sábado, 3 de maio de 2014

MÚSICA: a Sinfonia nº5 de Isang, Yun, como pretexto para conhecer melhor o seu compositor

No ano passado a realizadora alemã Maria Stodtmeier assinou o documentário «Isang Yun: um destino entre a Coreia do Norte e do Sul» com que ganhou o Prémio Especial do Júri do 50º Festival Internacional de Televisão Golden Prague. Com ele deu-nos a conhecer um compositor praticamente desconhecido, mesmo para os melómanos ocidentais mais atentos. Mas Ysang Yun, o compositor coreano falecido em 1995 com 78 anos, que é reivindicado como seu por ambas as Coreias e foi autor de prolífica obra de música contemporânea.
O momento culminante na vida de Isang Yun aconteceu em 1960 quando decidiu prosseguir os seus estudos musicais em Paris e em Berlim, trazendo consigo uma consciência política acicatada pela ocupação da Coreia pelos japoneses e pela divisão da península.
A sua atividade política, mesmo à distância, merece então o ódio de estimação do ditador sul-coreano, Park Chung-hee (pai da atual Presidente) que manda os seus serviços secretos raptarem o compositor em Berlim em 1967.
Em Seul Isang Yun é encarcerado, torturado e condenado a prisão perpétua por ter entretanto visitado a Coreia do Norte. Nesse julgamento fantoche, alguns dos réus foram condenados à pena de morte.
É graças a uma petição internacional de grande dimensão, que a ditadura sul-coreana acaba por expatriar Isang Yun para Berlim onde ele obterá a nacionalidade alemã em 1971.
Nas duas décadas seguintes - sobretudo depois de Park Chunk-hee ser executado por opositores, levando a Coreia do Sul a assumir um regime formalmente democrático – Isang Yun passa a deslocar-se regularmente aos dois lados do paralelo 38,quer para divulgar as suas obras de vanguarda, quer para defender a reunificação do país.
Hoje, se no Norte ele merece um reconhecimento sem contestação, no Sul ainda suscita a raiva dos que persistem em ver nele um espião comunista.



sexta-feira, 2 de maio de 2014

FILME: «Geografia Humana» de Claire Simon

No sexto dia do Festival Indie a nossa opção foi para o documentário de Claire Simon rodado na Gare do Nord, depois de aí ter rodado um filme de ficção com esse mesmo nome.

À partida seria interessante ver como a realizadora iria resolver o desafio de manter a atenção do espectador perante uma sucessão contínua de pessoas, que se limitariam a passar entre o átrio da entrada e as composições ferroviárias estacionadas nos cais, sem que os seus testemunhos - necessariamente muito breves! - dessem uma aparência de ligeireza.

Para lhe facilitar a tarefa, Claire recorreu a um amigo de raízes argelinas, mas nascido em França, para que lhe servisse de intermediário entre a sua câmara e as pessoas a quem pretendia ouvir.

O resultado é heterogéneo, dependendo da maior ou menor riqueza desses diálogos, mas convenhamos que eles tornam-se mais eficazes junto dos que trabalham todo o dia na estação (nos serviços de limpeza, na segurança., nos balcões das lojas, etc.) do que nos que por ali passam para apanhar o comboio com destino a Lille, à Bélgica ou à Inglaterra. Mas não deixa de constituir um retrato interessante sobre aquela que é a maior estação ferroviária da Europa, um lugar excessivo na diversidade de quem o frequenta.

Por isso mesmo é particularmente ajustado o título escolhido pela realizadora para o identificar: Geografia Humana. Porque, de facto, desde os sem abrigo aos analistas financeiros da City, dos traficantes de droga aos racistas incomodados pela mescla de cores e de culturas à sua volta, da idosa que tivera loja prestigiada numa das principais ruas comerciais de Paris às jovens preocupadas com a sua sensualidade, estão presentes as diversas classes sociais e escalões etários. E as origens geográficas são igualmente variadas: dos países do Magreb à África subsariana, da Pérsia ao México, passando por vários países europeus (mas onde andam os sempre presentes portugueses?) a câmara de Claire Simon vai listando as diversas latitudes e longitudes.

Para a realizadora, que esteve presente no final da sessão para explicar o projeto e debatê-lo com quem ficou na sala, a gare do Nord é uma espécie de Internet. A multiplicidade das personagens, dos fluxos e das redes materializa-se no nosso olhar, bastando atentar numa direção para ver surgir uma história. Por isso mesmo, com um intervalo de seis meses para não prejudicar a homogeneidade do tipo de vestuário de meia-estação dos seus personagens, ela e a sua equipa passaram dias e noites a espiar as conversas, a provocar encontros e a questionar.

Ao chegar à fase de montagem ela tinha uma enorme quantidade de imagens para as quais era necessário criar uma estrutura, já que trabalhara sem um argumento pré-estabelecido. Mas, concluído o produto final ela confessa o prazer conferido por essa forma, que decorrera da liberdade assumida durante a rodagem.

Quando o filme acaba concluímos que uma estação ferroviária é mesmo aquilo que acabámos de ver: pessoas que se encontram, outras que partem ou que regressam.

No fundo é um espaço preenchido por fantasmas...


POLÍTICA: Um país que não é para velhos, nem para novos ... nem para bébés!

