sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A anunciada travessia que a direita fará no inóspito deserto

A primeira vitória já está! A primeira de muitas, que esperamos ver concretizadas nos próximos meses. E, ademais, para designar como segunda figura do Estado um político da estatura de Eduardo Ferro Rodrigues, homem integro, que esteve ativamente envolvido na luta contra o fascismo e sempre norteou o seu percurso político, depois de abril, segundo uma constante preocupação por um país mais justo e igualitário. Nesse sentido foi um privilégio tê-lo como secretário-geral do PS, mesmo não vivendo a grande vitória eleitoral, que mereceria.
Mas a sessão inaugural da nova legislatura não foi, apenas, a oportunidade para vivermos essa tal primeira de muitas vitórias. Porque Eduardo Ferro Rodrigues e António Costa fizeram discursos contundentes contra uma direita ressabiada, que viu esboroar-se a esperança em ver a unidade do grupo parlamentar socialista posta em causa.
Se cavaco silva tivera o arrojo de invocar essa possibilidade para fundamentar a indigitação de passos coelho, criando alguma expetativa nos seus apoiantes, a eleição de Ferro Rodrigues à primeira volta foi uma resposta de luva branca, que deve ter repercutido como se fosse feita de aço.
Mas, igualmente eloquente o discurso de Pedro Filipe Soares, que lembrou a inexistência de qualquer estátua na Assembleia a essa tal tradição, que constitui a única boia (mesmo que furada…) a que a maioria ainda se agarra. Porque até o argumento de ter sido sempre eleito como Presidente da Assembleia da República, um deputado do Partido com o maior grupo parlamentar, foi lapidarmente desmentido por João Oliveira (PCP) ao lembrar o caso de Francisco de Oliveira Dias, do CDS, entre 1981 e 1982.
Façamos votos para que esteja a iniciar-se uma longa travessia no deserto para esta direita, que se extremou nos últimos anos, ao virar costas a muitos requisitos democráticos... 

As diferenças que vão clarificando o cenário presidencial

Ou ando distraído, ou ainda não se ouviu marcelo rebelo de sousa dizer o que faria se estivesse no lugar de cavaco silva. De maria de belém já sabemos: através de um palavreado, que costumamos associar ao provérbio «muita parra e pouca uva» disse que sim, talvez sim ou talvez não. Ou seja, coisa nenhuma…
Do que não temos qualquer dúvida é da opinião indubitável de António Sampaio da Nóvoa sobre os seus poderes enquanto Presidente da República: “Não vejo que haja nenhuma possibilidade no nosso regime constitucional de não dar posse a um Governo que tenha uma maioria parlamentar.
Uma maioria parlamentar representa uma maioria de decisões e de votos dos portugueses, representa uma maioria da vontade dos portugueses e seria absolutamente impensável que um Governo desses não fosse empossado”.
Foi ontem, ainda mesmo de podermos ouvir o inaceitável discurso de cavaco silva, que o Professor clarificou a sua posição, sem fru-frus nem gaitinhas. Olhando para o espectro político do Parlamento com uma perspetiva aberta de inclusão, e não de demonização de quem quer que seja: “Em democracia, não se pode excluir nenhuma possibilidade e devemos estar preparados para, na altura certa, responder ao que são as exigências do momento”.
A mudança histórica verificada nos últimos dias ainda tornou a candidatura presidencial do antigo reitor da Universidade de Lisboa na que melhor interpreta os tempos que se avizinham, por ser a que, independente de qualquer partido, saberá dialogar e suscitar convergências entre eles.
Até por ter sido o único dos candidatos a encarar como muito positiva a realidade em que iremos viver.

