segunda-feira, 14 de março de 2016

Recordar vitórias passadas, inspiradoras de outras futuras

1. Passam amanhã quarenta anos sobre uma luta bem sucedida, mas que só perdurou nas memórias de quem a viveu e no poema de uma canção de Fausto: em Ferrel, perto de Peniche, a população não precisou de câmaras de televisão, nem da colaboração de partidos políticos, para impedir a construção de uma central nuclear.
Com enxadas, forquilhas, foices e ancinhos, montadas em tratores, em camionetas, em motorizadas e até num burro, os setecentos manifestantes puseram fim ao desejo da Companhia Portuguesa de Electricidade (o antigo nome da EDP) em ali construir uma instalação destinada a produzir energia «barata e limpa». Que o não era assim tanto não se tardou a comprovar quando, primeiro em Three Mile Island e depois em Tchernobyl se concluiu da extrema perigosidade da sua operação. Anos depois, Fukushima só confirmou o que já todos tínhamos concluído!
Hoje vivemos na inquietação quanto ao que possa acontecer na central de Almaraz que, apesar de distanciada mais de 5oo Kms de Lisboa, poderá ter efeitos nocivos na saúde dos habitantes da capital. Bastará que o seu conhecido estado calamitoso der origem a mais uma catástrofe.
A quarenta anos de distância podemos, pois, agradecer aos lutadores de Ferrel o não termos seguido a moda de muitos países europeus onde instalações destas surgem-nos à vista muito regularmente enquanto nos deslocamos pelas suas autoestradas.
2. Com a rapidez possível o Governo lá vai normalizando tudo quanto Passos Coelho & Cª foram abandonando e constituíam boas práticas do aparelho de Estado. Agora é a vez do Ministério do Trabalho e da Segurança Social retomar a publicação dos dados sobre despedimentos coletivos, layoff, greves ou evolução da contratação coletiva.
Compreendemos bem, porque o governo anterior abandonou essa prática há três anos atrás: esses indicadores seriam bem reveladores da degradação progressiva a que o austeritarismo suscitava no mundo laboral e na sociedade em geral. Escondê-los fazia parte da campanha de propaganda, que recorrendo abundantemente à novilíngua, fazia crer em amanhãs cantantes em tons alaranjados.
3. Porque a CAP é um dos principais inimigos do Governo de António Costa, é natural que o ministro Capoulas Santos seja erigido em inimigo de estimação da direita, que dele pretenderá transmitir a imagem de incompetência. Por isso mesmo só podemos apreciar a inteligência do primeiro-ministro ao designar para o cargo um político muito competente e com uma sólida tarimba política, capaz de derrotar esses ínvios objetivos.
Quando lançam contra ele campanhas como as que estiveram subjacentes às muitas declarações dos suinicultores na passada sexta-feira, eles não sabem com quem se metem. Manipulados indecentemente pelos latifundiários, os agricultores mais pobres só terão a perder quando transformam em adversário quem lá está para os apoiar. Até porque muito de errado ficou da herança de Assunção Cristas: não só dinheiros gastos indevidamente, porque respeitantes ao Orçamento de 2016 (muito justamente Capoulas Santos interroga-se porque há Presidentes da Câmara presos por tal motivo e não acontece o mesmo com a ex-ministra), mas também a existência de muitos jovens agricultores, que foram aliciados para a atividade por consultoras sob a promessa de vierem a receber fundos europeus para os seus projetos e não conseguem, de forma alguma, cumprir os seus compromissos.
Será só mais uma bomba ao retardador, que a incompetência da nova líder do CDS deixou preparada para explodir nas mãos de quem lhe sucedesse. 

