segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Não podemos pedir ao vírus para que se torne mais inteligente?

 

Tenho um sobrinho que, com inteira justiça, lamenta que o SARS-COV2 não seja verdadeiramente inteligente, selecionando as suas vítimas exclusivamente entre os que se negam a tomar as vacinas e as julgam relacionadas com as mais mirabolantes teorias da conspiração.

- Seria uma forma de nos vermos livres dos cretinos! - conclui.

Como não lhe dar razão, quando compreendemos que os negacionistas são, igualmente, os elementos das extremas-direitas, sejam elas trumpistas nos EUA, bolsonaristas no Brasil, lepenistas em França ou venturistas em Portugal? De uma assentada livrávamo-nos do que a espécie humana vai configurando-se de pior nos dias em curso.

Infelizmente o vírus a todos tem atingido aleatoriamente e, mesmo quando acomete contra alguns dos figurões em causa, não o vemos a agir com a malignidade correspondente à das ideias de tal gente. Algo que decerto se voltará a confirmar com o führer luso, daqui a pouco capaz de vir à ribalta comparar a doença a uma suave gripezinha!

Como não pedir que a variante delta venha a ter como sucedânea uma outra, conforme com os desejos daquele meu sobrinho e se revele seletivamente arguta nas suas vítimas? Faria então um enorme favor ao mundo depurando-o de quem por cá anda a mais!

sábado, 7 de agosto de 2021

Enquanto em França se ouvem vozes negacionistas

 

Por esta altura uns milhares de franceses manifestam-se nas ruas de diversas cidades francesas para contestarem o certificado digital comprovativo da vacinação. Sobretudo mobilizados pela extrema-direita, mas também pelo partido de Jean Luc Mélanchon (aquele com que o nosso Bloco de Esquerda se identifica), esses contestatários invocam os seus direitos a um tipo de liberdade que está muito para além do respeito da que aos outros diz respeito. E constitui o estertor anunciado do movimento dos coletes amarelos, que conheceu uma pífia réplica lusa sempre incapaz de chegar ao tipo de vandalismo conhecido além-Pirenéus.

Felizmente que não existem entre nós tantos negacionistas inspirados por teorias da conspiração fomentadas pelo QAnon. A Ciência é respeitada tendo passado à clandestinidade os que andaram a pôr em causa a importância das vacinas. O que não invalida a imprudência de Marcelo ou de Gouveia e Melo em quererem forçar a Direção Geral da Saúde a aprovar a sua aplicação a crianças entre os 12 e os 15 anos, quando nenhum estudo científico demonstra a superação dos benefícios nesse grupo etário em comparação com os riscos em causa.

Mas, mesmo que essa hipótese venha a ter respaldo científico não faz sentido que seja concretizada antes de toda a população adulta estar vacinada. E, mesmo no caso dos franceses e alemães, que se preparam para desrespeitar as orientação da Organização Mundial da Saúde, defensora da vacinação em massa de toda a população mundial, superando as desigualdades entre os países ricos do Norte  e os países pobres do Sul - única forma de evitar novas variantes, que venham a pôr em risco a eficácia das atuais vacinas! - existe uma irracionalidade só explicável por mera estratégia política dos dirigentes respetivos cujo futuro se torna incerto nas eleições do próximo ano.

Congratulemo-nos por estarem em extinção os nossos militantes antivacinas e o governo prosseguir a estratégia, que tem minimizado muito significativamente os contaminados pelo SARS-COV e aqueles que acabaram por a ele sucumbir. Do que a equipa liderada por António Costa não precisa é de um presidente armado em oráculo inconformado por não ser levado a sério e um vice-almirante deslumbrado pela notoriedade que o seu cargo lhe está a facultar.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Regressando ao combate nas redes sociais

 

