quinta-feira, 26 de setembro de 2013

IDEIAS: os limites da Democracia na Antiga Atenas

Nos últimos dias as grandes manifestações, que decorrem na Grécia contra os crimes dos nazis da Aurora Dourada, adotam amiúde o argumento de não se poderem tolerar comportamentos fascistas na pátria onde nasceu a Democracia.
Passados quase dois milénios e meio o modelo ateniense continua a constituir um maravilhoso exemplo de como se alcançar a igualdade entre os cidadãos.
Sendo uma atividade nobre, a política deveria ser aí vista como a expressão da entrega do individuo á causa da comunidade. Não surpreendia que, então, os serviços públicos fossem custeados pelos mais ricos, que existisse uma espécie de rendimento mínimo garantido (o misthoi) para os mais desvalidos e que as funções públicas não fossem remuneradas: os estrategas não recebiam qualquer pagamento da Cidade e deviam prestar contas muito precisas no final do seu mandato.
Apreciar-se-á a dupla preocupação em manter a solidariedade económica e suprimir a venalidade dos cargos.
Mas como toda a moeda apresenta duas faces, convém lembrar que esse necessário desinteresse dos candidatos pelos proveitos das funções executivas mais relevantes, pressupunha ser-se detentor de uma fortuna suficiente para suportar um ano de empobrecimento suscitado pelo exercício de tais responsabilidades.
Daí que seja inútil abordar a fortuna de um Péricles, que durante vinte anos foi eleito para os cargos mais importantes da Cidade, no que demonstra bem os limites dessa pretensa igualdade entre os cidadãos. Todos os cidadãos eram iguais, mas alguns eram, de facto, mais iguais do que outros.
Quanto aos princípios dessa mesma igualdade exercida pelos cidadãos na Agora, também se verificava um claro desajustamento entre a quantidade e a qualidade dos votos aí expressos.
Seriam os cidadãos ouvidos equitativamente pelos senadores? Seria fácil tomar a palavra numa Assembleia? Argumentos justos, mas expostos inabilmente, conseguiriam prevalecer apenas pela evidência da sua justiça?
A chegada dos Sofistas, que eram professores de Retórica, iria contribuir para a denúncia dessa desigualdade entre os cidadãos?
De acordo com a lei cada um podia tomar a palavra, mas só os oradores profissionais conseguiam ser ouvidos. Mas quem eram eles? Quem eram esses jovens atenienses bastante prolixos em palavras e com uma assinalável capacidade de persuasão para conquistarem novos aderentes à sua causa?
Eles eram os representantes de uma juventude opulenta capaz de alugar os seus serviços aos professores mais ilustres e eficazes?
Numa obra que consagra aos grandes Sofistas da Antiguidade, Jacqueline de Romilly afirma que esses professores de retórica eram verdadeiras celebridades na Atenas de então.
Os Sofistas não davam grande importância ao conteúdo dos seus discursos. A sua atenção privilegiava a forma  de os tornar mais convincentes. Protágoras não ensinava os alunos a discernirem o justo do injusto, mas antes a tornarem mais sedutor o seu enunciado.
A arte oratória não se compromete, pois, com a verdade e a sabedoria, limitando-se à condição de uma técnica, de um saber, que nada tem a ver com sabedoria em si...


