Não há
pior cego do que quem não quer ver — o provérbio é antigo e a sua aplicação
nunca foi tão generosa em exemplos como agora.
Os
prosélitos da Iniciativa Liberal continuam a acenar com os altos salários dos
países do norte da Europa como prova de que o liberalismo económico funciona.
Esquecem, propositadamente, que esses salários são a herança de décadas de
políticas sociais-democratas em que os direitos dos trabalhadores não eram
obstáculos ao crescimento mas condições dele. Herança que as próprias direitas
do norte tratam de dilapidar, mas ainda resiste o suficiente para servir de
argumento a quem prefere a conclusão ao raciocínio.
Ana
Mendes Godinho lembrou no Público o que a narrativa contrária produziu
quando já foi experimentada: as alterações ao Código do Trabalho de 2012,
feitas em nome da modernização e da competitividade, geraram uma taxa de
precariedade de 19,5%, que entre os jovens atingiu 60% — doze pontos acima da
média europeia. O desemprego jovem escalou para 38,5%, catorze pontos acima da
média da União Europeia. O crescimento que a desregulação prometia não
apareceu. A precariedade ficou.
Foi a
inversão dessas políticas — a aposta nos direitos laborais, no salário mínimo,
na redução da precariedade — que produziu os resultados que Montenegro,
Sarmento e companhia hoje gostariam de poder replicar. O PIB crescia, as contas
estavam certas, o défice controlado. Portugal aparecia nas estatísticas
europeias como caso de sucesso. Agora pedem à precarização que faça o que a
dignificação do trabalho já demonstrou conseguir — e chamam-lhe modernização.
O pior
cego não é o que nasceu sem visão. É o que a tem, fecha os olhos e pede a
outros que descrevam o que está à frente.

Digamos que é uma questão de economia.
ResponderEliminarA Suécia tem a Volvo, a Saab, os Grippen. Nós temos a AutoEuropa.
A Finlândia tem a Nokia. Nós temos a Sonae, que até tem na Finlândia uma empresa de petiscos para cães, prova da internacionalização da nossa economia.
A Dinamarca tem a Maersk e aquela empresa que descobriu o medicamento que põe os gordos esbeltos. Nós temos...temos o quê? Bom, temos os seguradores, os do marketing, os profissionais de comunicação; todos da IL. Fora os antropólogos e sociólogos do Bloco, outra riqueza.
Mas há pontos em comum:
Temos muitos investigadores na Suécia e na Dinamarca .
Partilhamos com a Islândia e a Noruega a paixão do bacalhau. Eles vendem e nós comemos.