A confirmação do que já sabíamos

Eu sei que iremos passar o dia a ouvir os telejornais enfatizarem os expressivos resultados da extrema-direita nas eleições alemãs de ontem.
É verdade que essa ascensão em força de gente capaz de dizer que os refugiados, incluindo mulheres e crianças, deveriam ser expulsos a tiro das fronteiras que pretendem atravessar, ou com ligações mais do que confirmadas com os movimentos neonazis, só pode inquietar os democratas.
No entanto, esses resultados só se podem compreender à luz da falta de firmeza da chanceler alemã junto de Orbans & Cª cujos direitos comunitários deveriam ser suspensos enquanto não cumprissem os seus mais elementares deveres de asilo para quem tanto deles necessita.
Se na economia Merkel fala forte valendo-se da fraqueza dos que estão demasiado endividados para corresponderem-lhe à falta de solidariedade, logo a voz esmorece quando se trata de garantir o mais elementar respeito pelos Direitos Humanos. Nesse caso até se mostra complacente com a Turquia de Erdogan apesar dos sinais totalitários dados pelo respetivo governo.
Mas as eleições alemãs não trazem apenas a inquietante novidade do crescimento dos fanáticos racistas, porque demonstra uma vez mais qual o resultado obtido pelos partidos da Internacional Socialista quando se dispõem a fazer o jogo da direita: servindo de muleta a Merkel, os sociais democratas do SPD foram contemplados com alguns dos piores resultados eleitorais das últimas décadas.
Seria interessante ouvir Francisco Assis e os antigos seguristas comentarem esta óbvia consequência da estratégia com que se sentiriam confortados depois da noite das eleições de 4 de outubro.
O que Costa tenderá a demonstrar que os socialistas, ou o são de facto, ou os eleitorados votá-los-ão a merecido castigo. Como já sucedeu na Grécia e na Irlanda e se voltou a repetir agora na Alemanha.

Raios! Começo com Cristas e a cabeça leva-me para o toucinho!

Há uns anos largos uma boa parte de Portugal riu com a bacoquice de Dias Loureiro que, tão só nomeado ministro por Cavaco, e logo telefonou ao pai para, ufano, dar-lhe a novidade.
Anos depois esse mesmo Cavaco deu provas do mesmo tipo de saloiice, quando empossado como Presidente da República se fez fotografar com a pacóvia Maria, os filhos e os netos a aproximar-se do novo «apartamento», que acabara de ganhar em Belém.
Agora essa mesma promiscuidade entre a vida familiar e a tomada de uma forma de poder foi assumida pela nova líder do CDS: no congresso de Gondomar não houve familiar que não tivesse lugar marcado nas primeiras filas para inchar ainda mais o seu já de si imenso ego. Houvesse lá por caso um papagaio e também ele teria presença certa para repetir as lerdices da patroa.
A sua consagração até poderá revelar-se uma espécie de fogo-fátuo, mas esse momentâneo sucesso junto dos seus já ninguém lho tira.
Mas não foi apenas por esse pormenor psicologicamente bastante revelador da sua personalidade pimba, que Assunção Cristas se destacou nestes últimos dois dias.  Mesmo que a quisesse evitar era só acender a televisão e lá ela se queria vir impor na serenidade das minhas paredes. Por isso, mesmo acelerando no zapping, ainda deu para perceber que não faz a coisa por menos: já quer abocanhar a maior parte do eleitorado do antigo parceiro, propõe logo grandes pactos de regime (para voltar a impor cortes na Segurança Social, que já todos sabemos o que significam para os rendimentos dos reformados!), mesmo continuando a dizer de António Costa e da maioria de esquerda parlamentar o que Maomé não se atreveu sequer a dizer do toucinho.
Mas olhando para o rosto dela, e quiçá associando o Congresso à recente movimentação dos suinicultores, não compreendo bem porque raio me vi a falar da gordura dos porcos. Esta cabeça faz às vezes cada associação de ideias, que me surpreende! Oinc, oinc!!!

