estabilidade temperada por alguma esperança. E é isso que tem feito o governo subir nas sondagens e na apreciação do sentimento geral em que se vive no país. Sobretudo, como acentua Pedro Nuno Santos, “quando olhamos para o que acontece no mundo, seja nos EUA ou na União Europeia, onde a incerteza política é grande, [e] olhamos para Portugal como um espaço de estabilidade.”
E nas Jornadas Parlamentares decorridas na Guarda, António Costa corrobora-o: “Não há bem maior para um país do que viver tranquilamente a sua normalidade”.
Usufruamos, pois, dessa saborosa tranquilidade! 
Gina De Goma, Sunset Painting

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Reestruturar a dívida - ainda um imperativo!

A notícia da antecipação do pagamento ao FMI - que é a uma das componentes mais dispendiosas da dívida total em termos de juros - retira argumentos aos que já aguçavam os dentes com a possibilidade de contraporem aos indicadores muito positivos da semana transata a notícia dela ter registado um novo record. Aquilo que aconteceu foi a sucessiva colocação de dívida no mercado a juro mais baixo para substituir a que tem um custo mais elevado. Como Centeno nos tem habituado vão-se gerindo com inteligência as finanças públicas dentro das contingências a que elas estão sujeitas.
Esta capacidade demonstrada pelo governo português para corresponder aos acordos com os parceiros parlamentares, respeitando ao mesmo tempo os compromissos europeus, não invalida o reconhecimento da necessidade de se vir a reestruturar mais tarde ou mais cedo a dívida pública. É que se, hoje, o Estado consegue ter de receitas mais 5 mil milhões de euros do que no total das suas despesas, esse superavit ainda é insuficiente para remunerar os 8 mil milhões de euros anuais que se têm de pagar aos seus credores. Daí a razão para faltar dinheiro para os tão necessários investimentos públicos.
Não se trata, pois, de algo cuja responsabilidade caiba ao atual governo, antes corresponde à pesada herança legada pelo duo Passos Coelho/ Maria Luís Albuquerque.
Num artigo excelente, publicado este mês na edição portuguesa do «Le Monde Diplomatique», a economista Eugénia Pires, atribui igualmente responsabilidade ao euro, que foi formatado para beneficiar os países do centro e norte da Europa, sangrando os recursos dos da periferia e do sul.
Apesar do Orçamento para 2017 incluir uma previsão de redução da dívida para 60% do PIB em 2046, a autora do texto «Como reestruturar a dívida pública?» atribui pouco crédito a essa perspetiva tendo em conta a extrema volatilidade dos indicadores macroeconómicos em que o ministério de Centeno se baseia. Pelo contrário receia, que se mantenha o efeito bola de neve pelo qual essa dívida prosseguirá em rota de crescente crescimento com os superavits na balança comercial a não chegarem para manter um défice nulo e pagar os juros aos credores.
Por isso ela considera que “a decisão de desviar receita fiscal para o pagamento do serviço da dívida na ausência de crescimento (…) representa um desperdício de recursos, quando o país mais deles necessita, bem como uma escolha política que, mais uma vez, reforça a primazia dada aos credores de dívida pública em detrimento dos cidadãos.” Daí conclua que “a dívida pública deve ser reestruturada também pela sua insustentabilidade económico-social.”
Nesta matéria não acredito que a equipa de Centeno discorde dos fundamentos com que, de forma mais aberta, os seus parceiros parlamentares exigem essa renegociação. A questão está em esperar pelo momento certo para, conseguidos os parceiros europeus capazes de engrossarem a mesma reivindicação, ela se torne incontornável mesmo para aqueles que nem sequer queriam disso ouvir falar. 
René Bertholo, A Sombra Projetada, 1965

