domingo, 26 de setembro de 2010

República britânica: quando?

Espero ainda ver a Monarquia britânica substituída por uma República efectivamente democrática, já que, enquanto persistirem poderes não eleitos, apenas baseados na sucessão hereditária, é na ditadura de um punhado de privilegiados, que a maioria padece.
Em tempos que já lá vão, a revolução republicana seria sempre violenta. Como em Paris em 1789 ou na Rússia em 1917/8.
Mas a própria Coroa vai acumulando gaffes, que a vão descredibilizando até a reduzir à dimensão da sua tremenda insignificância.
A história agora contada pelo Independent em como a Rainha recorrera sem sucesso a uma candidatura de subsídios para os mais pobres dos britânicos, a fim de garantir o pagamento da electricidade e do gás, apenas vai na mesma linha.
A existência da monarquia britânica roça a dimensão mais anedótica.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

ACÇÃO VS REACÇÃO

Estamos quase a chegar à data do centenário da República, que nos pode confrontar com a grande questão da durabilidade ou não dos regimes políticos ou dos sistemas económicos.
De facto, olhando para os últimos anos da Monarquia fácil é depreender que terá residido nos seus políticos representativos, a razão de ser para o sucesso da República.
A exemplo do que ocorreria em 25 de Abril de 1974, as condições de insucesso da Revolução terão sido muitas, mas a facilidade com que uma minoria militar terá conseguido congregar em seu torno um genuíno apoio popular, foi demonstrativa de como a maioria silenciosa estava desejosa de uma alteração promissora das suas condições de vida.
O problema reside no facto dessa mesma maioria tender a colar-se à mudança pela mudança sem olhar seriamente para o que lhe propõem. Porque a 28 de Maio de 1926 aderiu a quem acabava de lançar as bases para a ditadura fascista de 48 negros anos.
Na conjuntura actual essa insatisfação com o presente volta a estar na ordem do dia. E pode alimentar propostas perversas como as enunciadas pela extrema-direita, que por toda a Europa vai conseguindo sair do ovo em que foi sendo chocada.
Razão ponderosa para que surja uma verdadeira resposta da esquerda capaz não só de contrariar essa ameaça, mas com substância suficiente para se tornar credível e popular. O que só pode suceder através da condenação efectiva do insuportável capitalismo e do desastre climático com ele umbilicalmente relacionável.
Em vez de se dividir em tendências autofágicas a esquerda tem de se unir no que em comum defende e lançar um projecto frentista, que salvaguarde o futuro dos desnorteados milhões de cidadãos, que vêem o abismo aproximar-se e não sabem como dele se livrar...


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

QUANDO AS FERAS SE MORDEM ENTRE SI

Em França Sarkozy manda os ciganos romenos e búlgaros para casa. Em Itália Berlusconi quase conseguiu implantar um terror mussoliniano sob a capa festiva dos seus indigentes espectáculos televisivos. E nos Estados Unidos o Tea Party está a ganhar eleições primárias denotando um recrudescimento de uma extrema-direita fundamentalista.
Por estes exemplos o mundo parece estar a converter-se num lugar cada vez mais perigoso. Mas trata-se de uma ilusão, que a História acabará por desvanecer. Porque Sarkozy irá perder as próximas eleições para o candidato socialista. Porque Berlusconi só vai aguentando o poder à conta de umas operações tão plásticas como as que o reduzem a uma versão masculina da Lili Caneças. E perante gente tão radicalmente reaccionária, os democratas de Obama acabarão por conservar a maioria de outro modo quase perdida.
Significa isto que é preciso ver a extrema-direita em crescimento para que a ameaça assuste os mais acomodados e os faça ir votar quando a oportunidade se apresentar.
Afinal nem tudo o que representam as movimentações da direita pode ser visto como algo de negativo. Quando ela entra em autofagia resta à esquerda deixá-la dilacerar-se. Para melhor avançar nos seus projectos de aperfeiçoamento social...

sábado, 11 de setembro de 2010

Comemorações

À beira de eleições, vistas pela direita como a oportunidade para inflectir os resultados das últimas presidenciais, a América comemora o 9º ano do atentado da Al Qaeda completamente dividida entre os fanáticos, que querem proibir a liberdade religiosa, queimando o Alcorão, e os defensores da Constituição enquanto matriz verdadeira do que é a essência do seu país.
Numa altura em que a própria Europa vive o sobressalto da xenofobia mais inquietante, há que temer a respeito dos direitos e garantias dos mais pobres, dos que são diferentes, dos que professam outros valores civilizacionais.
E o grande problema é que a multiplicação dos veículos de conhecimento não tornou as massas acéfalas mais inteligentes. A maioria está disponível para acreditar naquilo de que um qualquer populista as convença

domingo, 5 de setembro de 2010

Um bom aluno afinal não tão bom assim!

