quarta-feira, 31 de março de 2010

Lutas justas ou injustas?

A memória contra o esquecimento, assim caracteriza Kundera a luta interminável do Homem contra o Poder.
Se considerarmos as gestas heróicas dos milhões, que não se conformaram com o sofrimento das injustiças e procuraram diferentes formas de utopia na sua determinação em dizer não às instituições, poderemos encontrar profundidade na interpretação do escritor checo.
Mas será sempre assim? Generalizar como justas todas as contestações aos poderes pode revelar-se trágico. Como ocorreu no Chile com a contestação criminosa ao governo de Salvador Allende, que resultou na longa ditadura de Pinochet. Ou quando revoluções inicialmente saudadas como libertadoras pelas esquerdas redundaram em formas de fascismo ainda mais revoltantes do que os regimes por elas derrubados. Exemplo maior de tal regra o sucedido com o Irão dos ayatollahs.
Então é o esquecimento a sobrepor-se à memória, porque nenhuma forma de poder assente na iniquidade pode pretender o indulto da História. Se os seus títeres ficam registados nas suas páginas não é de forma engrandecida. Passam a constituir os piores exemplos da espécie humana, aqueles de quem de bom grado os seus contemporâneos bem gostariam ter dispensado...
Mas, a uma dimensão mais específica, constata-se no nosso dia-a-dia a demonstração da falta de justeza de certas lutas. As dos pilotos da TAP, por exemplo, que sabem a empresa exangue, à beira da falência e ameaçam paralisá-la em nome de reivindicações salariais exageradas. Ou os enfermeiros da função pública, que exigem um mínimo de 1200 euros para se estrearem em funções quando acabam os cursos, e aceitam de bom grado ordenados de 900 euros nas entidades privadas.
As lutas contra o poder deixam, então, de ter como premissa a justiça e a evolução social, mas a corresponderem a tácticas de terrorismo político por parte de forças incapazes de revelarem a sua influência no grande teste das eleições.

sábado, 20 de março de 2010

Oposição sem visão para o país

Faltam uns dias para o maior partido da oposição nomear o seu novo presidente, mas o que se ouve dos seus quatro candidatos não abre grandes expectativas quanto à sua capacidade de se constituírem em potenciais soluções para as necessidades de um país assumidamente em crise. Como dizia Ferreira Fernandes numa das suas crónicas no «Diário de Notícias», «o PSD ficou órfão de Sá Carneiro de forma abrupta e trágica. Daí os sociais-democratas andarem sempre à procura de mais do que um chefe».
É de um Sebastião o que o PSD anda sempre a procurar. Como se encontrado o homem, também assim vislumbrasse o caminho para um futuro por ora invisível na névoa em que se encontra mergulhado.
Ora, nem Passos Coelho, nem Rangel, nem Aguiar Branco, nem Castanheira têm uma ideia para o país. Os seus únicos argumentos serão os de pretenderem usufruir das prebendas do poder e oporem-se a um detestado Sócrates, que sobre eles tem uma notória vantagem: pelo menos sabe para onde quer conduzir o país, afastando-o do abismo tão próximo.
Mas a falta de ideias dos candidatos do PSD tem a ver com o impasse a que chegaram os defensores do neoliberalismo. Como lembra Mário Soares «foi o neoliberalismo como ideologia que originou a crise global do capitalismo financeiro-especulativo, dito de casino, com os "paraísos fiscais" e a economia virtual, que facilitou as grandes negociatas sem regras, para não dizer ilegais. Começando nos Estados Unidos, contaminou a União Europeia e, depois, o mundo.»
Agora que a festa acabou e o capitalismo está dividido entre quem defende a continuação do vale tudo e quem a ele pretende estabelecer regras reguladoras, o PSD é o exemplo de um partido de poder incapaz de se situar nesse debate.
Ora o futuro imediato passa por opções políticas, que antecipem as medidas fundamentais para evitar as tempestades inevitáveis se desse debate saírem vencedores os primeiros - os que querem voltar aos vícios mais recentes. Os que nos trouxeram até este actual desastre...