domingo, 13 de março de 2016

A irresponsabilidade europeia

Esta manhã, no «Metropolis», programa dominical da ARTE, o Nobel da Literatura Orhan Pamuk queixava-se dos cuidados a que se vê obrigado quando instado a falar da situação política na Turquia. Segundo ele os riscos incorridos por quem fala contra Erdogan implicam a perda do emprego, as agressões dos islamitas, a prisão ou mesmo o assassinato.
E, no entanto, foi essa Turquia que a União Europeia tratou como parceira fiável para a ajudar na resolução do problema dos refugiados.
A troco de quê? Da aceitação do seu mais do que equívoco papel no conflito sírio? Da indiferença para com a repressão assassina sobre o povo curdo? Do não querer ver os contínuos ataques à liberdade de expressão, que submete os jornalistas a uma mordaça bem apertada?
Como comenta Mathieu Croissandeau no editorial desta semana do «L’Obs», “a União voga ao sabor das suas incapacidades senão mesmo da sua irresponsabilidade”.
Merkel e os demais parceiros europeus ainda não chegaram à solução ironicamente proposta num texto de Gonçalo M. Tavares, que imaginou um futuro distópico onde os desempregados seriam embarcados em navios e largados no meio do oceano, o mais longe possível das costas continentais, para que a «resolução do problema» se fizesse fora dos olhares dos que continuariam a ser portadores de emprego. O que leva alguns a aventarem a possibilidade de estarmos à beira de assistir a novas versões do Holocausto, seja contra refugiados, contra desempregados, contra a peste grisalha, etc.
Na mesma revista, Henri Roussel aborda um assunto muito sério na sua habitual coluna «Les Lundis de Delfeil de Ton»: o dos riscos que os drones civis suscitam na aviação comercial. Segundo conta, dias atrás, um Airbus A320 proveniente de Barcelona estava a aproximar-se do aeroporto de Roissy, quando o piloto viu-se obrigado a uma manobra de emergência porque um desses pequenos aparelhos passou apenas a cinco metros da sua rota de colisão.
Nenhum passageiro deu por isso, mas a catástrofe passou à sua beira.
O perigo até parece nem ser significativo quanto à colisão de um objeto da dimensão em causa, mas cresce exponencialmente se ele for aspirado pelo motor do avião e a sua bateria de lítio se inflamar. A explosão teria o potencial de pôr em causa a sobrevivência dos passageiros.
Por ora as autoridades, que velam pelo espaço aéreo europeu, ainda não conseguiram tornar efetiva a obrigatoriedade de tais drones se limitarem a respeitar o limite de 150 metros de altitude. Nem sequer de identificar quem os manobra sabe-se lá com que objetivos!

As sondagens e a crise da direita

Sem surpresas as sondagens começam a dar à direita a confirmação dos seus piores receios: que a «geringonça» funciona mesmo condenando-a a duradoura irrelevância 
Durante umas semanas a virulência ressabiada de Passos Coelho e Paulo Portas conseguiu manter a fervura dos seus eleitores numa temperatura ainda próxima da ebulição, tanto mais que a comunicação social andou proclamou ad nauseam  o PàF como a força vencedora das eleições.
Desde então, e a pretexto das disputas internas, quer eles, quer Assunção Cristas tiveram lugar reservado na maioria dos telejornais e fizeram crer que continuavam a contar para alguma coisa no futuro xadrez político nacional. Terá sido o derradeiro alento do moribundo antes de exalar o último suspiro!
O futuro que se adivinha para ambas as lideranças da direita não é promissor. Conhece-se bem a velha regra da política em como, após um longo período de liderança de uma personalidade relevante para as respetivas hostes, os sucessores nunca conseguem superar o estigma de mero condutor da transição.
Entre o Passos Coelho, líder da Oposição e o Passos Coelho primeiro-ministro existem óbvias diferenças, que fazem dele, apesar de parecer o mesmo, duas pessoas completamente diferentes. Se o dos anos anteriores era carismático no seu autoritarismo cego, o de 2016 anuncia-se encurvado, precocemente envelhecido e abúlico.
O líder de transição que ele hoje é não augura nada de bom para quem lhe seguirá: é que o PSD virou tão à direita, que arrisca-se a competir com o CDS pelo mesmo eleitorado, retrógrado nos valores e friedmaniano nas questões económicas, deixando o eleitorado do centro cada vez mais distante.
Quanto a Assunção Cristas este Congresso tem sido elucidativo: as reviravoltas de haver ou não haver listas únicas aos órgãos nacionais já prenuncia uma permanente luta no galinheiro para aferir quem se conseguirá manter no poleiro.
António Costa tenderá a consolidar o apoio às suas políticas tornando inquestionável a legitimidade do Governo, mas terá de enfrentar doravante um tipo de contestação diferente da perspetivável: depois dos suinicultores, anunciam-se protestos dos produtores de leite e das empresas transportadoras como expressão de uma direita politicamente manietada, mas capaz de manobrar clandestinamente as associações patronais de forma a criar uma atmosfera de caos social.
Depois do flop desta sexta-feira, quando a paralisia da 2ª Circular se virou contra os próprios patrocinadores da iniciativa, as próximas serão mais inteligentes e convirá que os ministros visados voltem a demonstrar a sagacidade de Capoulas Santos. É que, apesar de derrotada, a direita continua a ser letal nos seus assomos de desespero e obrigará a ter disponíveis os antídotos mais eficazes...