Quatro meses depois da crise, e cinquenta dias depois da Elza sair do hospital, posso tranquilizar todos os amigos, que se preocuparam com o seu estado dando conta de uma recuperação, que vai muito além das nossas melhores expetativas. Não é que o combate tenha terminado - afinal só ainda começou! - mas esperamos prolonga-lo por muitos e bons anos, vivendo ainda muitos momentos de profunda felicidade. Agora torna-se possível voltar aos blogues e às redes sociais com maior disponibilidade prosseguindo o afã de neles contrariar a tentativa das direitas em fazê-los espaços de propaganda exclusivamente seus. Se não formos nós a desmentirmos-lhes as mentiras, e impormos a nossa perspetiva humanista e sustentável de como deve evoluir o mundo, não haverá quem nos substitua. Nenhum de nós é dispensável nessa luta de ideias, que possa contribuir para que as palavras da Revolução Francesa - Liberdade, Igualdade, Fraternidade - continuem a fazer sentido. E o Socialismo é a única resposta admissível para mudar estas sociedades capitalistas cada vez mais selvagens em que uns se julgam apenas com direitos porque aos outros reservam o cumprimento dos deveres. Mormente o de anuírem em serem explorados.

Quatro meses depois nada mudou de substancial na nossa realidade: temos um governo competente, que tem contrariado as sucessivas vagas da pandemia com uma eficácia, que se adivinha impossível de replicar por qualquer uma das oposições, incluindo a de um Presidente cada vez mais impaciente com uma solução política, que lhe é ideologicamente adversa. Bem pode Marcelo pedir aos empresários para que financiem os adversários do governo, que esse investimento demonstra ser de pífio retorno. Que ganha um desses empresários em financiar Rui Rio? O discurso do principal líder da oposição continua a ser tão cinzento e inconsistente, que nunca conseguirá arrebatar grandes entusiasmos nos que não são seus prosélitos!

O CDS é um moribundo a que só falta dar a definitiva extrema-unção. O Iniciativa Liberal esgota-se no marketing chico-esperto, porque as ideias cheiram a mofo e revelam-se desajustadas da fase histórica em que nos vemos.

Resta o Chega, que alguns patrões saudosos do salazarismo financiaram com grande entusiasmo, crentes de verem Ventura imitar Marine Le Pen ou Matteo Salvini como putativos líderes de uma oposição mais determinada a António Costa. Mas não só o personagem luso limita-se ao oportunismo de quem adivinha os preconceitos de uma pequena franja da população portuguesa, como se depara com o declínio dessa extrema-direita europeia, que a própria União Europeia começa a contrariar fazendo de Viktor Orban o primeiro alvo de uma estratégia a seguir passível de ser replicada com os líderes polacos e eslovenos.

Que as sondagens deem a soma de todas as direitas abaixo dos 40% não igualando sequer as previsões das votações do Partido Socialista só mostra que Marcelo bem pode esperar sentado para que um qualquer Sebastião venha numa manhã de nevoeiro salvar o seu campo político das próximas derrotas eleitorais.

Restam os bloquistas e os comunistas como fiéis da balança. E se se pode lamentar que os últimos estejam a perder influência social e política por não se saberem adaptar a uma nova realidade em que os novos proletários são os jovens precários, que não conseguem estabilizar a vida com empregos dignos desse nome, desiludem-nos os segundos pela propensão para votarem ao lado das direitas em decisões políticas, que tendem a alcançar objetivos imediatos, mesmo que sem efeitos substanciais no médio e longo prazo. Os pupilos do papa Louçã já ter-se-ão conformado com o facto de nunca chegarem a ser um Syriza e inquietam-se com a tendência para imitarem os vizinhos espanhóis do Podemos num crepúsculo sem glória.

O futuro continuará a passar pelo Partido Socialista e será na liderança futura, subsequente à saída ´de António Costa como secretário-geral, que se definirá se o país se orientará mais para a esquerda ou se voltará às tentações de uma Terceira Via como a que António José Seguro procurou enxergar.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Quando a versão histórica das vítimas volta à superfície

Muitos de nós já sabemos tanto sobre o nazismo, que um filme como Quem Escreverá a nossa História? (Roberta Grossman, 2018) pouco acrescenta. Muito do material de arquivo aqui utilizado também o foi noutros documentários sobre o tema. Mas, numa altura em que o veneno extremista tem demasiada força por toda a Europa, lembrar esse tempo de extermínio em prol de uma suposta “raça superior” continua a ter atualizada pertinência.

