sábado, 20 de junho de 2026

O Golaço na Própria Baliza

 

Hugo Soares avisou as bancadas de esquerda que teriam de engolir a aprovação da contrarreforma laboral. Era a previsão de quem julgava o resultado fechado. Mas levou um chapadão que não veio da esquerda mas do Chega, que se juntou a PS, Livre, PCP, Bloco, PAN e JPP para chumbar o "Trabalho XXI" na generalidade. Toma lá o golaço, secretário-geral do PSD. E foi mesmo ao fundo da própria baliza.

Não é bonito gozar com a fanfarronice. Mas há-as que pedem o troco.

Dito isto, fique claro: não se queira o Chega associar a esta vitória. Ventura justificou o voto com a idade da reforma e as "reformas milionárias" — populismo de quem precisa de parecer próximo dos trabalhadores sem nunca ter defendido um direito laboral na vida. O cálculo eleitoral, não a convicção, moveu aquele voto.

Quem derrubou o pacote foi outra gente: a CGTP e os milhares de trabalhadores que pararam o país por duas vezes em greve geral. Foi essa pressão sustentada, e não a aritmética parlamentar de ocasião, que tornou o diploma impossível de aprovar sem alterações que o Governo se recusava a fazer. Tiago Oliveira, visivelmente emocionado nas galerias, resumiu bem: ficou provado que é a luta dos trabalhadores que determina o desfecho.

Luís Montenegro comparece hoje no Congresso do PSD com a cara de defunto que a derrota lhe deixou. Resta-lhe o número do Calimero incompreendido — o primeiro-ministro que tudo fez bem e que o mundo, injustamente, não reconhece. Já disse que não vai desistir de "tornar o país competitivo". É a linguagem do costume: competitividade que se mede pela fragilização de quem trabalha, nunca pela responsabilização de quem lucra.

Quem o dizia bem sabia: só é derrotado quem desiste de lutar. Os trabalhadores não desistiram — pararam o país duas vezes e venceram à terceira, no Parlamento. A lei está morta, sem promulgação, sem fiscalização, sem Belém a decidir nada — chumbada na generalidade, não segue caminho nenhum. Fica provado o essencial: quem trabalha acaba por se erguer, mais tarde ou mais cedo, contra o que o prejudica. Foi assim com Palma Ramalho. Será assim sempre que for preciso. 

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