No Seixal já se voltaram a arregaçar as mangas

A atividade política do Núcleo dos Apoiantes do Prof. Sampaio da Nóvoa no Seixal não para. Depois de umas semanas de empenho alternativo nas legislativas, os seus coordenadores marcaram para ontem uma reunião pública na Junta de Freguesia da Amora, que contou com a participação de três dezenas de participantes.
A presidir aos trabalhos esteve o Costa Velho, que apresentou as razões para reativar o esforço de cidadania exigido nesta conjuntura elencando os projetos imediatos do Núcleo para dele se fazer expressão.
Interveio a seguir o Francisco Navarro na qualidade de fundador do Núcleo, contando precisamente como ele surgiu e, logo, concretizou o momento gratificante, que constituiu a sessão de esclarecimento organizada em Agosto em que se contou com a presença do Prof. Sampaio da Nóvoa. Primeiro junto à Mundet, e depois no jantar no Restaurante O Bispo, seis dezenas de simpatizantes desta candidatura puderam ouvir e fazer-se ouvir em relação aos seus anseios quanto ao futuro melhor, por que anseiam.
Jorge Rocha falou pelos militantes socialistas com muitos anos de filiação partidária, que aderiram à candidatura logo na primeira hora por a entenderem como a mais conforme com os valores justificativos da sua opção partidária.
Ricardo Ribeiro - que veio expressamente de longe, onde o comprometiam as suas importantes e conhecidas obrigações profissionais - veio fazer o discurso da noite ao enaltecer todas as razões identificáveis no Prof. Sampaio da Nóvoa para nele encontrar as qualidades humanas e de enorme sabedoria, que o tornam o único presidenciável capaz de personificar as qualidades cívicas, que desejamos ver nessas funções.
Pelos independentes há muito afastados do empenhamento comprometido com organizações partidárias, falou o João Filipe Vieira, que evocou a importância do papel desenvolvido pelo Professor Sampaio da Nóvoa na notável reestruturação da Universidade em que se formou. Uma capacidade que aposta ver reproduzida na função presidencial de que se tornou , igualmente, apoiante desde a primeira hora.
Deu-se, então a palavra aos demais participantes, todos unânimes em expressarem a admiração pelo candidato.
O José Manuel Lousada contou como o discurso do anúncio da candidatura no Teatro da Trindade constituiu um momento determinante para confirmar a sua adesão a esta candidatura e nela participar ativamente no âmbito  da campanha agora retomada.
O Manuel Ramos falou pelos mais seniores, aqueles que conheceram na pele as experiências do fascismo na sua expressão mais violenta, incluindo a guerra onde teve de participar, e agora se entusiasmam pelo que se adivinha a curto prazo com um governo das diversas esquerdas e um presidente que o respalde.
O Cláudio Fonseca representou os jovens de que será mandatário distrital e explicou as razões para a geração estudantil se empenhar ativamente numa campanha, cujo resultado tanto poderá contribuir para o seu futuro. E não deixou, é claro, de convidar os presentes para a Conferência, que organizou na Faculdade de Letras no dia 27 e que contará com a presença do Professor Sampaio da Nóvoa.
O Miguel Fontes, que acabou de sair da campanha das legislativas - onde foi incansável na defesa dos valores em que acredita e em que, como candidato a deputado se assumiu igualmente como defensor dos direitos dos cidadãos das várias origens lusófonas no distrito - prometeu o mesmo entusiasmo na nova batalha, que se avizinha. E como prova disso trouxe mais uma vintena de proposituras para acrescentar às muitas dezenas já conseguidas pelo Núcleo.
Depois da salva de palmas pedida pela Elza Rocha para reconhecimento do esforço já demonstrado pelo Costa Velho e pelo Francisco Navarro, as participações continuaram a ser femininas: a Paula Gil, igualmente independente, manifestou o quanto se sentiu gratificada ao integrar o Núcleo e nele encontrar com quem se identifica nos mesmos valores e opiniões, razões mais do que justificadas para investir toda a sua disponibilidade e entusiasmo em tornar vitoriosa esta candidatura.
A Anabela Gomes - que interveio depois de o Fernando Gomes questionar a mesa sobre a verba a investir pelo Núcleo durante a campanha - assumiu o empréstimo de mobiliário que possa ser utilizado na sede, cuja inauguração está apenas pendente da resolução de pormenores burocráticos.
No final da sessão sentia-se o entusiasmo dos participantes cujos donativos já corresponderam a quase um terço do orçamento previsto.
É pois tempo de arregaçar mangas e ir ao trabalho. É que no mesmo dia em que cavaco silva voltou a dar mostras de não ter qualidades para o cargo que ocupou durante dez anos, exige-se como seu sucessor quem dele é o seu exato contrário: um homem íntegro, sábio, tolerante e com a capacidade que levou Newton a dizer um dia,, que se era grande, fora por se ter alcandorado aos ombros dos gigantes. E o Professor Sampaio da Nóvoa forjou um carácter, que tem por modelo aqueles que mais admiramos e que tantas vezes traz à colação nos seus discursos...

Previsível e inconsequente

A literatura gótica é rica em exemplos de mansões arruinadas cujos anfitriões não tinham compreendido como tudo à volta mudara, tornando-os patéticos na sua obsolescência. Foi o que se passou ontem com cavaco: já todos percebem que está (politicamente) morto, mas parece que ninguém o avisou. Por isso o que os portugueses viram não foi um presidente mas uma mau personagem de filme de terror...


