segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O mal que nos têm feito à saúde

Um dos grandes mistérios dos últimos três anos foi a boa imprensa de que usufruiu paulo macedo à frente do Ministério da Saúde.
Se é certo que manuela ferreira leite tratara de o fazer sair do anonimato para cuidar dos impostos durante o governo de durão barroso, a sua subsequente passagem pela banca não lhe empalideceu o “brilho” apesar da barafunda que ia no BCP na altura em que era seu vice-presidente.
Nos primeiros anos do governo passos coelho os jornais iam desgastando a imagem de sucessivos ministros, mas havia sempre alguém a contrapor com a “excelência técnica” e a “competência” do titular do Serviço Nacional de Saúde.
E, no entanto, nunca perderam o pio os grilos falantes que lembravam o seu vínculo passado aos grupos económicos abalançados a investimentos na saúde privada pelo que não era nada inocente a sua indigitação para aquela pasta.
Durante três anos o orçamento de Estado foi minguando quanto aos gastos com o setor, mas continuavam a existir os cândidos defensores do ministro, que alegavam melhor gestão e ataque fero à corrupção e à promiscuidade entre médicos e multinacionais farmacêuticas.
Quando os ventos começavam a tornar-se-lhe desfavoráveis e veio o caso da legionella, que lhe permitiu segurar o barco ainda mais algumas semanas por muito que a eficiência demonstrada na resolução daquela crise pareça dever-se muito mais ao mérito do Diretor Geral da Saúde - no cargo há muitos anos, incluindo durante os  governos de José Sócrates - do que à ação de quem o tutela.
É por isso paradoxal, que a verdadeira face do setor tal qual paulo macedo o irá deixar comece agora a revelar-se com as urgências hospitalares a romperem pelas costuras, doentes sem serem vistos após horas de espera e mortes sucessivas a surgirem como corolário do caos instalado.
Constata por isso Correia de Campos na sua crónica semanal no «Público»: “De forma larvar começam a aparecer na Saúde as consequências do ajuste orçamental violento a que estamos submetidos desde há três anos e meio. Ainda sem resultados visíveis nos grandes agregados das estatísticas de mortalidade. Nem sequer nas de morbilidade ou de doença, essas mais difíceis de colher. Mas no desempenho dos serviços, ou seja, no funcionamento do SNS, que o Governo proclama defender até à eternidade.”
Agora as circunstâncias parecem tender para algo parecido com a Lei de Murphy com as más notícias a repetirem-se dia-após-dia (hoje foi por exemplo o estado deprimido da maioria dos técnicos do INEM!).
Defensor fanatizado da entrega do setor aos interesses privados, paulo macedo apostou fortemente nessa estratégia: “A solução fácil, mais uma vez, foi recrutar médicos sem ligação ao hospital, de empresas constituídas para fornecer esta mão-de-obra qualificada.”
No ano em que o Serviço Nacional de Saúde faz trinta e cinco anos de vida temos um setor com profissionais - quer médicos, quer enfermeiros, quer pessoal auxiliar - mal pago e desmotivados para que uns intermediários fiquem com a diferença entre o que lhes pagam e o que recebem do Ministério da Saúde.
Teremos, pois, um novo governo a contas com uma herança pesada na Saúde e com a necessidade imperiosa de alterar significativamente o rumo imposto por paulo macedo. Embora que, com cada vez mais camas disponíveis, o setor privado vá vender cara a sua urgente contenção... 