sábado, 12 de março de 2016

Suinicultores ou tropa fandanga da direita truculenta?

Até ontem de manhã a luta dos suinicultores portugueses, não me merecia particular simpatia, por causa da frequência com que conspurcam clandestinamente os rios, riachos e outras linhas de água, mas também não me suscitava especial animosidade. Reconheço até que, nas mais recentes deslocações aos hipermercados, a preferência dos produtos portugueses tem sido uma regra no leite, nas laranjas, nos morangos, na carne ou no peixe. Por solidariedade com quem produz made in Portugal.
No entanto cheguei ao fim da tarde em  decidida oposição a esse grupo de agricultores tendo em conta a forma terrorista como procuraram agir contra o governo. Contra o anterior, apesar de ter apoiado todas as decisões europeias que conduziram ao aumento de stocks nos mercados, nunca lhes ouvi mais do que tíbios lamentos, enquanto para este já consideram excessivos os três meses decorridos para lhes arranjar soluções.
Não possuo provas em como eles serviram de joguetes a quem quer testar a determinação dos vários ministros face a protestos desestruturados, oriundos de apelos anónimos e com cadernos reivindicativos onde se pedem as mais absurdas benesses, mas que tudo parece indicá-lo, não tenho dúvidas.

Apesar de já se terem reunido várias vezes com Capoulas Santos e ouvirem-no assumir compromissos e propostas tendentes a aliviar-lhes os problemas, esses contestatários de nada quiseram saber: o mínimo que lhe exigiam era que, sem lhes terem pedido audiência, os recebesse e garantisse, por exemplo, que obrigaria a União Europeia a acabar com as sanções à Rússia de Putin … que Passos Coelho apoiara numa Cimeira Europeia.
A SIC, que tem feito uma campanha despudorada contra António Costa e decidiu apoiar a reivindicação dos suinicultores com vários repórteres a acompanhá-los a par e passo, nem sequer conseguiu controlar o que eles iam revelando de si mesmos: entrevistando o motorista de uma carrinha de uma empresa só indiretamente relacionada com o setor este confessava ter vindo para ali a mando do patrão, para quem trabalhava há pouco tempo e não sabendo sequer os motivos porque se pusera a entupir o trânsito na Segunda Circular.
Obviamente que Capoulas dos Santos não podia ceder à chantagem a que o queriam submeter até por não ser difícil adivinhar o que estava a acontecer nas saídas de Lisboa: a justa indignação de muitos automobilistas condenados a perder tempo e combustível por algo tão absurdo. Muitos terão decidido, como é o meu caso, que a preocupação com o consumo do que é nacional continuará no leite, nas laranjas, nos morangos ou no peixe, mas quanto à carne de porco há que evitá-la porque fiquei esclarecido quando ouvi um suposto presidente da associação representativa destes produtores dizer do governo o pior possível e incentivando Marcelo a «pô-lo na ordem». Nesta sexta-feira os suinicultores aceitaram ser soldados dos que são os maiores culpados pela situação em que vivem e se acoitam na sombra, esperançados em conseguir deles a criação do terreno propício a regressarem ao poder. 

sexta-feira, 11 de março de 2016

Uma mão cheia de comentários

1. Vozes amigas têm-me aconselhado mais comedimento na forma como falo do novo Presidente da República:
- Vais ver que ele não constituirá nenhum perigo para o António Costa!
E acrescentam o risco em que incorro ao parecer tão “incorreto” como foram os deputados do PCP ou do Bloco ao recusarem-lhe palmas no discurso de investidura.
Todos esses comentários não me impedem de pensar que Marcelo Rebelo de Sousa só chegou a Presidente da República para satisfazer a sua enormíssima vaidade pessoal e, quiçá, livrar-se do estigma de sempre ter sido visto como filho e afilhado de fascistas.