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

POLÍTICA: Os limites do multiculturalismo

Foi hoje lançado pela editora Grasset um livro, que começou a suscitar polémica ainda antes de chegar às livrarias: «Nos Mal-Aimés - Ces musulmans dont la France ne veut pas», assinado por Claude Askolovitch.
Segundo o autor é a história desses muçulmanos franceses, de que não se gosta com as melhores das intenções e obrigados a fundirem-se ou a esconderem-se, a mentirem sobre si próprios ou a morrerem socialmente.
Serão eles os párias da República? Será que a sociedade francesa tornou-se islamofóbica? São essas as questões colocadas por um jornalista de origem judaica, mas ateu, que foi despedido do «Le Point» por ter defendido a carne halal e por isso decidido a escrever um livro para compreender o que está a acontecer no seu país, aonde a senhora le pen já é tida como “normal” e onde os socialistas votam pelo despedimento das auxiliares de educação, que se apresentem veladas ao serviço.
É a história de uma empregada bancária, que reza às escondidas numa arrecadação, a de uma estudante disposta a tirar o véu para conseguir um estágio, a de um salafista condutor de autocarro e apreciador de visitas à Disneylândia ou a de um médico que vinga a mãe universitária, que nunca pôde trabalhar por a República não tolerar o seu véu. E a de um ecologista, que teria podido ser ministro na Tunísia islâmica, a de um rapper casado desde os 15 anos, a de um futebolista casto por amor a Alá, e a de um pregador dos Irmãos Muçulmanos, que cita Camus e escreve poemas.
São franceses que comem tornedós halal e compreendem perfeitamente as razões do Hamas na Palestina.
Trata-se, pois, da história de um país que maltrata uma parte da sua população, que mente sobre os seus valores republicanos, e esquece o que é: mestiço e muçulmano, instável e complexo, mas também rico, e sem razões para se julgar em declínio.
Este lançamento coincide, igualmente, com um texto bastante interessante de Leonel Moura no «Negócios» de 20/9 em que constata as contradições da esquerda europeia nos últimos anos: A mesma esquerda liberal que sempre se bateu pela liberdade em geral, pela libertação das mulheres e pela laicização da sociedade, defende agora, em nome de uma tolerância abstrata, a submissão das mulheres, e acrescente-se também dos homens, a um poder religioso fundamentalista como todos o são.
E o cronista lembra a iniquidade de tratamento das mulheres, que sendo muçulmanas podem trajar como pretendam, em todo o espaço europeu, enquanto as ocidentais, que tentem visitar países islâmicos, são impedidas de manter as suas opções de vestuário, obrigando-se a envergar as peças aceitáveis para as autoridades religiosas locais.
É o sociólogo Abdennour Bidar quem refere a situação histórica muito peculiar de todo o mundo islâmico em plena crise espiritual devido à dissonância dos seus valores e dogmas com as evidências da modernidade. Que essa crise se reflita em múltiplas reações, desde um islão tolerante e decidido a modernizar-se até ao terrorismo salafista, é um processo ainda moroso e de consequências imprevisíveis.
Para resolver as aparentes incoerências do seu discurso, a esquerda deveria exigir resolutamente a predominância do laicismo e da reserva dos valores e costumes religiosos - sejam eles de que credo forem! - para a esfera privada de cada um e dos templos, que pretenda frequentar. Porque, como conclui Leonel Moura não tenhamos ilusões. Não há nenhuma religião que, tendo oportunidade, não queira submeter tudo e todos à sua crença e aos seus dogmas. Os católicos não são diferentes. Basta dar-lhes poder.
Ao pugnar por um multiculturalismo demasiado abrangente. onde as maiorias se devam curvar aos interesses de minorias defensoras de formas de repressão feminina como as progressivamente abandonadas na Europa ao longo do século XX, Askolovitch não contribuirá para uma estratégia mais racional da esquerda de que se proclama parte integrante.


POLÍTICA: as pressões para que o PS se renda à austeridade!

Num artigo pertinente publicado no “i”, o deputado socialista Pedro Nuno Santos aborda a confessada intenção de cavaco silva em voltar a pressionar o Partido Socialista logo após as eleições autárquicas de forma a fazê-lo dobrar às imposições da troika e das suas marionetas locais.
O sonho do antigo acionista do BPN, infelizmente ainda a residir no palácio de Belém, seria o de ver o PS português a fazer a triste figura do PASOK grego na concertação com a direita para a continuação do esbulho aos bolsos dos portugueses.
Ora, Pedro Nuno Santos avisa: Em nome do país e da democracia, o PS tem se ser claro e inequívoco na recusa de qualquer consenso artificial e na afirmação de uma verdadeira alternativa.
E é bom que vá anunciando essa vontade da maioria dos socialistas em não pactuar com quem só tem destruído a economia nacional e empobrecido intencionalmente a maioria da população portuguesa. Porque não duvidemos do facto de subsistir no PS muita gente timorata, que se sentirá extremamente incomodada com a possibilidade de ser acusada pelas agências de rating, pelos draghis, pelos barrosos e pelas merckels da sua responsabilidade quanto à inevitabilidade de um novo resgate.
Ora, se qualquer estratega sabe que a melhor defesa é sempre o ataque, será avisado que se comecem a preparar muitas ferramentas de agitação e propaganda para denunciar quem, com o seu repetido falhanço em todas as metas a que se propôs, será verdadeiramente o responsável por esse lamentável desiderato.


