domingo, 12 de agosto de 2012

Quando a China aterrar ...


Estará a desfazer-se o mito do crescimento chinês, que tenderia a levar o grande país asiático a ultrapassar os EUA em criação de riqueza?
A realidade parece comprová-lo de acordo com a reportagem de Ursula Gauthier para o «Nouvel Observateur» de 2 de agosto:
Dezenas de aeroportos novos e vazios, linhas de TGV sem passageiros, vastas redes de autoestradas desertas, milhares de prédios públicos faraónicos para abrigar quanto muito uma câmara municipal, cidades fantasmas, fundições de alumínio novinhas em folha e paradas…
Nos portos acumula-se carvão importado em silos e nos cais. O nível dos stocks chegou a tal dimensão que os navios têm de esperar cada vez mais tempo para conseguirem descarregar a sua carga.
Nas províncias do interior, aonde se produz carvão, replica-se o mesmo cenário de quantidades impressionantes alinhadas ao longo das estradas e preenchendo os terrenos outrora vagos.
A China perde velocidade. As autoridades voltaram a baixar os juros pela segunda vez em menos de um mês para impulsionarem o consumo.
Já se sente pânico em Pequim, onde reina o dogma dos 8% de crescimento sem o qual se arrisca o caos pela impossibilidade de se criarem suficiente emprego para os milhões de jovens camponeses apostados em abandonarem a sua escravidão, trocando-a pela promessa de vida mais fácil na cidade.
É fácil comparar o país de Mao a um enorme avião, que parecia pairar sobre os continentes sem que nada o pudesse atingir. Agora não sobram dúvidas quanto a estar a perder altitude: Alguns comentadores já se interrogam se a China irá aterrar suavemente ou catastroficamente.
E, no entanto, não é difícil adivinhar a origem desta situação:  a quebra nas exportações. O motor principal do sucesso chinês - representativo de 40% da sua atividade económica - foi atingido violentamente pela crise na zona euro.
Tudo começou em 2008, quando a crise financeira deu o primeiro golpe nas exportações. Para manter os níveis de crescimento as autoridades decidiram abrir então as válvulas do crédito bancário. E, como a China vê tudo em grande, provocou a mais gigantesca inundação financeira da história humana.
Esse fluxo de dinheiro fácil alimentou milhentos investimentos de rentabilidade duvidosa. E um frenesim imobiliário que suscita uma especulação desenfreada.
Resultado: enormes fortunas obtidas em poucos meses, uma corrupção galopante, uma inflação que tornou impossível à classe média a compra de apartamento.
Como a economia alicerçou a sua estratégia no setor imobiliário, a sua explosão arrisca provocar um massacre. O país cobriu-se de uma incrível vaga de construções. Estaleiros a perder de vista com operários a trabalharem noite e dia, sete dias por semana.
Hoje numerosos estaleiros param ou trabalham devagar, com as equipas a só trabalharem oito horas e a descansarem um dia por semana.
A explosão desta gigantesca bolha financeira, segundo alguns à beira de ocorrer, ameaça pôr um ponto final nos trinta gloriosos anos chineses.
No entanto a China acaba de anunciar a construção de setenta novos aeroportos para reavivar o seu crescimento. Para Andy Xie, economista que previu diversas crises dos últimos anos comenta que isso equivale a matar a sede bebendo peixe...

sábado, 11 de agosto de 2012

UM FESTIVAL A QUE VALERÁ A PENA IR


No próximo fim de semana todos os caminhos vão dar a uma aldeia próxima de Tomar, Cem Soldos, aonde decorrerá o festival Bons Sons dedicado à música portuguesa.
Liderado pelo designer Luís Fonseca, o evento cumpre à risca o que a mãe dele costuma dizer: Barco que não tem rota, não aproveita vento algum. E expressa o seu inconformismo com certas ideias feitas: Chateia-nos essa ideia de que o futuro está na cidade e que o passado está na aldeia.
Rejeitando qualquer conotação da música portuguesa com a cultura pimba tão pródiga neste querido mês de agosto, o festival junta a sinergia da maioria dos aldeãos, motivados para todas as tarefas necessárias aos quatro dias de concertos orientados para a contestação dos valores dominantes. Como afirma o líder de um dos grupos a atuar (os Batida) a política está completamente cega com números, e nos números não existem pessoas, apenas zeros e uns.