Porque, verdade, verdadinha, que ideias inovadoras trouxe ele para os cenáculos políticos? Que ideia de país é a sua?
Concedo que é um pragmático e, por o ser, é que não fará ondas enquanto os ventos correrem de feição a António Costa. Mas a adensarem-se as nuvens nos céus turbulentos deste cantinho à beira-mar plantado e ei-lo a não poder ser outra coisa do que aquilo que sempre foi: um homem posicionado à direita do nosso espectro político e a revelar-se assim mesmo em muitíssimas ocasiões, desde a campanha para negar o direito ao aborto às mulheres até à demonstração do desrespeito das leis, quando redige textos em desrespeito pelo Acordo Ortográfico em vigor!
2. Na RTP o João Galamba respondeu a José Eduardo Martins e a André Macedo, quando estes teceram elucubrações pessimistas a respeito do futuro do atual governo. E a realidade é a que o deputado socialista enunciou: já foram inventadas tantas possibilidades de desacordos entre o PS e os partidos à sua esquerda e todas elas falharam clamorosamente. Imaginaram-se tantos obstáculos, internos e externos, a que este Orçamento tivesse possibilidade de existir e aí está ele a ser aprovado, primeiro na generalidade e amanhã na especialidade. E, no entanto, a direita masturba-se a imaginar o momento em que o «problema surgirá e o pote poderá ficar novamente à sua disposição.
Desenganem-se!, foi o que Galamba disse aos parceiros de painel: a capacidade de diálogo permanente com o Bloco e com o PCP tem sido tão frutuosa, quanto fácil de gerar consensos … até porque muitas das medidas supostamente impostas ao PS por tais partidos já figuravam no seu programa eleitoral! 
O problema é que os comentadores do costume não o quiseram ler ou entender…
3. Tem sido muito elogiado o discurso de Ferro Rodrigues na despedida de Cavaco Silva, enfatizando a sua longa “dedicação”  ao serviço público.
Eu sei que, nesse tipo de cerimónia, a diplomacia tem de ser uma regra. Mas é preciso tomar muitos alka seltzers para atestar esse tipo de atributo no exemplo paradigmático do que Robert Musil definia como o homem sem qualidades.
4. Como tenho de imitar Ferro Rodrigues nessa capacidade para ser piedoso - mesmo que impenitentemente ateu! - vou-me escusar a qualificar a galeria que compareceu à apresentação do livro de António José Seguro numa instituição privada de ensino universitário em Lisboa.

Todos os expoentes do segurismo puseram-se na primeira fila para serem vistos e alguns proeminentes membros do PSD fizeram-lhes companhia.
De esquerda poucos vi e provavelmente só por se sentirem obrigados a marcarem o ponto! Mas já fiquei descansado ao ver o protagonista da celebração a confessar a descoberta de haver mais vida para além do universo partidário.
Que tenha um brilhante futuro de docente universitário é o que se lhe posso desejar, conquanto não ambicione envergar vestes de dom sebastião nalguma futura manhã de nevoeiro.
5. A intenção da Justiça brasileira em prender Lula tem contornos inquietantemente semelhantes com a perseguição feita a José Sócrates entre nós.
Tal como por cá houve a campanha dos pasquins para disseminar as mentiras e difamações contra o antigo primeiro-ministro, assim agiram a «Veja», a Tv Globo e mais um conjunto de jornais e televisões conotados com a conspiração para derrubar o Partido dos Trabalhadores e devolver o poder à clique elitista, jamais incapaz de aceitar ver-se governada por um operário metalúrgico.
Quando a Justiça decide fazer política são os fundamentos do Estado de Direito, que ficam em causa...