A urgente atenção aos excluídos da globalização

1. A entrevista dada por Margarida Marques, secretária de Estado dos Assuntos Europeus, a uma das edições do «Público» desta semana, revela uma notável lucidez relativamente ao mundo reconfigurado com a vitória de Trump nas presidenciais americanas. Para ela será fundamental que a União Europeia mude rapidamente e passe a dar atenção aos excluídos da globalização. O que significa necessariamente um reforço do tão abalado Estado Social, que as políticas neoliberais quiseram reduzir aos mínimos suscitados pela vocação das jonets para brincarem à caridadezinha.
Nestes últimos anos os donos disto tudo - e não estou a falar da família Espírito Santo! - procuraram criar nos mais desfavorecidos a ideia de serem culpados da sua triste condição e de quanto o recebido de instituições assistencialistas se deveria à bondade e boa vontade dos seus promotores. Desmontar esse mito alimentado pela hierarquia da Igreja Católica constitui um imperativo da necessária superação de um tempo velho por um tempo novo onde faça cada vez menos sentido a crença nalgum deus.
É tempo de as esquerdas irem, de facto, ao encontro dos absentistas e dos que se dizem desinteressados da política - os primeiros a acorrerem em favor de Trump na América ou de Marine Le Pen em França - para os motivar a comprometerem-se com a efetiva defesa dos seus direitos. Que nunca poderá passar por burlões de tal espécie...
2. As eleições sucessivas destas últimas semanas vieram comprovar que as empresas de sondagens não estão a conseguir elaborar estudos minimamente credíveis, tão diferentes se revelam os resultados em comparação com as previsões. Mas esse desajustamento entre as realidades sociais e a leitura delas feitas não está a acontecer apenas com as empresas de sondagens: a generalidade das forças políticas das direitas e das esquerdas tradicionais também as não tem feito. Só assim se explica a rapidez com que se revelou bem sucedida a candidatura de François Fillon nas primárias das direitas francesas, dando substância ao descontentamento latente da burguesia rural, que nunca aceitou as mudanças de valores inerentes ao Maio de 1968. Compreender como essa expressão conseguiu a dimensão suficiente para organizar grandes manifestações contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou contra o aborto e impor um candidato presidencial representativo de franja até agora julgada como pouco significativa, foi distração que derrotou um candidato aparentemente mais apresentável como era o presidente da câmara de Bordéus constituía.
No mundo atual onde as mudanças suscitadas pela globalização e pela economia digital comportam tantos medos nos que delas se sentem excluídos, resta às esquerdas olharem-no com profundidade suficiente para interpretarem as aspirações dos que legitimamente representa e encontrar-lhes resposta para substituírem as inquietações por respostas concretas e exequíveis capazes de lhes devolverem a esperança.
3. As eleições de Trump e de Fillon também revelam o fim de um tempo em que, injustificadamente, setores da esquerda mais tradicional (aqueles que só com alguma boa vontade assim se podem designar!) quiseram transformar Putin e Bashar al Assad em párias da política internacional.
A oportunidade de negociar com um e de reconhecer no outro o único capaz de garantir a reconstrução do seu país numa lógica de separação entre o Estado e a religião islâmica foi perdida por quem melhor a deveria considerar como o mais efetivo seguro de vida contra a expansão do terrorismo para a Europa. Porque a única forma de o conseguir só será através da derrota total do Daesh na Síria e no Iraque e na efetiva marginalização de quem o andou a financiar (o Qatar e a Arábia Saudita).
Quer Trump, quer Fillon entenderam-no como o tinham intuído muitos dos que viam nos supostos rebeldes moderados meras correias de transmissão dos interesses dos países financiadores numa zona geográfico onde se jogam fortes interesses económicos e estratégicos sob a falsa capa da falaciosa luta entre xiitas e sunitas. 
Marcel Duchamp

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Porque é necessário reverter as privatizações de Passos Coelho e não só)

