O Público
junta, sem combinar, três textos a dizer o mesmo por caminhos diferentes. Um
trata da saúde, outro da habitação, o terceiro das sondagens. Lidos em
sequência, desenham um governo à deriva, chefiado por um homem a quem o cargo
ficou largo.
Na saúde,
Marta Moitinho Oliveira faz as contas do ministério: o SNS gasta cada vez mais
e responde pior. Há menos cirurgias e menos primeiras consultas, e na oncologia
a espera ultrapassou o limite legal na maioria dos casos. Em Portimão, um homem
de 87 anos morreu na urgência ao fim de horas sem ser visto. Antes dele,
segundo os enfermeiros, um doente de 94 esperara um dia inteiro por um médico,
até à morte. (A jornalista sugere tendas para o SNS ganhar visibilidade. Em
Portimão, a visibilidade chegou tarde, sob a forma de inquérito.)
Na
habitação, Ana Bacelar Begonha regista o caderno reivindicativo das acampadas:
retirar a nova lei das rendas, impor tetos, construir habitação pública,
devolver os devolutos à função de casa, acabar com despejos sem alternativa,
travar os fundos imobiliários. E reconhece-lhes uma vitória: a habitação voltou
à agenda, obrigando os principais atores políticos a responder.
O Governo
respondeu à bastonada.
Nas
sondagens, Pedro Adão e Silva lê o estudo do ICS/Iscte para o Expresso: 18% de
avaliações positivas, 75% de negativas, números sem memória de pior. E
Montenegro surge em quarto lugar entre os nomes para chefiar o executivo, atrás
de Centeno, Carneiro e Passos Coelho. (Passos nem precisou de sair de Massamá
para o igualar.)
Adão e
Silva chama a isto, com a ironia de politólogo, um berbicacho. Eu vejo-lhe duas
faces. O Governo é impopular, mas conserva votos bastantes para continuar a
errar. A oposição cresce, mas ainda não chega para o substituir. Somadas as
intenções diretas de voto, a direita, com o Chega, ronda os 44%; a esquerda, PS
incluído, fica-se pelos 30%, com muitos indecisos pelo meio.
A
esquerda perdeu a maioria sociológica de outros tempos e não a recupera com
comunicados. As acampadas mostraram outro método: pôr o corpo onde está o
problema. Foi assim, ao longo de três semanas, a habitação a sair das
estatísticas para as praças.
Um
governo incompetente dura enquanto a alternativa tarda. Esse é o berbicacho da
esquerda.

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