quinta-feira, 10 de março de 2016

Regresso à sabática (2ª parte)

Há políticos que lembram aqueles embrulhos muito vistosos com caixas inseridas umas nas outras, que se vão sucessivamente abrindo até se concluir nada haver senão um enorme vazio, quando se chega à última. O novo Presidente da República é um exemplo lapidar dessa capacidade para esconder a inexistência de propostas para o futuro do país através do recurso de habilidades circenses, que servem para entusiasmar os mais bacocos.
Foi assim durante toda a campanha eleitoral - e por isso foi claramente derrotado no confronto televisivo com Sampaio da Nóvoa! - e assim continua quando decide chegar pelo seu pé à cerimónia da tomada de posse na Assembleia da República. É óbvio que o país não progride nem regride com esse tipo de folclore, mas há quem ache graça ao figurão. Para breve já anunciou a “novidade” de comemorar o 10 de junho em Paris, o que já levou alguém a prever uma cerimónia de estilo «maison».
Não era este espetáculo de entretenimento, que gostaria de ver no Palácio de Belém. Ele até pode vir a revelar-se relativamente benigno para o governo de António Costa, se o talento e as circunstâncias o ajudarem a desmentir todas as sibilas, que adivinham raios e coriscos a curto prazo, mas também de pouco adiantará para que sejam cumpridos os objetivos ambiciosos enunciados na Agenda para a Década.
Vaidoso como é, e sobretudo disposto a chegar ao fim do mandato numa situação de popularidade oposta à do predecessor, Marcelo encontrará sempre maneira de atrair a si a comunicação social com formas imaginativas de ficar bem em cada retrato, mas não mexerá uma palha para que o país progrida onde mais importa: na Inovação, na Investigação e no Conhecimento.
Põe-se, pois, a questão: e se tivesse sido Sampaio da Nóvoa a ser hoje empossado como novo titular da mais alta função do Estado? Usando uma metáfora teríamos duas locomotivas a puxar pelas diversas carruagens, que simbolizam o país, aproximando-o com muito maior elã daquele que pretendemos criar. Ora, com Marcelo só teremos a locomotiva arduamente conduzida por António Costa, seguindo a do inquilino de Belém na retaguarda, com as caldeiras a apenas produzir fumo para parecer que anda mesmo limitando-se a ser rebocada.
Quando surgiu a candidatura de Sampaio da Nóvoa, ainda os saudosos do segurismo não tinham convencido Maria de Belém a prestar-se à triste figura que foi a sua durante todo o processo eleitoral concluído em 24 de janeiro.
Acaso o ex-reitor da Universidade de Lisboa não contasse com esse obstáculo e teria tido a seu lado toda a organização do Partido Socialista, que o manteria em percentagens acima dos 30% nas sondagens. Em vez de meios irrisórios, muito baseados na carolice e no entusiasmo de quantos participaram no SNAP, a candidatura teria apresentado outra capacidade para suscitar uma maior penetração no eleitorado, quer em notoriedade, quer em  transmissão dos seus valores. A passagem à segunda volta teria sido um facto e no taco-a-taco argumentativo de novos debates concluir-se-ia quem tinha substância e quem se limitava a ser uma forma mais ou menos sem nada por dentro.
É por isso que, mês e meio depois da terceira derrota consecutiva do Partido Socialista nas presidenciais não consigo perdoar aos que trataram de impedir a alavancagem de todo o potencial contido na candidatura de Sampaio da Nóvoa. Porque conhecendo bem a personalidade dúbia da ex-presidente do partido, como se atreveram a pensar na sua capacidade para ser quem ela nunca conseguiria sequer aparentar: uma personalidade credível para tais funções?
Mas, se não esqueço o apoio indireto que os órfãos do segurismo deram a Marcelo Rebelo de Sousa, também não aceito a passividade de muitos militantes com responsabilidades e autoproclamados apoiantes da atual Direção, que arranjaram os mais estafados argumentos para quase não comparecerem nas ações de rua de apoio ao candidato. Uma ou outra vez marcaram o ponto num jantar, aqui e além compareceram episodicamente nas quase quotidianas ações de rua, mas durante os meses de pré-campanha e de campanha oficial deixaram-se ficar a recato das multidões, sempre preparados para aparecerem se a probabilidade de vitória se acentuasse. Por isso mesmo, logo a seguir ao debate televisivo, em que se perspetivou a hipótese de uma vitória, ei-los a surgir inopinadamente a fazerem-se ao retrato não fosse o comboio da História ser mesmo aquele e ficarem subitamente esquecidos na estação.
A muitos deles disse que a atitude perante a candidatura de Sampaio da Nóvoa servia de pedra-de-toque para ver quem era pelo Tempo Novo e quem o não era. Quem apoiava verdadeiramente António Costa, que bem merecia tal parceiro em Belém, e quem apenas está a fazer jogos de cálculo para saber se este governo falha e podem garantir os seus lugarzinhos ao sol nos órgãos locais ou distritais de uma eventual nova liderança.
Acabada a festa o resultado ficou à vista: os que mais se tinham empenhado por um projeto, que constituía apenas uma etapa na dificultosa contenda por algo de verdadeiramente novo no futuro do país, ficaram a falar sozinhos enquanto os suspeitos do costume dividiam entre si os lugares disponíveis para manterem o rame-rame em que se sentem confortáveis. Novas ideias e métodos de trabalho, formas mais imaginativas de assegurar a adesão de mais simpatizantes e de agitar as consciências dos absentistas militantes, assustaram demasiado os que querem que tudo fique na mesma.
Como em certas histórias do romantismo gótico já estão politicamente mortos, mas houve quem se esquecesse de tal os avisar...