É claro que, numa primeira reação, o discurso de cavaco silva só nos pode causar indignação, mesmo sem ter tido o condão de surpreender.
De há muito que o sabíamos: criatura mesquinha, ele não consegue evitar ser quem é, sempre tomado pelos preconceitos, que lhe moldaram precocemente as enquistadas meninges. Filho do salazarismo, cavaco viu os tempos democráticos tenderem a afastá-lo desse atavismo, mas ele nunca deixou que isso alguma vez acontecesse.
Reconheça-se que, no discurso de hoje, ele só pecou por excesso ao explicitar o dislate de apelar à insurreição dos deputados socialistas contra o seu líder. Nesse sentido, julgando-se ainda capaz de exercer alguma influência no pensamento alheio, cavaco silva fez um enorme favor a António Costa e aos partidos de esquerda, que ele bem gostaria de ilegalizar: o repúdio pelas suas palavras atinge tal dimensão, que não só os deputados socialistas tenderão a unirem-se em torno da estratégia do seu líder, como os próprios partidos à esquerda sentirão ainda mais estímulo para agilizarem o acordo necessário à formação do governo de esquerda.
Embora tenha estudado economia cavaco silva parece ter passado ao lado de uma das mais elementares leis da Física: a da reação exatamente igual à da ação, em sentido contrário. Ao puxar o governo muito para a direita, cavaco silva esquece-se que será natural o contrabalanço mais para a esquerda.
Mas alguns aventarão a possibilidade de vir a desafiar a vontade maioritária dos eleitores com o prolongamento de um governo de gestão nos meses que faltam para sair de Belém.
Seria algo que ainda mais agravaria os níveis de abjeção, que suscita na maioria dos cidadãos nacionais. Se já ninguém lhe tira a “medalha” de pior presidente que Portugal conheceu em Democracia, ele arriscar-se-ia a terminar o mandato com enormes e ruidosas manifestações à sua porta.
Como tenho aqui escrito até nem haverá grande mal, que passos coelho se mantenha formalmente como primeiro-ministro durante umas semanas, já que elas poderão bastar para que saiam para a luz do dia muitas das surpresas de que António Costa falava na entrevista à TVI: e não é só a questão do Banif ou da TAP, onde os contribuintes serão “convidados “ a pôr dinheiro dentro em breve!
Que dizer dos resultados iminentes sobre os testes de stress ao setor bancário, cuja fragilização poderá obrigar a fusões (e respetivos despedimentos) e intervenções do Estado? Como continuar a esconder a súbita travagem nas exportações e o crescimento do desemprego? Que explicação dar para a continuação do crescimento da dívida pública?
Para a coligação da direita o “Inverno está a chegar” e não há muros nem guardiões do norte que lhes valha. Ao contrário do que alguns preveem - um governo de curta duração e eleições legislativas para o fim do primeiro semestre de 2016! - poderemos estar a assistir ao início de uma longa e inóspita travessia no deserto desta direita sem valores, cuja razão de existir se cingia ao usufruto do pote.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

De regresso ao futuro que ansiamos

O ciclo histórico iniciado há trinta anos com a subida do cavaquismo ao poder, cavalgando por cima dos selins cheios com os dinheiros europeus, conclui-se agora com a saída do seu emblemático rosto de Belém. E a direita ainda não interiorizou que o seu tempo já se esgotou: reduzida à defesa de receitas ideológicas esgotadas ela não tem espaço no futuro almejado pelos portugueses...


