domingo, 1 de novembro de 2026

A outra face

 


Chego aos setenta anos obrigado a rever uma desconfiança de décadas. Nunca acreditei na outra face oferecida a quem esbofeteia a primeira, nem nos jejuns de Gandhi contra um império. Reconhecia-lhes os resultados (num caso, a independência da Índia; no outro, a mistificação mais bem-sucedida do Ocidente), mas fiava-me numa sabedoria aprendida cedo: só não se sente quem não é filho de boa gente. À bastonada, o troco devido.

Os manifestantes de Lisboa e do Porto estão a desmentir-me.

Em pouco mais de duas semanas, sofreram seis cargas do Corpo de Intervenção. Formaram cordões humanos, deixaram-se arrastar, contaram cabeças abertas em postos de socorro improvisados. E voltaram às praças, à hora marcada. Esta madrugada, pelas quatro e meia, a cena repetiu-se nas duas cidades, com detidos e dezenas de feridos. No Porto, as carrinhas da Câmara limparam a praça antes de o dia nascer.

A Montenegro, Neves & C.ª faltava um álibi: uma pedra, um petardo, uma imagem capaz de converter o protesto em desordem. Pedro Nuno Santos disse-o sem rodeios, ao acusar o Governo de querer ver repetido o caso de Paris. Bugalho falou de objetos arremessados, e a PSP divulgou um vídeo de agressões a agentes. As televisões mostraram outra coisa, noite após noite: gente de braços dados e o bastão a descer.

Tiro-lhes o chapéu. (Na minha idade, o gesto custa pouco; a eles, custou nódoas negras.)

Os comentadores do costume terão hoje mais trabalho a defender o indefensável. E quem assistiu em direto, ou vê agora a repetição, sente a tentação de engrossar os próximos protestos, à escala dos maiores alguma vez vistos nas avenidas do país.

Resta ouvir António José Seguro. Há dias, confessou não ter gostado do que viu e lembrou não ser a violência a cultura deste país. O Governo e a polícia ouviram-no e repetiram a dose. A um Presidente desconsiderado sobram duas saídas, o silêncio ou a palavra, e ambas ficam registadas.

Uma palavra, por fim, para o meu partido. Contra a opinião de Francisco Assis (o que não espanta), Pedro Nuno Santos e Marina Gonçalves estiveram com os manifestantes diante de São Bento, e fizeram bem. Mas, na última noite, os deputados noticiados no cordão do Rossio foram os do Bloco e do Livre. Faltou ao PS, e também ao PCP, a fotografia na primeira linha, de frente para o escudo. Há causas onde a presença vale mais do que qualquer comunicado.

Descubro tarde: a outra face não é rendição. É a maneira de deixar o agressor sozinho com o bastão.

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