terça-feira, 9 de março de 2010

Caça às Bruxas

«Caça às Bruxas» foi o termo designado por Henrique Granadeiro na audição parlamentar de hoje, quando se dirigia à Comissão de Ética da Assembleia da República  que, nas últimas semanas, se tem arvorado em arma de arremesso contra o primeiro-ministro.
O termo em si recorda a nefanda Comissão do senador McCarthy que, nos anos cinquenta do século transacto, procurou identificar e criminalizar todos os simpatizantes de ideologias esquerdistas numa América a contas com o medo da Guerra Nuclear.
Essa designação poderá ser vista, de facto, como excessiva, mas o que está em causa é uma coligação de forças aparentemente antagónicas, mas unidas por um cimento demasiado forte: o ódio de  estimação a um político fora do comum, que tem visão de futuro e determinação para a ele aceder, em vez de se perder na estéril oratória de muitos dos seus antecessores.
José Sócrates já conseguiu recuperar o país de um défice excessivo herdado de Durão Barroso, Santana Lopes e Manuela Ferreira Leite e promete agora repetir a façanha com a colaboração preciosa do competente ministro das Finanças, Teixeira dos Santos.
O que mais custa à oposição é a existência de um projecto concreto para o país e para os portugueses, quando, em contraponto, ela nada tem para apresentar de mais sedutor enquanto modelo alternativo.
Tem sido confrangedor constatar como a esquerda parlamentar representada pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda prossegue uma estratégia de terra queimada como se, mais importante do que descobrir caminhos convergentes com os socialistas, valerá apostar numa lógica contestatária, que possibilite o regresso da direita ao poder.
Nesta última o PSD está convertido num saco de gatos engalfinhados em que não se tem por onde escolher: Pedro Passos Coelho é aparentemente novo no aspecto, mas velho caduco no seu liberalismo fundamentalista, posto em xeque pela recente crise financeira internacional.
Aguiar Branco revela uma faceta bipolar: ora com tendências de convergência com o Governo em prol do país, ora ameaçando-o com uma moção de censura.
Quanto a Paulo Rangel tudo nele é mesquinho, desde não se lembrar da sua recente militância no partido da extrema-direita parlamentar até ao oportunismo tosco de se servir do Parlamento Europeu para a guerrilha interna.
Resta o CDS-PP populista, sempre pronto a abraçar as causas mais retrógradas na posição obsessivamente anti (gay, aborto, etc) e com um líder insuportável de ser visto ou ouvido na televisão. Um daqueles casos em que apetece ir logo vomitar à sanita, quando ele entra sem aviso pelas nossas portas adentro via um electrodoméstico que, a exemplo, dos computadores com acesso à net, deveria ter uma função de bloqueio do que de mais intragável somos obrigados a suportar a nível político e ideológico.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Ouvir dizer mal também cansa...

Enquanto a Natureza continua a revelar-se tormentosa para povos de todas as latitudes (desta vez foi o terramoto do Chile a captar as atenções anteriormente viradas para o do Haiti ou para os aluviões da Madeira) os órgãos de (des)informação nacionais vão de mão dada com a Oposição no prosseguimento da campanha de assassínio de carácter do primeiro-ministro.
Se ajuizarmos na sondagem hoje publicada no «Económico» o crime está a ser recompensado: num só mês a popularidade de José Sócrates decresceu dez pontos arrastando o partido para os 36%. Mas, mesmo com contínuas calúnias e insinuações, estão longe de alcançarem os seus objectivos: ao contrário de Guterres, que mostrou não ter a determinação necessária para enfrentar os golpes baixos dos adversários, o actual inquilino de São Bento já demonstrou uma fibra e uma determinação, que qualquer dos seus putativos adversários não tem.
O mais lamentável é estar tudo isto a acontecer numa altura de grande aperto económico em que as energias nacionais deveriam estar canalizadas para as melhores soluções passíveis de criação de mais emprego e de um crescimento mais sustentado.
Os jornais e as televisões, que rivalizam em títulos sensacionalistas destinados a desacreditar quem revela capacidade e visão para enfrentar os desafios do futuro, calam completamente a crítica óbvia a quem se mostra incapaz de sugerir uma ideia, por mínima que seja, capaz de contribuir para melhorar a acção governativa. O quarto poder está, nesta altura, a constituir um contra-poder de cariz terrorista, porque alicerçado em estratégia de terra queimada.
Esquecem-se, porém, de uma regra fundamental: o que constitui exagero também cansa e lá virá o momento em que serão os leitores e os espectadores a dar-lhes o troco com o seu desinteresse enquanto consumidores. Reflectindo esse enfado no volume de vendas ou de audiências de tais media.
E, depois, cumpra-se a regra conhecida de não haver nem boa, nem má publicidade. Nesta altura são eles quem asseguraram aquela que consolidará as vitórias futuras dos socialistas...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Uma das maiores interrogações, que me tenho colocado nos últimos anos, tem a ver com a transição, quase sem escalas pelo meio, empreendida pela classe operária francesa da esquerda comunista para a extrema-direita de Le Pen.
Como foi possível ao povo, que fez a Revolução de 1789 e se portou de forma tão heróica na Resistência à Ocupação alemã deixar-se, uma vez mais, ultrapassar pelas mentalidades trogloditas outrora representados pelos monárquicos ou pelos colaboracionistas?
A este propósito, Jean Daniel no seu mais recente editorial no «Nouvel Observateur» evoca uma conversa entre François Mitterrand e Pierre Bérégovoy no qual este considerava um perigo deixar as políticas de segurança dos cidadãos entregues ao discurso populista da direita. Porque a insegurança pública não é vivida por quem vive em condomínios fechados ou tem os filhos em colégios particulares. Esse medo permanente em ser assaltado, agredido, violentado, é vivido por quem coabita geograficamente com o lumpen e está na primeira linha dos seus ataques.
Embora o país já tenha passado por estatísticas bem mais preocupantes do que as actuais, esta questão não pode ser desprezada pela esquerda sob pena de ser aproveitada eleitoralmente por Portas & Cª.
Mesmo com a consciência de muita da criminalidade resultar de uma deficiente distribuição social da riqueza, a esquerda não pode assumir um discurso desculpabilizador de actos de delinquência. E não pode subestimar os polícias e os tribunais enquanto garantes da tranquilidade pública.
Por isso, sem ter ainda atingido a gravidade do que vai sucedendo em França, vale a pena interiorizar a recomendação de Bérégovoy enquanto é tempo. Sob pena de arranjarmos um qualquer imitador de Sarkozy para suceder a Cavaco Silva no Palácio de Belém... 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