POLÍTICA: 5,5%? In your dreams buddy!

A execução orçamental referente a agosto mereceu discursos entusiásticos dos apoiantes do governo, como se ela comprovasse o sucesso iminente da receita de austeridade pura e dura aplicada à economia portuguesa. Uma vez mais os arautos desta política quiseram-nos enfiar Lisboa pelos olhos adentro, cientes do que uma leitura mais atenta desses números pudesse fazer concluir.
Em primeiro lugar não explicaram que a relativa aproximação aos valores orçamentais previstos tiveram a ver com o colossal aumento de impostos, que vítor gaspar deixou como legado da sua governação.
Depois, se a receita fiscal subiu 6,3% em relação ao período homólogo, ficou ainda assim aquém dos 6,9% pré-definidos como objetivo orçamental. E está em queda acentuada depois do pico de 9% conseguido em junho e com tendência para refrear ainda mais. Razão porque o objetivo de 5,5% já flexibilizado para o corrente ano esteja seriamente em risco.
Mas onde ele ainda mais se mostra comprometido e desmente todos os discursos de recuperação proclamados pelo irrevogável portas é no IVA, que reflete sem margem para dúvidas a evolução do consumo interno e os seus efeitos na economia: depois de uma quebra de 0,6% no primeiro trimestre e de 1,1% no 2º trimestre, tivemos agora um trambolhão de 5,8% nos meses de julho e agosto.
Como conclui o blogue «Câmara Corporativa» com a produção industrial e as novas encomendas à indústria de novo em terreno negativo, o terceiro trimestre de 2013 pode muito bem representar o regresso da retração em cadeia da atividade económica. Que é previsão avisada de analistas desapaixonados dos números agora conhecidos do INE.


FILME: «Jack Reacher» de Christopher McQuarrie

Não foi filme, que colocasse na lista de prioridades até pelo facto de antipatizar militantemente com as cientologices de Cruise. Depois, o próprio cinema de ação deixou de ser, há muito, a minha onda, sobretudo quando os Van Dammes, os Seagals ou os Norris fizeram dele plataforma de motivação para ideologias muito pouco recomendáveis.
Mas, por outro lado, a motivar o investimento de duas horas para ver o filme havia a convicção de, a exemplo de quase todos os demais protagonizados por Cruise, adivinhar irrepreensível a sua concretização técnica, e as prometidas presenças no elenco de gente muito estimável: Richard Jenkins, Robert Duvall e Werner Herzog.
Ainda assim, e porque cautelas e caldos de galinha nunca são demais, foi forçoso atentar onde estariam presentes os pressupostos das conceções criadas por Ron Hubbard destinadas a estimularem novos crentes.
A história em si é linear, como é próprio deste tipo de cinema: um mauzão, ruim como as cobras, é acusado de assassinar aleatoriamente cinco pessoas, que estariam no local errado à hora errada. E as provas contra ele apresentadas pelo Procurador são esmagadoramente incriminatórias. De tal forma, que só parece faltar a marcação do respetivo passeio até à incontornável execução.
Vale-lhe uma advogada apostada em garantir-lhe um julgamento justo e esse misterioso Jack Reader, vindo de nenhures e para lá voltando depois de mostrar o outro lado da realidade: uma conspiração destinada a encobrir um homicídio encomendado e tendo por objetivo a conquista de posição dominante no mercado local da construção civil.
É claro que existem as habituais, e incredíveis perseguições automobilísticas, a corrupção de gente aparentemente acima de qualquer suspeita e umas quantas vítimas colaterais acrescentadas ao argumento para prolongar a história até às duas horas imprescindíveis ao projetado consumo das pipocas e da coca-cola durante duas horas de atenção ao ecrã.
O entretenimento é eficaz … mas convenhamos que tão efémero como o prazer momentâneo propiciado por qualquer pastilha elástica que se preze.