Pois é! Aumenta o IVA e a TSU e  passos coelho nega tratarem-se de mais impostos! Aonde andam os que andavam a crismar de Pinóquio o anterior primeiro-ministro e não chamam mentiroso a este?
É a campanha eleitoral no seu esplendor apimentando a vocação do primeiro-ministro para vendedor de banha da cobra!
Irá a tempo de conseguir resultados?, perguntava o entrevistador da TVI24 a Augusto Santos Silva. E este, mesmo não querendo nunca assumir o papel de adivinho, descrê do sucesso desta tosca campanha de marketing político. Porque, por muito que se pinte de todas as cores (até as do arco-íris para piscar o olho ao eleitorado a quem negou a co-adoção!), ele está condenado à derrota. No balanço da sua governação os ativos são ínfimos comparados com o longo rol de contas anotadas no respetivo passivo.  E nem precisamos de repisar os sempre eloquentes números sobre o desemprego, a dívida pública ou o número de portugueses condenados a emigrar: diariamente outros indicadores menos conhecidos vêm corroborar a desastrosa demolição, que a coligação do PSD e do CDS tem levado  por diante sobre quanto de bom herdara do governo de Sócrates.
Vejam-se alguns exemplos menos conhecidos:
· Segundo o memorando a meta das privatizações deveria garantir um total de 5 mil milhões de euros até ao final de 2013. No afã de tudo privatizar o governo conseguiu 9 194 milhões o que poderia ser um excelente resultado se tivesse contribuído para minorar os sacrifícios de pensionistas, desempregados e funcionários públicos. Só que nenhum desses euros - nem os previstos, nem os adicionais, foram direcionados para esse nobre objetivo;
· Se os portugueses foram convencidos a saírem da sua zona de conforto e a mostrarem-se empreendedores na resolução do seu problema de desemprego, fosse lá fora, fosse cá dentro, houve uns quantos que resolveram o assunto enveredando pela delinquência e garantindo cama, comida e roupa lavada nas prisões: entre 2011 e 2012 aumentou em 7% o número de presos nas cadeias portuguesas. Números anunciados pelo Conselho da Europa;
· Num país que não vai sendo para velhos, também se nega aos casais as condições necessárias  para gerarem novas crianças. Em 2013 morreram 107 mil pessoas e nasceram pouco mais de 83 mil crianças. Números do INE.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

BANDA SONORA: A Naifa - Inquietação [2013]

Os A Naifa continuam em digressão até 17 de maio. A 16 estarão em Lisboa no Tivoli. E importa que mereçam o apoio que o talento e a determinação em contribuir para a mudança desta coisa que tarda a acontecer justificam!

Até porque, ao contrário de outros, que pareceram a determinada altura querer pegar no testemunho da cantiga como arma, os A Naifa não têm pruridos em afirmar ao que andam...

IDEIAS: quando o cérebro vê fundidos os seus fusíveis! (IV)

Entrámos num «tempo  ordenado», ou seja sujeito a ordens muito rígidas.
Em 1962, quando Orson Welles rodou «O Processo», numa adaptação do romance de Kafka, apresentou-nos um homem, que irá ser executado sem sequer ter direito a um julgamento digno desse nome, porque toda a acusação está mais que viciada apesar de constantemente ele se proclamar inocente.
Esse homem, Joseph K dá a sensação de querer fugir a qualquer coisa., de reivindicar o direito a uma vida individual no seio de uma sociedade cada vez mais mecanizada nos mesmos comportamentos. Ele é alguém que ainda não desistiu de se manter vivo no seio de um mundo de mortos-vivos. Mas é um combate perdido logo à partida…
Welles ilustra o fenómeno dos open spaces, quando eles ainda estavam a começar a surgir sob a forma de uma ideia abstrata sobre o que poderia tornar o trabalho mais eficaz. E onde a ordem, o tempo era imposto…
Até ao século XX o tempo era definido pelo trabalho em si, pelo que não era imposto a priori, enquanto, pelo contrário, na fase de burocratização do trabalho, da sua adequação a uma lógica taylorista, o tempo de trabalho passa a ser determinado coercivamente.
O horário de trabalho passa a ser uma provação para o indivíduo que, muitas vezes, vê-se a correr atrás de um tempo que nunca se chega a ter a sensação de dominar.
Ora, o tempo costumava ser sinónimo da nossa liberdade. O taylorismo irá coartar essa condição humana, apoiado nas máquinas que, elas sim, passam a comandar esse mesmo tempo.
Hoje o sistema capitalista assenta na obsolescência programada das máquinas - no seu próprio burn out - e essa mesma lógica foi ampliada aos próprios recursos humanos.
O desejo de «flexibilização» das leis do trabalho têm a ver com a noção de que, quais pastilhas elásticas, os trabalhadores são para explorar ao máximo no período mais curto possível, passando a ser dispensáveis quando já não conseguirem manter os padrões de produtividade, que maximize a sua utilização. Podendo, então, ser substituídos, com custos reduzidos, por novas levas de explorados.
A melancolia contemporânea de que fala o filósofo Pascal Chabot num seu livro recente  («Global Burn Out», ed. PUF) tem a ver com essa condenação do homem a tornar-se máquina, numa mera roda dentro da engrenagem onde é mandado em vez de mandante.
Ora o desejo de reconhecimento mora no íntimo de cada indivíduo e faz parte da sua identidade enquanto pessoa. E por isso mesmo anseia por um local de trabalho onde possa conservar a autoestima e a sua verdadeira individualidade. Ou seja algo onde se sinta realizado.
Estamos, pois, num tempo em que existe uma fronteira muito clara a distinguir os que querem transformar o local de trabalho num  espaço de medo, de precariedade e de negação de quaisquer direitos e os que defendem a legítima ambição de cada trabalhador sentir-se respeitado e reconhecido.
Combater as condições, que levam pessoas a suicidarem-se ou a ficarem transtornadas depois de exploradas até ao limite da sua suportabilidade, é um desafio fundamental para a esquerda e para o mundo sindical nos anos vindouros.