Durante alguns meses os principais detractores da estratégia do Governo português para combater a crise, apresentaram a Irlanda como o bom exemplo de uma opção, que não deixavam de considerar como a mais adequada para o nosso país: uma redução significativa dos vencimentos, uma política de grande contenção da despesa, ou seja, uma aposta decidida na redução do endividamento à custa na limitação dos investimentos públicos.
Afinal a receita que os iluminados «economistas», que foram incensá-la a Belém, propunham com entusiasmo a começar por esse corifeu intragável, que se chama Medina Carreira.
O resultado prático dessa receita pode ser agora apreciado em tempo útil: afinal essa mesma Irlanda tem tido um desempenho macroeconómico tão negativo, que o desemprego já vai em 13% e a dívida ameaça ultrapassar a da Grécia.
Que dirão agora os que execraram os investimentos públicos como apostas de lesa-pátria?

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Focinhos sem pudor

Enquanto leitor até prefiro Saramago a Lobo Antunes cujas pretensões ao Nobel sempre me pareceram excessivas e cujo sucesso junto de alguns críticos internacionais atribuo a um factor de moda. Mas, quando leio no «Expresso», que um grupo de militares ameaça «ir ao focinho» do escritor, não posso deixar de manifestar o mais veemente repúdio pelos agressores verbais em causa. É que, trinta e cinco anos depois do fim da colonização portuguesa, é tempo de agradecer a Revolução de Abril levada por diante por uma minoria esclarecida dessa classe militar, mas não esquecer que a sua maioria foi cúmplice do regime fascista na opressão dos povos africanos. E o mínimo, que se lhes exige, é algum pudor quando invocam o seu brio militar…
É que há guerras justas e injustas. E a História poucas dúvidas tem sobre o carácter das por eles protagonizadas no antigo Ultramar...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Expectativas exageradas...

A festa anual do PSD é bem reveladora da sensação de terra a fugir debaixo dos pés do seu novo líder. Se, durante umas semanas, Passos Coelho era o primeiro-ministro anunciado de um Governo, que não tardaria a substituir o actual  - e as sondagens pressupunham um fácil passeio até lá -  a explicitação das suas ideias estratégicas confrontou os eleitores com o que delas podem sofrer: menos despesas do Estado poderá pressupor menos escolas e centros de saúde do que os propostos pelo Governo até porque é intenção declarada deste partido o pôr um ponto final na gratuitidade de tais direitos.
Aperta-se, pois, o prazo para que Passos Coelho aproveite a oportunidade de captar os votos de quem está zangado com Sócrates e decidido a favorecer quem lhe seja contrário. O pior é que os eleitores despertam para a compreensão do que significa votar contra  em contraponto às razões para votar por. E aí arrisca-se a que, a exemplo do sucedido no consulado de Manuela Ferreira Leite, acabem por concluir o exagero de terem acreditado na morte política iminente do primeiro-ministro...

domingo, 8 de agosto de 2010

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Já são quinze as mulheres assassinadas este ano em Portugal em casos de violência doméstica, um fenómeno social para o qual as soluções não estão a ser bem sucedidas.
Talvez por serem irrisórias as queixas, que redundam em condenações efectivas de prisão, sugere o «Público».
Será apenas a falta de um efeito dissuasor desse tipo?
Tenho dúvidas.
Quando os assassinos matam as mulheres ou companheiras, estão tão eivados de ódio, que nem pensam nas consequências do que se preparam para fazer.
Sem excluir a relevância do castigo, o problema sugere, porém, outras vias, que passam pela educação, pela diminuição das frustrações suscitas pelo desemprego, pela miséria...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

AONDE ESTÃO OS NOVOS CAMINHOS?

