terça-feira, 7 de junho de 2016

Apossemo-nos da Semântica do discurso político

No interessante livro de Fernando Dacosta sobre o ambiente de liberdade, que se viveu no «Botequim» de Natália Correia nos anos em que  aí assentou a sua tertúlia, ele evoca um discurso por ela proferido em Viseu durante umas comemorações do 10 de junho em que disse isto: “Quando a crise não é geradora de grandes audácias, mais indicado é dar-lhe o nome de agonia”.
Ora aí está uma boa definição para os quatro anos, que sofremos com Passos Coelho à frente do governo. Agonia, porque era insuportável. Porque sendo igualmente sinónimo de aproximação à morte, esta foi uma dura realidade para muitos desesperados, que se viram sem nada de positivo em que acreditar. Nesse sentido nunca saberemos quantos crimes por interposta pessoa - a dos que atentaram contra si mesmos como derradeira solução! - deveriam ser verdadeiramente imputados a Passos Coelho e aos seus cúmplices.
É por isso, que sabe bem ter um primeiro-ministro audaz, que não se intimidou com a necessidade de experimentar trilhos novos e neles apostar o seu otimismo. Irritante para uns, mas contagiante para muitos, mas muitos mais!
Há no entanto algo a fazer no domínio da semântica. Se andámos quatro anos a permitir a imposição de uma novilíngua, que chamava “requalificação” ao desemprego , “correções” aos cortes nas pensões ou “medidas temporárias” às que pretendiam ser liminarmente definitivas, é altura de devolvermos às palavras o seu verdadeiro sentido. Por isso mesmo senti focos alérgicos nalguns congressistas socialistas entrevistados pelas televisões, que reagiam com pruridos, quando lhes perguntavam se o Partido Socialista estava a virar à esquerda. Alguns mantinham aquilo que entendiam como prudência de dizer que ele continuava a situar-se ao centro. Ora, podemos sempre defender que o PS está, hoje, posicionado no centro do xadrez político do eleitorado se acrescentarmos ser isso devido à deriva do PSD e do CDS para a extrema-direita já que o seu ultra-neo-liberalismo os empurra para a radicalidade de que a maioria dos portugueses se exclui.
Mas a questão não deve cingir-se a essa resposta simples para uma pergunta, que os entrevistadores pretendem capciosa. É que, durante décadas a direita andou a querer apossar-se da terminologia da esquerda por julgar assim mascarar-se com pele de cordeiro para melhor agir como lobo.
Muitos dos partidos sociais-democratas formados na Europa ao longo do século XX não decorriam das propostas ideológicas de Kautsky ou de Bernstein, que provavelmente desconheciam, mas do oportunismo de irem à boleia de conceitos com os quais nada tinham a ver.
Em 1974 tivemos disso um bom exemplo, quando o então PPD se considerava como um partido defensor do socialismo e por isso até tratou de querer mudar o nome para PSD como forma de tentar, infrutiferamente, a entrada na Internacional Socialista.
Foi com a queda do Muro de Berlim, que a direita deixou de se querer ver-se confundida com os conceitos próprios da esquerda e começou a impor a sua novilíngua. Às vezes com grande dificuldade, como se vê em França onde já mudou vezes infindas de nome para acolher sempre as mesmas ideias já muito distantes das do gaullismo, que durante décadas a identificara.
Hoje, depois de constatados todos os males que a direita tem praticado à conta do austericídio, que pretendeu impor aos povos do sul da Europa, é tempo de voltar a ter orgulho em nos dizermos de esquerda e socialistas. Afinal tem sido sob a nossa bandeira, que os maiores benefícios para os povos têm sido alcançados. Como se vê com o Serviço Nacional de Saúde ou a Educação Pública, que foram criados de acordo com a matriz, que os nossos deputados à Assembleia Constituinte impuseram.
Apossemo-nos, pois, da Semântica que nos favoreça atirando definitivamente os vários exemplos de novilíngua, que a direita e os comentadores televisivos por ela inspirados ainda insistem em manter.