Há vinte seis anos, quando vi «Regresso ao Futuro II» estávamos no auge do cavaquismo e o Partido Socialista acabara de viver uma das fases mais dramáticas da sua História, quando o surgimento do PRD o reduzira a votações entre os 20 e os 22% nas legislativas.
Mário Soares batalhara pela entrada na União Europeia, mas fora cavaco quem, com manhoso oportunismo, cuidara de subir à liderança do PSD e aproveitar em seu favor - e dos seus amigos! - o enorme fluxo de dinheiros, que essa nova realidade significara.
O enriquecimento súbito de muita gente então ligada ao cavaquismo tem origem nessa conquista do poder, que, com a falta de regulação então existente, significou partir, repartir … e ficar com a maior parte.
Que toda essa gente tenha, depois, surgido no BPN e seus derivados, facilmente se compreende.
Não podendo afiançar o que estaria a pensar durante a projeção das aventuras de Marty McFly e do professor Emmett Brown, tenho ainda assim a certeza de estar então esperançado na possibilidade de, em 21 de outubro de 2015, tudo o que íamos vivendo politicamente já constituir uma má recordação. Se, então nos dissessem que cavaco estaria sentado em Belém e a nova AD (PàF) continuaria em São Bento, só poderíamos concluir pela existência de pesadelos muito difíceis de deles nos livrarmos.
E, no entanto, quem nos desse tais más notícias estaria a sonegar-nos a parte mais suculenta da história. Porque estamos a assistir àquele tipo de viragem histórica, que pode ser comparada a uma montanha por todos tida como inamovível de onde está e, subitamente, sujeita a fenómenos tectónicos capazes de a porem em movimento. E, quando uma tão volumosa massa ganha dinâmica é a própria Ciência a demonstrar-nos quanto ela se torna imparável.
Por isso mesmo tudo passa a parecer possível: mesmo com o desacordo público de Francisco Assis, até os seguristas parecem dispostos a avalizar um acordo com o Bloco, o PCP e os Verdes de forma a termos um governo para os próximos quatro anos. O que pode significar o verdadeiro regresso ao futuro por que sempre ansiámos: o de um Portugal mais desenvolvido e igualitário, com serviços públicos orientados para satisfazerem as necessidades das famílias quanto à saúde, à educação e à segurança social.
É, pelo menos esse o anseio dos mais de dois milhões e setecentos mil eleitores, que votaram nos quatro partidos e, podemos até arriscar, de boa parte dos quase dois milhões que, iludidos e manipulados, ainda confiaram nas mentiras de passos & Cª.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Esta é a vez primeira...

Nos últimos dias aqueles a quem faltam argumentos políticos, que contradigam a legitimidade da solução governativa acordada pelos partidos de esquerda, erguem-se num afinado coro em que alegam o estrito interesse pessoal de António Costa nas negociações em causa. O que se tem ouvido constitui uma sucessão de indecorosos assassinatos de carácter.
Está a tratar da sua sobrevivência política!”, afiança paulo portas numa espécie de juízo, que lembra bem aquele conhecido provérbio (levemente adaptado): “mau julgador por si se julga!
Quer os políticos da coligação, que por estes dias têm passado por sucessivos calafrios ao verem concretizado um cenário para o qual as seus quadriláteras mentes não se haviam preparado, quer os comentadores, que lhes servem habitualmente de altifalantes, têm-se esquecido de quem é verdadeiramente António Costa.
Nos mais de quarenta anos, que leva de exercício na política ativa, ele passou por muitas vitórias e muitas derrotas, mas todas elas fortaleceram-lhe as características, que vêm sobressaindo nestes últimos dias: destemido, não hesita em pensar soluções fora dos usos e costumes, e com uma habilidade negocial capaz de valorizar as convergências, onde outros julgariam ver, sobretudo, abismos.
Nesse sentido é o líder certo para o momento histórico em que se vive: aquele em que, pressionados pelos seus próprios eleitorados, que nunca lhes perdoariam a repetição dos erros cometidos com o chumbo do PEC IV, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins vislumbraram a prioridade de correr definitivamente com a direita do poder.
Desde então nenhum jornal, nem televisão, tem conseguido que os diversos negociadores dos quatro partidos envolvidos lhes passassem informações, que lhes servissem para perturbar o seu bom curso. Pelo contrário, quando tem falado nos momentos cruciais do processo para a designação do novo governo, António Costa tem sempre suscitado verdadeiros golpes de teatro, que deixa espantados os que já tinham ajuizado como quase impossível o acordo entre o PS e os Partidos à sua esquerda. E esse efeito de surpresa tem o condão de pôr em causa as convicções inabaláveis de uns quantos opinadores, que andam por estes dias armados em autênticas baratas tontas à procura de uma saída airosa para o labirinto mental em que se viram encerrados.
Um dos exemplos mais deliciosos de tal desconcerto sucedeu com Clara Ferreira Alves, que começou por agir histericamente no «Eixo do Mal», contra a exequibilidade desta solução e, no programa desta semana, já andava cabisbaixa a tentar racionalizar o que, emocionalmente, a deixara fora de si.
Chegamos, assim, ao dia do anúncio da decisão de cavaco com tudo em aberto: ou comporta-se como o faccioso, que nunca deixou de ser nos seus dois mandatos e faz o país perder tempo com a aposta falhada em passos coelho, ou é coerente com o que exigiu antes das eleições e empossa António Costa como o líder mais capaz de garantir uma alternativa sustentável de governabilidade.
Numa altura em que, por imperdoável laxismo, o governo de passos coelho sujeita o país a a forte penalização por não ter apresentado a Bruxelas o orçamento a que era obrigado, cavaco silva não é propriamente um inocente em todo este processo. É que, se fizer o país perder mais duas semanas com tal impasse, só acrescenta achas para a fogueira dos que não esquecem ter ele adiado as eleições para setembro - e não para maio como o alertavam quem já adivinhava as dificuldades com a apresentação do orçamento para 2016 - a fim de dar tempo aos marketeiros do PàF para que preparassem o “clima” e os meios adequados para favorecer a vitória da direita.
Esperemos que, por uma vez, saia de Belém uma decisão mais conforme com o interesse do país do que afinado com os do seu partido.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A anunciada derrota do ministério público