No rescaldo das emoções

Acabámos uma semana de muitas emoções por causa do sucedido em Paris. Nunca tinha passado tantas horas no canal France 24 para acompanhar, em primeira mão, a perseguição aos irmãos Kouachi, esperando um desiderato qualquer, que permitisse voltar às rotinas do dia-a-dia com a serenidade de quem não tem estímulo mais pertinente com que distribuir a atenção.
Não é que viesse a fazer diferença em relação ao conjunto de caricaturistas merecedores do nosso respeito e admiração, definitivamente silenciados, mas porque, a exemplo do sucedido com o 11 de setembro de 2001, adivinhavam-se sinais de mudança  nos nossos destinos europeus.
E, agora, ao iniciar-se uma nova semana e ainda no rescaldo da megamanifestação de Paris, talvez me mostre demasiado otimista ao prever a possibilidade de tal demonstração de defesa de alguns dos princípios fundamentais da nossa civilização vir a criar uma dinâmica capaz de redirecionar muitos dos caminhos políticos e sociais, que parecíamos condenados a trilhar, para trilhos bem mais consistentes.
À partida os próximos tempos irão responder a duas questões basilares:
- o ataque ao «Charlie Hebdo» corresponde a um aumento significativo da atividade do terrorismo islâmico, ou, pelo contrário, a um dobre de finados da  bárbara perversão prestes a ruir com sucessivas derrotas na Síria e no Iraque? Será possível que alguns dos seus alucinados se comecem a questionar sobre a sua vocação para mártires?
- terão razão os comentadores, que vendo marine le pen cavalgar oportunisticamente a onda de indignação causada por estes crimes, preveem uma vitória inevitável nas próximas presidenciais? Ou, pelo contrário, os últimos dias terão marcado a viragem nas percentagens de apreciação dos socialistas franceses, que se mostraram afinal tão eficientes a resolver este assunto em poucos dias?
Quero crer no crepúsculo acelerado do fanatismo islâmico, sobretudo se os países ocidentais investigarem a fundo o financiamento das atividades por ele alimentadas. Uma pressão persuasiva sobre os regimes do Qatar e da Arábia Saudita poderá ter resultados práticos muito palpáveis no futuro deste fenómeno repulsivo.
E também quero crer numa recuperação eleitoral de François Hollande e dos socialistas franceses de forma a impedirem o acesso da direita e da extrema-direita ao poder. É certo que Manuel Valls diz e faz coisas, que irritam quem do socialismo tem uma perspetiva  mais conforme com a sua História, mas quem sabe se as fortes experiências desta semana o iluminem com  doses acrescidas de sagacidade.
Mas esta semana também foi de clarificação entre dois campos inconciliáveis: os que se puseram incondicionalmente do lado do «Charlie Hebdo» e os que  quiseram ser «originais», condenando-o em nome do «mau gosto» de algumas das suas caricaturas.
Pessoalmente e, desde o primeiro momento, revi-me na posição de Salman Rushdie, que disse: “Ponho-me do lado do Charlie Hebdo, como é dever de todos, para defender a arte da sátira, que foi desde sempre uma força da liberdade contra a tirania, desonestidade e estupidez”.
Aos detratores restou-me invetivá-los com  o «Shame on you!»

domingo, 11 de janeiro de 2015

Existem soluções para o fanatismo?

Desde o terrível assassinato dos cartoonistas do «Charlie Hebdo», que a questão é objeto de debates em todos os jornais, rádios e televisões: como evitar a repetição deste tipo de crimes? Como  evitar a deriva terrorista dos jovens nascidos e criados nas democracias ocidentais e fascinados pela visão distorcida do Corão?
A extrema-direita francesa tratou logo de cavalgar a onda dos acontecimentos propondo a reposição da pena de morte e acabando com o espaço Schengen, como se os assassinos tivessem vindo de outro país, que não aquele onde cometeram os crimes.
Mas torna-se inevitável encontrar numerosos oportunistas sempre que alguma tragédia se produza: na manifestação de hoje em Paris também comparecerá o ditador Erdogan, que tem perseguido caricaturistas e limitado seriamente  a liberdade de expressão na Turquia. E, no entanto, ei-lo a desfilar a partir da Place de la Republique para homenagear os valores, que espezinha todos os dias no seu país!
Na sua coluna semanal no «Expresso» Pedro Santos Guerreiro refuta esse tipo de histeria: Fechamos as fronteiras? Fechamo-nos em casa? A resposta mais difícil está nas raízes do que leva jovens à loucura de matar, ao terrorismo. Não é deixando de fora como num gueto que ficamos cá dentro como num condomínio. Isso não existe. E se existisse, quereríamos?
Quer marine le pen, quer a maioria dos comentadores ouvidos por estes dias, “esquecem-se” do essencial: o caldo cultural, que fez dos irmãos Kouachi aquilo que foram nos seus trinta e poucos anos de vida foi a guetização onde sempre viveram ou a discrepância absoluta entre tudo quanto a sociedade à sua volta “oferecia” como produtos aliciantes sem jamais conseguirem o bastante para os adquirir. Uma das causas primeiras do fascínio exercido pelo islamismo radical junto de muitos jovens ocidentais tem a ver com o facto de lhes oferecerem um caminho possível de realização pessoal negado pela sociedade onde vivem.
Tendo por expectativas o desemprego e a miséria sem depararem com uma luzinha mesmo ténue ao fundo do túnel, eles agarram-se a quem lhes promete paraísos recheados de virgens com que possam satisfazer as frustrações sexuais.
No fundo é o capitalismo selvagem que, com as suas obscenas desigualdades e injustiças, lavra os campos para a sementeira dos ódios sectários.
Por isso mesmo, e apesar de ter sido causticada por relacionar os crimes do Charlie Hebdo com a austeridade, Ana Gomes tem alguma razão quando aponta a pauperização progressiva de camadas significativas da população como o terreno propício para novos atentados… 

sábado, 10 de janeiro de 2015

Bem prega frei Tomás!