De Paraíso a Inferno

A noção em como o paraíso pode subitamente transformar-se no pior dos infernos tiveram-na os madeirenses no fim de semana transacto com as ribeiras a extravasarem dos seus leitos devido às intensíssima chuvadas levando nas enxurradas tudo quanto lhes aparecesse pela frente: pessoas, carros, casas, estradas…
De repente voltou essa sensação de começarmos a pagar pelos danos causados aos ecossistemas terrenos, padecendo fenómenos naturais de uma dimensão inaudita. 
Foi preciso isso suceder para que víssemos Alberto João Jardim e José Sócrates lado a lado a sossegarem as almas inquietas por tanta devastação.
A notícia não deixou, porém, de ter o seu reverso: a exploração do lado mais despudorado de uma certa forma de jornalismo, que roça a pornografia: colocar o microfone e a câmara a focarem grandes planos de quem tudo perdeu e andar-se-lhe a estimular os choros convulsivos para consumo dos espectadores dos telejornais de horário nobre tem o seu quê de indigno.
Mas essa é a prática de gente que cursou Comunicação Social e chegou aos jornais e às televisões com a ambição de concorrer aos Prémios Pulitzer e acaba por se libertar do menor escrúpulo.. Não hesitando em apresentar as reportagens mais grotescas e em emitir os maiores disparates.
Não admira assim que se prolongue no tempo a campanha tortuosa contra o primeiro-ministro a quem procuram desviar das suas prioridades - o combate à crise - para se focalizar na defesa da sua honra face às permanentes tentativas de assassinato de carácter de que se vê alvo. Vale-lhe a sua forte personalidade, que lembra aquele provérbio brasileiro cheio de graça: em mar de piranhas, jacaré nada de costas. E é o que ele tem feito nas sucessivas conspirações de que foi alvo. E o que fará nas que se lhe seguirem.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Das campanhas de assassínio de carácter à sobrevivência de um moribundo