FILME: «Jack Reacher» de Christopher McQuarrie (trailer)

BANDA SONORA: Kraftwerk, "Trans Europe Express"



Em 1977 os Kraftwerk lançam o seu sexto album: «Trans Europe Express».
Vivia-se, então, em plena época punk, pelo que a capa do album com quatro sujeitos engravatados de acordo com os padrões de moda dos anos 50, correspondia, logo por si, a uma provocação.
O grupo alemão associava a música moderna a intenções expressas por movimentos artísticos do início do século: o dadaísmo, o construtivismo.
E a sua aura de vanguardismo ia-se consolidando...

terça-feira, 24 de setembro de 2013

LITERATURA: Russell Banks e a consciência da esquerda norte-americana

Nascido em 1940, no Massachusetts, Russell Banks vive no Vermont e é um dos escritores mais politicamente motivados da sua geração. Muito ativo politicamente esteve envolvido em ações de propaganda contra a intervenção no Iraque e para a eleição de Obama, além de liderar uma associação de apoio a escritores perseguidos nos seus países pelas suas opiniões e obras.
A sua obra romanesca decorre necessariamente dessas preocupações, sempre ao lado dos perdedores, dos que pouco têm de seu, sem nunca se sujeitar aos modelos de sociologia mais redutores.
Até aos 24 anos, Banks foi canalizador como o tinham sido o pai e o avô, mas já o tentava a via artística, influenciado pelos livros, que lera. Nomeadamente o «On the Road» de Kerouac e outros textos de autores da Beat Generation. Dessas leituras descobria-se impressionado pela determinação de tais escritores em serem artistas sem cuidar de que ambientes ou formações académicas tinham emergido. Alguns vinham da classe operária, outros de famílias burguesas. Uns tinham ido à universidade, enquanto outros não tinham sonhado sequer lá chegar.
Daí que tenha sido natural para Banks colocar-se a mesma questão: “se eles chegaram lá, porque não poderei eu também imitá-los?”.
No entanto, se essa geração beat tem influências no escritor, ele também se deixou sugestionar por uma certa tradição novecentista, que tinha por expoentes, Mark Twain ou Melville.
Todos esses inspiradores tinham em comum o facto de, muito jovens, saírem das casas familiares e irem ao encontro do mundo nas mais variadas paragens do continente americano ou mesmo fora dele.
Não admira que, num dos seus romances - «Rule of the Bone» (1995), ele descreva o percurso de um Huckleberry Finn do nosso tempo, que sai de casa aos 14 anos para se escapar aos abusos sexuais do padrasto e vá viver com um amigo jamaicano, que ganha a vida como traficante de droga.
Se o romance de Twain constituía uma história iniciática em ambiente de esclavagismo, a abordagem de Banks situa-nos numa época em que a droga e a prostituição interligam-se com o desemprego e com a tremenda desigualdade social entre quem é rico e pode comprar o que quer (até uma rapariguinha para os seus devaneios pedófilos!) e os que só podem viver o dia-a-dia em busca da mais elementar sobrevivência.
Ao apostar na sua carreira literária, Banks concluíra, pois que não necessitaria de ir para  Harvard ou tornar-se advogado para ser escritor. Bastaria ser inteligente e arguto observador da realidade, que o rodeava..
Ainda assim o sucesso virá tardiamente, já que Banks publicará vários romances e contos relativamente ignorados até que um filme de Atom Egoyan suscita maior atenção para a sua obra. «The Sweet Hereafter» (1991) transfere para uma pequena cidade do norte da América uma situação real verificada no Texas, quando quase todas as crianças de uma pequena cidade morrem afogadas num lago, ao despistar-se o autocarro escolar em que seguiam.