quarta-feira, 9 de março de 2016

Regresso à sabática (1ª parte)

Agora que o governo já passou a barreira dos cem dias, e novo inquilino passa a ocupar o palácio de Belém, é altura de justificar a opção de dar por interrompido o longo ciclo da militância ativa, que me ocupou os últimos dois anos e permitiu reviver os tempos de 1986, quando entrei no Partido Socialista e vivi a ânsia de contribuir para um país mais em conformidade com os meus sonhos.
Em três textos irei falar mais de mim do que o costume, mas justificando-o com a explanação de uma perspetiva pessoal sobre os desafios, que se colocam atualmente aos partidos socialistas e a forma de os vencer.
Este primeiro texto levar-me-á da adesão ao Partido Socialista há trinta anos até ao momento em que António Costa se declarou disponível para substituir António José Seguro na liderança do PS.
O segundo texto versará sobre as experiências colhidas nas lutas das primárias e da candidatura de Sampaio da Nóvoa, e como esta constituiu a pedra-de-toque que permitiu perceber quem quer um PS igual a si mesmo - dominado pela lógica do aparelho e dos caciques locais - e quem aspira vê-lo singrar na direção do Tempo Novo de que fala António Costa.
Finalmente, no terceiro texto descreverei o plano apresentado na minha área de residência como passível de avançar para objetivos ambiciosos e práticas inovadoras de trabalho político, e se viu abortado à nascença. Daí a decisão de meter uma sabática e estabelecer colaborações com outros camaradas desalinhados a nível nacional, mas insatisfeitos com a forma como alguns jogam na estratégia do príncipe de Lampedusa em que, mudando alguma coisa, pretende-se que, na prática, tudo fique na mesma.
Os meus primeiros anos de militância socialista foram de grande empenho com participação em secretariados de secções, em gabinetes de estudo no Largo do Rato e em campanhas de rua para favorecer votações diferentes da que tinha acabado de dar a primeira maioria a Cavaco Silva.
Mas os argumentos profissionais sobrepuseram-se e como obrigaram a longas viagens pelos oceanos, foram-me distanciando desse mundo da política ao nível local, por muito que sempre mantivesse as quotas em dia.
Mesmo quando, perdidas as graças do mar, andei anos a dirigir uma empresa, a sobreocupação nas vinte e quatro horas do dia, afastou quaisquer veleidades de retomar a participação cívica. Ademais, durante uma boa parte desses anos, ocupados na gestão e no ensino universitário, vi o país encaminhar-se um pouco mais na direção certa com o primeiro mandato do governo de José Sócrates. Nessa época até os meus colegas, igualmente diretores do mesmo grupo económico, tinham de reconhecer a bondade de muitos dos projetos então concretizados.
A passagem à reforma coincidiu com o fim do segundo governo de José Sócrates, quando a conjugação da crise aberta pela falência da Lehman Brothers e uma óbvia conspiração de interesses viu chegado o momento certo para aplicar a sua agenda ideológica.
Recatado - mesmo que não tardando a sentir a fúria dos cortes austeritários - julguei-me fadado para usufruir a disponibilidade ambicionada para os projetos de escrita e das leituras sempre adiadas até então.
Mas senti o primeiro impulso para regressar à militância ativa, quando se tratou de escolher entre António José Seguro e Francisco Assis para a liderança do Partido.