1. A sonegação à Defesa de José Sócrates de 80 páginas da documentação, que a Procuradoria Geral da República estava obrigada a entregar segundo o acórdão do Tribunal da Relação, é apenas mais um episódio da catadupa de casos verificados com este processo desde o seu início. Por muito que joana marques vidal, amadeu guerra e rosário teixeira se venham futuramente a justificar, tudo aponta para uma sucessão inaceitável de prepotências para com um arguido a quem não conseguiram sequer entregar uma acusação digna desse nome. Os direitos à presunção de inocência e à defesa do bom nome foram sucessivamente violados por uma Acusação, que aparenta ter imaginado uma teoria e, depois, a quis demonstrar com uma investigação, que a ia sucessivamente refutando.
Em novembro de 2014 muitos comentadores previram que a Operação Marquês iria definir uma de duas possibilidades: ou o ministério público se reforçava mediante a capacidade para inculpar substantivamente o antigo primeiro-ministro ou desqualificar-se-ia com o seu rotundo fracasso. Os sucessivos sinais, que vão sendo emitidos pelos diversos agentes no processo fazem prever, cada vez mais, a segunda possibilidade.
Na notícia mais recente temos José Sócrates a exigir ser novamente ouvido pelo ministério público depois de consultar o processo. É que, se o mantiveram agrilhoado com as medidas de coação mais pesadas, que o impediam se fazer jus à fama de “animal feroz”, novamente em liberdade, quem poderá resistir à determinação com que exigirá que seja feita justiça?
O que levantará, inevitavelmente, uma questão pertinente: como é que José Sócrates poderá ser devidamente indemnizado por toda a campanha, lançada pela sórdida coligação entre a Acusação e alguns jornais e televisões?
Não sendo justo que sejam os contribuintes a pagar o custo do comportamento indecoroso da Acusação e de tais veículos de desinformação, será plenamente justificável que sejam estes a arcar com as consequências das suas opções editoriais.
Como em tudo quanto se relaciona com o interesse público - mormente ao de ser corretamente informado em vez de manipulado - a culpa não pode morrer solteira. E o poder legislativo deverá criar condições para que algo de semelhante não possa voltar a ocorrer...
2. A notícia do record de produção de eletricidade por meios eólicos foi mais uma confirmação da justeza das políticas defendidas pelo governo de José Sócrates quando se apostou nas energias alternativas como forma de reduzir o mais possível o recurso à importação de hidrocarbonetos e de gás natural, conseguindo-se limitar o peso das importações e potenciar a redução das emissões de gases nocivos para a nossa atmosfera.
A pouco e pouco as estratégias lançadas para dinamizar a economia nacional, e abandonadas logo que passos & Cª chegaram ao poder, vão comprovando a sua importância. E o mérito de quem as promoveu...

Notícias do fim do apartheid

 A direita está triste porque acabou o apartheid. Eis o título da sugestiva crónica de José Vítor Malheiros inserida no «Público», onde defende a legitimidade de os partidos de esquerda se reunirem onde e quando quiserem e, sobretudo, o dever de António Costa em trabalhar nesta alternativa à governação da direita. Porque, doravante, os defensores da TINA (There is no alternative) nos diversos jornais e televisões não voltarão a ter o ensejo de chorar lágrimas de crocodilo pela impossibilidade de convergências à esquerda para justificarem os seus indisfarçáveis apoios à direita.
A esquerda no seu todo vive a oportunidade histórica de pôr de lado os sectarismos, que só à direita aproveitaram, e iniciar uma nova fase na vida política nacional.
É claro que, quer interna, quer externamente, será sujeita a grandes provas de fogo, mas, a conseguir manter a unidade em torno de alguns denominadores comuns fundamentais, poderá desmentir todos quantos já preveem a pasokização do PS e a perenização da direita no poder.
Até porque os tempos prometem vir a ser árduos para os schäubles e os seus discípulos: os resultados pífios de uma receita ideológica só suportada pelos medinascarreiras, que sempre surgem nestas ocasiões, obrigá-los-ão a ceder o lugar a quem já compreendeu serem outras as escolhas a fazer para que a Democracia não seja definitivamente esmagada pela visão estreita dos tecnocratas da troika. E a aspiração dos povos à liberdade é sempre mais forte do que as capacidades dos que lha querem sonegar...

