(Décimo
sétimo de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que se constata
quanto não faltam exemplos de quem se julga com muitos mais méritos do que
visivelmente têm ).
Cavaco
Silva pertence à espécie de quem se faz à boleia da bandeira alheia: Mário
Soares negociara a entrada de Portugal na CEE, com o desgaste e o risco que a
negociação impõs a quem a assinou, e coube a Cavaco colher os fundos que dessa
entrada resultaram, gastando-os numa orgia de betão que o próprio apelidou
depois de modernização.
Enquanto
se erguiam viadutos e abriam avenidas, afundavam-se sectores inteiros sem
cerimónia equivalente: a pesca, a marinha mercante, e as populações que deles
viviam, empurradas para reconversões que ninguém lhes perguntou se queriam. O
betão fica bonito nas fotografias de inauguração; os pescadores reformados à
força não saem tão bem na imagem.
Há, no
entanto, uma inspiração mais funda do que a do cimento, essa nunca confessada
em discurso nenhum: a nostalgia discreta do Estado Novo, revelada com uma
clareza quase didática quando, primeiro-ministro, recusou a Salgueiro Maia a
pensão pedida por "serviços excecionais e relevantes prestados ao
país" — para, depois, conceder pensão idêntica a dois antigos inspetores
da PIDE.
Não é
preciso psicanálise para ler o gesto: um capitão de Abril esperou em vão pelo
que dois agentes da polícia política receberam sem entraves. A homenagem
tardia, feita já como Presidente, chegou vinte anos depois, "tímida,
envergonhada e sem chama", nas palavras de quem estudou o episódio de
perto.
Quanto ao
economista, o mérito fica por provar. Não deixou alunos que se lembrem dele
como mestre inspirador, nem artigos científicos que tenham desbravado coisa
alguma; deixou, isso sim, o hábito obstinado de intervir no espaço público com
textos onde o fel pelas esquerdas nunca falha a pontaria e a generosidade para
com as direitas nunca escasseia, mesmo quando os méritos que lhes atribui são,
para a maioria dos leitores, difíceis de vislumbrar.
Fica o
retrato de um homem que construiu obra com dinheiro alheio, memória com
esquecimentos seletivos, e reputação de sábio com a repetição paciente de
opiniões que a ciência económica nunca lhe pediu como prova. Talvez seja este o
seu monumento mais duradouro, mais até do que o betão: a capacidade para se
apresentar como estadista acima da história, precisamente para quem sabe ler,
com atenção, o que a história já documentou sobre ele.

Verdade nua e crua
ResponderEliminarQue se esperava de um ex-P.I.D.E./D.G.S. filiado no Estado Novo ???
ResponderEliminarConcordo em pleno, mas não esqueçamos que Soares, para os fascistas , foi um herói, pois segundo eles, evitou que Cunhal levasse o país para o comunismo, o que seria utópico e patético, nem sobreviveria, devido à falta de estrutura que o envolvia, tratava-se de um ideal ,onde se defendia a Democracia, Num pluralismo há sempre mais que uma facção política. Cunhal era um aristocrata empenhado em acabar com a pobreza extrema e o analfabetismo excessivo em Portugal, propondo a Educacão e a Saúde gratuitas para todos. Tudo pela justiça social. Ao falecer, Soares teve o prémio de um funeral de pompa e circunstância promovido pela extrema direita e dirigido para o Panteão.
ResponderEliminarFoi esta a sua maior traição e imperdoável , pois nos vendeu, um socialista convicto, jamais será um anti comunista, um anti anarquista, um anti trotsikista e por aí fora. É nestes PRINCÍPIOS e VALORES de pluralismo e respeito que estão englobados a dinâmica da verdadeira DEMOCRACIA E RESPEITO PELA L8IBERDADE de cada um a E OPÇAO DE IDEAIS PELA LIBERDADE, ONDE NUNCA MORARÁ A TRAIÇÃO!
circunstância
Fica mal, ao retrato da figura, deixar esquecido o voto contra, em sede da ONU, à libertação de Mandela. Miserável.
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