Há quem incense o juiz de instrução e o procurador de Aveiro, que têm protagonizado o processo Face Oculta e alguma imprensa até os arvora em arautos impolutos de uma campanha regeneradora dos valores nacionais. Mas os advogados de Armando Vara dão uma outra versão de tais personalidades: «Com percursos com este rigor lógico dedutivo até Jesus Cristo de Nazaré vai acabar acusado por tráfico de influências, e o Papa também vai á chegar com uma participação económica em negócio e o senhor cardeal-patriarca de Lisboa que se cuide, porque, no mínimo, será brindado com uma prevaricação de abuso de poder. (…) Salvo melhor opinião e com o devido respeito, que é muito, qualquer aluno do curso de Direito que arriscasse fazer semelhante raciocínio substantivo estaria votado ao chumbo».
Dá vontade de mandar os senhores em causa regressar aos bancos de escola para que tentem cuidar das questões de justiça com outra seriedade.
***
No «Diário de Notícias», o jornalista Nuno Saraiva aborda a questão da asfixia democrática de uma forma pertinente face aos últimos desenvolvimentos da campanha promovida em torno de «heróis» tão indiscutíveis como o são Manuela Moura Guedes, José Manuel Fernandes ou Mário Crespo:
«Começo a acreditar que a liberdade de expressão está, realmente, ameaçada. Que estamos, de facto, cada vez mais condicionados naquilo que dizemos e escrevemos em público. Mas em sentido inverso do que parece ser hoje a moral dominante. Isto é, quem se atrever a não criticar, atacar, arrasar, insultar ou até mesmo destruir o primeiro-ministro em público leva imediatamente com o selo de “socratista” ou “socranete”».
***
No «Público» a jornalista São José de Almeida continua a ser a voz que clama do deserto, proclamando o fim do capitalismo numa altura em que ele volta a retomar as suas práticas mais selvagens.
Não deixa de ter razão, mas o pior é quase ninguém se atrever a contrariar a dinâmica dominante de quem detém os diversos poderes (económico, político, judicial, comunicacional):
«O que é mais grave é que, perante o falhanço a nível global de um modelo que urge ser alterado, pois não corresponde ao interesse das pessoas e não promove o bem estar nem a justiça social, em Portugal os detentores do poder não falam disso. Antes assistimos à degradação do sistema político, à descredibilização pública dos políticos e à ampliação e reprodução da imagem de que os poderosos são promíscuos. Ou seja, perante o ignorar de uma crise que arrasta um cadáver adiado de um modelo de desenvolvimento económico e social que implodiu,  vemos uma classe política a tentar fazer acreditar  - não se sabe se aos cidadãos, ou a si mesma  - que têm vida e futuro uma atitude e uma concepção perante a vida pública e a gestão de Estado que estão mortos e enterradas e que são, ela também, outros cadáveres adiados.»

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Mau jornalismo, má oposição!

O que alguns elementos da classe jornalística estão a fazer ao país com a alimentação contínua de casos baseados em escutas de duvidosa legalidade, no diz que disse de alguns alcoviteiros ou numa maledicência sem argumentos mas de goebbelsianas intenções (uma mentira repetida mil vezes…!) é um autêntico crime de lesa pátria numa altura de grandes dificuldades conjunturais e em que todos deveriam estar concentrados no essencial: a negação das suspeitas internacionais quanto á capacidade nacional de dar a volta aos seus indicadores macroeconómicos.
As fontes em que tal «jornalismo» se baseia em nada se distinguem das que noutros tempos eram utilizadas pela polícia política do fascismo para controlar e oprimir os opositores. Bufaria no seu mais degradante nível!
Que alguns considerem isso «liberdade de expressão» parece tão incongruente, sobretudo por parte de quem deveria ideologicamente ser mais exigente. Porque está em causa o direito à privacidade de qualquer cidadão, seja ele governante ou governado. E porque, crime a haver, é a de magistrados, procuradores ou directores de jornais, que põem o Estado de Direito entre parêntesis e tudo fazem para tornar público o que nunca deveria ter saído da esfera privada.
Numa altura em que a oposição mostra uma completa ausência de ideias alternativas para a governação e só se revela capaz de apostar numa estratégia de terra queimada, levando a alianças contranatura entre a extrema direita e a extrema esquerda, o primeiro-ministro e o Ministro das Finanças são os únicos, que têm mostrado ter uma noção consistente sobre o que deverá ser feito para afastar a má fama do país das primeiras páginas dos jornais económicos internacionais.
O que está em causa é o futuro imediato dos portugueses e todas as campanhas contra o Governo só dão argumentos para quem o quiser ver afundar-se. O mau jornalismo e a má política só contribuem para que o país se atrase numa corrida em que não há margem para mais demoras!

domingo, 31 de janeiro de 2010

Cavaco visto por Vasco Pulido Valente

Vasco Pulido Valente merece-me escassa consideração, embora sejam de referência os seus trabalhos de historiador sobre as Revoluções Liberais do século XIX.
Mas, quando de Cavaco, ele diz na sua crónica do «Público», que «não entusiasma ninguém» com o seu estilo «formalista, presunçoso e rígido» e acrescenta: «para seu grande mal, não tem grande talento político», não se pode deixar de estar senão em total acordo.
Até, porque a farpa disparada mais adiante, não é menos certeira: «Cavaco, nos seus melancólicos roteiros, faz declarações de Estado, com ar de quem engoliu uma vassoura e, até quando o acham razoável, as pessoas não se aproximam dele».