Se estamos a viver um refluxo das esquerdas a  nível mundial, que leva um suprematista branco a querer expandir para a Europa - através de Marine Le Pen, Nigel Farage e outros figurões que tal -, a agenda ultraneoliberal decorada de racismo, machismo e homofobia, não nos deixemos iludir com o carácter transitório desta fase. Como sempre nos ensinou a História, atrás de tempos, tempos vêm, outros tempos hão-de vir.
E se as leis da Física também se replicam amiúde nos temas de estudo da Sociologia, após um tão forte puxão para a extrema-direita, será de prever um movimento contrário com igual força.
Por isso mesmo faz todo o sentido arrumar de vez o esgotado modelo social-democrata de gestão competente e com um mínimo de sensibilidade social do capitalismo, e apostar no Socialismo como alternativa que orgulhosamente deveremos reivindicar. E nesse programa para um futuro mais justo e igualitário caberá a urgência em renacionalizar tão brevemente quanto possível os setores fundamentais da economia de que o Estado abdicou nos últimos anos por via das privatizações impostas pela troika.
Esse imperativo não decorre apenas de razões ideológicas: as consequências gravosas para o país de ter abdicado de ferramentas de decisão fundamental para promover o desenvolvimento sustentável começam a sentir-se como surge hoje descrito no excelente texto de Nicolau Santos no «Expresso Curto». Depois de o lermos é inevitável sentirmos a necessidade de operar essa renacionalização para ontem em vez de termos de esperar por longínquos amanhãs que desencantem:
O país amanhece hoje com mais um banco controlado por capitais chineses. O grupo privado Fosun passa a deter 16.7% do capital do BCP, tornando-se o maior acionista individual, através de uma operação de aumento de capital, pelo qual paga 175 milhões de euros. Fica aberto o caminho para chegar aos 30% e conta já com a luz verde do BCE para esse efeito. Também os direitos de voto vão subir do atual limite de 20% para 30%. A entrada dos chineses mereceu o acordo dos outros principais investidores, nomeadamente os angolanos da Sonangol e os espanhóis do Sabadell. A Fosun já controla a companhia de seguros Fidelidade e a Luz Saúde. Mas a entrada no BCP far-se-à através de uma entidade chamada Chiado.
O negócio é excelente para o banco, que precisava de estabilidade acionista e de aumentar capital, até porque ainda deve 700 milhões ao Estado da ajuda que recebeu durante o período da troika. Mas… o BCP é o maior banco privado português. A EDP é a maior empresa elétrica do país. A REN – Redes Elétricas Nacionais gere as principais infraestruturas de transporte de eletricidade e de gás natural. A ANA controla todos os aeroportos nacionais. A TAP é fundamental na captação de turistas para o país. Todos foram vendidos ou estão concessionados a investidores estrangeiros, assim como o porto de Sines (detido pela PSA de Singapura) e todos os outros (Lisboa, Setúbal, Leixões, Aveiro e Figueira da Foz, controlados pela empresa turca Yilport).
Ora um país que não controla os seus portos, os seus aeroportos, a sua energia (quer a produção quer a distribuição) nem o seu sistema financeiro na quase totalidade (escapa a CGD) é seguramente um país que terá no futuro cada vez mais dificuldades em definir uma estratégia nacional de desenvolvimento.
Provas? A TAP quer comprar oito aeronaves para fazer face à procura crescente resultante das rotas que abriu para os Estados Unidos mas a ANA responde-lhe que não tem espaço para o seu estacionamento no aeroporto Humberto Delgado. Na verdade, os franceses da Vinci, que controlam a ANA, deveriam ter já arrancado com a construção de um novo aeroporto porque o número de passageiros na Portela está muito próximo do limite definido no acordo para que esse passo seja desencadeado. Mas preferem a solução Portela mais Montijo, que lhes sai mais barata e que só deverá estar pronta dentro de três anos, a construir um novo aeroporto, uma decisão obviamente de importância estratégica para o país.
Mais provas? Como se disse, o porto de Sines foi concessionado à PSA de Singapura. Ora, os chineses estão interessados em Sines, onde se propõem aumentar os cais e as plataformas de apoio, mais uma plataforma industrial para montarem os produtos cá e obterem o “made in Portugal”, podendo assim entrar sem problemas no mercado europeu. Só que a PSA de Singapura opõe-se e faz valer a sua opinião por ser dona da concessão. E as autoridades portuguesas pouco podem fazer porque infraestruturas deste tipo são únicas: não se podem construir outras ao lado.
É este o Estado que temos: sem poder para mandar naquilo que é verdadeiramente essencial para definir uma estratégia de desenvolvimento. E o que é espantoso é que quase tudo tenha acontecido em tão pouco tempo (entre 2011 e 2015, pouco mais de quatro anos) e que estivéssemos tão anestesiados que o não conseguíssemos evitar. 
Graça de Morais

domingo, 20 de novembro de 2016

Perigosos sim, mas vêm aí tempos interessantes!