Cosmopolis vs. 4:44



Na semana em que se estreou o mais recente filme de Abel Ferrara, sobre a forma de reagir ao apocalipse (4:44 Último Dia na Terra), vale a pena colocá-lo em paralelo com um dos grandes títulos do ano em curso - Cosmopolis de David Cronenberg - apesar do pouco entusiasmo da crítica a respeito de qualquer deles.
O que está em causa é a representação de uma era tal qual a conhecemos. Para Ferrara sem qualquer hipótese de redenção, já que o final será inexorável. Mas, para Cronenberg, ou melhor ainda para Don DeLillo, o autor do romance, é o capitalismo financeiro, que está a conhecer o seu dobre de finados. Sem significar o fim da sociedade humana, que saberá ser resiliente a mais um desafio...
É certo que não se propõe qualquer alternativa, seja utópica, seja distópica. Mas o mundo, tal qual é visto pelos donos de Wall Street ou da City londrina, já não consegue ser reformatado á luz dos seus desejos. Há demasiado desespero e miséria à solta pelas ruas das grandes cidades. Tornando inevitável a iminente ultrapassagem da presente fase de abulia em algo de intensamente revolucionário.
O que o personagem interpretado por Robert Pattinson representa é a incapacidade em estabelecer qualquer ponte com a realidade concreta, quando ruem os cenários virtuais em que assentou todo o seu sucesso.
E se o mundo financeiro acreditou que bastaria mudar de continente substituindo pigs por brics, o som gripado do motor movido pelas transações bolsistas a par da redução dos índices de crescimento chinês, indiano ou brasileiro aí estão a comprovar que foram as receitas destinadas a suscitar desigualdades obscenas entre ricos e pobres, que estão a fazer tombar os instáveis castelos de cartas sobre que repousavam todas as suas certezas.
Os anos que virão podem parecer inquietantes para muitos - a começar pelos jovens, que não encontram emprego - mas prometem ser assaz interessantes para quem os estudar sociologicamente num futuro distante...

OS CONFUSOS FANTASMAS DO PASSADO



Uma das principais condições para que se inflita o rumo da História humana, recolocando-a nos carris progressistas direcionados a uma maior justiça e igualdade entre os cidadãos, é a emergência de uma cultura imbuída de tal objetivo.
Uma Revolução Cultural é condição sine qua non para que as batalhas sociais atualmente em curso conheçam novos vencedores. É por isso, que seja na Literatura, no Cinema, na Música, na Filosofia ou nas Artes Plásticas se impõe a erradicação dos que pretendem a afirmação da arte pela arte e se valorize quem se preocupa com a utilidade da sua expressão. E para quem esses objetos artísticos são vocacionados!
Esta a razão para estarmos atentos a todas as obras, que possam encarnar esta última perspetiva.
Ora as coincidências deram-nos ensejo para conhecer um livro e um filme que, embora bem intencionados, constituem uma verdadeira desilusão.
«Gaiola de Fantasmas», primeiro romance da deputada bloquista Cecília Honório, até começa por criar um contexto interessante: um governo de direita, validado pela maioria absoluta de umas recentes eleições, surge disposto a cercear o mais possível as liberdades coletivas. A figura de proa de tal Governo é o ministro da defesa, um conhecido, mas não assumido homossexual, comprometido com a compra de uns desnecessários submarinos. Mesmo tendo o cuidado de lhe dar uma aparência aloirada, qualquer leitor, mesmo desatento, sabe bem de quem estamos a falar.
No meio dessa dinâmica autocrática, uma mulher morre e uma amiga jornalista tenta compreender o sucedido através do diário, que dela recebera. E é aí que a porca torce o rabo, porque, em vez de garantir uma linearidade nos tempos históricos  da ação, Cecília Honório decidiu misturar tempos acentuando a confusão em que o leitor se sente mergulhado.
Levará demasiado tempo a compreender se Mariana se terá suicidado ou sido assassinada pelo seu envolvimento na morte do Ministro da Segurança Social, que a assediava sexualmente.
E o título em si remete para a semelhança facial entre este mesmo ministro ou o padre conhecido por Mariana, quando ainda criança, e o tenebroso ditador de Santa Comba, que continua a assombrar os imaginários coletivos.
Esta mesma intriga poderia, e deveria, ter sido explorada de uma forma  bem mais clara, ganhando em eficiência e prazer de leitura para quem afinal se sente meio perdido durante quase toda a descoberta do romance.
Menos confuso, mas igualmente aquém da eficácia pretendida, é o filme «Águas Mil», que Ivo Ferreira rodou em 2009. O passado, que assombra o protagonista é mais recente - o da luta armada subsequente ao 25 de Abril - mas sem o questionar ou desenvolver para além dos seus contornos mais estereotipados.
À partida temos Pedro, um jovem encenador teatral em vias de ser pai, que empreende uma viagem até Espanha para tentar compreender o sucedido com o progenitor a quem perdeu de vista mais de um quarto de século atrás.
À medida que ele, os amigos e os familiares se sucedem a percorrer as várias etapas da viagem, compreende-se que Eduardo estava envolvido com Chico e Abafa no rapto de um industrial com propósitos semelhantes aos de movimentos de extrema-esquerda da época. Mas as coisas tinham dado para o torto e Eduardo torna-se, no entendimento dos cúmplices, num traidor da luta por uma sociedade diferente. E terá de ser eliminado.
Só mediante a clarificação desse passado em que participara sem nada compreender (Pedro era uma criança muito pequena, quando assistira aos acontecimentos em causa!) é que a peça de teatro em preparação se acaba por se exequibilizar.
Mas sobre este tema - o da traição! - nenhum outro filme conseguiu alguma vez situar-se ao nível do excelente «A Estratégia da Aranha» de Bernardo Bertolucci. Mas Athos Magnani é personagem de exceção, que acontece uma vez na vida de um abençoado criador…
Temos assim um filme e um livro, que desejaríamos qualificar de bastante mais interessantes do que se acabam por revelar...

