Dois
franceses, dois crimes, uma coincidência que não é apenas biográfica. Cédric
Prizzon, militar da Gendarmerie Nationale, matou duas mulheres e enterrou-as na
serra da Nogueira na presença do filho. Marc B., antigo polícia, abandonou dois
enteados com os olhos vendados numa floresta do Alentejo. Em ambos os casos,
homens formados pelo Estado para exercer a força legítima converteram essa
formação em instrumento de domínio privado sobre mulheres e crianças. Não é uma
anomalia. É uma síntese.
A análise
não reduz estes casos à psicologia individual — ao monstro, ao louco, ao caso
isolado que a sociedade pode contemplar com horror conveniente antes de mudar
de canal. O que estes homens fizeram inscreve-se numa estrutura: a família
patriarcal como célula de poder, o corpo da mulher como propriedade, a criança
como extensão do ego masculino e instrumento de vingança. O capitalismo não
inventou o patriarcado, mas acolheu-o, organizou-o juridicamente durante
séculos e continua a alimentá-lo onde lhe é útil — na mão-de-obra doméstica não
remunerada, na desigualdade salarial sistémica, na violência que mantém as
mulheres no lugar que lhes foi atribuído.
O que
mudou é o contexto em que esta violência emerge. A sociedade capitalista
contemporânea produziu um tipo humano específico: o indivíduo meritocrático,
convencido de que o seu valor é absoluto e de que qualquer perda — de custódia,
de estatuto, de controlo — é uma injustiça que justifica a resposta extrema. A
meritocracia não é apenas uma ideologia do mercado de trabalho. É uma ética do
eu que dissolve a responsabilidade para com o outro. Se mereço tudo, quem me
retira algo torna-se inimigo legítimo. A ex-mulher que levou o filho. A amante
que se tornou inconveniente. As crianças que passaram a ser peso de uma vida
que não correu como previsto.
Sobre
esta base ergueu-se, nos últimos anos, uma religiosidade ultramontana em
ressurgimento — não a fé modesta dos pobres, que historicamente encontrou em
Cristo o defensor dos humilhados, mas a religião dos poderosos: hierárquica,
punitiva, obcecada com a família como fortaleza e a mulher como pilar
sacrificial. Esta religiosidade não combate a violência doméstica. “Abençoa-a”
com o nome de ordem natural.
E tudo
isto acontece num mundo do trabalho irreconhecível. A uberização liquidou a
ideia de que o trabalho confere pertença — a uma empresa, a uma comunidade, a
um projeto coletivo. O trabalhador precário não tem colega, não tem sindicato
acessível, não tem futuro previsível. Tem uma aplicação e uma classificação de
cinco estrelas. O outsourcing generalizou a descartabilidade: despede-se hoje,
subcontrata-se amanhã, e a lei "Trabalho XXI" da ministra Palma
Ramalho quer consagrar juridicamente o que a prática já instalou. Neste mundo,
a solidariedade — que foi durante décadas a resposta coletiva à exploração —
aparece como ingenuidade ou como luxo de quem ainda tem tempo para pensar nos
outros.
Houve um
tempo em que se julgava caminhar para algum lado. A social-democracia europeia
do pós-guerra, com todas as suas insuficiências, produziu Estado social,
serviços públicos, direitos laborais, uma ideia — imperfeita, contraditória,
mas real — de que a sociedade tinha obrigações para com os seus membros. A
Geringonça foi, durante quatro anos, um lampejo tardio dessa ideia. Os que a
viveram sabem que não era o socialismo — era um ensaio de decência
administrada. Mas era mais do que isto.
O que
vivemos hoje é o passo longo atrás. A precariedade como norma. A meritocracia
como anestesia. A religião como polícia dos costumes. E a violência — contra as
mulheres, contra as crianças, contra os trabalhadores — como resultado
previsível de uma ordem que proclama a liberdade individual enquanto destrói as
condições materiais e culturais para que essa liberdade exista para todos.
Os dois
saltos para diante não virão de moções de estratégia nem de discursos em
congressos de partidos que há muito esqueceram o que escreveram nos programas
fundadores. Virão da greve geral de 3 de junho, e da seguinte, e da que vier
depois. Da recusa coletiva de normalizar o descartável. Da memória,
teimosamente preservada, de que houve momentos em que se acreditou ser possível
construir uma sociedade em que nenhum homem julgasse ter o direito de enterrar
uma mulher numa floresta — porque o mundo que o ensinaria a não o fazer nunca
chegou a existir inteiramente.
Esse
mundo continua a ser urgente.

Há homens que lutam um dia, e são bons;
ResponderEliminarHá outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida.
Estes são os imprescindíveis. Bertolt Brecht
TANBÉM SE PODE LUTAR, FALANDO OU ESCREVENDO, SÓ É PRECISO QUE ALGUÉM OUÇA OU LEIA, E ENTENDA.