A realidade desajustada da maioria das opiniões remuneradas

No meio de uma multidão de opinadores poucos se têm destacado pela argúcia com que olham para as dificuldades do PàF em formar governo e as expectativas de António Costa quanto à forte probabilidade de uma alternativa à esquerda. Há muita gente a adivinhar o logro em que aceitou participar a troco de remuneração e sentirá o desconforto de uma realidade bem diferente  da que propagandeara...

1. João Garcia tem sido um dos raros comentadores a olhar com lucidez para os acontecimentos subsequentes às eleições legislativas de 4 de outubro e aos esforços empreendidos por António Costa para assegurar uma alternativa viável. Na coluna da sua autoria na revista onde é diretor («Visão») ele constatou que o líder do PS “já passou de principal vencido a cabeça de cartaz.”
Para os que não cessaram de fustigar Costa por causa da suposta inabilidade com que gerira a campanha eleitoral, Garcia recorda os seus méritos na Câmara de Lisboa alertando: “perante este negociador experimentado, passos e portas sabem que não terão uma vida fácil se dependerem do PS para ficarem no Governo”.
Ciente de ser ele a dar cartas neste poker, onde a direita já se sente em vias de perder, António Costa revela uma tranquilidade, que desconcerta os adversários: “Navegando nestas águas agitadas, o líder socialista deixa o País suspenso das suas decisões. À saída das diversas reuniões não afasta hipóteses, ensaia um discurso construtivo, mostra-se como o homem do momento. Adia, não tem pressas, deleita-se com as expetativas que cria.
Seja qual for o Governo que vier a tomar posse, ele terá o dedo de António Costa e, muito provavelmente, o tempo de vida que mais convier aos desígnios do líder socialista”.
Está mais do que visto: quem na noite de 4 de outubro declarou a morte política do que foi tido como derrotado, estava a cometer um enorme exagero!
2. Costumo apreciar bastante os textos de Boaventura de Sousa Santos, que costuma enfatizar alguns sinais muitas vezes ignorados pelos media, mas prenunciadores de grandes mudanças sociais e políticas.
Desta feita ele olhou para as negociações entre socialistas com bloquistas e comunistas e concluiu: “O PS começou a aprender que quanto mais se parecer com a direita menos a direita precisa dele, e menos precisam dele os cidadãos e cidadãs que, inconformados com as suas políticas, começam a identificar alternativas à esquerda”.
O regresso do PS à sua matriz socialista, retirando-a definitivamente da gaveta, constitui a sua única alternativa para evitar a possível pasokização. Que, com um líder como Francisco Assis se aceleraria irreversivelmente ao ponto dele vir a ser o coveiro do seu Partido.
3. Perante os que teimam em defender a necessidade de deixar as coisas tais quais estão - com o poder a ser exercido pelos partidos do defunto (mas eles tardam em aceitá-lo!) “arco da governação” - João Cravinho lembra a grande mudança em curso no cenário europeu: “a desigualdade é hoje o maior problema para a sobrevivência da democracia”.
Ora, os que querem pô-la entre parêntesis durante um tempo para aprovarem as suas “reformas” esquecem que a realidade é tão instável, que até o Muro de Berlim perdeu a suposta inexpugnabilidade e caiu de um dia para o outro...

Um país que deixe de estar no diminutivo

Durante anos a direita andou a criticar o governo de José Sócrates a propósito da construção do novo aeroporto.
Projeto “faraónico” era o que alguns lhe chamavam. Paradigma da obsessão do antigo primeiro-ministro pelas grandes infraestruturas, diziam outros.
Bastaram quatro anos para a realidade confrontar os críticos do projeto com a sua congénita mesquinhez. O crescimento do movimento turístico para a grande Lisboa - muito por obra de António Costa, que a tornou numa das cidades mais trendy do momento! - fez com que, só em 2013, o tráfego aéreo para a Portela aumentasse 24,3%! Confirmou-se assim o retrato de um aeroporto a rebentar pelas costuras, como era afiançado pelos que defendiam uma urgente solução alternativa.
Agora, em desespero de causa, o governo prepara-se para transformar a base aérea do Montijo num terminal complementar destinado às companhias low cost.
Uma vez mais, em vez de olhar para o futuro e retomar o projeto, que tinha deitado para o lixo, a direita volta a apostar num remendo, mesmo sabendo como eles ficam invariavelmente mais caros.
Há gente que nunca aprende com os seus erros e, por coincidência, está sempre na direita do espetro político!
E, no entanto, como estaria o setor da Construção Civil se a aposta no novo aeroporto tivesse ido por diante, utilizando para tal fundos europeus?
Quantos engenheiros e operários teriam ficado em Portugal em vez de se sujeitarem à emigração?
Quantos empregos teriam sido mantidos graças aos materiais e serviços destinados a tal construção?
Nestes quatro anos tivemos o tal “país no diminutivo” de que falava Alexandre O’Neill num dos seus mais conhecidos poemas. Olhando para schäuble e interiorizando que “juizinho é que é preciso”.
É por isso que importa romper em definitivo com esta tenebrosa herança...