Filme: «Einsatzgruppen » de Michaël Prazan (2)



Anexados aos relatórios escritos, que enviavam para Berlim, ou de forma mais ou menos clandestina às suas famílias, as fotografias ou os filmes dos membros dos Einsatzgruppen, lembram os troféus de guerra. Porque demonstram não só o horror dos massacres, mas também o sadismo dos que os cometeram.
Eles constituem a prova irrefutável de um extermínio, que os próprios nazis quiseram camuflar quando, a meio de 1942, compreenderam a possibilidade de perderem a guerra e virem a ser julgados pelos seus crimes. Daí que, a partir dessa altura, algumas das valas comuns tenham sido reabertas para que os corpos fossem queimados e desaparecessem quaisquer vestígios de tais matanças.
Mas o filme de Michael Prazan é impressionante por outra razão, que o seu título não deixa adivinhar: os Einsatzgruppen não são os únicos protagonistas desta triste história. Um dos aspetos mais singulares do documentário é evocar o papel ativo das populações locais em tal genocídio. Um papel fundamental que os historiadores sublinharam durante muito tempo e confirmadas pelas investigações mais recentes.
Um antigo polícia lituano conta como foi levado pelos Einsatzgruppen à Bielorrússia para fuzilar judeus. Durante tais execuções, ele conta que os Alemães apenas se limitavam a vigiar o massacre e a darem o tiro de misericórdia aos que não estivessem ainda mortos.
Esse homem - que gostaria de pedir perdão a todos os pais cujos filhos ele matou - ~´e o único a reconhecer o seu protagonismo nos massacres. Mas a verdade é que, mesmo sem outras confirmações tão explicitas, os Alemães nunca teriam atingido tal dimensão de execuções se não contassem com esses apoios mais ou menos entusiasmados dos colaboradores locais.
Uma das testemunhas mais incómodas é a velha lituana, filha de um colaborador dos nazis, que recuperava os bens dos judeus depois deles terem sido assassinados. Rindo à gargalhada ela recorda o papel desses cúmplices que se encarregavam de levar as vítimas até à beira das fossas. Entre 1941 e 1944 cem mil judeus terão sido mortos nessa floresta de Ponary, bem perto de onde ela ainda vive!




sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Tempestades, sim! Mas também bonanças...


Tenho-me socorrido, amiúde, das palavras escritas por Baptista Bastos nas crónicas semanais no «Diário de Notícias» e no «Jornal de Negócios».
Reconheço nele o grande escritor, que nos valeu alguns dos mais interessantes romances do último meio século. E também a fibra de quem sempre andou de espinha direita sem se vergar a imposições quer de inimigos políticos, quer dos próprios amigos que pretendiam dele a fidelidade seguidista em vez da coerência dos princípios.
A crónica de hoje do jornal do grupo Covina expressou, porém, o lado que menos aprecio em Baptista Bastos: a tendência para se deixar medinacarreirar!
Senão vejamos: nada a contestar quando ele afirma que somos diariamente mentidos, bombardeados com falsidades, conhecemos os escândalos privados e ignoramos as públicas virtudes. Culpa óbvia desses comentadores, que ocupam intermináveis tempos de antena a sempre repetirem as mesmas mentiras, na expetativa de as verem ganhar a validade das verdades absolutas.
Mas que, segundo diz, caímos sempre nas esparrelas que nos montam, já me parece pouco provável.
Povo de brandos costumes quando nos deixamos amodorrar pelo discurso embalador dos apaniguados do poder vigente, somo-lo decerto. Mas, quando despertamos é para avançarmos sem freio contra as amarras a que nos quiseram aperrear. Que o digam os derrotados pelo movimento de massas do 25 de Abril de 1974 ou os monárquicos da primeira década do século XX.
Daí que discorde dos parágrafos seguintes em que Baptista Bastos mantém a pose de Cassandra: regozijamo-nos com os desaires do vizinho; com o facto de um velho amigo ter perdido o emprego; cumprimos os rituais da caridade cristã colocando no saco contra a fome uma garrafa de azeite e uma embalagem de arroz.
Perdemos a decência, essa é que é essa! E não vejo que, nos tempos mais próximos, consumidos pelo infortúnio, esgarçados pela desgraça, consigamos mudar o destino.
Neste blogue a lógica dos ventos semeados por estes políticos a mando dos banqueiros, dos especuladores financeiros e dos retalhistas pressupõe, que eles implicarão grandes tempestades. E estas não afetarão apenas os que sempre têm sido carne para canhão das crises fomentadas sempre pelos mesmos suspeitos do costume. Também estes se descobrirão incapazes de manterem incólumes as raízes com que se julgam bem estivados contra todas as circunstâncias. Arrastando-os para o vortex de um tempo que se esgota para dar lugar a outro totalmente diferente.
A bonança que, inevitavelmente, se sucederá à tempestade, que paira sobre as nossas cabeças, poderá ser regeneradora e trazer o renascimento de uma fénix utópica que, sem o conseguirem, quiseram reduzir a cinzas...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A estreia da semana: o filme mais recente de Abel Ferrara.