Do primeiro a minha opinião sempre fora a pior possível: a forma como se posicionara nas últimas filas da Assembleia da República de lá sobressaindo sempre que sentia a oportunidade para complicar a vida a José Sócrates, tinham-me confirmado a falta de qualidades exigível num verdadeiro líder, a começar pela lealdade para com os seus camaradas. Ademais, não lhe conheci nenhuma ideia original e consistente para responder à crise identitária já então percetível nos partidos socialistas e sociais-democratas europeus...
Pelo contrário encontrei, então, em Francisco Assis a alternativa possível, tanto mais que, enquanto líder parlamentar sempre defendera com denodo as linhas programáticas do governo socialista. Não o conhecia o suficiente para nele imaginar o entusiasta de uma viragem à direita, que os anos seguintes têm demonstrado passíveis de levar os socialistas aos pífios resultados eleitorais um pouco por todo o lado, desde a Grécia do Pasok à Eslováquia ainda este domingo.
Foi António Costa quem veio finalmente fazer-me sair das tamanquinhas e voltar ao trabalho político ativo: a alternativa à apagada e vil tristeza para onde António José Seguro conduzia o Partido justificou o empenho em fazer das Primárias o grande momento de viragem, não só interna, mas da própria política nacional. Porque foi possível encontrar, então, centenas de desconhecidos sem qualquer ligação formal ao Partido, mas dispostos a inserirem-se na dinâmica da sua transformação.
Embora reconheça a Seguro o mérito de ter proposto essa via de consagração do novo líder do PS - mas tenho a certeza dele não ter previsto o tiro no pé que assim dava! - esse processo inaugurou algo de novo na política portuguesa: a atração à política de quem relativamente a ela andava numa atitude de passividade, senão mesmo de indiferença.
Acredito que essa novidade constitui uma tendência que veio para ficar e se está a revelar nalgumas latitudes com a adesão a fenómenos novos como o Podemos em Espanha ou Sanders nos EUA, que desmentem os prognósticos de um absentismo progressivamente crescente e de um individualismo capaz de se sobrepor a todas as formas de solidariedade.
Os Partidos da Internacional Socialista não podem menosprezar este fenómeno: ou mantém a lógica de enclausuramento em si mesmos, ou abrem-se para a sociedade e concluem ser altura de adotar novas metodologias, que só podem traduzir-se em mais e melhor democracia interna.
No caso português a competência dos ministros do atual governo até pode iludir quanto à urgência em promover essa transformação da organização estatutária do Partido Socialista - ficariam confortados os que o querem ver como um partido de eleitores e não de militantes e simpatizantes. Mas a oportunidade de se contar com um líder de exceção não dispensa o facto de a organização política, que o apoia, o merecer e fortalecer-se no sentido de garantir-lhe um sólido apoio.
Definida a necessidade de uma abertura efetiva do Partido Socialista ao exterior, saindo do pequeno reduto das suas exíguas secções - sobretudo quando elas têm tantas dificuldades para se manterem abertas! - tratarei de abordar noutro texto a razão porque teria sido importante que a candidatura de Sampaio da Nóvoa merecesse um envolvimento significativo dos que agora se esforçam por devolver o trabalho político ao tal rame-rame, que os acontecimentos recentes demonstraram ser possível superar.