Por ser sábado, hoje é daqueles dias em que, se acaso  tomarmos a opção de ver as notícias da noite na SIC, temos de nos apressar a utilizar o zapping para nos pouparmos à irritação  suscitada pela voz de marques mendes.
Muito embora vá conhecendo algumas das suas atoardas em segunda ou terceira mão, continuo sem compreender o sentido de o escutarmos como comentador político. Quem é ele para merecer essa distinção? O que fez de minimamente prestigiante para ser convertido num «senador» da República? Para além das assopradelas, que lhe encomendam para debitar como se fossem grandes novidades, que pensamento inovador caberá na sua quadrilátera cabeça?
E, no entanto, um sujeitinho cujo nome salta logo para as notícias quanto a envolvimentos em negócios mais do que estranhos - Tecnoforma, vistos gold entre os mais recentes - põe-se a proferir grandes juízos éticos e morais com ar presumido.
Vale a pena voltar ao ensaio «Os Facilitadores» de  Gustavo Sampaio - infelizmente publicado sem a repercussão merecida - para apreciarmoss mais alguns esclarecimentos sobre o conselheiro de cavaco silva.
Na página 85 do livro, o autor dá-nos exemplo do descaramento de marques mendes, quando aborda assuntos nos quais deveria ter em conta um óbvio conflito de interesses:  “marques mendes criticou o ‘péssimo exemplo’ dos contratos swap , não obstante ser consultor de uma sociedade de advogados especializada, precisamente, nesse género de instrumentos financeiros derivados.”
Cumpre-se com ele a máxima: «”Bem prega frei Tomás, olha para o que ele diz, não olhes para o que ele faz!”.
Noutro exemplo evidente de como marques mendes solta tiradas demagógicas num sentido condenatório para com os seus próprios atos, vale a pena ter em conta o que escreveu na sua crónica semanal na «Visão» sobre um dos negócios mais polémicos dos últimos anos: “antes ainda tivemos o cancro inacreditável das PPP rodoviárias onde o Estado se deu ao luxo de hipotecar por muitos e bons anos uma parte da saúde financeira do regime. “
Ora, enquanto elemento destacado da Abreu Advogados, marques mendes sabe perfeitamente que dois dos seus principais clientes - o Banif e o Novo Banco - são  acionistas de referência do grupo Ascendi, um dos mais envolvidos nessas mesmas PPP.
Noutro caso, o do BPN, marques mendes afirmou em abril de 2014 que “tanto durão barroso como Vítor Constâncio  estiveram mal. O BPN é um caso de polícia e foi mal feito ter sido transformado num caso de política.”.
Ora a Abreu Advogados está ligada ao BPN, ao BPN Imofundos e ao Siresp, entre outros e o próprio marques mendes individualmente com joaquim coimbra - um dos principais suspeitos no respetivo processo -, primeiro na direção geral do PSD e depois na administração da Nutroton Energias.
Foi em funções nesta empresa que o Fisco detetou vendas ilegais de ações  por ordem de marques mendes que terão prejudicado o Estado em 773 mil euros. Tais ações foram vendidas por 51 mil euros, mas valiam 60 vezes mais.
Ao contrário do que sucede com José Sócrates este caso concreto não carece de maior demonstração: os factos estão escarrapachados no livro de Gustavo Sampaio bastando ao Ministério Público inquirir o seu autor. Porventura para se lhe deparar com o que frequentemente sucede nestas situações: ele costuma invocar falta de memória” sobre os assuntos em que é desmascarado. Mas que a sua assinatura e a de joaquim coimbra estão evidenciadas nos contratos em causa ninguém o duvida.
Se calhar quem deveria estar na prisão de Évora, por muito melhores razões, era o comentador da SIC.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

IDEIAS: Como as democracias justificam o injustificável (3)

Não tenho grandes dúvidas quanto aos objetivos pretendidos pela acusação ao decidir-se pela prisão preventiva de José Sócrates.
Aviltar, dobrar a vontade, quiçá despersonalizar quem lhes cai na alçada, são estratégias tradicionais dos torturadores, quando procuram encontrar respostas para as perguntas, que julgam poder vir a ser respondidas pelo torturado.
O mês e meio que já dura esta infâmia demonstra cada vez mais que o ministério público não tinha consigo provas fundamentadas para levar o antigo primeiro-ministro a julgamento. E as “notícias”, que vai soprando para os jornais, só confirmam a frustração que os invade. Senão veja-se a suposta indignação com que reagiram às respostas escritas ao questionário formulado pela TVI. É que fazendo jus à sua forte personalidade, a vítima da prepotência está longe de se deixar quebrar pela injustiça cometida.
Vale a pena por isso lembrar como esta reação de José Sócrates é bastante incomum, denotando a excecionalidade da sua pessoa.
Para ilustrar a facilidade com que as vítimas sucumbem frequentemente à estratégia dos seus algozes abordemos a experiência levada a cabo por Philip Zimbardo em 1971, na Universidade de Stanford, quando quis testar as modificações dos comportamentos dos indivíduos em situações carcerais. Para tal escolheu vinte e quatro homens, que dividiu aleatoriamente em dois grupos: doze dos participantes fariam de carcereiros e outros doze de prisioneiros.
À partida todos sabiam tratar-se de uma experiência científica com uma duração de quinze dias. Mas, embora estivesse proibida a violência física foi muito rápido o surgimento de manifestações de sadismo por quem fazia de guardas e de descaracterização pelos que lhes deveriam obedecer.
O próprio Philip Zimbardo, que decidira fazer o papel de superintendente da prisão, sentiu-se influenciado pelas circunstâncias e a adotar comportamentos distintos dos que julgaria possíveis em si. Por isso mesmo, assustado com as consequências da caixa de Pandora entreaberta, decidiu abortar a experiência ao fim de seis dias.
As questões levantadas por quanto acontecera nas caves do Departamento de Psicologia da universidade californiana continuam a ser perturbadoras: será que, por natureza, somos potencialmente torturadores, tão só sejamos sugestionados pelas circunstâncias em que nos vejamos colocados? Existirá uma malignidade recalcada dentro de  cada um de nós?
Os psicólogos tendem a negar esta hipótese atribuindo o comportamento dos doze «carcereiros» a uma vulnerabilidade situacional, ou seja, a comportamentos induzidos pelas situações.  São estas que tendem a determinar os comportamentos e os humores. E algumas organizações  constituem ninhos maléficos onde a humilhação faz parte da cultura de quem as comanda. 
Em séculos idos a Inquisição era um bom exemplo desse tipo de realidade. Por isso era extremamente eficaz em conseguir confissões e condenações sumárias das vítimas atiradas para as suas fogueiras. Mas teriam alguma ponta de verdade o reconhecimento de culpa por parte de quem se sujeitava à galeria dos horrores, que eram as salas de tortura dos inquisidores?
A prisão preventiva existe para quebrar o indivíduo e «facilitar-lhe» a convicção com que assuma as culpas, que lhe querem imputar. Não se trata de esclarecer a verdade, mas tão só de humilhar o prisioneiro, intentando destrui-lo psiquicamente,.
Se é essa a pretensão do ministério público, bem poderão esperar sentados, que José Sócrates jamais lhes fará esse favor... 

