A
ingenuidade é hábito antigo da esquerda dita moderada, e vem sempre embrulhada
em boas maneiras. José Luís Carneiro viabiliza mais um Orçamento e promete: se
ganhar sem maioria, espera reciprocidade do PSD. Em 2024, Montenegro manteve o
tabu sobre o que faria se o PS ganhasse sem maioria. Pedir hoje o favor a quem
então o recusou é acreditar na bondade de quem vive de a não ter.
Em
França, o ninho socialista já chocou um Macron, que por pouco o reduziu à
irrelevância. Agora, dois terços dos votantes na primária escolheram Raphaël
Glucksmann, que ainda tem de provar que é presidenciável. Oxalá o presságio
falhe, mas quem foi enganado uma vez deve olhar duas para o próximo cuco.
A
resposta, porém, não está no susto. As vitórias das extremas-direitas assustam
no curto prazo, mas é no médio prazo que se jogam as maiorias sociais, e esse
tempo pertence à habitação, à educação, à saúde e ao clima. Em Espanha, a falta
de casas, a subida das rendas e os despejos já lançam milhares de pessoas à
rua. As direitas não têm resposta para nenhum destes problemas: exploram a
raiva, e a raiva, um dia, cansa-se de ser explorada.
Por
agora, o espelho da direita mostra o que vale. Luís Neves, o ministro das
trapalhadas, vê o secretário-geral que demitiu acusá-lo de pressões ilegítimas
para cometer irregularidades, o que ele nega, falando em quebra de confiança. E
André Ventura, que censurou Costa por responder por escrito a uma comissão de
inquérito, vai testemunhar dessa mesma forma sobre o assalto ao seu gabinete. A
PJ ainda não encontrou indícios de invasão e não exclui a encenação. Os
impulsos têm consequências.
E o
dinheiro não compra tudo. Nova Iorque elegeu Mamdani, apesar das fortunas
despejadas pelos bilionários no rival Cuomo. Agora Musk injeta 276 milhões nas
intercalares e ajuda a espalhar um boato falso sobre Talarico, desmentido em
poucas horas. Cada fortuna a comprar marionetas ensina que o eleitorado nem
sempre se deixe manipular por quem gosta de ser comprado.
O tempo
não corre a favor de quem vive de explorar a raiva. Corre a favor de quem
tiver, quando ela passar, respostas à mão.

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