Nunca atribuo qualquer apreço às ideias apocalíticas por que vai passando o mundo à nossa volta, quer suscitadas por calendários maias ou por bancarrotas financeiras. Por isso mesmo, no meu incurável otimismo, continuo a crer na possibilidade de assistir em vida a mais algumas revoluções, que voltem a dar sentido às aspirações dos revolucionários que tomaram a Bastilha em 1789 ou o Palácio de Inverno em 1917.
No entanto, do ponto de vista académico, essas ideias podem dar origem a excelentes filmes ou romances, que nos podem confrontar com a questão: e se, de facto, o epílogo da história humana estivesse para breve?
Abel Ferrara coloca essa tese como fundamento do filme, que hoje se estreia hoje em Lisboa e no Porto. E deve valer a pena, até porque protagonizado por Willem Dafoe...

Empreendedorismo? Não, obrigado!


A exemplo de Passos Coelho na Manta Rota o país está a banhos, mas do governo continuam a surgir decisões de incomensurável gravidade em relação a quem dele espera medidas capazes de trazerem alguma luz ao fundo do longo e escuro túnel em que tem enterrado o país.
A falência do projeto de José Roquete para o Alqueva é um péssimo exemplo de como não se investe em negócios geradores de emprego e de captação de receitas externas numa das zonas com maior potencial turístico do país.
Mas se Coelho, Gaspar, Relvas, Portas & Cª não mostram outra atitude que não seja a de castrar qualquer esforço de empreendedorismo com potencial para infletir a espiral de desemprego e de decrescimento da economia, também manifestam uma reiterada e total ignorância cultural como fica demonstrada na decisão de fechar a Fundação Paula Rego.
Se não adivinhássemos em Francisco José Viegas a vertente carreirista, que sempre o caracterizou, esperaríamos que, perante este absurdo insulto à nossa mais conhecida artista plástica, um mínimo de dignidade o levasse a demitir-se da inexistente secretaria de estado em que foi metido como titular.
Não é assim: afinal o governo português limita-se a imitar alguns dos seus parceiros europeus (Espanha, Grécia, Itália) no abandono do seu património histórico. A esse respeito lembra Fernando Sobral no «Negócios», que na última década delegações da escola de quadros do Partido Comunista, de onde sai a elite que governa a China, têm visitado as ruínas de Pompeia, em Itália. Nas ruínas da cidade devastada pelo vulcão do Vesúvio buscam respostas para o seu futuro. Sem deuses, os chineses acreditam que o sucesso das grandes nações se encontra na história.
Que diferença em relação ao que se passa neste continente sem respeito pelo passado onde assenta a sua identidade. 
Mas, ainda assim, o dia não nos traz só notícias de sinal negativo. Da América surgem sondagens animadoras, quanto à forte probabilidade de Obama ser reeleito contra Mitt Romney, afastando a possibilidade de uma inflexão ainda mais à direita das estratégias implementadas a partir da Casa Branca.
Muito embora  o atual presidente tenha sido uma grande desilusão para a maioria dos que nele viram a esperança de ressurgimento de uma linha política menos alinhada com o grande capital financeiro, a alternativa seria sempre pior. 
E acompanhando o contentamento de Baptista Bastos, que anuncia no «Diário de Notícia^» a iminência de vir a ser avô pela segunda vez nas próximas semanas, vale a pena subscrever a forma como ele conclui a sua crónica semanal:  Não vale a pena desalentar.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Um documentário de Jens Peter Behrend sobre a Atlântida (3)


No final da Idade do Bronze Cnossos era a cidade mais grandiosa da época. Só o palácio do rei Minos contava com mais de mil e duzentas divisões!

Agora os cientistas da expedição dirigida por Hubscher pretendem depositar sismógrafos no fundo do leito do Mediterrâneo para aí medirem as ondas provocadas por uma explosão a deflagrar a cerca de 100 quilómetros ao sul de Ancara.
Floyd McCoy, que procura vestígios não só em Creta, mas também em Santorini, não tem dúvidas quanto a responsabilizar os efeitos causados pela explosão do vulcão situado nesta última ilha enquanto responsável pela tragédia, que se abateu sobre Cnossos ou na vila costeira de Iliki, totalmente tragada pelas vagas. Uma tese, igualmente, subscrita por arqueólogos israelitas a contas com a descoberta de vestígios dos efeitos dessa mesma explosão nas costas do seu território.
Quando inventou a civilização atlântida Platão quis oferecer aos seus compatriotas o exemplo de como não se deveriam comportar, optando por modelos de vida mais conformes com a sustentabilidade dos meios então disponíveis.
A visão do documentário de Behrend não nos deve interessar apenas pelo desmentido à tese acarinhada por uns quantos lunáticos quanto à localização açoriana do continente desaparecido nas águas. Deixemos essas teses á imaginação delirante de autores de banda desenhada como foi o caso com Edgar Pierre Jacobs.
Mas a lenda faz todo o sentido quando o a moeda única se afunda, a miséria e o desemprego comprovam os ínvios caminhos percorridos pelos governantes europeus e o degelo súbito dos gelos da Groenlândia demonstra que o perigo é, para além de económico e social, do próprio ecossistema terrestre.