Há, em primeiro lugar, a questão igualmente abordada num livro de Simone Veil recentemente publicado entre nós: porque hesitaram tantos judeus em buscarem abrigo seguro noutras latitudes, iludindo-se com a possibilidade dos sinais premonitórios da ameaça não passarem disso mesmo? Porque esperaram até ao momento em que já não poderiam escapar ao garrote, que em seu torno se apertaria?

Depois valorize-se o esforço dos historiadores e outros intelectuais estimulados para colaborarem no projeto do comunista Emanuel Ringelblum, que, já no contexto do encarceramento dentro do gueto de Varsóvia, decidiu manter um registo detalhado do que cada um sentia nesses dias de desespero e cheiro a morte, quanto mais não fosse para legar às gerações vindouras a memória das pessoas em vias de serem aniquiladas. O Arquivo Oyneg Shabes, de que falta encontrar boa parte dos caixotes providencialmente enterrados antes de todos os edifícios do gueto serem reduzidos a cinzas e escombros, dá rosto e voz a pessoas concretas, doravante resgatadas da mera condição de integrarem uma estatística de vítimas com o seu quê de impessoal.

O documentário serve para lembrar outras duas evidências incómodas: se temos um rol importante de filmes e fotografias sobre o Holocausto foi porque os alemães os produziram em abundância com objetivos de propaganda e não tiveram tempo para os fazer desaparecer, quando a derrota se lhes tornou inevitável. Por outro lado não houve apenas passividade ou heroísmo nos que morreram no gueto, ou dele foram levados para os fornos crematórios: a Grande Deportação nem sequer foi concretizada pelos alemães, que se limitaram a darem ordens aos guardas judeus para perseguirem e enfiarem os seus vizinhos nos comboios destinados a Treblinka. Uma demonstração de como, tal como hoje no Estado de Israel, não faltavam então judeus sem escrúpulos, apenas interessados em salvaguardarem os seus interesses, mesmo que à custa dos seus semelhantes.

Para Rachel Auerbach, uma das poucas sobreviventes do grupo incumbido de garantir a criação de documentação para memória futura, o resgate dessa tragédia funcionaria sempre como a tarefa prioritária de todo o resto da sua vida.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Espingardices, vociferações, cacarejices e xexejices

 

Eu sei que Marcelo espingardou, Rio vociferou, Catarina cacarejou e até Pinto da Costa xéxéxizou. Mas daqui a uma semana alguém se lembra da Liga dos Campeões nas Antas ou do comportamento dos hooligans ingleses, provavelmente até bem mais comedidos do que de costume?

Se alguém poderá recordar este súbito afluxo turístico serão os que beneficiarão com a boa imagem de marketing transmitida por um país, que tem a pandemia relativamente controlada e onde é seguro vir passar férias. Porque, nas reportagens televisivas, não faltaram elogios à beleza da cidade do Porto e à simpatia dos portugueses, valendo por si muitas e dispendiosas campanhas publicitárias além-fronteiras.

Mas que fazer, quando Marcelo & Cª julgam possível repetir com António Costa aquilo que fizeram com Sócrates há década e meia atrás: esse permanente chorrilho de insinuações, notícias deturpadas e outras coisas que tais capazes de operarem na imagem do governo a das dunas permanentemente assoladas por vagas dispostas a fazê-las desaparecer.

O problema com esses detratores é António Costa ser mais racional e contido do que o «animal feroz», que então procurava dar um rumo visionário para o país, levando-o da sua retrógrada condição (não queriam as direitas transformá-lo numa espécie de Bangladesh europeu capaz de cativar investidores estrangeiros à conta da mão-de-obra barata?) para a de economia próspera e desenvolvida. Aquela para onde António Costa aponta o caminho tão-só se vença o constrangimento destes últimos dois anos. E que todas as sondagens demonstram ser objetivo da grande maioria dos portugueses.

As direitas não aprendem que uma receita bem sucedida com o governo que demoliram até ao PEC4 dificilmente se repetirá outra vez! 

sábado, 29 de maio de 2021

Se o Manuel o diz...