domingo, 5 de junho de 2016

No rescaldo do Congresso

1. O que aconteceu na manhã de domingo à porta do Congresso do Partido Social  já nem suscita admiração, nem indignação. Os manifestantes, que ali foram causar ruído fazendo-se acompanhar de cartazes de indesculpável mau gosto, só expressaram o tipo de desespero dos que já estão derrotados e não encontram outra forma de libertar o fel, que não passe pelos insultos e desconchavos.
Se ainda poderíamos ter alguma complacência por algumas das suas razões, mesmo sabendo-as ilegítimas - o desemprego de professores desabituados a concorrerem em escolas públicas e provavelmente com currículos comprometedores é uma delas -, a forma como entraram numa deriva em que parece valer tudo para agarrar os privilégios da sua desprezível minoria, deixa-os sem qualquer perdão. Condenados sem pena suspensa é o veredito, que os espera…
2. No excelente programa de John Oliver, que pudemos ver esta semana na RTP3 - bem superior ao «Daily Show», mesmo quando liderado por Jon Stewart! - abordava-se um caso com grandes similitudes com os nossos colégios privados.
Nos Estados Unidos as equipas de futebol americano pertencem a interesses privados, mas que se financiam indecentemente com capitais públicos. Uma das estratégias de enriquecimento dos donos dessas equipas passa por exigir aos municípios a construção de novos estádios, alguns deles com pormenores luxuosos inacreditáveis como é o caso da equipa de Miami, que tem a toda a volta do recinto de jogo um gigantesco aquário.
Conseguidos os estádios com financiamento público, que depois falta às escolas e aos hospitais, todos os lucros com eles conseguidos são embolsados pelos donos dos clubes: o branding, as concessões para lojas e restaurantes, a publicidade, etc.
E os que se atrevem a rejeitar o ultimato dos donos dos clubes já sabem o que os espera: a ameaça para a sua deslocalização para outra cidade, senão mesmo outro Estado, de forma a pôr os políticos locais confrontados com a pressão dos adeptos, transformados em carne para canhão de uma guerra onde não têm a consciência de estarem a dar tiros em si mesmos.
A importância de cortar cerce estas reivindicações dos colégios - e ao elogiar Tiago Brandão Rodrigues no seu discurso de encerramento, António Costa reafirmou a firmeza com que lidará com este lobby - é fundamental para erradicar esta cultura dos privados tomarem os contribuintes por parvos dispostos a pagarem-lhes as extravagâncias. Um combate que na América será muito mais difícil de travar, por já estar tão banalizado esse “costume”.
3. Sei que daqui até às autárquicas muito evoluirá a economia portuguesa, que confiamos ver evoluir no sentido de maior crescimento económico, menor taxa de desemprego e défice abaixo dos 3% do PIB.  Se tal suceder a próxima batalha eleitoral será relativamente fácil de travar, porque, mesmo considerando as diferenças entre os escrutínios locais e nacionais, aqueles acabam sempre por ser contagiados pelo estado de espírito da conjuntura coletiva.
Não olho, pois, para as declarações de intenções de António Costa ou de Jerónimo de Sousa nessa matéria como definitivas, mas muito gostaria que houvesse coligações da esquerda plural em todos os municípios que, de norte a sul do país e incluindo as regiões autónomas, isso significasse a substituição das vereações maioritariamente de direita pelas que encarnam o Tempo Novo. 
É que do outro lado também se vão fazendo contas e olhando com esperança para o facto de, em outubro de 2015, terem conseguido resultados, que se replicados nas autárquicas, lhes garantiriam 178 municípios em vez dos atuais 108.