Sociopatas entre nós

Houve comentadores das nossas televisões que realçaram o comportamento dos assassinos dos redatores do «Charlie Hebdo» como denotando um treino militar.
Não faltaram conjeturas sobre a forma como eles se deslocaram e a frieza com  que,  nas imagens transmitidas, dispararam à queima-roupa contra um polícia já prostrado no pavimento.
De repente parecia confirmar-se o cenário de terror alimentado nos últimos meses em como, regressados da Síria e do Iraque depois da previsível derrota do autodenominado Exército Islâmico, centenas de terroristas incendiariam todo o ocidente com atentados preparados e executados graças às competências ali aprendidas.
Os canais franceses, bem menos «coloridos» no modo como tratam deste tipo de assuntos, tendem a relativizar esse iminente apocalipse. Porque o suposto treino dos irmãos Kouachi não careceu de qualquer especialização em campos islamistas, bastando o facultado na prática do paint ball.
E isso é tão verdade, que se corrobora numa memória pessoal recente: há uns anos participámos num passeio ao ar livre que se iniciou junto à estação fluvial da Trafaria, subiu à Raposeira e percorreu toda a arriba fóssil até à Costa da Caparica, passando pelos canhões antigamente dedicados à proteção de toda a zona costeira entre o Cabo Espichel e o Bugio.
Íamos em grupo umas vinte pessoas quando, precisamente nessas antigas instalações militares hoje em ruínas, demos com um numeroso grupo de praticantes de uma atividade «lúdica» do tipo daquelas em que se inscreve o «paint ball». Uniformizados com camuflados e armados com espingardas  «brincavam» às guerras, ficando notoriamente agastados pela interrupção, a que os obrigávamos.
Passando tão rapidamente quanto possível pela zona sem com eles  interagirmos, não deixámos, já quando os tínhamos pelas costas, de  ser visados com uma pedra que, se tivesse acertado em qualquer de nós, causaria decerto danos físicos consideráveis.
De repente tínhamos dado com uns energúmenos como só sabíamos existirem através de algumas reportagens jornalísticas, que tendem a dar-lhes estatuto de normalidade. Porque quem se diverte em jogos de guerra não é propriamente um menino de coro. Não é difícil imaginar que os sociopatas neonazis encontrem neles uma forma de ocuparem o tempo a seu gosto, sonhando com atos gloriosos num futuro mais ou menos indefinido, onde a caça ao «preto», ao «monhé» ou ao «comunista» se torne prática aceitável.
Porque a diferença entre os neonazis e os fanáticos islamistas é nenhuma - ambos correspondem às vertentes mais abjetas de como o fascismo persiste nos nossos dias - é muito natural que tais atividades sejam bem mais perigosas do que alguns as querem considerar.
Muito embora surjam notícias contraditórias sobre uma eventual deslocação dos Kouachi à Síria para se treinarem para o atentado desta quarta-feira, bastava eles integrarem-se num grupo de gente «divertida» como a encontrada nas falésias sobre as praias da Cova do Vapor para ganharem a «habilidade» e a «frieza» com que mataram Charb, Wolinski, Cabu e os outros nove assassinados na sede do «Charlie Hebdo». 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Je suis Charlie!