Comemorar a República

Iniciaram-se, hoje, as comemorações do centenário da República.
Numa altura em que alguns saudosistas procuram fazer os ventos da História voltar para trás com argumentos falaciosos, mas servidos por um activismo mediaticamente bem sucedido, estas comemorações devem ser encaradas como relevantes para aprofundar os grandes ideais republicanos, os que presumem possibilidades  de se ir mais além nos conceitos de justiça, igualdade e solidariedade.
Até porque, recorda-o, a edição do «Público» de hoje, foi quase por mero acaso, que a vitória de 5 de Outubro de 1910 foi conseguida. Porque Miguel Bombarda, um dos seus responsáveis civis, seria assassinado na antevéspera por um dos seus doentes, e porque o seu chefe militar, o almirante Cândido dos Reis, se suicidara na véspera julgando precocemente derrotada a revolução.
Quando Machado dos Santos, e um punhado de valentes, está entrincheirado na  Rotunda, cercado pelas forças monárquicas, será determinante o equívoco de uma bandeira branca empunhada por um diplomata alemão, que vinha propor tréguas a fim de deixar sair de Lisboa os estrangeiros alvoraçados.
Bastou essa bandeira branca para uma imediata reacção popular de alegria pelo que julgava ser a rendição monárquica virar decisivamente o rumo dos acontecimentos.
Conclui-se, pois, que, a exemplo do 25 de Abril de 1974, foi o povo quem verdadeiramente fez a Revolução, apanhando a boleia de uma intentona militar.
Compreende-se que haja quem não aceite de ânimo leve este tipo de derrotas, que crê poderem vir a ser desforradas. Tanto mais que têm o precedente do salazarismo, que virou de pantanas a herança da Primeira República.
É o aviso deixado por Fernando Rosas e Maria Fernanda Rollo, que alertam para o reaparecimento de uma corrente de «historiadores», conotados com o discurso monárquico e conservador, dispostos a divulgar o republicanismo como «pouco mais do que uma conspiração maçónica-radical de alguns intelectuais urbanos subversivos, sedentos de poder e carentes de escrúpulos».
Veja-se o que, sobre essa época, vai dizendo Rui Ramos, a estrela emergente de uma escola, que já passou à reforma esse inefável par constituído por Veríssimo Serrão e José Hermano Saraiva.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Efemérides




Coincidem os astros em comemorações com poucos dias de intervalo: Obama acaba de celebrar o 1º aniversário do seu mandato, enquanto Cavaco já celebra o 4º.
Nestas alturas fazem-se balanços e escutam-se opiniões difíceis de consensualizar. Mas se com Obama  há uma tendência para se considerarem as elevadas expectativas ligadas à sua eleição como longe de estarem cumpridas, no caso de Cavaco falam-se dos casos em que se tem envolvido e lhe ameaçam a reeleição.
Não há qualquer surpresa no facto de, tivesse podido, Oabama era eleito com o meu voto. E que, nunca por nunca, votaria em Cavaco Silva (salvo se a alternativa fosse um Le Pen, como chegou a suceder com Chirac!).
E, mais do que fazer balanços, prefiro olhar para o futuro: apesar das dificuldades presentes que a perda de um lugar no Senado implica, Obama tem a sagacidade e a competência para prosseguir um mandato histórico, tanto mais que os seus adversários só propõem uma política de terra queimada.
E quanto a Cavaco Silva, ele espelha o lado mais retrógrado, mais medíocre do País. Aquele que está a ser atirado para o caixote do lixo da História por quem aspira a um sítio moderno, com bons transportes e vias de comunicação e com energias limpas a substituírem-se rapidamente aos proscritos hidrocarbonetos.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Lamento de um leitor insatisfeito