Ousar novos caminhos

Dos mais recentes Congressos do Partido Socialista nenhum houve que se comparasse ao de Novembro de 2014, não só por consagrar António Costa como novo secretário-geral, mas também pelo inesquecível discurso de António Sampaio da Nóvoa, que nos reforçou a ideia de estarmos na iminência da eclosão de um Tempo Novo capaz de pôr cobro à apagada e vil tristeza dos anos anteriores.
Se o antigo reitor da Universidade de Lisboa já era o nosso candidato preferido para Belém, esse momento mágico em que fez levantar toda a plateia e as bancadas da FIL num vibrante aplauso só o confirmaram. E não é preciso estar, por uma única vez em acordo com o que Vasco Pulido Valente diz esta semana ao «Expresso» para aventar a forte probabilidade de depressa se esgotarem os «afetos» e ficar a faltar a tão necessária gravitas  de que Marcelo tanto carecerá para vir a tornar-se num Presidente credível.
Ficará sempre como lamentável equívoco essa opção dos portugueses por um histriónico e volúvel personagem, que viu a vitória facilitada pelos que, agora, e finalmente, se tornaram meros figurantes de um Congresso para o qual já nada contam.
Este fim-de-semana não terá sido o de discursos tão memoráveis como os de então, embora mantenha a expetativa pelo que António Costa hoje proferirá à despedida dos congressistas. A saírem da mediania só os dele a abrir os trabalhos, o de Martin Schultz a sossegar os angustiados com a possibilidade de sanções e o de Stanishev a reconhecer o impasse em que se encontram os socialistas europeus. Mas enfatizo, sobretudo, o que foi dito por Manuel Alegre, quando sugeriu a possibilidade de, tal como os portugueses não terem pedido licença a ninguém para levar por diante a Revolução do 25 de abril, também devem ousar prosseguir por esta nova via governativa à esquerda, que possa servir de exemplo aos ensimesmados e inertes camaradas de toda a Europa. É que depois dos cravos empunhados por toda a Lisboa, logo em julho de 74 caía o regime grego dos coronéis e, dois anos depois, era a Espanha, que recuperava finalmente a Democracia, mesmo com o custo de ter de aguentar a Monarquia por mais algumas décadas.
Mas o impacto das ondas de choque do nosso exemplo chegaram mais além com, sucessivamente, o Brasil e a Argentina dos generais e o Chile de Pinochet prosseguirem essa viragem para o crepúsculo das ditaduras.
Viver em Democracia tornou-se num imperativo, que está novamente a ser posto em causa com essa inação dos sociais-democratas e socialistas na Hungria, na Polónia, na Turquia ou em Israel.
Há, pois, que sair desta abulia e avançar para os Tempos Novos, que António Costa e António Sampaio da Nóvoa enunciaram nesse XX Congresso de tão grata memória. Com a satisfação de, nestes seis meses de governação, já  termos assistido ao início da sua concretização. 

sábado, 4 de junho de 2016

Um Congresso alinhado com a matriz do Partido

O Congresso do Partido Socialista tem correspondido ao que dele esperava: a consagração da matriz, que fundamentou a sua fundação, e apostada em políticas tendentes a criar, em liberdade, uma maior justiça social e um crescimento económico que a favoreça.
Foi esse programa, que justificou a minha adesão a ele há mais de trinta anos, muito embora nunca o tenha visto tão formatado para tal objetivo como atualmente. É que, com o socialismo posto na gaveta ou com o deslumbramento pela falaciosa Terceira Via, havia-se perdido algo da alma original agora cada vez mais reencontrada na atual maioria. Como militante a eleição de António Costa para secretário-geral nas Primárias de Setembro de 2014, devolveu-me o orgulho de contar com dirigentes, que não se envergonham por se considerarem politicamente à esquerda, não temendo perder assim o mítico eleitorado do «centrão», que as circunstâncias tendem a assemelhar-se ao tal Wally dos livros infantis, que tão difícil era de encontrar no meio da multidão.
O que Francisco Assis ou Sérgio Sousa Pinto - transformados em «heróis» nas várias televisões por darem voz à discordância da linha atual! - não querem perceber é estarmos perante tempos novos, que exigem respostas mais ousadas, diferentes das que costumavam sossegar os que temiam sair da sua zona de conforto intelectual.
Mas isso não me impede de considerar extremamente elogioso o comportamento voltairiano dos congressistas, que deram mostras de discordarem totalmente de tudo quanto Assis disse no seu discurso, mas o ouviram respeitosamente, quase sem nenhuns apupos. É que mantendo sérias dúvidas quanto à possibilidade de o voltar a ver enquadrado nos órgãos dirigentes do Partido - estaria assim a admitir, que esta opção identitária à esquerda teria sido episódica e não sustentável -, o mínimo que ele mereceu foi respeito no ato corajoso de, mesmo sentindo-se solitário entre tanta gente,  ter tomado a palavra. Algo que não se viu noutros contestatários, que andam a preferir os ataques mais soezes nos jornais, que lhes dão guarida.
Fiquei, pois, satisfeito com a reconfirmação de António Costa como secretário-geral, Carlos César como presidente e de Ana Catarina Mendes como secretária-geral adjunta. Como considerei da mais elementar justiça a aclamação de António Arnaut como presidente honorário.
Foi bom ouvir o discurso de abertura em que António Costa considerou que o governo devolveu ao país o que lhe cabia de direito e que a ideia mais perigosa em democracia era a que tendia a fazer crer na impossibilidade de qualquer alternativa.
Confirmou-se que quem anda a dizer parvoíces do género de haver quem tem pena de não estar no Bloco de Esquerda em vez de se sentir plenamente no PS é uma minoria enquanto os visados com o «piropo» têm a simpatia da maioria dos militantes. Assim se compreendem as palmas vigorosas atribuídas a Pacheco Pereira, quando se insurgiu contra a soberania limitada dos governos europeus perante a obrigatoriedade dos orçamentos nacionais serem aprovados por Bruxelas.
Ao contrário dos europeístas incondicionais, os socialistas já assumem o distanciamento de assim se considerarem enquanto não forem ofendidos pelas decisões insultuosas de Schäuble e seus apaniguados do PPE. Porque, como dizia uma canção de Sérgio Godinho, “para melhor está bem, está bem. P’ra pior já basta assim!”.
Uma palavra final para Daniel Adrião, que deixou de merecer o meu apoio, quando a ele se colaram alguns oportunistas, entretanto desempregados do defunto segurismo, mas cuja intervenção no Congresso teve o condão de saudar José Sócrates, a quem muitos dos presentes não deixam de reconhecer como um líder injustiçado pelas circunstâncias em que concluiu o seu segundo mandato como primeiro-ministro e pela insidiosa campanha de que ainda não se conseguiu livrar.