Nos últimos três anos  habituei-me a ter como um dos mais estimulantes programas de debate político o «28 minutes», que  passa de segunda a sexta no canal franco-alemão ARTE. E, no último dia da semana, quando diversos assuntos costumam ser analisados no chamado «clube dos intelectuais» a apresentadora do programa, Elisabeth Quin, recorre igualmente a um caricaturista para ir enriquecendo o fio da conversa.
Quase sempre são jornalistas do «Charlie Hébdo» a cumprirem essa função, entre eles o seu diretor, Charb, um dos mais assíduos.
Na centena e meia de semanas mais recentes têm sido muitos os sorrisos, e até mesmo as gargalhadas, suscitadas pela capacidade em bastarem-lhe alguns traços e meia dúzia de palavras para, sibilinamente, comentar com imensa graça a realidade ou quem a comenta. Jean Quatremer, do «Libé», foi em estúdio dos mais visados pela sua pluma aguçada...
Foi assim até esta manhã já que, pelas nossas  dez e meia, dois assassinos quiseram-no calar, juntamente com outros grandes cartoonistas do mesmo jornal, entre eles Cabu e Wolinski, que admirava há tantos anos nos muitos jornais e revistas onde pude acompanhar os seus estilos inconfundíveis.
Tratando-se de um crime hediondo suscitado pelo fanatismo religioso, este acontecimento mais confirma a justeza do que há muito acredito: uma das piores doenças da humanidade é a de nela ainda existirem religiões. Em nome dos respetivos deuses temos cristãos, protestantes, muçulmanos, hindus, budistas e sectários de outros credos a matarem-se entre si e, pior ainda, a vitimarem quem nem sequer alinha por nenhum  deles. Porque acreditar num qualquer deus e por ele matar , mais do que dá razão a Lenine quando menosprezava  os sentimentos religiosos como ópio do povo impeditivo de se libertar das grilhetas da ignorância e da passividade perante a exploração.
Em «O Nome da Rosa» os crimes no mosteiro eram da autoria de um monge apostado em não permitir a divulgação da «Comédia» de Aristóteles. Eco mostrava que todos os fanáticos têm um ódio visceral ao que possa fazer rir.
Nos dias de hoje essa constatação mantém-se: o único crime de Charb e dos amigos com quem partilhava a criação de um jornal, que tanto prazer dava semanalmente aos seus leitores, era fazê-los pensar enquanto riam.
Os fanáticos querem-nos tirar tudo isso: a liberdade de expressão, de pensamento, até mesmo a de termos prazer em viver.
Não têm por isso mesmo qualquer perdão. Bárbaros são, como bárbaros assim morrerão... 

Falsos gurus e justas indignações

Como de costume, a opinião política hoje emitida por Augusto Santos Silva na TVI24 teve o brilhantismo intelectual, que não se encontra em quase nenhum outro comentador regular dos vários canais.
Quem alimenta o mito da “inteligência” do professor marcelo deveria compará-la com a do ex-ministro socialista para perceber aquilo a que o escritor Mário de Carvalho qualificou um dia como a diferença entre «género humano e manuel germano».
Vamos, então, por partes, começando com as notícias mais recentes sobre o envolvimento da PT com a Rioforte, que demonstram a aparente ligeireza com que se tomaram decisões de gestão de resultados desastrosos.
Para Augusto Santos Silva há algo a constatar: o maior problema das empresas nacionais não são os alegados custos de produção ou de contexto (energia, burocracia, etc.) mas a facilidade com que pessoas competentes tomam decisões de gestão, que se revelam nefastas para as entidades que representam. Embora  seja um mito difícil de ser neutralizado, importa acabar de uma vez por todas com a tese de existir uma elite de gestores brilhantes a quem os portugueses se deverão render, como se fossem irrepreensíveis.
É uma evidência colhida dos anos mais recentes, que nem as empresas privadas são melhor geridas do que as do setor público, nem a política deve ficar subordinada aos “interesses” do mercado ditados por esses falsos “gurus”.
Passando para a decisão de António Costa em iniciar o ano apresentando cumprimentos aos partidos políticos e aos parceiros sociais, Augusto Santos Silva viu grandes vantagens:
- a facilidade com que as televisões e os próprios cumprimentados já veem António Costa como o próximo primeiro-ministro de Portugal, tratando-o como tal;
- a evidente centralidade do PS na vida política portuguesa por  não se imaginar mais ninguém capaz de ser suficientemente eclético para conseguir dialogar com interesses à partida tão antagónicos;
- a demonstração perante os eleitorados do PCP e do BE, que a rejeição ao diálogo parte daqueles com que tendem a simpatizar, porquanto, na forma, António Costa surge na predisposição contrária até ao rejeitar essoutro mito a derrubar, o da falaciosa expressão de «partidos do arco da governação»;
- a criação de uma disputa conjugal entre os partidos da coligação de direita por causa daquela suposta plataforma de diálogo permanente entre o PSD e o PS, excluindo o CDS. Na prática a repetição da ideia já proposta em agosto de 2013 quando, na sequência da decisão revogável de paulo portas, os dois partidos da direita acordaram com uma plataforma de contornos semelhantes. O que já demonstrou não valer um tostão furado para eles, queria agora marco antónio costa recauchutar como «coelho» saído da cartola numa reunião, que sabia incómoda;
Após a abordagem sobre a eventual vitória do Syriza nas eleições gregas - que deveria ser encarada como natural por quem se considera democrata - Augusto Santos Silva ainda abordou o que se está a passar com José Sócrates estranhando que, passado mês e meio sobre a sua detenção em Évora, ainda nem ele, nem o advogado, conheçam os fundamentos para o manterem em tal situação. Quem perante tão estranha forma de gerir o caso, não sentiria toda a legitimidade para se indignar perante quem protagoniza a Acusação?