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A atualidade política com banda sonora

Enquanto a situação não se clarifica proponho hoje um momento de descontração em que associo os vários momentos políticos vividos desde 4 de outubro a diversas peças de música clássica, que lhes servem de banda sonora.
Trata-se de um exercício diletante, mas que poderá dar-vos algum prazer...


Há uns anos, quando perguntaram a santana lopes qual a peça musical da sua preferência, a resposta deixou desconcertados os mais melómanos:
- “adoro ouvir os violinos de Chopin” !
Os mais bem intencionados ainda foram à procura se, além das conhecidíssimas obras para piano, o compositor polaco chegara a compor alguma obra para violinos, mas se era esse o caso, só santana lopes detinha o respetivo conhecimento “especializado”!
Essa estória nunca mais deixaria de figurar entre as mais ilustrativas do ADN da direita nacional, quase sempre ignorante e chico-esperta.
Na altura, ao ponderar qual seria a minha resposta, não teria pejo em responder com a 7ª de Beethoven, mas vou começar por pegar noutra 7ª, a de Chostakovich, numa espécie de exercício sinestésico a respeito do momento político atual.
Convidando quem me lê a experimentar o link do youtube, que nos remete para o 1º andamento desta última obra - sobretudo para o trecho que vai dos 5´55” até aos 20’ - temos a banda sonora para o ocorrido às oito horas do dia 4 de outubro, quando as sondagens à boca das urnas davam uma vitória inquestionável para a coligação PàF.
Chostakovich, que compusera a obra durante o cerco de Leninegrado, ilustrava assim o movimento imparável das hordas nazis na direção da grande cidade do Báltico. Socorreu-se para tal de uma ária bem conhecida de Franz Lehar, que adaptou para sugerir esse avanço teutónico.
Os surpreendidos eleitores anti-PàF, que se deparavam com tais previsões, só podiam inquietar-se com o que lhes surgia como inevitável: uma derrota, que os precipitaria mais aceleradamente para o abismo vislumbrado nos quatro anos anteriores.
Voltando ao paralelo com o ocorrido na Segunda Grande Guerra, iniciava-se então o cerco de Leninegrado. É que, apesar de não terem conseguido, efetivamente, a vitória, os nazis já a celebravam de antemão, apesar de não ser ainda esse o entendimento dos sitiados. O mesmo ocorreu com os convivas dos festejos do hotel Sana por um lado, e os do hotel Altis por outro.
Nas horas e dias seguintes, esse cerco só se apertou com os sitiantes a proclamarem a inevitabilidade da rendição de António Costa e do Partido Socialista para «respeitar» os usos e costumes verificados até ali. E até houve a singularidade de alguns seguristas imitarem, dentro do perímetro cercado, os impulsos canibalistas de uns quantos habitantes de Leninegrado entre 1941 e 1944.
A História ensina-nos, que ocorreu, então, uma novidade: apesar de, ainda não envolvidos diretamente na Guerra, os norte-americanos começaram a fornecer mantimentos e armamento aos sitiados a partir de Murmansk, aproveitando o rigor do inverno  e o consequente congelamento das águas do lago Ladoga. Aquela que seria uma coligação improvável algum tempo antes, tornou-se condição sine qua non, para alterar a equação das forças em presença.
No momento presente estamos a viver aquele momento crucial em que os habitantes de Leninegrado recusam capitular perante a ameaça dos exércitos de Jodl e encontram aliados com que não contavam. Assim ocorreu aos socialistas com as propostas do Bloco e da CDU para a possibilidade de uma convergência de interesses e de deputados na Assembleia da República.
O esforço laborioso de António Costa por estes dias merece outra banda sonora, a da referida ao início como sendo a peça musical da minha preferência: o 2º andamento da 7ª Sinfonia de Beethoven (ouvir a partir deste link).
Essa expressão de um minimal repetitivo avant la lettre, constitui a melhor tradução musical de um esforço que se inicia para levar por diante uma tarefa difícil, mas concretizada com sucesso graças a muita determinação. 
Prosseguindo com essa ligação sinestésica entre grandes composições musicais e a atualidade presente, verifica-se que a orquestra virou a pauta do avassalador movimento das hordas teutónicas e já dá expressão ao som, bem mais esperançoso, do que resulta das negociações de António Costa com os Partidos à esquerda do PS.
É claro que alguns ainda pretendem retomar a pauta anterior - e a bacorita do CDS bem se esforçou ontem por o fazer em sete minutos de histeria argumentativa num dos telejornais! - mas já são movimentos desajeitados de quem sente o concerto avançar noutra direção e adotar outra pauta.
Posso confessar-vos a que gostarei de ouvir como corolário de toda esta situação? Nada melhor do que o regresso a Chostakovich para, através do seu Piano Jazz Suite nº 2 (ouvir a partir deste link), dar expressão a um país já liberto do austericídio a que tem sido sujeito.
Precisamos de uma toada assim, calma e harmoniosa, que nos devolva a um quotidiano onde as angústias deem espaço para o nosso direito à felicidade.