Vivemos tempos complicados em que nenhum mestre do pensamento, seja à esquerda, seja à direita das ideologias dominantes, parece deter o segredo da fórmula capaz de devolver o anseio de utopia à multidão de descontentes com o actual estado das coisas.
Se de um lado ainda se lambem as feridas da queda de um Muro, que pareceu significar o dobre de finados por uma ideologia cujos fundamentos prometiam os melhores dos sentimentos humanos mas se concretizara em gulags, senão mesmo em genocídios polpotianos, do outro só se garantem maiores discrepâncias de direitos e deveres entre uma exígua minoria de oligarcas e a grande maioria de explorados.
Sem orientação quanto a quem seguirem, os eleitores seguem o caminho mais fácil e deixam-se seduzir por populistas apenas apostados em satisfazerem os seus interesses e os do seu grupo. Nem que para tal cultivem o racismo mais alarve e atropelem as mais legítimas liberdades.
E, no entanto, podem-se detectar alguns sinais de uma tendência em crescimento junto desses mesmos frustrados cidadãos: a execração do egoísmo dos que ostentam o seu poder e riqueza, o individualismo enquanto ideologia assente no «cada um por si e todos contra todos».
Esperemos que cresçam daí os novos rumos tendentes a fazerem frutificar a solidariedade e fraternidade entre os desvalidos de forma a impulsionar a emergência de uma bem necessária igualdade...

terça-feira, 27 de julho de 2010

UNIR A ESQUERDA

Tese singular e pertinente a que Rui Tavares apresentava ontem no «Público» a respeito da proposta de revisão constitucional de Passos Coelho: não é que se acredite no PSD no fim imediato do Sistema Nacional de Saúde. Mas ao aludir a essa possibilidade a direita irá procurar inseri-la no inconsciente colectivo para a exequibilizar mais à frente.
Num exemplo muito feliz, Rui Tavares dá este exemplo: imaginemos que o PSD propunha que o país relançasse o projecto de viagem até Marte. Mas, não sendo possível de imediato, acaba por propor, e conseguir, a destinada à Lua. Ora, a reacção adequada seria a de arrumar a questão com a constatação de nunca ter estado sequer em cima da mesa um qualquer programa espacial.
Esta estratégia denota uma inteligência, que não tem sido frequente na direita em Portugal. Se algo caracteriza o actual projecto do PSD  é a visão de objectivos a longo prazo, alcançáveis mediante pequenas e sucessivas vitórias imediatas.
É por isso que a esquerda terá de contrapor uma maior inteligência no que deverá fazer a seguir, procurando diluir divergências e propor o máximo denominador comum de tudo quanto as possa unir. Sob pena de abrir caminho a formas inaceitáveis de recuos civilizacionais no campo dos direitos da maioria sociológica da população...

sábado, 24 de julho de 2010

Os impasses de direita

A leitura dos jornais do dia vai confirmando a ideia de exagerou quem entendia chegado o fim da História com a vitória definitiva do deus Mercado sobre  o legítimo anseio da maioria da humanidade em ver cumprida a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Se a actual crise económica ainda serve de trampolim aos que querem inflectir o curso da História, momentaneamente travada pelas sequelas da queda do muro de Berlim, os sinais de incapacidade da direita ideológica para evitar as consequências de uma agudização das diferenças entre os muito ricos e os miseráveis vão-se acentuando.
Na Alemanha, Merkel atinge o nível mais baixo de aceitação das suas políticas. Em França Sarkozy não se consegue livrar das revelações do caso l’Oréal. Em Itália Berlusconi atola-se nos interesses antagónicos e explosivamente conflituosos dos seus principais apoiantes (Bossi e Fini). E, em Inglaterra, Cameron vai escandalizando o orgulho britânico com gaffes inacreditáveis, enquanto os seus parceiros liberais afirmam posições, que se justificavam na Oposição mas devem ser comedidas ao ganharem a dimensão de definição estatal.
É certo que a Esquerda ainda só vai ciciando alternativas políticas pouco convictas, mas não se duvida da sua necessidade de defesa do Estado Social tão vilmente atacado pelos ultraliberais. Falta-lhe encontrar apenas o modelo do seu financiamento sustentado. Incluindo a possibilidade de nacionalização de negócios rentáveis com os quais gere as receitas necessárias às suas políticas redistributivas.
Interessante será a leitura das próximas sondagens nacionais tendo em conta que, tão só começou a falar, a estrela de Pedro Passos Coelho logo começou a empalidecer. Tanto mais que reavivar o debate da revisão constitucional, quando os portugueses se preocupam sobretudo com o desemprego só contribui para, antes de experimentar a sua receita na prática governativa, ele passar à condição de «has been».