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Tomar a iniciativa, marcar a agenda

Consoante o dia da semana assim vamos tendo diversificados prazeres intelectuais ao vermos ou lermos abordagens políticas com que nos identificamos.
Em televisão temos às terças feiras Augusto Santos Silva na TVI 24, às quintas A Quadratura do Círculo e nas madrugadas de domingo O Eixo do Mal na Sic Notícias, às quartas o Sem Moderação no Canal Q. E tiraram-nos obviamente a satisfação de ouvir José Sócrates aos domingos na RTP.
Nos jornais vão surgindo colunistas particularmente interessantes como Pedro Silva Pereira no «Económico», Fernanda Câncio no «DN»  ou Pedro Adão e Silva no «Expresso», mas de todos eles o que  mais me costuma entusiasmar é António Correia de Campos no «Público» ás segundas-feiras.
No texto de hoje, depois de dar conta da sua visita a Sócrates em Évora, ele alerta para a necessidade de não deixarmos de lutar sem tréguas pela vitória nas próximas legislativas. E coloca essa luta até no plano da satisfação individual: Quem pense que basta deixar correr os nove meses que faltam envelhece mais depressa. Perdeu o combate contra si mesmo, antecipou a perda da imortalidade.
Outro aspeto interessante no seu texto tem a ver com a possível vitória do Syriza na Grécia e as vantagens, mesmo que mínimas, que dela possamos retirar: Seria pelo menos interessante que os pressupostos do erro europeu fossem questionados. Que o BCE, finalmente disposto a injetar liquidez nos mercados para tamponar o esgoto da deflação, o conseguisse. Que os credores levassem a sério os economistas gregos autodenominados de marxistas, e aceitassem negociar inovações em troca da conclusão de reformas apenas esboçadas.
No mesmo jornal o historiador Rui Tavares reporta-nos o que Mario Draghi diz numa entrevista à imprensa alemã e que estabelece diferenças significativas com o que angela merkel anda a fazer. O mais alto responsável pelo BCE prevê três fases de intervenção no futuro próximo: Primeiro: haverá  ação para combater a deflação na Europa, provavelmente comprando dívida dos estados já no mês de janeiro. Segundo: não haverá saídas da zona euro, nem depois das eleições gregas. Terceiro: um dia será necessário falar de eurobonds, mas só depois de construir confiança entre os parceiros europeus.
Deste início de semana também é notícia a iniciativa de António Costa apresentar cumprimentos a diversos partidos e organizações sindicais ou empresariais, que o associam à imagem de quem conduz os acontecimentos. Como marcelo ontem reconheceu, perante uma direita abúlica na sua falta de estratégia para conduzir os destinos dos portugueses, António Costa ocupa inteligentemente esse vazio. E não se fica por aí: na Assembleia da República o Partido Socialista prepara-se para apresentar propostas legislativas relacionadas com a violência doméstica e com as desigualdades sociais marcando a agenda!
E o primeiro daqueles temas é tanto mais relevante quanto se conhecem estatísticas em como 398 mulheres portuguesas morreram na última década, vitimadas por tal tragédia social, 42 das quais em 2014. Estamos pois numa situação de emergência, que justifica bem a importância a ela conferida na iniciativa de fazer-lhes ler os nomes por Maria do Céu Guerra no mais recente congresso socialista. 

IDEIAS: Como as democracias justificam o injustificável (2)