Um documentário de Jens Peter Behrend sobre a Atlântida (2)


A forte probabilidade de a Atlântida de Platão se localizar no Mar Egeu é defendida pelo dr. Floyd McCoy, geólogo do Hawai, que integra a equipa científica apostada em descobrir mais algumas evidências dessa tese e que não hesita em considerar viável a possibilidade de tal catástrofe se repetir no futuro com idêntico impacto.

O interesse pelo assunto adveio-lhe, aliás, de uma experiência pessoal: tinha oito anos, quando assistiu e sobreviveu a um tsunami causador de sessenta e dois mortos no seu arquipélago natal. Nada que se comparasse, ainda assim, com a tragédia do Natal de 2004, quando mais de cem mil vidas se perderam em diversos países asiáticos e africanos atingidos por outra onda gigante.
Como sempre acontece nesse tipo de sismos, duas placas continentais encavalitaram-se por cima uma da outra gerando tal fenómeno.
É precisamente para descobrir como se movimentam as placas em ambiente marinho, que a equipa embarcada no navio «Maria V. Serian» navega em direção a Chipre. Christian Hubscher, líder da expedição, também aposta na forte probabilidade de Platão estar a pensar na antiga civilização minoica da ilha de Creta, quando escreveu o seu conhecido texto. Já que escavações anteriores comprovaram que um violentíssimo terramoto terá destruído quase toda a cidade de Cnossos, alguns anos antes do nascimento do filósofo grego.

Um documentário de Jens Peter Behrend sobre a Atlântida (1)


Numa altura em que a Europa parece avançar para a catástrofe, muito por insensatez da governação alemã, faz todo o sentido regressar á Atlântida enquanto símbolo de uma civilização avançada, que desapareceu de um momento para o outro.

Por uma catástrofe natural sabem-no os cientistas, que só procuram clarificar aonde ela se repercutiu, pendendo - segundo os estudos demonstrados neste documentário - para o Mediterrâneo Oriental. Mas também por miopia civilizacional merecedora da punição dos deuses, assim o descrevia Platão.
Foi o filósofo grego a primeiro falar dessa sociedade manietada pelo seu extremo orgulho e destruída numa só noite. Desde então não foram necessárias grandes erupções vulcânicas ou devastadores tsunamis para manter viva a lenda de um apocalipse fulminante.

Todos os textos aqui concentrados

A fim de não dispersar os textos que iam ficando distribuídos pelos outros blogs (Tempos Interessantes e Novos Tempos Interessantes), este «Ventos Semeados» deixa de se cingir à política e tratará igualmente de outros temas culturais.

A música de Charpentier


Podia-se arrumar a genialidade artística de Charpentier com a alusão ao facto de ser ele o compositor do célebre hino da Eurovisão. Mas tratar-se-ia de argumento pobre para um percurso artístico riquíssimo em permanente contestação aos limites canónicos impostos por Lully, que chegara a pretender impor por lei a exclusividade no direito para compor música clássica no seu tempo.

Influenciado pelas soluções inovadores provenientes de Itália, Charpentier é daqueles criadores sempre insatisfeitos com os cânones da moda e em permanente estado de inventividade quanto a novos sons e harmonias.
Revolucionário no seu tempo (o final do século XVII) ele é um dos compositores do barroco menos conhecidos e tocados, muito embora William Christie tenha crismado de «Les Arts Florissantes» o seu agrupamento musical, responsável por espetáculos tão marcantes nos tempos presentes...

sábado, 4 de agosto de 2012

Livro: «Rio de Sangue» de Tim Butcher (2)