sábado, 10 de julho de 2010

NOVAS OPORTUNIDADES


Em discussões, que tenho alimentado com alguns críticos das políticas de José Sócrates, um dos temas obrigatórios é o programa das Novas Oportunidades. Para tais cultores da maledicência trata-se de uma fraude, porquanto constitui uma forma de atribuir diplomas a quem não tem conhecimentos que os justifiquem.
É outra a lógica desse programa, aliás bem expresso num caso relatado no «Público»: o comandante de uma das principais corporações de bombeiros da Beira Interior está agora a frequentar esse programa porquanto o 9º ano de escolaridade passou a constituir requisito obrigatório para essa função.
É certo que, provavelmente, o senhor em causa até talvez nunca venha a saber de matemática ou de geografia o que um aluno do 9º ano é obrigado a saber. Mas, pelo contrário, ninguém lhe baterá a palma nas melhores formas de prevenir ou apagar um incêndio.
No fundo, o que se está a qualificar é um conhecimento obtido da experiência de muitos anos e que é injusto depreciar em relação a outros de características menos aplicáveis na sua vida quotidiana.
É nesse âmbito que o programa das Novas Oportunidades faz todo o sentido.
Em discussões, que tenho alimentado com alguns críticos das políticas de José Sócrates, um dos temas obrigatórios é o programa das Novas Oportunidades. Para tais cultores da maledicência trata-se de uma fraude, porquanto constitui uma forma de atribuir diplomas a quem não tem conhecimentos que os justifiquem.

É outra a lógica desse programa, aliás bem expresso num caso relatado no «Público»: o comandante de uma das principais corporações de bombeiros da Beira Interior está agora a frequentar esse programa porquanto o 9º ano de escolaridade passou a constituir requisito obrigatório para essa função.

É certo que, provavelmente, o senhor em causa até talvez nunca venha a saber de matemática ou de geografia o que um aluno do 9º ano é obrigado a saber. Mas, pelo contrário, ninguém lhe baterá a palma nas melhores formas de prevenir ou apagar um incêndio.

No fundo, o que se está a qualificar é um conhecimento obtido da experiência de muitos anos e que é injusto depreciar em relação a outros de características menos aplicáveis na sua vida quotidiana.

É nesse âmbito que o programa das Novas Oportunidades faz todo o sentido.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Ser ou não ousado, eis a questão!

Há dias um empresário no ramo da distribuição de produtos  tecnológicos confiava-me ter aumentado o volume de stocks no seu armazém central porque, na previsão de quebras de vendas, os seus concorrentes iriam apostar mais facilmente na redução de tais quantidades. E, por isso mesmo, iriam inevitavelmente penalizar os seus clientes, quer em preço  - porque comprariam menos quantidades, com menores descontos, nos seus fornecedores de origem - , quer em prazos de entrega. E então iriam ao seu encontro!
Chama-se a isto aproveitar as oportunidades num contexto de crise. E revela, igualmente, uma de duas atitudes possíveis nesta conjuntura: ou ser ousado e investir na expectativa de se adiantar à concorrência subitamente paralisada pelos habituais velhos do Restelo. Ou ceder a estes e praticar uma economia de dona de casa, que aferrolha o mais possível sempre na expectativa desse futuro temível pago pelos nossos filhos e netos.
Lamentavelmente os velhos do Restelo de hoje são os mesmo que, nos tempos idos, nunca fizeram o que deveriam para evitarmos chegar a este estado. E gente ousada, capaz de procurar Índias e Brasis, quando aqui escasseiam os recursos, só no Governo se encontram.
Mas devemos admirar-nos com tal facto? Muitos dos nossos economistas alimentaram-se anos a fio das ideias de Friedman, que resultam neste desastre anunciado. E têm agora uma dificuldade extrema em se porem a ler Keynes, Stieglitz ou Krugman.