1. Parece que a vitória de Trump entusiasmou uns quantos caceteiros, que vão escrevendo alarvidades no «Observador», mormente a de ter resultado de uma reação esclarecida de parte do eleitorado contra o elitismo de quantos supostamente comandam o sistema.
Esses eleitores tinham todas as informações disponíveis para saberem como Trump era a personificação desse sistema, que dizia execrar, e como todo o seu currículo bastaria para os dissuadir de acreditarem nas promessas falaciosas que lhes fazia.
Quase duas semanas depois do choque de vermos eleito para a Casa Branca tão sinistra figura, só encontramos razões para confirmar o que Hillary dizia a respeito dos que nele votariam: são sexistas, machistas, racistas, xenófobos, brutos, primários e deploráveis. A que podemos ainda acrescentar o de estúpidos por caucionarem quem os irá rapidamente fustigar com um vendaval de políticas, que servirão para os muito ricos enriquecerem ainda mais e para a classe média continuar a  decair para a miséria dos que vão sobrevivendo da acumulação de empregos precários ou para a triste condição dos sem abrigo a quem serão negados os parcos apoios sociais.
Crismá-los assim não corresponde a uma demonstração de ira com quanto sucedeu a 8 de novembro, mas como resultado de uma reflexão serena em que se olha para o sucedido e o que concluímos é nada haver de racional no que constituiu a súbita reação emocional de um eleitorado a quem a globalização e o afluxo constante de refugiados políticos ou económicos assustou.
2. Quanto à globalização só se justifica a pouca simpatia que as esquerdas só manifestaram por essa movimentação de mercadorias sem entraves alfandegários e cujo resultado mais óbvio foi a desindustrialização do ocidente em proveito da Ásia para onde se deslocalizaram tantas fábricas.
Não ignoramos que os defensores desse desvio de direita no seio da esquerda, que foi a Terceira Via, sempre foram dos mais entusiastas dessa exponencialização da estratégia do capitalismo chegado á sua derradeira fase expansionista de mercados por desbravar.
Um dos aspetos mais curiosos de acompanhar nos próximos anos - com Trump a rasgar ou a não prosseguir negociações relativas a todos os Tratados comerciais firmados com os países do Pacífico, da América Latina e da Europa - é saber como evoluirá essa mesma globalização. Terá algum conserto futuro ou servirá novamente de amanhãs que cantam para um capitalismo momentaneamente interrompido enquanto Kamala Harris não vencer Trump no fim do primeiro mandato e se tornar então na primeira mulher a chegar à Casa Branca.
3. Outro dos aspetos a merecer uma análise criteriosa das esquerdas é se pode manter a lógica politicamente correta segundo o qual devemos acolher todos quantos, vindos de África ou da Ásia, procuram encontrar falsos paraísos numa Europa já assoberbada em sucessivas crises.
Têm sido esses refugiados, a maior parte dos quais motivados por razões económicas, a suscitarem os mesmo receios, que levaram Trump à vitória, e ameaçam replicá-la em França, na Holanda, na Alemanha ou em Itália com gente igualmente pouco respeitável.
Num continente onde o avanço da economia digital tende a reduzir o número de empregos, a chegada sucessiva de quem não tem qualificações nem competências para essa evolução social só pode assustar quem vê nesse fenómeno uma séria ameaça ao que ainda resta de Estado Social.
$. Ao texto anterior, o Jaime Santos replicou com o seguinte comentário:
Bom, se forem só essas empresas que quer ver nacionalizadas (discordo da TAP, mas gostava que a ANA voltasse ao setor público, assim como discordo da renacionalização da EDP e do setor bancário), eu conseguiria conviver bem com o sua versão do Socialismo. Só que lhe chamaria Social-Democracia. Lembre-se que nos anos 70 e 80, o Estado controlava uma boa parte da grande Indústria sem que vivêssemos numa Sociedade realmente Socialista (e eu não gostaria de voltar a essa época, note-se) e o que o meu caro propõe é mais modesto do que isso. O que eu gostaria mesmo de ver Costa a ajudar a instaurar em Portugal é uma Sociedade verdadeiramente Liberal, aberta, tolerante, onde o Estado de Direito funcione para todos (e a atuação do MP no caso dos comandos merece-me aqui aplauso), mas que conserve no que for possível o Estado Social. Um Canadá à la Justin Trudeau' no Sul da Europa, se quiser (já sei que é um fã do líder dos Liberais canadianos). Se calhar noutros tempos eu estaria melhor no PSD ;-) (mesmo que nunca tenha votado nos laranjas), mas onde isso já vai...
Mantendo-se divergências de opinião em questões de pormenor - eu quero de facto a TAP no setor público e acredito que o socialismo difere da social-democracia por nunca perder de vista o objetivo de uma sociedade mais igualitária - também anseio por esse futuro onde o Estado de Direito exista de facto sem  a tendência zarolha do Ministério Público e onde as liberdades fundamentais sejam consagradas. Nomeadamente as que têm a ver com as decisões de cada cidadão a respeito do próprio corpo, seja quanto ao direito a abortar, a casar com quem queira ou quanto ao momento em que deseje despedir-se da vida sem dor. 
Edward Hopper