Tim Butcher sabe que não faltarão sérios perigos na viagem entre o Lago Tanganica e a foz do rio Congo.  Um deles é representado pelos mai-mais, gente agressiva e bem armada, descritos como assassinos perigosos, que não obedecem a ninguém a não ser a eles próprios.
O termo por que são conhecidos refere-se à «água mágica» em que os seus elementos se banham depois de supostamente impregnada de propriedades especiais pelos seus feiticeiros. A partir daí acreditam que as balas sobre eles disparadas caem no chão sem sequer os ferirem.
Há também a contar com os Interahamwes desgarrados a vaguearem pelo território congolês depois de terem protagonizado o genocídio dos tutsis ruandeses em 1994.
- Acredite, você não ia gostar nada de se encontrar com os Interahamwes! - avisa-o um representante local da ONU.
Se a tudo isso acrescentar que só contará com a ajuda de um pigmeu de metro e meio de altura e peso inferior a metade do seu, pode-se compreender o quão periclitante representa essa viagem para o jornalista inglês, que confessa: Foi nessa altura que os meus joelhos começaram a fraquejar!.
E, no entanto, Tim sabe que gerações de africanos têm sofrido a vitória do desapontamento sobre as potencialidades, criando o único continente do nosso planeta onde as normais regras de desenvolvimento e de progresso humanos simplesmente não se aplicam!
Bom conhecedor do continente ele lembra que nos primeiros meses em que trabalhei em África, os infortúnios contemporâneos do Congo, tornaram-se-me evidentes. Era no Congo que se desenrolava a guerra mais sangrenta do mundo. Iniciara-se em 1998 e custava a vida a um milhar de pessoas todos os dias perante a indiferença total do mundo ocidental. Por isso Tim, que já estivera em cenários de guerra na Croácia, na Bósnia, no Kosovo, na Serra Leoa ou no Iraque, sente-se motivado para a sua extensa viagem de mais de três mil quilómetros. Para tentar compreender a sua perplexidade: para mim, o Congo continua a ser um totem do continente falhado de África. Possui maior potencial do que qualquer outra nação africana, mais diamantes, mais ouro, mais rios navegáveis, maior quantidade de terras agrícolas. E é exatamente a sensação daquilo que o Congo poderia ser que torna mais pungente o seu fracasso.
Anteriormente Tim estivera duas vezes no Congo como correspondente do «Daily Telegraph»: na primeira cobrira com imensas dificuldades o assassinato do presidente Kabila, quando o caos imperava nas ruas. Da segunda vez, a confusão não era menor, mas tinha causas naturais: a erupção do vulcão situado por cima de Goma. Eu começara a acreditar agora que o Congo possuía uma sina estranha para más notícias. De certa forma, não constituía surpresa que a pior erupção vulcânica em África em várias décadas tivesse de acontecer aqui. A corrente de lava poderia ter tomado inúmeras direções ao descer do cume da montanha, danificando apenas a floresta tropical, mas dirigira-se diretamente para a rua principal de Goma, engolindo a catedral católica da cidade e cortando ao meio a pista de aterragem do aeroporto.
Todas essas razões justificaram as tentativas frustradas de familiares e amigos de Tom em dissuadirem-no de encetar tal projeto: Recusei render-me aos pessimistas, que me enviavam artigos dos jornais escritos durante visitas aos projetos de ajuda humanitária no leste do Congo. Quase sempre estes artigos eram férteis em relatos de canibalismo, magia negra, mutilações e ilegalidades...

As Ilusões Perdidas pelos mais ingénuos


Tempo de férias para uma minoria privilegiada, já que este verão de 2012 revela-se muito agreste para quem não tem emprego ou o sente por um fio.
Estamos, pois, em época de muitas ilusões perdidas, a começar por quantos acreditaram ingenuamente em quanto Passos & Portas lhes prometera na campanha eleitoral com que desfeitearam a governação de José Sócrates e o que veem concretizado vai muito para além dos seus piores pesadelos.
Diz Baptista Bastos no «Jornal de Negócios»:  Em pouco mais de um ano, esta clique dirigente liquidou as nossas esperanças, destruição acaso mais profunda do que a substância das nossas fomes. Pode ser que não sejam julgados pela justiça que trata destes assuntos indignos, mas já foram condenados no tribunal das nossas consciências. E aí estão os jovens para os apontar à execração. Eles, certamente, não perdoarão o terem sido expulsos do futuro e da pátria; perseguidos pelo desemprego; extorquidos do que mais decente e asseado nos seus sonhos existe. 
De entre essas ilusões perdidas contam-se igualmente os comportamentos éticos de quem nos governa. Se José Sócrates fora tão criticado por quanto sobre ele inventaram ou acrescentaram, mormente nesse inqualificável pasquim chamado «Correio da Manhã», só se estranha como a indignação pela forma como o clientelismo vai provocando situações escandalosas como as verificadas com os familiares de Catroga ou com a indigitação de «boys» para a direção das organizações em que se segmenta o Serviço Nacional de Saúde e não emerge uma violenta vaga de indignação.
E Relvas? Como se pode tolerar a continuação de tal personagem enquanto governante de um país, que supostamente nada teria a ver com uma «república das bananas»? Mesmo que Manuel António Pina relativize o caso no «Jornal de Notícias» enquanto modelo de uma forma de comportamento do ensino privado: O "caso Relvas" é apenas expressão daquilo que poderíamos classificar de "caso português", o chico-espertismo. Este atingiu proporções inimagináveis com o negócio de diplomas em que se tornou algum ensino superior privado (uma escola já oferece mesmo "licenciaturas duplas" em quatro anos, ao bom estilo promocional do "pague uma e leve duas").
É aliás essa estratégia de reduzir o ensino público à sua mínima expressão e assegurar uma desigualdade cada vez mais gritante de oportunidades através do acesso ou não à educação nas instituições privadas que norteia as políticas definidas por Nuno Crato. Como muito bem comenta Nuno Serra no «Diário Económico»: de uma forma gradual, por vezes quase impercetível, o ministro Nuno Crato está a levar a cabo uma transformação profunda do sistema educativo. (…) O objetivo (…) desta transformação parece ser claro: criar condições que favoreçam a expansão da oferta educativa privada, cedendo-lhe progressivamente o espaço desocupado pela erosão, delapidação e desqualificação da rede pública de ensino. Pelo caminho, o ministro de um partido que ainda ousa designar-se como social-democrata, desfere um golpe violentíssimo naquela que é uma das funções primordiais dos sistemas educativos próprios de sociedades democráticas: garantir a todos igualdade de oportunidades, criando e favorecendo condições de ascensão económica e social a grupos mais desfavorecidos.
Quando se recordam as guerras movidas pelos sindicatos de professores contra o governo anterior, e que tanto contribuíram para aparentar o fim do ciclo político, também eles se tornaram vítimas impotentes de tudo quanto agora lhes cai em cima. Nesse aspeto quantos deles vivem, igualmente, a sensação dessas ilusões perdidas, dessa convicção quanto a terem sido estupidamente enganados?