Um país de absurdos

Passam-se situações absurdas no nosso tempo presente. Uma delas a da tentativa de acusação do primeiro-ministro por parte de uma jornalista, que se pretende difamada.
É preciso, de facto, topete para avançar com um processo destes. Em primeiro lugar, porque foi notória a estratégia de tal personagem, quando liderava os serviços noticiosos de uma estação televisiva, em achincalhar continuamente aquele político. Como se viu sem provas, que um qualquer tribunal avalizasse como fundamentadas.
Depois, porque vivendo o país numa situação complicada, ainda existe quem não tenha aprendido com o actual líder da oposição, que não se cumprem desígnios politicamente éticos com assassínios de carácter, mas com ideias alternativas às propostas por quem governa.
Tentativas destas só surpreendem por encontrarem juízes, que lhes dêem crédito e lhes permitam os objectivos mediáticos pretendidos. Mas o país, a contas com tantas dificuldades, bem dispensaria mais esta inócua polémica. Que cedo morrerá como fruto da sua completa falta de senso.

sábado, 29 de maio de 2010

Da má-língua ao questionamento lúcido da realidade

O artigo que Leonel Moura assinou ontem no «Jornal de Negócios» é bastante certeiro na forma como analisa este momento português: impera à nossa volta a má-língua permanente de quem fala, fala, mas nada faz.
Pode-se dizer cobras e lagartos do primeiro-ministro nos cafés ou nos fóruns televisivos, mas quem protagoniza tais dislates, nada faz de útil para mudar os acontecimentos. Não milita em partidos, nem em associações, e quase por certo se escusa aos gestos solidários para com quem se cruza na rua. Pelo contrário: alimenta um ódio visceral pelos miseráveis, que vegetam à conta do rendimento mínimo, como se essas esmolas os privassem dos maiores privilégios.
É o Portugal derrotado, como muito bem afirma o artista plástico, ou seja aquele que perante as Índias continua a repetir os discursos balofos dos velhos do Restelo. Não querendo TGV’s nem aeroportos, muito menos estradas para facilitar a circulação mais rápida de pessoas e mercadorias.
Há, ainda assim, um ponto de viragem a constatar-se: as sondagens, que dão prometedores resultados ao novo líder da direita,  demonstram o prémio para quem se dispõe a agir construtivamente, em vez da aposta na estratégia da «terra queimada». Talvez esse facto demonstre um certo enfartamento dos portugueses por essa má-língua e se disponham, então, a questionar o que de positivo pode influir no seu futuro.
Talvez se aproximem, enfim, do que é entendido  por muitos, mas ainda insuficientes para alterar o presente estado das coisas: que na origem de todos os nossos males está um «capitalismo canibal» (designação certeira de Baptista Bastos), que privilegia o sucesso baseado nos indicadores económicos, e sobretudo nos lautos lucros das grandes corporações, mas se esquece dos milhões de desvalidos, condenados ao desespero.
Decerto que o futuro está no europeísmo, garante de paz e de desenvolvimento dos povos do continente, como passo intermédio para o grande objectivo ideológico do futuro: uma mesma humanidade, sob um governo de todos e para todos, no respeito pela vontade de um planeta de recursos limitados.
Daí que esse mesmo futuro obrigue a uma outra atitude para com a aquisição e conservação dos bens efémeros: é a sociedade de consumo desenfreado, que está a conhecer uma contestação dos factos, que não das vontades. Mas serão a circunstâncias a ditar a importância da interiorização dos bons hábitos da poupança. Até para garantir uma vida decente nos últimos anos de uma existência cada vez mais prolongada pelos sucessos da medicina.

