quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Nem ingénuos, nem aterrados

 


A ingenuidade é hábito antigo da esquerda dita moderada, e vem sempre embrulhada em boas maneiras. José Luís Carneiro viabiliza mais um Orçamento e promete: se ganhar sem maioria, espera reciprocidade do PSD. Em 2024, Montenegro manteve o tabu sobre o que faria se o PS ganhasse sem maioria. Pedir hoje o favor a quem então o recusou é acreditar na bondade de quem vive de a não ter.

Em França, o ninho socialista já chocou um Macron, que por pouco o reduziu à irrelevância. Agora, dois terços dos votantes na primária escolheram Raphaël Glucksmann, que ainda tem de provar que é presidenciável. Oxalá o presságio falhe, mas quem foi enganado uma vez deve olhar duas para o próximo cuco.

A resposta, porém, não está no susto. As vitórias das extremas-direitas assustam no curto prazo, mas é no médio prazo que se jogam as maiorias sociais, e esse tempo pertence à habitação, à educação, à saúde e ao clima. Em Espanha, a falta de casas, a subida das rendas e os despejos já lançam milhares de pessoas à rua. As direitas não têm resposta para nenhum destes problemas: exploram a raiva, e a raiva, um dia, cansa-se de ser explorada.

Por agora, o espelho da direita mostra o que vale. Luís Neves, o ministro das trapalhadas, vê o secretário-geral que demitiu acusá-lo de pressões ilegítimas para cometer irregularidades, o que ele nega, falando em quebra de confiança. E André Ventura, que censurou Costa por responder por escrito a uma comissão de inquérito, vai testemunhar dessa mesma forma sobre o assalto ao seu gabinete. A PJ ainda não encontrou indícios de invasão e não exclui a encenação. Os impulsos têm consequências.

E o dinheiro não compra tudo. Nova Iorque elegeu Mamdani, apesar das fortunas despejadas pelos bilionários no rival Cuomo. Agora Musk injeta 276 milhões nas intercalares e ajuda a espalhar um boato falso sobre Talarico, desmentido em poucas horas. Cada fortuna a comprar marionetas ensina que o eleitorado nem sempre se deixe manipular por quem gosta de ser comprado.

O tempo não corre a favor de quem vive de explorar a raiva. Corre a favor de quem tiver, quando ela passar, respostas à mão.

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