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

As bonanças que se seguirão às grandes tempestades


Regressando a um artigo de Fernando Sobral já aqui abordado («A Revolução está nas Ruas?», Jornal de Negócios, 28 de Outubro de 2011), mas que mantém a sua pertinência após quase um ano desde a sua publicação, abordemos a questão da possibilidade de a Europa se salvar mediante a sua federalização.
Segundo o autor em causa é quase impossível, que isso venha alguma vez a ocorrer:
A Europa é uma junção de culturas próprias que nunca se integrarão. As nações-Estado são fortes.
Nem sempre foi assim. Antes de 1492 a Europa era um conjunto de pequenas nações que lutavam pela sobrevivência. Mas algo fez mudar o seu destino: a navegação em águas profundas tornou-a o centro de todo o sistema internacional de comércio e de cultura. Os rios tornaram-se estradas de contacto, o oceano ficou de portas abertas para um novo tipo de comércio. Os países europeus conquistaram impérios. Mais riqueza tornou possível mais tecnologia e cultura.
A Europa tornou-se imensamente rica. Mas se mostrou a sua força militar fora de portas, internamente a Europa continuou à mercê de conflitos sem fim. A Grã-Bretanha nunca fez efetivamente parte da Europa. Nem a Armada espanhola, nem Napoleão, nem os nazis a conseguiram subjugar.
Não deixa de ser singular esta tese que relaciona a improbabilidade de uns Estados Unidos da Europa em função dos Descobrimentos do século XVI. Poderá até nem ter nada a ver, mas assim formulada esta teoria até se revela bastante atraente. Mesmo que, mais adiante, Fernando Sobral se atenha a razões bem mais prosaicas para fundamentar essa improbabilidade: O conceito de união europeia é de que o desenvolvimento e o bem-estar não necessitariam de sacrifícios. Isso hoje está em causa. Consenso é uma palavra difícil de dizer. (…)
Napoleão dizia: “só há duas forças que unem os homens: o medo e o interesse.” O medo gera contágio. E quando o medo choca com os interesses, o desastre adivinha-se. Há um receio que a eventual quebra da União Europeia e do euro reforce os emergentes nacionalismos que divida, novamente a Europa entre o norte e o sul.
Confesso que a leitura dos textos deste colunista me deixa sempre na ambiguidade entre a sua inegável erudição e um posicionamento ideológico pouco esclarecedor. No entanto, quando advoga o crepúsculo do Estado Social tal qual o conhecemos nas últimas décadas, existe aqui uma tendência não assumida para a direita, sobretudo quando dobra a finados pelo modelo social e económico responsável pelo bem estar de amplas camadas populacionais europeias nos últimos cinquenta anos:
A crise das dívidas soberanas destapou (…) a derrota final, em termos económicos e ideológicos, do Estado Social, como foi criado após a II Guerra Mundial.
A velha batalha de Hayek e Keynes, típica da década de 1930, regressou quase como farsa. A importância dos cortes e da austeridade não é só económica: é política e ideológica. Aparentemente recria a essência dos partidos conservadores e liberais. Distinguindo-os, assim, dos partidos socialistas. Algo que, no essencial, já vinha sendo difícil de fazer, porque os partidos socialistas, depois da implementação da «Terceira Via» pelo New Labour de Tony Blair, se tinham tornado gestores do Estado e da economia, dispensando promover alterações radicais.
É claro que, hoje em dia, para os socialistas europeus a linha política seguida pelos trabalhistas ingleses foi extremamente nefasta. Porque correspondeu à ideia política de manter exatamente as coisas tal como eram em termos de organização capitalista da sociedade, apenas promovendo as formas de a tornar mais eficiente.
Não é por acaso que a crise económica desalojou os socialistas do poder da maioria dos países, substituindo-os por conservadores ou liberais. A crise financeira foi transformada na crise do “welfare state”. O Estado vai encolher. A classe média está a encolher.
As alterações radicais de que acima se falam são, agora, um imperativo para os socialistas, que têm o dever de retomar a sua matriz original de pugnarem por uma sociedade mais justa e igualitária. E, perante tantas receitas falhadas por parte do FMI, do BCE e da Comissão Europeia, parece lógico asseverar que a inflexão da crise atual só se iniciará com iniciativas totalmente em dissonância com as ainda vigentes sob a ditadura da troika. Deverá, pois, caber aos socialistas a liderança desse movimento de tipo novo, que enjeite a anterior expetativa de os ver convertidos a gestores mais competentes da organização capitalista, direcionando-a para um futuro mais alinhado com a aspiração global de um mundo mais justo, equilibrado e ecologicamente sustentável…
É aqui que devemos traçar uma linha bem demarcada de separação entre o que deverá ser o futuro próximo e o panorama sombrio desenhado por Fernando Sobral e outros comentadores para quem a própria democracia deixará de fazer sentido: Resta saber se, com tanto corte na faixa central da sociedade, a democracia sobreviverá. Mas isso não enjeita o essencial: o desencanto dos europeus com o seu sistema político e com as ideias velhas que parecem pratos requentados. Os cortes estão a servir como suporte do modelo que eventualmente substituirá o Estado social na cada vez mais velha Europa. Mas, ao retirar a segurança aos seus eleitores, a classe política está também a andar sobre o precipício. 
E, mais adiante, ele próprio não exclui a possibilidade de uma revolução tão súbita e surpreendente nos seus contornos como as verificadas nos últimos duzentos anos. Sem referir, por exemplo, o exemplo lapidar do Maio 68 em França despoletado como faísca em pradaria, dias depois do «Le Monde» intitular a capa com a falsa constatação de que imperava o tédio.
Estaremos à beira de uma revolução como em 1848? Há algum tempo um historiador escrevia: “No início de 1848 ninguém acreditava que a revolução estava iminente”.
As ruas voltaram a ser ocupadas em datas de tensão económica e social: 1917, 1921, 1968. Como pano de fundo de todos esses movimentos populares esteve sempre o desconforto social e o rebentar da pressão contida.
Um estudo da OCDE, publicado em Maio, mostrava que a tradicional pouca desigualdade de países como a Dinamarca, a Suécia e a Alemanha está também a desaparecer.
O fosso está a alargar-se em toda a parte.
Em suma: estão a semear-se ventos, que prenunciam grandes tempestades. Que poderão trazer no bojo estimulantes bonanças...