A necessidade de novas redes sociais

Na sua breve passagem pelo nosso país, onde veio dar uma conferência, Christian Fuchs teve tempo para proporcionar uma entrevista ao «Público».
A interpretação, que faz da atual crise europeia é consensual: começou em 2008 nos Estados Unidos e logo causou uma profunda recessão na Europa. Radicou nessa realidade a crescente viragem política para a direita com a ascensão das ideias nacionalistas. À austeridade, que caracterizou estes anos ele atribui uma definição mais precisa: andámos a viver sob a égide de um hiper-neo-liberalismo, que destruiu a classe média.
Segundo o professor da Universidade de Westminster os recentes fenómenos de massas em torno de Corbyn ou de Sanders demonstram o surgimento de uma nova base social de apoio, constituída por jovens, que redescobrem o entusiasmo da participação política e se juntam aos antigos militantes das lutas estudantis dos anos sessenta. Pelo meio ficou um hiato geracional com os que foram jovens nos anos 80 e 90 e se renderam de bom grado às ilusões do capitalismo neoliberal.
Assiste-se, pois, ao revigoramento das ideias de esquerda e, nomeadamente, de socialismo, que mais não significa do que a reconquista dos meios de produção pelas pessoas,  resgatando-os às grandes corporações financeiras e a tomada coletiva de decisões mediante as prerrogativas da democracia participativa.
Mas onde as palavras de Christian Fuchs contiveram maior novidade foi no tema, que já lhe serviu de mote para o seu best-seller «Occupy Media -  O Movimento Occupy e os media sociais num capitalismo em crise».
O seu alerta é para o paradoxo de nos estarmos a servir das redes sociais, que pertencem a grandes empresas como o Google, o Facebook ou o Twitter, para disseminar as propostas de transformação social, quando sabemos o quanto elas as pretenderão dificultar. Os nossos interesses enquanto utilizadores são contraditórios com os que lucram com esse serviço, mas o não querem sujeitar a nenhum tipo de regulação.
Nãos será, pois, difícil de imaginar uma eventual decisão dos donos dessas grandes empresas em filtrarem os conteúdos, que passem pelas suas plataformas. Poderiam, por exemplo, impedir a publicação de textos orientados numa direção política a contracorrente do que lhes mais interessaria preservar.
Por ora a inexistência de censura tem só um objetivo: como Snowden demonstrou essas plataformas andam a ser utilizadas pela CIA, pela NSA e outras entidades similares para colherem as informações, que maior interesse despertem às intervenções imperialistas. O Big Brother orwelliano está já em completa roda-livre...
Fuchs propõe, pois, a criação de novas plataformas de acesso à Internet e a outros medias sociais alternativos e que sejam geridos de forma independente por organizações sem fins lucrativos. E, no entretanto, obrigar a Google, o Facebook & Cª a pagarem os impostos devidos, sem lhes possibilitar o acesso às offshores pelas quais têm sonegado à comunidade internacional os muitos milhões, que lhe são devidos e passíveis de contribuírem para a redução das disparidades entre os muito ricos e os muito pobres.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Discurso contra o blá-blá-blá