Uma questão de educação

Numa recente entrevista, o jornalista e escritor Pedro Rosa Mendes  afirmou que  o maior problema e a coisa mais insidiosa da ditadura salazarista não era a Pide, não foi o Tarrafal. Foi o facto de termos vivido tanto tempo debaixo de uma ditadura de ignorância que se perpetua.
Pelo resultado da sondagem hoje publicada nos jornais o problema subsiste, quase sem alteração, oitenta e dois anos depois de iniciada a rebelião militar, que instauraria a ditadura fascista. É que a crise financeira, e todas as ameaças de empobrecimento da maioria da população portuguesa, criam o caldo de cultura de onde volta a emergir o tenebroso ovo da serpente.
Qual mancha de óleo a manchar a limpidez de uma água cristalina, espalham-se atoardas a respeito do exagerado número de políticos ou dos seus superlativos ganhos. Como se a actividade política não devesse ser, em democracia, a mais ilustre das funções e, enquanto tal, a melhor remunerada para a ela atrair os melhores.
Ao desenvolver o discurso niilista anti-políticos, a direita mais retrógrada volta a recorrer aos ignorantes enquanto idiotas de serviço à sua totalitária intenção. E, uma vez mais, é à educação, ao debate, à militância combativa pelas ideias mais solidárias, que a esquerda deve recorrer como contrapeso.
Têm sido tantas as derrotas ao longo destas últimas décadas, que é altura de sustentar as nossas mais efémeras vitórias. Até porque as receitas liberalizantes deixaram de constituir resposta eficaz a esta crise actual.
É preciso apostar na criação de uma nova sociedade com ideias renovadas quanto ao seu modelo de organização.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Previsões exageradas

É algo de muito complicado em cada semana: diversas pessoas vão-me contactando porque, julgando-me em situação de maior poder do que efectivamente tenho, me querem pedir ajuda para lhes encontrar emprego, seja por estarem desempregadas, seja por já não receberem ordenados há alguns meses.
Esta frequência de apelos desesperados tem-se vindo a agravar nos meses mais recentes, sobretudo a partir da altura em que a crise financeira internacional se traduziu no ataque especulador à moeda única europeia, servindo-se da Grécia e de Portugal como os elos mais fracos de uma corrente orientada para toda a União continental.
Os defensores do dólar tinham passado por violento susto, quando viram essa moeda a perder relevância num mundo progressivamente orientado para a divisa rival, razão para não deixaram escapar a oportunidade de recuperarem a dominação anterior. Infelizmente, a direita europeia personificada na atarracada chanceler alemã foi sua cúmplice, ainda se está para ver se voluntária, se involuntariamente.
Para esta situação o Governo de José Sócrates nada pôde fazer. Balizado nas receitas keynesianas apostara nas grandes obras públicas como forma de dinamizar o mercado do emprego e gerar fluxos de circulação fiduciária em toda a nossa realidade.
Pode-se-lhe assacar muitas críticas quanto à exagerada ambição do referido plano de investimentos, mas ele era o único capaz de promover a criação de dezenas de milhar de postos de trabalho e de travar a provável recessão económica.
Não lhe foi possível traduzir essa visão em realidade. Por um lado, porque um conjunto de bafientos velhos do Restelo andaram a conspirar para parar com todos os projectos, voltando á velha solução salazarenta de guardar o oiro e manter a camada mais pobre da portugalidade naquele limiar de sobrevivência mínima tantas vezes geradora de desesperos suicidas. Depois, porque se manteve essa conjugação de interesses entre especuladores, agências de rating e a direita europeia para pôr um termo ao agregador euro.
Agora resta a José Sócrates ir cumprindo os programas do PSD, sem se libertar de uma espiral de descontentamento crescente do eleitorado.
Mas quero crer o quão errados estão os urubus atentos ao estertor do primeiro-ministro para o começarem a debicar. Quem já lhe preparou o discurso fúnebre bem o poderá guardar por mais algum tempo. Como dizia Mark Twain, as notícias sobre a sua morte são bastante exageradas...

terça-feira, 11 de maio de 2010

Uma questão de idiossincrasias...