 

Foi muito natural que a data de 28 de maio tenha sido escolhida pelos saudosistas da ditadura salazarista para iniciarem o seu congresso, ademais numa cidade que lhes dera agruras e as voltou a repetir ao som da palavra de ordem “Ninguém atura o facho do Ventura!”. Muito embora se quisesse iludir com a falsa decuplicação dos votos em pouco tempo, o cabeça-de-cartaz, cujo inchado ego o levou à tribuna umas quantas vezes, ou se sabe vigarista ao nível do mais serôdio vendedor de banha-da-cobra, ou há-de descobrir-se como um daqueles casos de patológica megalomania, ganhando lugar ao lado dos que andam de mão ao peito e afiançam ser Napoleão ou olham para os ramos das árvores e juram ver ali senhoras brilhantes a anunciarem segredos tão palpitantes quanto os dos pastorinhos de Fátima.

Para já, e sinalizando o empalidecimento que o espera, convidou Matteo Salvini para com ele partilhar o momento culminante do evento. Ainda ninguém lhe terá contado que o bufão da Liga do Norte está em queda acentuada nas sondagens e tem uma tal Georgia Meloni, ainda mais fascista do que ele, a morder-lhe as canelas. Convidasse-a a ela e sempre poderia tentar as apregoadas artes do Zézé Camarinha junto das inglesas no Algarve, ganhando-se daí alguma coisa (a sempre sensata hipótese de só se estragar uma casa em vez das duas onde tentam perorar!).

Quem pode carpir-se com o espetáculo das direitas durante esta semana é o diretor do «Público», que não deixa de revelar assinalável lucidez ao escrever que elas vão vagueando “entre o sebastianismo encarnado por Passos Coelho, o discurso cavernícola da demagogia ou o saudosismo revisionista do Estado Novo”. Se é o Manuel Carvalho a constatá-lo, de que vale nós acrescentarmos mais o que quer que seja?

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Sinais do que tende a acontecer

 

Existem fotografias e pequenas notícias, que parecem valer pouco, mas comportam uma carga simbólica, que indiciam as incontornáveis tendências futuras. A imagem acima, de cumplicidade entre dois antigos presidentes brasileiros, que muito discordaram entre si enquanto Bolsonaro não ocupou o Palácio do Planalto, é bem reveladora do que se anuncia: sentindo imprestável do atual titular do cargo para os seus interesses a burguesia tucana, que Fernando Henrique representa, sabe inevitável o regresso de Lula da Silva e apresta-se a dar-lhe o aval. Razão para os militares e os latifundiários da industria agroalimentar, que destroem a Amazónia e o Pantanal, sentirem-se cada vez mais isolados, não só porque demonstraram à saciedade a sua patética incompetência como desclassificaram o Brasil de prometedor Bric numa ainda mais subdesenvolvida e miserável realidade.

Por seu lado a Irlanda foi o primeiro país europeu a chamar os bois pelos nomes considerando «anexação» aos colonatos israelitas na Cisjordânia. Se a isso somarmos a intenção do governo de Macron em considerar a forte probabilidade de se instalar o apartheid nas cidades israelitas onde judeus e árabes têm vivido num ambiente de iminente guerra civil, convenhamos que, mesmo com Biden a nada alterar do que foi a política de Trump para o conflito em causa, a posição sionista tende a fragilizar-se.

A concluir fico-me com o editorial de Ana Sá Lopes no «Público» de hoje quando quer atribuir ao verdadeiro vencedor da Convenção das direitas uma qualquer explicação esotérica: “Não deve haver na história da política portuguesa um cidadão com mais sorte do que António Costa. (...) Costa deve ter nascido sob uma conjugação astral diferente da do comum dos mortais.”

Para a jornalista em causa seria fácil dar a devida importância àquilo que ela reconhece nas entrelinhas do seu texto: que a moção de estratégia de António Costa ao Congresso tem uma Visão para o país, que as direitas nem com lentes duplas conseguem divisar. A sua credibilidade advém de saber para onde irmos para que, enquanto sociedade fiquemos mais prósperos, resilientes às mudanças e com menos desigualdades. E isso é algo que mais ninguém consegue sugerir para quem vota. Por isso não admira o grande sinal que as sondagens reiteradamente preveem.