O tema da tortura continua na ordem do dia. Em primeiro lugar, porque quem mais recentemente o teorizou em Portugal está agora preso em Évora sujeito à prepotência de certos poderes, que anteriormente criticara. Depois, graças ao elucidativo relatório do Senado norte-americano sobre as práticas seguidas pela CIA e outras instituições norte-americanas ligadas ao combate contra o terrorismo.
Os acontecimentos recentes ocorridos entre nós perpetrados por alguns magistrados, e os anteriores, verificados nos EUA na sequência dos atentados do 11 de setembro, demonstram bem como as democracias perdem facilmente a legitimidade moral ao incorrerem em práticas, que os seus princípios fundamentais condenam.
Um dos exemplos mais perversos de como se andou a manipular a opinião publica mundial para a aceitabilidade da tortura enquanto método de interrogatório de presos políticos - mesmo quando ligados a organizações terroristas! -aconteceu com a série televisiva «24 horas».
Quantos espectadores, que afiançariam ser de esquerda, andaram entusiasmados com as façanhas de Jack Bauer? É que todos os episódios eram excelentemente realizados para criar ansiedade em quem os via gerando uma recetividade acrítica ao uso sistemático da tortura.
Recordemos uma cena em particular da sexta temporada da série: aquela em que uma bomba nuclear já explodiu em Los Angeles e ainda mais quatro estão por deflagrar.
Os autores do atentado são o pai e o irmão do protagonista e ele consegue prender este último. Numa situação mitológica - a de Abel contra Caim, que vai ao encontro dos arquétipos estruturantes da nossa moral, - Jack tortura o irmão, interpretado pelo excelente Paul McCrane, para evitar a morte de milhões de pessoas.
Se naquele momento parasse a imagem e alguém perguntasse a quem via tal cena se deveria ou não recorrer-se a todos os meios para  evitar o mal maior, dificilmente haveria quem tivesse a coragem de invocar os princípios para alertar quanto aos limites a serem respeitados.
A série contribuiu de facto para dar verosimilhança a uma  autêntica vigarice ideológica: a da «bomba de retardamento»: aquela que justifica a tortura como ato desesperado para evitar um atentado a um local, por exemplo uma escola, onde pudessem estar os nossos filhos. Quem não faria tudo - o legítimo e o ilegítimo - para lhes evitar qualquer perigo?
Foi essa vigarice, que o 11 de setembro suscitou, e permitiu espezinhar a legislação internacional sobre a forma como se tratam os prisioneiros capturados em cenário de guerra.
Para criar uma cultura de permissividade para com a tortura cria-se um enquadramento exagerado, que, explorado emocionalmente até ao paroxismo, permite tudo aceitar.
A série leva a perversidade ao ponto de apresentar como bom o torcionário que tortura: a exemplo de Le Pen, que abordáramos em texto anterior, Jack Bauer adota a postura sacrificial de ser aquele que “suja as mãos” para salvar a comunidade. 

Então, não é mesmo que o país está bem melhor?

Nos últimos dias têm surgido diversas estatísticas, que mostram como o país está bem melhor (sic) graças ao sucesso das políticas lideradas por passos coelho:
- é decerto, porque o governo teve políticas ativas de prevenção rodoviária que o número de vítimas mortais em 2014 regressou aos níveis de 1950. São muito mal intencionados aqueles que pensam numa explicação relacionada com muito menos tráfego nas estradas por escassear o dinheiro nos bolsos das pessoas para que o possam gastar em combustível com atividades de lazer.
- é decerto por haver uma notória melhoria na qualidade de vida dos portugueses, que voltou a verificar-se uma redução significativa das crianças com direito a abono de família ou de idosos com complemento solidário. Terá sido para quem nega estes factos, que cavaco silva alertou contra a demagogia de alguns políticos, quando proferiu o discurso de ano novo.

domingo, 4 de janeiro de 2015

O chaço

O pior navio que tripulei foi o «Aurélio C», então pertencente a um efémero armador da nossa decadente marinha mercante. Estava-se em 1991 e quando a minha mulher foi ter comigo ao cais da Trafaria aonde acabara de atracar, vindo de Viana do Castelo, confessou ter-lhe caído o coração aos pés.
De facto esses cinco meses em que ali fiz os possíveis para que ele nunca ficasse inoperacional - e, só tivemos de parar uma vez durante três horas na Biscaia para resolver uma avaria! - foram os que melhor me deram a noção dos chaços carregados de ferrugem, que garantiram algumas das melhores páginas dos escritores Joseph Conrad e Álvaro Mutis, conhecidos pelos romances sobre ambientes marítimos.
Foi a tão inolvidável experiência de vida, que regressei ao ver os navios em fim de vida utilizados pelos traficantes para deixar à deriva centenas de desesperados nas águas do Mediterrâneo.
Se ainda existisse o «Aurélio C» não me admiraria vê-lo assim utilizado…

Um silêncio muito ruidoso

Já passaram mais de vinte e quatro horas sobre as respostas de José Sócrates às questões colocadas pela TVI e paira um silêncio muito embaraçoso sobre todos quantos estiveram na primeira linha dos ataques, que lhe eram dirigidos.
Os principais jornais do país fizeram dessas declarações assunto de primeira página, mas o pasquim matinal do grupo Cofina quase ignorou o assunto ou tratou-o da forma vil, que lhe é habitual. Quanto aos sindicatos de juízes e de magistrados também não houve reação apesar de estarem bem explicitas as críticas à forma como alguns dos seus associados andam a enlamear a imagem da Justiça.
O único indício de uma reação da acusação veio no «Diário de Notícias», que aceitou ser porta-voz do seu cobarde comportamento ao colocar a possibilidade de um inquérito crime ao antigo primeiro-ministro por violação do segredo de justiça. Mas foi «notícia» para testar reações, porque quem a «soprou» tem a noção do topete que seria  endossar tal acusação a Sócrates, quando ele tem sido tão prejudicado por quem o difamou nestas cinco semanas com supostas peças retiradas do processo.
Sobram, pois, as reações de quem apoia a vítima de todo este iníquo caso, aumentando o clamor de indignação, que ele provoca.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Laranjas podres