Na «Quadratura do Círculo» desta semana os seus participantes foram convidados a enunciarem algumas das suas reflexões sobre o atual problema dos refugiados.
Começou Jorge Coelho e foi o típico blá-blá-blá de repetição dos lugares comuns mais do que esgotados. Seguiu-se Lobo Xavier e foi mais uma sucessiva verbalização do mesmo discurso blá-blá-blá.
Como tinha mais que fazer fiquei-me por aí, mas não tenho grandes expectativas quanto às opiniões de Pacheco Pereira, mesmo admitindo-o capaz de ir bem mais além e dizer algo de novo, mesmo sem tocar no essencial.
Ora, quatro horas antes desse programa, o «28 minutes» do canal ARTE entrevistou o filósofo esloveno Slavoj Žižek abordando o mesmo tema e o que disse foi estimulante dando razão aos que o consideram o mais interessante de todos quantos andam a cogitar sobre as sociedades do nosso tempo e nos permitem olhá-las com o discernimento de entender em que direção caminham. Não com um pensamento definitivo, que nos eximisse de conduzirmos nós próprios essa ponderação, mas agindo como autêntico «maître à penser», que prefere pôr perguntas do que dar as respostas.
Mas quais são essas perguntas? Refutando o blá-blá dominante, que faz do discurso sobre os refugiados o feudo dos corações piedosos, comovidos com o seu martírio nas águas do Mediterrâneo ou com os muros levantados para impedir a sua passagem, devemos interrogarmo-nos das razões, porque - sendo eles os grandes culpados quanto à situação na Síria ao constituírem os principais financiadores dos que combatem Assad - porque não se pressiona a Arábia Saudita e os riquíssimos Emiratos do Golfo Pérsico a absorverem essa mole humana? Até porque, ouvindo muitos desses candidatos ao exílio europeu, a maioria diz-se sunita, a exemplo daqueles retrógrados regimes árabes!
Outra das questões pertinentes levantadas por Žižek é a da moda multiculturalista, que procura impor um pensamento «politicamente correto», no respeito pelos credos religiosos desses recém-chegados com tudo o que eles comportam em valores e preconceitos, que deveríamos liminarmente proibir. Imagine-se que, em nome desse suposto respeito pela cultura de tais populações, ainda há quem defenda o seu direito a prosseguir a mutilação genital das meninas ou a poligamia, que mantém as mulheres numa condição infantilizada.
Embora arriscando perigosas sintonias com alguma extrema-direita, mas que se resume a uma mera defesa do bom senso, os europeus podem ver condicionados muitos avanços civilizacionais conquistados duramente nas últimas décadas - o aborto, a igualdade entre homens e mulheres, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, etc. - se aumentar a percentagem da população, que leva a sua alienação religiosa ao ponto de impor aos demais os modelos de vida e os valores, que professa no recato dos seus lares. E, nesse sentido, já nos bastam - e têm de ser ativamente combatidos! - os obstáculos levantados a essa dinâmica pelos estarolas ultraconservadores do catolicismo na Polónia ou na Irlanda.
É por isso que as questões levantadas por Žižek tendem-me a fazer crer nesta regra, que desejaria ver transposta para o espaço público: sendo aceites como exilados nas nossas sociedades europeias os refugiados não deveriam ser autorizados a guetizarem-se em espaços onde se tornem maioritários, antes disponibilizando-se a diluírem-se harmoniosamente nas comunidades de que copiem progressivamente os comportamentos e valores segundo o preceito «Em Roma sê romano».
É que, por muito que os sentimentos religiosos devam ser respeitados, fazem sentido na esfera privada de cada um e não têm de ser ostensivamente exibidos o espaço público. Tanto mais que, por muito que alguns nos tentem convencer do contrário, a evolução do pensamento político das populações muçulmanas estão a orientá-las para uma lógica islamo-fascista que, como todo o tipo de ditaduras, deve ser erradicada. 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Um cinquentão no mundo das novas empresas de sucesso