Já passaram algumas semanas desde a substituição na titularidade da direcção do «Público» e, infelizmente, o que se julgou constituir a oportunidade para devolver ao jornal, outrora fundado por Vicente Jorge Silva, o carácter de publicação de referência assumido nas suas origens parece perdida.
Pese embora se encontrem, aqui e ali, temas de interesse não despiciendo, demonstrativos de haver na sua redacção quem pudesse abalançar-se a esse nível superior de qualidade!
Enquanto leitor nem pediria muito: a objectividade equilibrada do «Le Monde» continua a servir-me de bitola, mesmo numa lógica de esquerda, que se não tem receio em escamotear.
Mas o que vemos no «Público» para pegarmos no exemplo do que surge numa edição precisa, a de domingo, dia 10 de Janeiro?
Três textos de interesse muito relevante: um sobre a mudança de paradigma que leva a transformar os chineses nos maiores compradores de carros em detrimento dos habituais lideres norte-americanos e que demonstra bem quão rápida está Pequim a impor-se na definição política e económica do futuro próximo. Outro texto sobre a geração perdida entre os 16 e os 25 anos, tão dotada de conhecimentos universitários, quanto marginalizada de um mercado de trabalho aonde só depara com a precariedade e o desemprego. E a tímida tentativa das autoridades brasileiras em ajustarem contas com a ditadura militar.
Muito embora qualquer desses textos pudessem ir além no que pressupõem sobre as mudanças sociológicas anunciadas e que não tardarão a resultar de grandes dissensões ideológicas de sinal contrário (não: a esquerda e a direita ainda se distinguem bem uma da outra!), eles são o exemplo do que gosto de ler no meu jornal de eleição.
Mas há o lado «Darth Vader» da redacção, aquele que continua a mostrar uma obsessão inusitada pelo primeiro-ministro, ora editorialmente o dando embaraçado com a anunciada campanha presidencial de Manuel Alegre, ora recolocando à mesa o mais que requentado caso Freeport, ora persistindo em dar primazia a uma única versão do caso Face Oculta, como se a verdade jurídica penda exclusivamente para um dos lados.
Num jornal que, lamentavelmente, mantém como colunista o antigo director, que tanto prejudicou a desejada imagem de equilíbrio entre quem, dialecticamente, se opõe no mundo onde vivemos, tardo em confessar-me um leitor satisfeito...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O anunciado fim de mais uma ilusão

É verdade que ficou para trás uma década da história dos homens, que deixa poucas saudades, se pensarmos nas diversas calamidades, que lhe estiveram associadas.

Os ataques às Torres Gémeas de Nova Iorque, o tsunami devastador para muitos povos do Índico, o Katrina e outros furacões destruidores de cidades caribenhas e do sul dos EUA, mas também toda a acção de políticos cujo verdadeiro destino deveria ser o de comparecerem perante réplicas de Nuremberga por quantos morticínios promoveram nas guerras para que arrastaram gerações de jovens como carne para canhão.
Mas, até para não destoar do que para trás deixara, a década despede-se com uma crise económica e financeira de trágicas consequências para quem ficou sem emprego e já não tem esperanças em o reencontrar.
O fracasso da cimeira de Copenhaga não deixa de estar relacionado com esse sobressalto padecido pelo capitalismo na sua versão mais odiosa  - a da sua vertente mais selvagem, pugnada pelos friedmanianos apostados em teimar quão «vantajoso» resulta deixar o mercado funcionar, já que o Estado só existe para atrapalhar a imparável acumulação de riqueza.
No início de um novo ciclo coincidente com o de uma outra década, esperar-se-ia a sagacidade dos nossos políticos no sentido de relegarem para o caixote do lixo da História um sistema económico, que só tem acentuado a brutal diferenciação entre os poucos que quase tudo têm e essa imensa maioria que, à conta de religião, de futebol e de telenovelas, vai-se distraindo de quanto importa acordar e exigir um mundo novo a sério.
Embora tenha resistido ao sobressalto dos últimos tempos, o capitalismo já vai criando as novas bolhas especulativas, que resultarão nas próximas crises. E, se por agora, só vozes marginais como a do recém-reeleito presidente boliviano, se apressam a anunciar a inevitável morte do moribundo, iremos assistir ainda por mais uns anos às ilusões a respeito da suposta bondade dos empresários privados, esses altruístas apenas preocupados em associar o lucro à criação de empregos e de boas condições de vida para os seus trabalhadores.
Um dia destes a crise atinge as dimensões de um terramoto e, entre enterrar os mortos e cuidar dos vivos já não sobrará quem, entre estes, encontre os axiomas por ora debitados  nos cursos de economia das nossas universidades...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Anda para aí muito nervosismo nos nossos comentadores políticos a propósito do clima de guerrilha aparente entre o primeiro-ministro e o presidente da República.
E, embora ninguém lhes exija tanto, esses comentadores tomam posição, normalmente defendendo o inquilino de Belém contra o de S. Bento. E logo são secundados pelos partidos da oposição, que do CDS ao Bloco de Esquerda, condenam José Sócrates como se cometesse crime de lesa majestade quando, afinal, tem atirado tantas pedras para o telhado do vizinho quantas as que dele tem recebido.
Como ainda agora dizia este no parlamento ninguém está isento de crítica. E isso é bem verdade quando Cavaco Silva mantém Fernando Lima em Belém depois de, comprovadamente, ter sido ele o autor da cabala das escutas do Verão passado. Ou quando toma objectivamente posição contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao dizer-se muito mais preocupado com outros problemas do país.
Ao contrário do que defendem alguns dos opinadores oficiais dos nossos media, se existe a sensação do final de regime não é propriamente do de raiz governamental. O que já se detecta é o enterro anunciado do cavaquismo, quer pela intervenção política do seu criador, quer pela falência ideológica dos seus seguidores no maior partido de oposição, ao demonstrarem a incapacidade para olharem a realidade dos novos tempos e arranjarem uma ideia, uma única que seja, capaz de se comprovar eficiente para em vez de por eles nos deixarmos arrastar, encontrarmos forma de os condicionar para o que de mais positivo representarem para o interesse dos portugueses…