sábado, 19 de novembro de 2016

A galeria de horrores que não cessa de crescer

1. A galeria de horrores não tem fim: cada nome acrescentado por Trump à lista dos que integrarão a sua administração tem invariavelmente um curriculum associado a expressões e comportamentos próximos das ideologias fascistas.
Se o nazismo deveria ter justificado a criação de vacinas politicas suficientemente fortes para evitar a recorrência de muitos dos seus princípios e valores, a vitória de Trump imita a de Hitler na capacidade de convencimento de eleitorados incautos quanto ao tipo de serpente que permitiu ser chocada até emergir do respetivo ovo.
Um dos mais próximos colaboradores da nova vedeta mundial dos fascistas - o genro - já disse que estranharia não vir a encarar com uma resposta violenta às políticas, que pretende ver implementadas. O que justifica o comentário de Francisco Louçã no «Público» de hoje: que se abandonem as ilusões quanto à possibilidade de ver Trump domado, porque a única solução é derrota-lo.
Teremos, pois, uma agudização séria da luta de classes à pála da mais relevante medida  pretendida pelos que chegam agora ao poder: a desregulação do sistema bancário de forma a possibilitar-lhe o livre curso das suas habituais estratégias gananciosas E é essa intenção, que espelha esta nova fase do neoliberalismo encarnado nesta administração, que supostamente iria combater o sistema em que ele assentava e, afinal, o quer potenciar até aos limites da sua suposta «mão invisível».
Haverá motivos para ter medo do que irá acontecer? Decerto que sim, mas também sobra a confiança quanto à revolta dos que, tendo agora votado iludidos, continuarão a ver negada a esperança de saírem da miséria em que vivem. E pode ser poderosa a revolta dos que, a breve trecho, se sentirão enganados.
2. A respeito do texto sobre a diferença de estados de alma entre os socialistas portugueses e os franceses, o Jaime Santos veio comentar o seguinte:
Mas por cá também não há (felizmente, digo eu) Socialismo, só (infelizmente) uma Social-Democracia envergonhada, dados os compromissos europeus. E até já somos o melhor aluno, Moscovici dixit... Eu convidaria os progressistas a lerem o que diz Skidelsky de Keynes. O grande economista inglês não gostava do padrão ouro, mas também teria detestado o Estado-Providência anafado que passou a ser a norma na Europa depois da Segunda Guerra Mundial, alimentado à custa de dívida pública que requer crescimento eterno, algo que vai inclusivamente contra a própria ideia de sustentabilidade ambiental. E anda o meu caro a defender o Socialismo em versão Estatista, esquecendo a paixoneta dos marxistas-leninistas com o crescimento desenfreado... Marx, esse tinha uma visão distinta parece-me, recusando a alienação do sistema capitalista que transforma seres humanos em máquinas, veja aliás esse texto admiravelmente obscuro que é o 'Fragmento sobre as Máquinas'...
No essencial concordo com esta opinião - mormente na incompatibilidade do crescimento económico com um planeta ecologicamente sustentável! - com uma nuance: embora alguns queiram ver na política do atual governo a consagração de um modelo social-democrata, que desejariam ver ressuscitado  da época dos Trinta Anos Gloriosos, ela está muito para além dele, mesmo sem se poder qualificar de socialismo. Mas este último sempre pressupôs táticas e estratégias, que correspondem a recuar sempre que aconselhável para patamares de reivindicações exequíveis em cada momento histórico, aguardando que as condições sociais e políticas permitam seguir em frente. Numas alturas justificam-se políticas frentistas com forças aparentadas, mesmo que ideologicamente diversas, noutras existem condições para avançar mais determinadamente para o objetivo de uma sociedade mais igualitária.
E, quanto ao meu suposto estatismo mantenho a convicção de que empresas como a REN, a EDP, a TAP, a GALP, os CTT e a generalidade do sistema bancário deverão integrar o Setor Empresarial do Estado. 
André Masson

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O fascismo subjacente aos comentários desportivos