Imaginemos que já passámos o cabo dos 50 anos de idade, fomos despedidos do emprego anterior, estamos longe da reforma (que poderia constituir porto de abrigo!) e, por milagre, conseguimos arranjar colocação numa empresa acabadinha de lançar no palpitante mundo das novas tecnologias onde nos vemos rodeados de miúdos convencidos de serem génios e a olharem de soslaio para os cabelos brancos de quem ali faz figura de alienígena.
Foi isso que aconteceu a Dan Lyons, um conhecido jornalista da «Forbes» e da «Newsweek» para as quais acompanhara, com as suas reportagens ,todo o processo de criação e de desenvolvimento do polo económico de Silicon Valley.
Durante esses anos ele mantivera, igualmente, um blogue muito conhecido em que se fingia de Steve Jobs e transmitia os seus supostos estados de alma. Algo que o próprio criador da Apple considerara divertido.
O despedimento que Lyons conheceu na «Newsweek» não podia ter acontecido na pior altura: por razões de saúde a mulher despedira-se do respetivo emprego e ambos estavam a contas com a educação dos seus dois gémeos de 7 anos. Ademais, fora num telefonema, que o chefe lhe transmitira essa rescisão, com apenas direito a duas semanas de indemnização, porque a Administração concluíra que o seu salário seria suficiente para contratar cinco novos estagiários.
Foi, pois, com um enorme suspiro de alívio que aceitou o convite de uma nova e mediática start up  de Boston, que pretendia colorir o seu blogue com textos imaginativos e capazes de lhe aumentarem as vendas de programas informáticos.
A experiência durou apenas nove meses, porque o relacionamento com os colegas de trabalho - cuja média de idades era 26 anos! - não foi o melhor, vendo-se rapidamente segregado para um dos extremos do open space  onde todos passavam o dia a procurar vender os seus produtos num autêntico serviço de telemarketing.
Se o que comercializavam tivesse qualidade, ainda vá, mas depressa Lyons compreendeu a sua mediocridade. Nessa altura, já da indiferença dos demais, passara a ser objeto de um insistente assédio moral destinado a fazê-lo despedir-se de motu próprio..
“Quando evoquei essa forma de pressão junto de um colega, ele disse-me: ’Todos fazem isso, até eu ando a apertar com um tipo para ver se o consigo mandar embora.’ Seis meses depois foi ele quem se viu despachado segundo esse método”.
 Lyons acabaria por sair da HubSpot para trabalhar como argumentista de séries televisivas mas, porque a experiência fora-lhe assaz esclarecedora sobre as relações de trabalho nas empresas tantas vezes incensadas na comunicação social por corresponderem às que contribuem para a sociedade do futuro, escreveu «Disrupted. My Misadventure in the Start.Up Bubble».
Onde se pode ler, em jeito de conclusão: “subitamente, quando comecei a escrevê-lo, todo esse universo tornou-se-me mais esclarecedor: as start-up não chegam a ganhar dinheiro mas enriquecem os que as fundam e os especuladores financeiros, que nelas investem e lucram com a “bolha” que incha dia-a-dia. (…) Pus-me a entrevistar pessoas e um administrador muito conhecido confessou-me: ‘Todos sabemos que se protegem os investidores. Saca-se-lhes a massa e depois encontramo-nos num face a face quotidiano e desconfortável com os nossos assalariados.’” 
Até a bolha rebentar, e muitos dos que foram iludidos a apostar nessas empresas de «sucesso» a perderem o seu investimento– Mas já, então, se andam a semear novos casos sensacionais de empreendedorismo, que voltem a encher capas e páginas inteiras das tais publicações económicas pelas quais muitos aprendizes de feiticeiros acabaram vítimas dos seus incipientes feitiços.