Rasteiras

Será que Fernando Lima continua a fazer das suas em Belém, depois de ter sido transferido de serviço devido ao seu papel de criador do caso das escutas?
O episódio do suposto mal-estar na relação entre a Presidência da República e o primeiro-ministro teve novamente epicentro na sua Casa Civil: nos jornais, que anunciaram o caso ela era identificada como a fonte de tal informação. Que justificou a reacção destemperada do gabinete de José Sócrates!
Ora a questão de princípio é basicamente esta: problemas de agenda todos os responsáveis políticos os têm. Normalmente os compromissos são cumpridos, mas vezes há em que os imponderáveis justificam inesperados contratempos.
Fazer de uma destas excepções uma nova oportunidade de guerrilha em relação ao primeiro-ministro, apressando-se a fornecer títulos sensacionalistas para os jornais, diz tudo sobre um Presidente que perdeu completamente a máscara de imparcialidade com que se comprometeu no início do seu mandato.
Que, ademais, a oposição  - mesmo a situada à esquerda do PS - se junte em bloco para se solidarizar com Cavaco Silva, revela bem a insustentável solidão em que José Sócrates se vai esforçando para dar algum futuro a um país, que não merece a atitude permanente de boicote de todos os partidos da oposição...

sábado, 19 de dezembro de 2009

Trogloditas

É algo que constitui uma espécie de lei natural do género humano: toda a evolução social encontra pela frente uma contestação militante de gente, que sabe já ter perdido as guerras travadas em prol dos seus valores, mas persiste em adiar o mais possível a sua definitiva derrota.
Aconteceu assim com os esclavagistas. Repetiu-se com os opositores ao direito do voto das mulheres. E foi sempre assim até ao reconhecimento do direito ao aborto ou, actualmente, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Mudam-se os tempos, mas nãos e mudam as vontades. Por muito que se procure dar mais direitos a quem ainda os não tem sem privar os de mais ninguém, há gente moralista com vocação para querer obrigar os demais a viverem de acordo com as suas ilusórias concepções naquilo que constitui um resquício de uma mentalidade totalitária.

Os que querem agora referendos para evitar casamentos entre pessoas do mesmo sexo são os que gostariam de viver num mundo em que a família resultasse da união entre um homem e uma mulher virgens até à noite da cerimónia e dispostos a só fornicarem com objectivos de procriação. Contraceptivos e divórcios seriam liminarmente proibidos. E as pobres crianças cresceriam em colégios religiosos aonde o catecismo seria mais importante que a biologia.
Não existiria melhor definição de uma mentalidade fundamentalista ao nível de um talibã!