Numa recente entrevista à Télérama o escritor grego Nicos Panayotopoulos refere que muitos compatriotas têm detectado um súbito embranquecimento nos cabelos do primeiro-ministro George Papandreou. E essa constatação tem suscitado uma grande admiração pela fibra estóica de um homem a contas com tão problemático destino quanto é o seu e o do seu povo. Porque enfrentar uma crise desta dimensão é para gente corajosa e de grande determinação. E, por isso, embora um multidão em pânico se manifeste nas ruas de Atenas contra as incertezas do seu futuro, a maioria dos gregos já sabe quanto incontornável é a opção seguida pelo Governo. E apoia-a.
Lamentavelmente não se passa o mesmo em Portugal aonde os sinais de envelhecimento precoce de José Sócrates são igualmente bastante óbvios. Ao pundonor com que tem procurado levar o país na direcção de uma modernidade mais competitiva,  têm respondido as diversas corporações ameaçadas por medidas previstas ou aplicadas no mandato anterior, e que tudo têm feito para o apear. Com a conivência activa desses cada vez mais desmascados mercenários do presente, que são alguns jornalistas com uma visão muito própria do seu código de conduta...
Estou em crer que, a consegui-lo, derrubam o mais brilhante político da sua geração, aquele que não se conformou, nem se conforma, com um país no diminutivo e o quis fazer ombrear com os mais avançados.
Que se tente heroicizar uma brigada do reumático, que tudo quer travar em nome de salazarentos discursos e apoiada num dos seus mais lídimos representantes (por ora ainda sentado em Belém) diz muito sobre a diferença entre gregos e portugueses. E talvez se clarifique melhor a razão, porque, na altura da grande decisão, foram eles a conquistar o Europeu de futebol em detrimento de uma selecção scolarizada, também ela vergada a valores e concepções dos tempos da outra senhora…
Ou porque uns são alegres dançarinos ao som do bouzouki e outros se deprimem ao ritmo fadista da guitarra portuguesa...

sábado, 8 de maio de 2010

Cegueiras involuntárias

É bem conhecida a tendência para nos distrairmos do que está mesmo ali à nossa frente e com que embatemos, quer se trate de um objecto ou quer de um conhecimento para os quais deveríamos ter tomado determinadas precauções. O chavão inglês, inattentional blindness (cegueira sem intenção), está a ser glosado em muitos artigos científicos, que reconhecem existir uma incapacidade humana para ver coisas que estão à frente dos olhos apesar de se tratar de algo facilmente explicável: as pessoas ou não estão preparadas para aquilo ou estão a prestar atenção a outra coisa.
Cabe-nos interrogar se, nesta altura, em que a crise financeira está tão intensa com os movimentos especulativos a abalar todas as teorias consolidadas da gestão capitalista e diversos países à beira da bancarrota, se a maioria das populações, agora condicionadas no seu bem-estar pelas ameaças de desemprego e de efectiva pauperização, não deveriam despertar para a realidade mais óbvia: depois da falência de um certo tipo de comunismo, está-se à beira de assistir à implosão do sistema de mercado livre, exigindo-se o advento urgente de uma nova via para evitar as, por ora aparentemente inevitáveis, crises sociais.
A bem da própria sobrevivência da espécie, exigem-se outras políticas e modelos de organização social em que não se esqueça a preservação dos ecossistemas e se reequilibre os abismos cavados entre a qualidade de uma minoria de privilegiados e a grande maioria dos desvalidos.
Se no início da Primavera de 1968, quem visitasse Paris, não poderia imaginar o que viria a aí ocorrer dois meses depois, pode-se estar à beira de algo similar. É que, nesta altura, não são apenas os vulcões islandeses a darem mostras de uma pressão interna ansiosa por se libertar.
Se, pessoalmente, julgava, com o 25 de Abril, já ter esgotado o direito à revolução politica correspondente ao meu tempo de vida, são os próprios especuladores financeiros a contribuir para uma reposição do mesmo filme, como já os gregos estão a protagonizar.
Uma coisa parece certa: nem à direita, nem do lado da social democracia, aparece nenhum iluminado com soluções para os dilemas presentes. O que leva a exigir muito mais à esquerda do que o actual negativismo dos ex-trotsquistas ou a cartilha desactualizada dos comunistas.
De onde poderão vir novas ideias para o renascimento de promissoras utopias? Esperemos que já comecem a clarear os pensamentos de quem se tem deixado distrair com a espuma desta crise e a escalpelize com a profundidade bastante para sugerir novos caminhos.
Estamos, pois, no dealbar de uma nova fase em que abandonando essa cegueira involuntária, os povos deverão deixar de se focalizar no que os media e os governos afirmam ser o essencial, para prestarem a sua atenção às alternativas viradas para o seu futuro...