Vi há pouco, e com alguns dias de atraso, o programa de comentário político em que Pedro Adão e Silva colabora na RTP3. E houve algo para que, a respeito da eleição de Trump, ele chamou a atenção: quando as três principais estações televisivas dedicam obscenas horas de emissão em debates sobre futebol, e mormente se o energúmeno A cuspiu ou não na cara do energúmeno B, está-se a criar o caldo de cultura propício ao fascismo.
Nos EUA um dos principais treinadores de futebol americano terá explicado isso mesmo como razão para a vitória de Trump: distraindo os eleitores com as doentias manifestações de clubismo, veda-se-lhes o espaço mental para pensarem substantivamente sobre o que lhes deveria interessar. E por isso tornam-se presas fáceis dos vigaristas da extrema-direita que, sendo responsáveis pela desgraça que denunciam, se arvoram em anjos exterminadores capazes de propiciar o acesso a falsos paraísos, desde que à custa de quem ainda mais abaixo está na respetiva escala social.
É a tática já conhecida dos imperadores romanos, que davam circo aos cidadãos para que eles não pusessem em causa as ditaduras que padeciam.
De uma vez por todas é altura de protestar contra esse abuso de comentários desportivos. É que de inofensivos não têm nada!


 Giulio D'Anna. Football. 1933

Nós rimos, eles choram...

Quanta diferença de ânimo é o sentido hoje pelos socialistas portugueses em comparação com o dos seus camaradas franceses. Enquanto em Portugal está a crescer a confiança no rumo seguido pela atual maioria parlamentar que, se a ajudar o engenho e arte - mas sobretudo os ventos soprados dos quatro pontos cardeais! - poderá prolongar-se por muitos e bons anos, em França está prometida uma longa travessia no deserto. Porque as suas esquerdas ainda não deram o salto qualitativo, que as façam sair dos erros cometidos pelas portuguesas até há um par de anos: não só o Partido Socialista Francês ainda não se livrou dos vícios da Terceira Via, preterindo os valores em função da ambição de demonstrar ser melhor gestor da economia e das finanças do que a direita, como conta com as várias outras esquerdas, a comunista e as supostamente mais radicais, a fazerem dele o inimigo principal em vez de se concentrarem conjuntamente no ataque às práticas e valores das direitas.
Agora temos, segundo Matthieu Croissandeau no editorial do «L’Obs» desta semana, a direita a votar com a carteira e a extrema-direita com as tripas, sem que as esquerdas conquistem os jovens e os assalariados pelo lado desses tais valores. Porque qual é a capacidade de atração de um partido, em que Valls e Hollande até acham conveniente o abandono da qualificação socialista, pretendendo substitui-la por progressista?
Se até vimos na América, que Bernie Sanders cativou eleitorado à conta dessa aposta no socialismo - mesmo defendendo políticas que não chegam a integrar essa dimensão! - como poderemos aceitar essa escusa a orgulharmo-nos do que somos?
Anda a fazer falta uma movimentação determinada a nível internacional em que o Socialismo seja devidamente reivindicado como o modelo capaz de corresponder às aspirações dos povos quanto a tornarem-se mais resilientes perante as aceleradas mudanças das sociedades em que vivem.
Começa a ser altura das várias forças de esquerda da Europa e da América do Norte olharem para o que se está a passar no nosso país, e compreendam que, depois de termos conseguido desbravar os caminhos marítimos para as índias e os brasis, a nossa capacidade de servirmos de batedores para novos mundos ainda não se esgotou. 
Montague Dawson

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Os sucessos macro e os boicotes micro