Eu sei que sou intransigente

Ontem, ao almoçar com um amigo a propósito da política atual, reconheci-me como intransigente: posso reconhecer que, em certos momentos é necessário conciliar o inconciliável - sim, em 2002 eu teria votado em Chirac à segunda volta nas presidenciais francesas, quando o seu competidor era Le Pen! - mas nunca me sentirei confortável nas afinidades com quem é de direita.
Por isso mesmo, e ao fim de trinta anos de militância no PS, sinto-me finalmente satisfeito, porque nunca me senti confortável com a sua condição de partido charneira, antes o encarando mais entusiasticamente nesta presente conjuntura de líder da esquerda plural. Como sempre disse onde quer que fosse, o PSD e o CDS eram os inimigos políticos, porque o PCP ou o Bloco constituíam os adversários com que seria desejável estabelecer pontes virtuosas para benefício da maioria dos portugueses.
Dois dos parâmetros, que considero fundamentais para respeitar alguém - irrepreensível ética comportamental e honestidade intelectual - muito raramente os encontro nos que se assumem como de direita. Basta ouvir as declarações de Maria Luís Albuquerque a propósito do relatório da OCDE sobre a política portuguesa para ver ali expressa, no seu maior esplendor, o que pode ser a falta de escrúpulos de quem sempre andou a corrigir as contas públicas em sucessivos retificativos e agora pretende fazer escândalo a propósito das do governo socialista, mesmo sem qualquer evidência concreta delas não virem a ser cumpridas.
E, mesmo à esquerda, encontram-se facilmente os vigaristas capazes de «albergar» em casa dúzias de «militantes» para os utilizar em seu proveito na altura das votações das secções ou concelhias (vide os exemplos recentes de Coimbra ou do Seixal) ou os que, como António Galamba vem evidenciando nos últimos dias, reagem com um despeito, justificativo da forma tortuosa como ofendem a inteligência de milhares de socialistas. Uns e outros, embora formalmente, se assumam como militantes de esquerda, não me merecem de forma alguma o tratamento de «camarada».
É por isso mesmo, que encaro com expetativa o prometido processo de refiliação prometido pela direção do PS para o segundo semestre do ano, fazendo votos que não sirva para mascarar as fraudes existentes nalguns locais do país. 
A ser efetivamente bem conduzido tenderão a ser corrigidas algumas distorções gravosas para a sanidade política do Partido. E talvez se ponha um ponto final nas perversões, que têm constituído, há alguns anos, o lado mais sombrio da história do Partido e que teve particular expressão durante o período em que António José Seguro foi o seu secretário-geral...

Os inconvenientes de nos aceitarmos como meros consumidores

Nem de propósito: no debate da Gandaia, sobre que aqui escrevi ontem, abordei a iminente transição do capitalismo para uma nova fase, que manterá poucas similitudes com a sua mais recente fase neoliberal e de clara financeirização das eonomias. Ora a «Visão», que hoje sai para as bancas, dedica o seu tema de capa à sociedade do futuro próximo em que os empregos serão escassos, e todos os principais setores produtivos descartarão a mão-de-obra menos qualificada para a substituírem por robôs ou outros equipamentos automatizados.
Podemos indignarmo-nos com os aspetos mais sinistros da presente fase capitalista, que agudizou significativamente as diferenças de rendimentos entre os mais ricos e os mais pobres. Não devemos é deixarmo-nos levar pela nova ilusão com que o sistema económico baseado na exploração dos que nada têm de seu a não ser a força do seu trabalho, pelos que detém o conhecimento e os meios produtivos, irá embalar-nos.
É que na sua próxima fase o capitalismo pretenderá aprofundar aquilo que já conseguiu nas décadas mais recentes com o acesso massificado aos hipermercados e aos centros comerciais: a transformação dos Cidadãos em consumidores. Porque, impossibilitado de partir à conquista de mais mercados, que os limites da globalização já restringiram ao nosso planeta - para azar dos capitalistas não existe ainda forma de partir para novas rotas comerciais para Marte ou para fora do Sistema Solar! -, a única possibilidade de assegurar a sua sobrevivência será potenciar ao máximo o número de consumidores a quem possa vender mercadorias ou serviços.
Explicam-se assim os estudos, que alguns já querem ver traduzidos na prática - os suíços já se pronunciaram em referendo sobre o assunto e, entre nós, o PAN já verbalizou a intenção de lançar esse mesmo debate! - de um rendimento mínimo garantido a qualquer cidadão, independentemente de desenvolver ou não uma atividade remunerada.
Houve quem à esquerda batesse palmas por essa verdadeira Utopia em que a maioria da população não se preocuparia com o facto de ter empregos disponíveis para sobreviver, porque a sociedade assegurar-lhe-ia o rendimento suficiente para ter uma qualidade de vida razoável.
E no impulso dessas mesmas ilusões houve quem relacionasse essa utopia com a sua viabilização através da proposta de Thomas Piketty no seu livro «O Capital do Século XXI». É que, para assegurar a sobrevivência do regime de exploração, que lhe garantirá a preservação dessa propriedade dos meios de produção, os capitalistas não se importarão em pagar mais impostos - até tendo em conta que os custos com mão-de-obra se terão reduzido ao mínimo com essa revolução tecnológica! -, tão-só lhes seja garantida a paz social necessária à prossecução dos seus negócios.
Teríamos, assim, uma sociedade em que a maioria da população gastaria os dias entre o consumo de bens tangíveis e o lazer em espetáculos acéfalos, que desse uma nova dimensão ao que costumávamos designar como alienação de massas.
Tenho aqui dito e redito, que as coisas não continuarão a ser como são. A realidade tem-se acelerado de tal forma, que os impossíveis de ontem, transformam-se rapidamente em realidades do dia de amanhã.
Tenhamos, pois, alguma lucidez quando queremos ver no capitalismo apenas a sua faceta atual de cunho mais austeritário, porque se, de súbito, nos virmos condicionados por um discurso radicalmente oposto, poderemos pensar que, afinal, ele consegue-se regenerar de forma a garantir a felicidade das populações, quando ele apenas muda o acessório para que o fundamental fique na mesma.
Ora nós, que pretendemos uma sociedade radicalmente diferente, mais justa, livre e igualitária, deveremos antecipar as cartadas de quem a nos quer sonegar e agir o mais eficientemente possível para lhe trocar as vazas.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Para onde caminhamos?