As indignidades do capitalismo

Lamentamos, que o capitalismo puro e duro continue pujante um pouco por todo o lado e das formas mais terríveis. É evidente que vai crescendo a condenação moral das suas mais violentas manifestações, mas elas diversificam-se com tanto engenho quanto potencial de enriquecimento para tanta gente sem escrúpulos.
Vem isto a respeito de um documentário visto na televisão a respeito do turismo médico. Se começamos por considerar relativamente tolerável que norte-americanas relativamente abonadas se desloquem à Tailândia para conseguirem os seus implantes mamários e até podemos reconhecer o facto de todas as partes poderem lucrar com o negócio das barrigas de aluguer nos bairros de Bombaim, que dizer dos bairros da lata de Manila aonde uma percentagem considerável dos homens já vendeu um rim?
Se a sociedade actual já rejeita o tráfico de escravos ainda não se mostra suficientemente indignada com o dos órgãos de desempregados do Terceiro Mundo para benefício exclusivo dos habitantes mais abonados dos países ricos!
A luta contra o capitalismo também passa pela que contrarie estas suas grotescas manifestações...

domingo, 13 de dezembro de 2009

Anacronismos

Um dos mais contundentes argumentos contra os detractores dos grandes investimentos públicos foi dado por Pedro Gonçalves, presidente da Soares da Costa, na cerimónia de adjudicação da linha do TGV entre o Poceirão e Caia. Segundo esse gestor a empresa irá ganhar assim competências que a ajudarão depois «a entrar em mercados aonde a ideia da alta velocidade começa a ganhar terreno» («Público», 13/12/2009).
Numa altura em que a solução para as grandes empresas nacionais reside na internacionalização eis que só projectos estruturantes como este o facultam garantindo que elas possam dar referências concretas da sua experiência em áreas de negócio, que crescerão exponencialmente no futuro.
Que o próprio Presidente da República tenha tido comentário infeliz no próprio dia da cerimónia só demonstra como até nas instituições o país continua dividido: enquanto uns querem pensar com largueza de horizontes perspectivando futuros melhores, há os que continuam a lembrar O’Neill quando falava de um país no diminutivo por pretenderem comboiozinhos, estradinhas e PMEzinhas…
Não admira que na mesma edição do jornal, o insuspeito Vasco Pulido Valente constate que o país se prepara para dispensar o PSD «como um anacronismo sem utilidade».

John Stuart Mill

É filósofo político, que merece ser muito mais conhecido: John Stuart Mill viveu entre 1806 e 1873 e foi o principal teórico do utilitarismo, assinando propostas inovadoras a nível da economia política e da emancipação feminina.
Desde criança que se revelou espantosa personalidade: ainda não era nascido e já o pai (James Mill), o padrinho (Jeremy Bentham) e um amigo destes (David Ricardo) congeminavam que melhor educação proporcionar-lhe para que se viesse a tornar num ser de excepção. Aos 3 anos já estava a aprender grego clássico e aos 8 o latim. E em vez de brinquedos tinha ao dispor uma biblioteca recheada de textos clássicos.
Não admira que se tornasse no ideólogo mais influente do Reino Unido entre as décadas 50 e 70 do século XIX, para o que terá contribuído igualmente o casamento inspirador com Harriet Taylor em 1851.
Mas Stuart Mill não seria apenas um intelectual devotado ao estudo: escrevendo em diversos jornais exerceu uma influência significativa sobre a opinião pública e sobre o Parlamento.
No seu pensamento político está a questão de se encontrar forma para garantir a máxima participação dos cidadãos - conceito essencial da democracia - com as diferenças cada vez mais alargadas das competências para o efeito?
 Uma questão que continua a ser da máxima actualidade.

Ódios mesquinhos

Um estranho fenómeno político está a passar-se em Portugal e que o antigo ministro Mário Lino muito bem escalpelizou em recente entrevista a um jornal económico: José Sócrates tem qualidades ímpares de entre quantos estão em condições de se apresentarem ao eleitorado com a intenção de os governar. É determinado, atento às mudanças de conjuntura e tem a visão necessária para, sentando-se qual Newton ao ombro de gigantes, ver mais longe e aí divisar qual a melhor direcção a tomar.
Ao invés os políticos da oposição vivem do ódio que tal personalidade lhes merece. Incapazes de proporem uma ideia consistente para melhorar a condição económico-financeira do país, concertam-se para aumentar a despesa do Estado enquanto verberam o Governo por a não reduzir, esperançados ao mesmo tempo em lançar tanta calúnia ao primeiro-ministro, que se cumpra a regra de Goebbels sobre o efeito de uma mentira repetida mil vezes.
Um bom primeiro-ministro deveria merecer uma oposição equivalente, que acrescentasse ideias e propostas construtivas aos seus projectos. Mas, por ora, oposição continua a ser sinónimo de bota-abaixo a qualquer preço.