quarta-feira, 4 de maio de 2022

Um passo atrás a carecer de mais dois para diante

 

É uma notícia, que não surpreende: a iminência do recuo da legislação favorável ao aborto nos Estados Unidos: a Administração Biden não chegou a meio mandato e ainda se sentem as réplicas devastadoras do terramoto, que significou a passagem de Donald Trump pela Casa Branca e culminada na consolidação de uma maioria ultraconservadora no Supremo Tribunal. E que vem demonstrar a justeza da conhecida fórmula marxista em como a realidade é capaz de avançar dois passos, mas lá virá a altura em que recua um deles.

O que está em causa é, uma vez mais, a ditadura dos que não se bastam aos seus preconceitos e querem-nos impor aos demais, mesmo àqueles que os olham com o espanto de quem, em época de tão relevantes avanços científicos, não veem sentido na crença de estultas transcendências. Que isso signifique, sobretudo, uma gravíssimo atentado contra os direitos das mulheres, não sobram dúvidas. Mesmo vendo algumas delas a liderarem as insanas perseguições inquisitoriais às que apenas desejam uma maternidade responsável e sem os riscos que, sobretudo, as das classes mais desfavorecidas, padecem.

Depois de se julgar derrubada essa barreira civilizacional voltamos a ter o direito ao aborto legal como uma das batalhas ideológicas pertinentes neste século XXI.

Não são defeitos, são feitios!

 

Vão abundando - e não só em Portugal! - as intromissões abusivas de responsáveis ucranianos nas políticas internas dos países, que não têm regateado condenações a Putin, nem apoios a Zelenskii, e recebido refugiados seus de braços abertos. Entre nós temos uma embaixadora a participar ativamente na manifestação de um pequeno partido ultraliberal ou o líder de uma associação a questionar a legalidade de um dos partidos fundadores da nossa democracia. Em Berlim aparece o embaixador de Kiev a publicar um texto ofensivo para com o chanceler Scholz no “Der Spiegel”, ao mesmo tempo que o sucessor de Merkel na CDU se via recebido com pompa e circunstância onde, antes, se fez saber da escusa de conferir idêntica deferência ao presidente social-democrata Steinmeier.

Todos estes exemplos confirmam que Zelenskii e os seus apoiantes não se querem bastar quanto a quem querem que governe a Ucrânia ou a Rússia, levando o atrevimento a definirem quem preferem ver à frente de todos os demais países da União Europeia ou da NATO. No entretanto o povo ucraniano vive a tragédia de constituir o elo mais fraco numa disputa que é, cada vez mais notoriamente, entre a decadente Rússia e a vacilante América. Com os governos europeus a prepararem-se para serem aqueles a quem será apresentada a fatura de tudo quanto ali tem sido destruído.

terça-feira, 3 de maio de 2022

Números que nos devem fazer pensar...

 

A crónica de Manuel Loff, hoje inserida no «Público», traz-nos dados interessantes para refletirmos sobre o quanto estamos a ser embalados por um discurso equívoco quanto à necessidade de investirmos mais no Orçamento da Defesa sem que a razão (compreensível!) passe por melhor remunerar quem trabalha na vertente pública desse setor.

António Costa por um lado, mas sobretudo Marcelo por outro, um para parecer consonante com o discurso politicamente correto europeu nesta altura, o outro porque, sempre se inflama com a tutela sobre os militares, têm-nos dado mostras da intenção de contribuirmos com mais dinheiro dos nossos impostos para socorrermos a Nato e o Pentágono nas suas estratégias belicistas.

Assim:

- “ao contrário do que por aí circula, [Portugal é] o 5.º país da UE com proporcionalmente mais gasto militar: 2,1% do PIB em 2021, 4% da despesa pública de 2020 (dados do incontestado Stockholm International Peace Research Institute), acima portanto do que a NATO quer”;

- “a política militar da UE serve para, com muito pouca (ou nenhuma) transparência, alimentar um verdadeiro oligopólio de cinco grandes empresas (Airbus, Leonardo, Indra Sistemas, Dassault e Thales) que beneficiam de 75% do investimento militar da UE, em fase de aumento exponencial: 90 milhões de euros em 2017-19, 500 milhões em 2020, 7,9 mil milhões aprovados em 2022;

- fundos americanos são acionistas relevantes de todas estas megaempresas europeias e, simultaneamente, das “empresas rivais americanas na indústria de armamento”;

Acresce, enfim, que o atual secretário de Estado da Defesa, Marco Capitão Ferreira é, há muitos anos - ainda antes dos medos sobre os “russos virem aí”! - um conhecido defensor das parcerias entre os setores público e privado daquilo que Eisenhower alertou como o complexo militar-industrial capaz de pôr em causa a Democracia.

Se estes são factos que merecem a nossa ponderada consideração não sei que outros, mais pertinentes, merecem sê-lo!

domingo, 1 de maio de 2022

De que vale a verdade se não serve a mais ninguém?

