Hugo
Soares avisou as bancadas de esquerda que teriam de engolir a aprovação da
contrarreforma laboral. Era a previsão de quem julgava o resultado fechado. Mas
levou um chapadão que não veio da esquerda mas do Chega, que se juntou a PS,
Livre, PCP, Bloco, PAN e JPP para chumbar o "Trabalho XXI" na
generalidade. Toma lá o golaço, secretário-geral do PSD. E foi mesmo ao fundo
da própria baliza.
Não é
bonito gozar com a fanfarronice. Mas há-as que pedem o troco.
Dito
isto, fique claro: não se queira o Chega associar a esta vitória. Ventura
justificou o voto com a idade da reforma e as "reformas milionárias"
— populismo de quem precisa de parecer próximo dos trabalhadores sem nunca ter
defendido um direito laboral na vida. O cálculo eleitoral, não a convicção,
moveu aquele voto.
Quem
derrubou o pacote foi outra gente: a CGTP e os milhares de trabalhadores que
pararam o país por duas vezes em greve geral. Foi essa pressão sustentada, e
não a aritmética parlamentar de ocasião, que tornou o diploma impossível de
aprovar sem alterações que o Governo se recusava a fazer. Tiago Oliveira,
visivelmente emocionado nas galerias, resumiu bem: ficou provado que é a luta
dos trabalhadores que determina o desfecho.
Luís
Montenegro comparece hoje no Congresso do PSD com a cara de defunto que a
derrota lhe deixou. Resta-lhe o número do Calimero incompreendido — o
primeiro-ministro que tudo fez bem e que o mundo, injustamente, não reconhece.
Já disse que não vai desistir de "tornar o país competitivo". É a
linguagem do costume: competitividade que se mede pela fragilização de quem
trabalha, nunca pela responsabilização de quem lucra.
Quem o
dizia bem sabia: só é derrotado quem desiste de lutar. Os trabalhadores não
desistiram — pararam o país duas vezes e venceram à terceira, no Parlamento. A
lei está morta, sem promulgação, sem fiscalização, sem Belém a decidir nada —
chumbada na generalidade, não segue caminho nenhum. Fica provado o essencial:
quem trabalha acaba por se erguer, mais tarde ou mais cedo, contra o que o
prejudica. Foi assim com Palma Ramalho. Será assim sempre que for preciso.

Sem comentários:
Enviar um comentário