1. O inquilino de Belém cumpriu calendário e debitou discurso por ocasião  do início do novo ano.
Houve quem o ouvisse e até o comentasse!
Que absurdo! Haverá algo de proveitoso a recolher das palavras de um dos principais responsáveis por tudo quanto os portugueses têm sofrido nos últimos três anos?
Para a História cavaco ficará não só como o pior presidente da república, mas também como o cúmplice ativo do pior governo da nossa democracia.
2. Parece que o PSD não está entusiasmado com a ideia de renovar a coligação com o CDS. A decisão, segundo alguns afiançam, dependerá da evolução das sondagens. Mas poderá ter outra razão mais pertinente: muitos dos que rodeiam passos coelho e não têm onde cair mortos depois de concluído este ciclo político, verão nos lugares de deputados uma alternativa aliciante. Para quê dividi-los com um CDS, que já perdeu a aura de partido dos agricultores, dos pescadores, dos contribuintes ou dos reformados?
3. Em vésperas de sair da chefia do governo regional alberto joão jardim ainda aprovou mais uns avultados subsídios para uns quantos amigos. E, no entanto, a impunidade de que goza continua a ser um mistério. É que há quem esteja a ocupar indevidamente uma cela em Évora, que faria maior sentido ser ocupada por  muitos jardins que por aí pululam!


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

De Évora veio o contra-ataque

Entramos para o primeiro fim-de-semana deste ano com o ansiado contra-ataque de José Sócrates, manifestamente à altura do que todos quantos acreditamos na sua inocência esperávamos. Como ele tinha prometido, ainda agora vamos no começo de toda uma intriga, que visou assassina-lo politicamente, mas cada vez mais se direciona para um certeiro tiro de ricochete contra quem a congeminou.
Neste blogue tenho reiteradamente manifestado a crença na inocência do antigo primeiro-ministro e o carácter político da infâmia cometida por quantos o decidiram deter e calar numa cela da prisão de Évora.  Quem é suficientemente inocente para acreditar na coincidência dessa detenção com a abertura do XX Congresso do Partido Socialista e a aclamação de António Costa como novo líder?
As respostas às perguntas colocadas pela TVI foram tão eloquentes, que só reafirmaram a urgência de pôr termo à presente humilhação e de, em fase ulterior, apurar e fazer condenar os responsáveis por tão grave atentado à liberdade de um cidadão.
Se se compreende que a direção do Partido Socialista mantenha a expectável postura institucional  não questionando o comportamento da justiça em nome da separação de poderes, outra poderá e deverá ser a de milhares de cidadãos indignados com tudo quanto se tem passado com José Sócrates desde 21 de novembro, não permitindo que a culpa fique solteira.
Ao contrário das absurdas afirmações de maria josé morgado, tudo se conjuga para este caso contribuir para o desmascaramento de uma fação de magistrados apostados em intervirem ilegitimamente na vida política do país, tudo fazendo para incriminar e fazer condenar socialistas enquanto arquivam dossiers mais do que suspeitos quando capazes de comprometerem políticos da direita!

Quem define o quando e o como

E no último dia do ano António Costa foi visitar José Sócrates. Acabou assim com mais um tabu, que lhe quiseram colar, mas desfeito quando e como entendeu.
É a isso que os jornalistas e a direita, que a quase todos norteia, já se deveriam ter habituado. Bem podem exigir programas antecipadamente, respostas para isto ou para aquilo, que o líder do Partido Socialista tem a plena noção do momento certo para dar cada um dos passos necessários até chegar a setembro e conquistar uma maioria significativa de votos nas legislativas.
A experiência já demonstrou a falta de escrúpulos da direita na criação de casos onde não existem. Os próximos tempos virão aferir se um deles não será a forma como um setor da magistratura lançou este ataque à dignidade e ao bom nome de José Sócrates.
O problema para os que dão tratos à cabeça para saberem como poderão pôr em causa o prestígio de António Costa é não conseguirem encontrar munições eficazes para o alcançarem. Por agora vão-se concentrando na utilização da narrativa sem pés nem cabeça, que criaram em torno do antigo primeiro-ministro (é a versão passos coelho com os remoques sobre o “enriquecimento ilícito”) e em elogios enfáticos à política do governo (é a escola josé gomes ferreira). Sem esquecer a porfiada tentativa de ana lourenço em querer dar de António Costa a imagem de não saber o que ele propõe, sempre que apanha um entrevistado a jeito para lançar esta reiterada farpa envenenada.
Muito experiente e arguto, António Costa mostra-se dono do seu calendário e por isso põe a direita na defensiva. É que, quando ela o quiser atacar nas propostas a apresentar, dificilmente conseguirá passar o teste da credibilidade inerente a contrapor com aquilo que já demonstrou não querer nem ser capaz...