domingo, 24 de maio de 2026

A Barbárie com Credencial

 


Dois franceses, dois crimes, uma coincidência que não é apenas biográfica. Cédric Prizzon, militar da Gendarmerie Nationale, matou duas mulheres e enterrou-as na serra da Nogueira na presença do filho. Marc B., antigo polícia, abandonou dois enteados com os olhos vendados numa floresta do Alentejo. Em ambos os casos, homens formados pelo Estado para exercer a força legítima converteram essa formação em instrumento de domínio privado sobre mulheres e crianças. Não é uma anomalia. É uma síntese.

A análise não reduz estes casos à psicologia individual — ao monstro, ao louco, ao caso isolado que a sociedade pode contemplar com horror conveniente antes de mudar de canal. O que estes homens fizeram inscreve-se numa estrutura: a família patriarcal como célula de poder, o corpo da mulher como propriedade, a criança como extensão do ego masculino e instrumento de vingança. O capitalismo não inventou o patriarcado, mas acolheu-o, organizou-o juridicamente durante séculos e continua a alimentá-lo onde lhe é útil — na mão-de-obra doméstica não remunerada, na desigualdade salarial sistémica, na violência que mantém as mulheres no lugar que lhes foi atribuído.

O que mudou é o contexto em que esta violência emerge. A sociedade capitalista contemporânea produziu um tipo humano específico: o indivíduo meritocrático, convencido de que o seu valor é absoluto e de que qualquer perda — de custódia, de estatuto, de controlo — é uma injustiça que justifica a resposta extrema. A meritocracia não é apenas uma ideologia do mercado de trabalho. É uma ética do eu que dissolve a responsabilidade para com o outro. Se mereço tudo, quem me retira algo torna-se inimigo legítimo. A ex-mulher que levou o filho. A amante que se tornou inconveniente. As crianças que passaram a ser peso de uma vida que não correu como previsto.

Sobre esta base ergueu-se, nos últimos anos, uma religiosidade ultramontana em ressurgimento — não a fé modesta dos pobres, que historicamente encontrou em Cristo o defensor dos humilhados, mas a religião dos poderosos: hierárquica, punitiva, obcecada com a família como fortaleza e a mulher como pilar sacrificial. Esta religiosidade não combate a violência doméstica. “Abençoa-a” com o nome de ordem natural.

E tudo isto acontece num mundo do trabalho irreconhecível. A uberização liquidou a ideia de que o trabalho confere pertença — a uma empresa, a uma comunidade, a um projeto coletivo. O trabalhador precário não tem colega, não tem sindicato acessível, não tem futuro previsível. Tem uma aplicação e uma classificação de cinco estrelas. O outsourcing generalizou a descartabilidade: despede-se hoje, subcontrata-se amanhã, e a lei "Trabalho XXI" da ministra Palma Ramalho quer consagrar juridicamente o que a prática já instalou. Neste mundo, a solidariedade — que foi durante décadas a resposta coletiva à exploração — aparece como ingenuidade ou como luxo de quem ainda tem tempo para pensar nos outros.

Houve um tempo em que se julgava caminhar para algum lado. A social-democracia europeia do pós-guerra, com todas as suas insuficiências, produziu Estado social, serviços públicos, direitos laborais, uma ideia — imperfeita, contraditória, mas real — de que a sociedade tinha obrigações para com os seus membros. A Geringonça foi, durante quatro anos, um lampejo tardio dessa ideia. Os que a viveram sabem que não era o socialismo — era um ensaio de decência administrada. Mas era mais do que isto.

O que vivemos hoje é o passo longo atrás. A precariedade como norma. A meritocracia como anestesia. A religião como polícia dos costumes. E a violência — contra as mulheres, contra as crianças, contra os trabalhadores — como resultado previsível de uma ordem que proclama a liberdade individual enquanto destrói as condições materiais e culturais para que essa liberdade exista para todos.

Os dois saltos para diante não virão de moções de estratégia nem de discursos em congressos de partidos que há muito esqueceram o que escreveram nos programas fundadores. Virão da greve geral de 3 de junho, e da seguinte, e da que vier depois. Da recusa coletiva de normalizar o descartável. Da memória, teimosamente preservada, de que houve momentos em que se acreditou ser possível construir uma sociedade em que nenhum homem julgasse ter o direito de enterrar uma mulher numa floresta — porque o mundo que o ensinaria a não o fazer nunca chegou a existir inteiramente.

Esse mundo continua a ser urgente.

1 comentário:

  1. Há homens que lutam um dia, e são bons;
    Há outros que lutam um ano, e são melhores;
    Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
    Porém há os que lutam toda a vida.
    Estes são os imprescindíveis. Bertolt Brecht
    TANBÉM SE PODE LUTAR, FALANDO OU ESCREVENDO, SÓ É PRECISO QUE ALGUÉM OUÇA OU LEIA, E ENTENDA.

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