À distância de muitos quilómetros de casa recebi com o maior dos contentamentos as notícias relativamente aos indicadores do 3º trimestre e às posições da Comissão Europeia a respeito da proposta de orçamento para 2017.
Nenhuma delas me surpreendeu, porque há muito adivinhava a inevitabilidade dos efeitos positivos suscitados pela devolução dos rendimentos às famílias. Keynes já criara toda uma sólida teoria económica para demonstrar ser essa a forma mais adequada para superar uma crise recessiva. Pelo contrário todos quantos apostam em receitas neoliberais estão, de facto, comprometidos com falsas soluções, que só resultam em maiores desigualdades na distribuição de rendimentos, com o empobrecimento inevitável das sociedades que nelas se arriscam.
Durante estes meses foi revoltante o contínuo bombardeamento dos colunistas do «Expresso», dos comentadores da SIC e da gentalha do «Observador» a rivalizarem entre si para melhor decidirem quem venceria a palma para o argumento intelectualmente mais desonesto contra um modelo que, asseguravam, estar condenado ao fracasso.
É por isso assaz saborosa a constatação de quão errados estavam, obrigando-se doravante a encontrarem outras estratégias para continuarem a disparar contra uma política que detestam.
Mas se, como socialista, me posso congratular com o desempenho do governo, lamento que, a nível local - pelo menos no concelho onde ainda resido - persistam as golpadas de quem esteve empenhadamente ao lado de António José Seguro contra António Costa e, agora, insiste na falta de respeito pelos militantes conotados com a atual maioria para os dissuadir de procederem à barrela tão urgente de forma a que o PS do Seixal volte a ser algo de limpo e, efetivamente, democrático.
Em vésperas de vir para a Holanda fui contactado pelo representante do Círculo de Leitores para me vir entregar a mais recente encomenda.
Gostando sempre de o espicaçar a respeito das suas opções políticas que, anteriormente, me tinham convencido da sua posição firmemente abstencionista, tive a satisfação de lhe ouvir uma confissão, que espero vir a estender-se a muitos outros dos que se lhe assemelham: não só a surpresa inesperada de ver o governo a exceder-lhe as expectativas como a possibilidade de, a assim continuar, o estimular à votação em futuras eleições.
Temos, assim, uma camada que se vem declarando descrente na política e nos políticos, e agora, finalmente, capaz de pôr em causa essa sua indiferença pelas questões da cidadania. Mas, por outro lado, continuamos a ter em muitas estruturas locais do Partido Socialista os representantes desse tempo velho em que a adesão tinha implícita a intenção de encontrar um emprego à luz da velha canção do Sérgio Godinho.
Há uns meses atrás porque não me identifico com essa forma de estar na política feita de compadrios e caciquismo, declarei-me em gozo de licença sabática na militância ativa. As notícias relativas a um suposto Plenário de Militantes convocado apenas com dois dias de antecedência para esta sexta-feira demonstra bem como persiste o tipo de jogadas em que se avisam atempadamente os que se pretendem ter presentes e se avisam à última da hora os que, na medida do possível, se pretendem ter ausentes.
Até pelos sucessos que está a ter na governação, António Costa não merece que, a nível local, continuem a haver “dirigentes”, que são a negação de tudo quanto hoje ele pretende ver associado ao que deve ser o Partido Socialista do Tempo Novo. 
Picasso

terça-feira, 15 de novembro de 2016

A suspeita que o INE apenas veio confirmar

Não era preciso ser adivinho para imaginar o que se iria passar. Aqui neste blogue fui-o escrevendo amiúde como se poderá constatar nos textos, que nele estão arquivados: bem podia a direita aproveitar para zurzir nos resultados do governo até ao fim do segundo semestre - e de apenas um de implementação do primeiro orçamento aprovado pelo governo! - que a alavancagem das medidas aprovadas para a recuperação dos rendimentos pelas famílias acabaria por suceder.
Ademais o excelente ano turístico com tantas cidades a serem alvo de verdadeiras invasões de turistas de todas as latitudes só ajudaria a reforçar esse efeito, explicando nomeadamente o crescimento do emprego, que algumas sumidades da nossa direita comentadora confessavam não perceber como conjugar com os demais indicadores do primeiro semestre.
Afinal os números hoje conhecidos fazem o desenho a quem não queria perceber a dinâmica económica e social aberta pela nova maioria parlamentar. Esses indicadores do INE dão a explicação: a  economia portuguesa cresceu 0,8% em termos reais no terceiro trimestre, em relação ao anterior, e 1,6% em termos homólogos comparativamente com o mesmo período do ano passado.
Os próximos meses implicarão riscos sérios para este crescimento tendo em conta a nova realidade prometida pela futura Administração da Casa Branca, mas se o seu efeito for neutral, a economia portuguesa poderá cumprir a lei da Física em como, superando a força do atrito, o impulso dada ao corpo já em aceleração tende-a a incrementar no imediato. Para António Costa tratar-se-á de ir oleando bem o percurso para que essa resistência seja minimizada e continue a dar estímulos tendentes a manter, ou mesmo aumentar, essa aceleração no sentido da transformação pretendida na nossa realidade. A Agenda para a Década continua a fazer todo o sentido...
Maluda