Tão só sabedor do sucedido, Mitchell Stevens, um advogado pouco escrupuloso, instala-se ali para oferecer serviços aos pais enlutados no processo a colocar contra quem possa ter tido responsabilidades na tragédia.
Se inicialmente encontra inibições suficientes para o impedir de levar por diante essa causa, quando lhes é acenada a possibilidade de conseguirem, por essa via, uma catarse eficaz contra o sofrimento, os aderentes crescem em número.
Também saberemos depois os verdadeiros motivos de Mitchell: ele sofrera a perda de um filho e a recém declarada SIDA na filha viciada em drogas.
Nessa altura o desafio que se coloca a esse protagonista é o de levar as escassas testemunhas a dizerem em tribunal o que mais convirá para o sucesso do seu caso.
Mas, mais do que a tragédia em si, todas as consequências dela decorrentes, transformam irreversivelmente uma pequena comunidade, até então quase tida por paradisíaca, por quem ali vivia.
A história da América com o seu fanatismo radical é o tema de outro dos romances mais conhecidos de Banks, servindo-lhe de tela de fundo para o desempenho dos seus personagens. «Cloudsplitter» (1998) é a história do abolicionista John Brown, que levara a sua militância até à eliminação de esclavagistas, homicídios pelos quais foi condenado à forca em 1859 no Estado da Virgínia.
No romance o seu périplo revolucionário é recordado pelo filho a partir de um eremitério aonde ele se dedica à redenção religiosa dos pecados paternos. Mas nessa contradição entre a via violenta ou a pacifista para a transformação da sociedade, a simpatia vai naturalmente para o personagem já conhecido de um dos mais belos temas militantes de pete Seeger.
Mas é em «The Darling» que melhor ficam representadas as desilusões e os impasses do ativismo revolucionário, que inflamou os EUA nos anos setenta. Hannah, uma antiga militante, envolve-se com as reviravoltas políticas na Libéria, aonde funda uma família  com um dos ministros de William Tolbert.

Nos anos seguintes, enquanto Samuel Doe, Charles Taylor e Prince Johnson se vão sucedendo como líderes efémeros de um país em guerra civil permanente, ela interessa-se pela preservação do habitat dos chimpanzés e não desconfia, que os atos políticos com que se vai comprometendo, para salvaguardar a vida do marido ou dos filhos, têm por trás, e sem que o suspeite, o dedo da CIA de que é instrumento involuntário.
Para Banks a História serve para explicar melhor a realidade. E a ficção serve para constatar as contradições da América, incluindo as mais recentes. Por exemplo ter ido ao Iraque para implantar a democracia, mas sem esquecer quanto petróleo existe no seu subsolo, o que equivale a uma colisão trágica entre valores e realidades. E tem de reconhecer que, embora com outra subtileza, a política americana continua na mesma depois da eleição de Barack Obama. Nomeadamente com a presença em dois palcos de guerra e o controle da economia pelas mesmas pessoas, que estiveram na origem da crise de 2008.
É claro que Banks não ignora a mudança simbólica representada pela cor da pele do presidente - o que em si constitui um facto de enorme importância! - mas as políticas em si permanecem as mesmas.
Poderemos, por isso, aguardar por outros romances onde continue a denunciar uma América muito diferente do idealismo com que erroneamente foi conotada durante demasiado tempo.


POLÍTICA: e nós a continuarmos a pagar as culpas alheias!

No excelente texto de Paulo Pena publicado na mais recente edição da revista «Visão», intitulado «Bancocracia», é dado justo ênfase a Nuno Teles, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, que explica com uma grande clareza a razão de ser da crise financeira portuguesa.
Na sequência da especulação bancária internacional suscitada por mecanismos virtuais (CDS’s, swaps,  CDO’s,) que viria a redundar na falência da Lehman Brothers o setor financeiro nacional teve a oportunidade de se endividar no exterior, de forma quase ilimitada, a preços muito baixos. Contudo, aliado à tradicional falta de competitividade da nossa indústria, a banca optou por colocar todo este capital disponível em setores onde o seu lucro estava garantido, nomeadamente a construção e imobiliário. A banca financiava o construtor e, em seguida, financiava o comprador, ficando com o imóvel como garantia.
Quem não se lembra das gigantescas campanhas publicitárias com que os bancos aliciavam a população a comprar casa, tivesse ou não condições sustentáveis para dar tal passo? Ou, noutra alternativa igualmente perniciosa, quantos anúncios de facilidade de crédito ao consumo (para viagens, eletrodomésticos ou automóveis) não estiveram na origem de inúmeras tragédias pessoais, hoje traduzidas em situações de desespero transferidas para as colunas de fait divers dos correiosdamanhã?
Chegou-se assim ao tal endividamento, que os bancos foram os grandes responsáveis por gerarem. Por isso importa refutar vigorosamente a ideia da culpa dos portugueses despesistas, sempre que ela é enunciada para impor as medidas de austeridade.
Esta crise tem culpados com rosto: os banqueiros! Sobretudo os do BPN e os do BPP, mas também os demais não podem ser ilibados das suas efetivas culpas! E nós é que lhes estamos a pagar as contas fraudulentas!