 

Da peça atualmente em cena no Teatro Joaquim Benite em Almada fica esta questão, que motiva quem olha para o tempo presente e o vê contaminado por ruídos múltiplos, disseminados a partir das redes sociais, mas também das televisões a funcionarem de acordo com a lógica pretendida pelos anunciantes ou pelos seus donos, afastando para incomensuráveis distâncias aquilo que deveria ser a prioridade de todos quantos vivem neste planeta: como mantê-lo habitável para as próximas gerações se o sabemos incompatível com o modo capitalista de exploração dos seus recursos e condenado a muitas Ucrânias tão-só se vão agravando as desigualdades entre quem quase tudo tem e os que dividem as migalhas remanescentes. Porque no Cáucaso, na Península Arábica, no Corno de África ou na Caxemira estão em causa as agudizações das lutas de classes, escamoteadas em ilusões nacionalistas, amiúde abertamente racistas, com os humilhados e ofendidos a expressarem-se de acordo com o que pior sobrevém das suas frustrações.

Para quem adota perspetiva distanciada do que se passa à superfície do planeta não sobram dúvidas quanto às prioridades a afinar para assegurar a continuidade do seu expressivo azul. Mas não falta quem nos distraia com quanto quem nos olhar do futuro considerará termo-nos deixado guiar por tontos irresponsáveis. 

sábado, 30 de abril de 2022

Um cerco que não é propriamente um convite para jantar

 

1. Keir Giles é um analista do think tank Chatham House, que diz em voz alta aquilo que os políticos ocidentais têm escamoteado e procurado envolver em toscos eufemismos: passa-se na Ucrânia uma guerra por procuração entre os países da Nato e a Rússia. Ou seja, mesmo sem a ter declarado, nem buscado apoio nas instituições constitucionais, o governo português está em guerra aberta com a Rússia. Com todas as consequências, que isso possam envolver, para além das que já sentimos agora nos nossos bolsos. E tanto mais de recear quanto trata-se de uma guerra em larga escala e por tempo indeterminado, porque ninguém parece agora interessado em negociações.

2. Embora seja-nos vendida a narrativa segundo a qual são os russos quem não facilitam o corredor humanitário para que os civis saiam de Mariupol ninguém parece ouvir verdadeiramente com a devida atenção o pedido insistente do comandante local do batalhão Azov, que exige acompanhá-los para livrar-se a si e aos seus da condição de prisioneiros de guerra. Nesta altura parece evidente que os civis da cidade estão a sofrer as amarguras de quem se vê refém de quem os conserva à força no complexo industrial onde têm por certa a fome e as doenças.

Parece evidente que, acaso pensassem nos interesses dessas mulheres e crianças os militares ali cercados deveriam libertá-los e colocarem-se sob a alçada dos sitiantes apenas exigindo o acompanhamento das Nações Unidas para terem a garantia de serem efetivamente tratados de acordo com as regras da Convenção de Genebra. Porque alguém pode acreditar que os russos fossem tão crédulos, que os libertassem dali para logo os enfrentarem, dias depois, noutra qualquer das frentes de batalha? Como diria alguém, a guerra não é propriamente um convite para jantar, como parecem almejar os famigerados elementos do batalhão Azov. 

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Se a psicologia infantil pudesse ajudar

 

Olha-se para a guerra na Ucrânia e sente-se impossível a tarefa de António Guterres para conferir alguma sensatez aquilo que não o tem por todos quantos ali intervêm comportarem-se como se fossem miúdos quezilentos. A psicologia infantil poderia servir de alguma coisa se tivesse respostas eficazes para atitudes desviantes, mas desconfio só o cansaço vir a atenuar os efeitos daquilo que ainda decorre da exaltação de todas elas.

Putin funciona como o puto malcriado e zaragateiro, que decidiu fazer catarse das suas frustrações, impondo violento bullying  sobre o vizinho a quem anda a queimar os brinquedos espalhados pelo quintal que, em parte, ocupou. Zelenskii é o miúdo chorão, que está a ver tudo quanto tem reduzido a cacos e por isso pede que o venham ajudar.

Biden é o filho do dono das fábricas de fósforos e de óleos, que vê a oportunidade de assegurar bons negócios à família atirando com quantidades prodigiosas de materiais capazes de ainda mais atearem o fogo ali espalhado. E os líderes europeus são aqueles desorientados colegas de uns e de outros, agora muito espantados por terem-se atrevido a atirar umas pedradas ao zaragateiro e agora levarem com umas quantas em troca, que dizem não condizerem com o que deveria ser lícito na brincadeira. Para tudo culminar aquele que avançou sobre o quintal do vizinho já avisou que não se coibirá de usar pedras mais contundentes se continuarem a provoca-lo.

Que fazer no meio desta barafunda? Decididamente não sei, nem Guterres pareceu apresentar ideias melhores nas suas visitas à casa de cada um dos beligerantes. Também ele a carpir-se, considerou absurda qualquer guerra no século XXI, como se o não fosse em qualquer século passado ou futuro. Porque a paz deveria ter sido valor imposto como indissociável de ser-se humano e para ela batalharam muitos dos que integravam os antigos Conselhos pela Paz, e tinham na pomba de Picasso o seu símbolo. Mas, nessa altura, eram os falcões do Pentágono, que a desfeiteavam multiplicando-se em intervenções fora das suas fronteiras e sem olharem para as convenções que, sem pejo, violavam. Nessa altura tudo faziam para legitimar a ideia da guerra como intrínseca, incontornável ao próprio Homem. E assim chegámos ao trágico estado em que estamos.

E há, é claro, os que assistem da bancada, tomando partido por uns ou por outros, e nada ajudando a sossegar as almas desavindas.