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Filme: «Einsatzgruppen » de Michaël Prazan


Ao jornal «Le Monde» que, um ano antes da sua norte, lhe pedira um balanço dos conhecimentos sobre o Holocausto, o historiador norte-americano Raul Hilberg, autor de uma obra de referencia («A Destruição dos Judeus») respondeu assim: ainda que o genocídio dos judeus tenha sido objeto de um incomensurável número de trabalhos, subsistem áreas desconhecidas dessa história por decifrar. Sobretudo a referente aos massacres perpetrados no leste europeu, nos territórios ocupados pelos nazis durante a segunda guerra mundial e depois controlados pelos soviéticos a partir de 1945.


Ora é precisamente esse o tema do terrível documentário de Michaël Prazan. Constituído por imagens e testemunhos insuportáveis, alimentado por intervenções de universitários reputados (Christopher Browning, Christian Ingrao), o filme em dois episódios mergulha o espectador no inferno absoluto em que, a partir do verão de 1941, se converteu essa vasta parcela da Europa situada entre o Báltico e o Mar Negro, da Estónia à Roménia, passando pela Bielorrússia e pela Ucrânia. Ou seja, antes mesmo de se ficarem operacionais os campos de extermínio de Auschwitz-Birkenau, Belzec, Chelmno, Sobibor ou Treblinka.

O título do documentário, Einsatzgruppen, reporta-se aos homens encarregados de tornar essas regiões livres de judeus. Comandados por Reinhard Heydrich, que estava na direta dependência de Heinrich Himmler, estes «grupos móveis de assassinatos» (segundo a expressão de Raul Hilberg) tinham mais de três mil elementos. Homens jovens, entre os 25 e os 40 anos, cujos quadros tinham licenciaturas de direito ou de economia.

Da sanguinária odisseia dos Einsatzgruppen, que cometeram os seus crimes à boleia da Wehrmacht, o filme reconstitui todas as etapas. Lembra que os primeiros massacres em grande escala aconteceram logo no início da guerra da Alemanha contra a URSS a 22 de junho de 1941. Mostra também que, o que era à partida um extermínio direcionado visando prioritariamente os homens em idade de combater, tornou-se em tão poucas semanas num genocídio no sentido mais literal do termo: mulheres, crianças e idosos eram sistematicamente liquidados a partir de julho-agosto de 1941.

O documentário dá, igualmente, e a partir de alguns exemplos, uma perspetiva da intensidade dos massacres.

no fim de agosto de 1941 bastaram três dias para que 23600 judeus de Katemenets-Podolski fossem assassinados;

No mês seguinte, 33700 judeus foram assassinados na ravina de Babi Yar, perto de Kiev;

A eficacia Einsatzgruppen era tal que os 200 mil judeus existentes nos três países bálticos já tinham desaparecido a partir de dezembro de 1941.

Famílias à espera de serem fusiladas à beira de fossas pejadas de cadáveres; alinhamento de enforcados pendurados das árvores e varandas de aldeiazinhas; ruas juncadas de cadáveres a quem ninguém liga; mulheres nuas a tremerem sob o olhar indiferente ou divertido dos seus carrascos.

O mais incrível é que tudo isso tenha sido fotografado e filmado: durante os fuzilamentos os soldados alemães iam buscar as suas câmaras e registavam testemunhos, conta uma testemunha lituana.