domingo, 18 de outubro de 2015

Os passeios exageradamente anunciados!

Uma das fábulas mais conhecidas de La Fontaine é a da lebre e a da tartaruga.
Na semana passada a candidatura de marcelo rebelo de sousa foi apresentada como se de lebre se tratasse, destinada a passear-se sem problemas até à meta. E, no entanto, sabe-se bem no que dão essas supostas acelerações! Na verdade é a esquerda a ter todas as condições para vencer as próximas presidenciais!


Na sequência da análise aos mitos com que nos pretendem embalar num discurso contrário aos nossos interesses, peguemos agora naquele segundo o qual as eleições presidenciais constituirão um passeio para marcelo rebelo de sousa.
Será assim? Não acredito, apesar de, como manobra de diversão, a direita ter igualmente apoiado e promovido a candidatura de maria de belém, esperançada em vê-la disputar os votos de quem mais teme vir a ser empossado como novo presidente: António Sampaio da Nóvoa.
A candidatura da antiga administradora do BES Saúde é tão representativa da promiscuidade entre as empresas farmacêuticas e a política (quem esquece as cumplicidades entre antónio josé seguro, de quem foi presidente, e a Associação Nacional de Farmácias?), que será decerto confrontada com a sua condição de lobista de interesses privados na res publica.
Teremos, assim, as candidaturas de Sampaio da Nóvoa, de Edgar Silva e de Marisa Matias a confrontarem marcelo com a sua indigência. Porque, para além da notoriedade auferida pelo comentário semanal na TVI, ainda por cima principescamente remunerada, que tem marcelo a oferecer aos portugueses?
Para as funções de Presidente da República pretende-se quem possua a independência face aos diversos partidos, que o facciosismo sempre assumido por marcelo não garante. Causticados por dois mandatos de um cavaco, sempre incapaz de se ver como «presidente de todos os portugueses», porque demasiado ligado aos interesses dos seus  comparsas (no PSD e no BPN), os eleitores não poderão esquecer as participações ativas de marcelo nas campanhas eleitorais e nas sessões de glorificação de passos coelho nos congressos do seu partido. Ele representa, igualmente, o que a grande maioria dos eleitores portugueses rejeitaram em 4 de outubro ao atribuírem à direita o seu segundo pior resultado de sempre!
Exige-se, igualmente, uma Visão quanto ao rumo a tomar pelo país. Ora não se conhece nenhuma ideia de marcelo quanto a esse futuro que deveremos  trilhar. Homem da corte, ou seja, especialista da «política politiqueira», ele poderá ser um exímio intriguista (vide a cena da «vichyssoise» com paulo portas), mas nada o habilita para a criação dos consensos tão necessários para os próximos dez anos.
É por isso que a triplicação de candidatos dispostos a confrontá-lo com essas suas limitações só pode ser uma boa notícia para a candidatura potencialmente vencedora de Sampaio da Nóvoa. Porque, reduzida a de maria de belém à estatura efetiva de tal criatura (e não!, não estou a falar da sua altura no bilhete de identidade!), o antigo reitor da Universidade de Lisboa passará com distinção o decisivo teste dos frente-a-frente com os candidatos da direita e poderá agregar os votos de toda a esquerda na segunda volta.
Deixemos, pois, que o primeiro milho seja para os pardais, porque a dinâmica da candidatura de Sampaio da Nóvoa não tardará a tornar-se naquela que, no final da contagem dos votos, prevalecerá!