sábado, 20 de junho de 2026

Os Dois Brunos

 

Esta semana deu protagonismo a dois Brunos, ambos polícias e ambos espelho do mesmo problema visto de ângulos diferentes.

Bruno Pinto matou Odair Moniz a tiro, na Cova da Moura, em outubro de 2024. O tribunal deu como provado que a vítima não tinha faca — a arma branca só apareceu no local entre vinte a trinta minutos depois da morte, com ADN inexistente, numa narrativa que os próprios juízes classificaram de "desprovida de lógica". Mesmo assim, consideraram que houve legítima defesa, "com excesso de meios", e afastaram qualquer hipótese de crime de ódio. Resultado: três anos e seis meses, suspensos. O agente pode voltar à PSP. A decisão cabe à própria PSP julgar-se a si mesma.

Bruno Gonçalves, chefe da Polícia Municipal de Lisboa e antigo agente da PSP, liderava o Movimento Armilar Lusitano — um grupo neonazi com armas impressas em 3D, modelos como a FGC-9 e a Not-a-Glock, granadas de morteiro e incendiárias fabricadas artesanalmente, treinos táticos e um arsenal pensado para "ações futuras contra o Estado". A acusação do DCIAP revela algo notável: entre os alvos vigiados estava a casa de Luís Montenegro, com um plano que incluía disparar uma granada por uma janela. O grupo não escolhia vítimas pela cor política — escolhia-as pelo facto de representarem o Estado que odiava.

Dois Brunos, duas medidas. Um matou um homem desarmado e ouviu o seu superior elogiá-lo. O outro organizava uma milícia armada com intenção declarada de atacar instituições e pessoas, incluindo o próprio primeiro-ministro, e só não avançou porque lhe faltaram meios — não vontade.

O que ambos os casos revelam, em conjunto, é mais perturbador do que cada um isoladamente: há, dentro das forças policiais portuguesas, uma tolerância estrutural à violência quando exercida contra quem já é vulnerável, e uma permeabilidade preocupante à ideologia mais extrema quando se veste de uniforme. Não são fenómenos isolados de "maçãs podres" mas sintomas de uma instituição que recruta, forma e protege sem perguntar o suficiente sobre quem está a armar.

A justiça que suspende a pena de quem mata e investiga durante anos quem planeia matar não está a falhar por acidente. Está a revelar o que sempre esteve lá. 

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