Será que vivemos numa sociedade corrupta, em que as desigualdades conhecem uma agudização irreversível? Estaremos condenados a sobreviver num tipo de modelo capitalista em que o enriquecimento de uma minoria, cada vez mais exígua, implica a pauperização forçada da enorme maioria com a perenização da receita austeritária, de que Passos Coelho se fez fiel sacerdote?
Foram estas as questões ontem em equação no debate promovido pela Associação Gandaia da Costa da Caparica, onde os contributos foram muito diversificados.
Numa síntese breve do que defendi, alinho aqui um a parte da minha intervenção em quatro pontos:
1. estamos tão pressionados pelos acontecimentos da atualidade, que tendemos a esquecer que ela está em constante mudança e aquilo que hoje parecem certezas, passam a não o ser com a dinâmica dos vários interesses, que se contradizem a cada momento. Por isso aquilo que é a conjuntura presente depressa muda para outra com potencial para se revelar completamente diferente.
2. utilizando a ferramenta de interpretação facultada pelo marxismo e no que nele significa o materialismo dialético - ainda que necessariamente atualizado por tudo quanto nele se validou e depreciou - não é difícil considerar que essa mudança de conjuntura decorrerá sempre da omnipresente manifestação da luta de classes. E hoje ela já não se caracteriza pela dicotomia proletariado / burguesia, ainda que continue a fazer sentido em sociedades subdesenvolvidas, mas na contraposição dos interesses de todos quanto têm um emprego mais ou menos precário (ou seja de todos quantos trabalham!), ou um pequeno negócio, face aos de quantos lucram e pretendem continuar a lucra com a financeirização da economia. No meio deles os desempregados ou colar-se-ão aos primeiros ( e esperemos que sejam a maioria) ou facilitarão a vida aos segundos, como se tem visto com a ascensão da extrema-direita em vários países europeus.
3. ao contrário do que muitos querem acreditar o capitalismo não está para morrer ao virar da esquina. Já estando no seu crepúsculo tudo fará para prolongar o mais possível esta fase entre «cão e lobo», que o tem caracterizado nos últimos cento e cinquenta anos. Ele nem morreu como Marx predissera como corolário lógico do desenvolvimento das sociedades mais avançadas do seu tempo. Nem quando Lenine caracterizou o comunismo como o somatório do capitalismo mais a eletricidade. Nem quando Estaline viu a possibilidade de constituir o imperialismo a fase derradeira do capitalismo. Nem enfim quando, cinicamente, Mao aventou, que mesmo tudo acabando com um apocalipse nuclear e a consequente extinção da vida humana na Terra, isso pouca importância teria no conjunto do Universo.
4. nalgumas das intervenções mais esperançosas do debate houve quem defendesse os benefícios que a Internet e os recursos informáticos em «open source» facultariam para uma maior democratização do conhecimento, e com ele da sociedade em que vivemos. Não foi dito, mas seria assim como que um espécie da reatualização daquela atrás referida visão leninista, mas com o picante de uma nova sociedade resultar da soma do capitalismo com as novas tecnologias. Não enjeitando essa possibilidade, a questão que se me levanta é se não residirá precisamente nessa via a válvula de escape pela qual o capitalismo, vencida a presente etapa da financeirização, não encontra uma nova vida num tipo de sociedade onde manterá as suas características: a exploração da maioria da população para proveito da minoria, que continuará a deter os meios de produção…

Neste texto ainda estive longe de esgotar o que ontem foi dito ou ficou por dizer. Aliás, ao fim de quase duas horas e meia de debate a conclusão foi óbvia: ele estava longe de se considerar esgotado. Por isso mesmo irei continuar em textos posteriores a aprofundar o tema.