POLÍTICA: Acabaram-se as andanças de Maqroll

Pois não fomos aos mercados! E a gorda ganhou, mas o Draghi tirou dúvidas a quem esperasse folgas depois das eleições alemãs! E o crato envergonhou-se com o retrato dele pintado por Sócrates e voltou a pôr o inglês obrigatório! E o jesus foi às fuças do bófia e arranjou alibi para não dar presentes de Natal aos adeptos da Luz! E a boca guedes fez de conta que saiu do sarcófago e há quem espere, que derreta debaixo do intenso calor dos holofotes! E há quem evite as ruas de Lisboa com medo dos abraços do reboredo! E nasceram menos quatro mil bebés no primeiro semestre, pois quem arrisca um filho com papões destes a assombra-los? E a Irmandade ficou desirmanada no Egito! E andámos palpitantes com a ação terrorista em Nairobi, como se lá tivéssemos os primos doidos, que gostam de safaris!
Falou-se ainda da morte do Ramos Rosa, mas poucos notaram o desaparecimento de um dos grandes escritores do nosso tempo: Álvaro Mutis! Nunca mais vogaremos pelos mares do mundo com o Maqroll el Gaviero! Todos os marinheiros que perderam as graças do mar estão de luto por um dos seus irmãos mais respeitados!


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

POLÍTICA: A vitória de Pirro de Angela Merckel

Leio no Die Zeit a confirmação do que já se anda a dizer nas redes sociais: Merckel não chega à maioria absoluta e, quer o SPD, quer os Verdes, estão pouco entusiasmados com uma possível coligação com ela.
Resultado: as trombetas da CDU transformam-se numa autêntica vitória de Pirro. Porque, mesmo formando-se um governo de coligação, o parceiro com quem Merckel trabalhará revelar-se-á menos colaborante do que os liberais agora condenados à travessia no deserto.
Quer isto dizer que se Schauble desaparecer do horizonte e não for substituído pelo ainda mais tenebroso jiadista financeiro, que está á frente do Bundesbank, a Europa do Sul poderá começar a respirar melhor!


POLÍTICA: um terramoto político-social

Na sua crónica de hoje, na RTP, José Sócrates foi bastante contundente com os diversos rombos de credibilidade por onde o navio-fantasma de passos coelho vai metendo água.
Ele é machete com a sua amnésia a respeito dos laços à SLN e ao BPN.
Ele é maria luís albuquerque incapaz de se dissociar da condição de mentirosa compulsiva e da indignidade de expulsar colegas do governo, que se tinham comprometido com swaps em menor grau do que ela e se viram transformados em bodes expiatórios de uma estratégia condenada a fracassar.
E há crato! Sobre quem Sócrates não disse tudo quanto se justificaria, já que se quedou pelos efeitos devastadores da sua ação de destruição da escola pública -  e quão dificilmente serão recuperáveis! - omitindo o verdadeiro ato de peculato inerente à nomeação da mulher do ministro para o Conselho Consultivo da Fundação para a Ciência e Tecnologia, que ele mesmo tutela.
Como é costume neste governo, logo crato se quis refugiar na mentira fácil: que tinham sido os subordinados a nomeara mulher à sua revelia, e que essas funções não serão remuneradas.
Ora, quem escolheu a mulher de crato para a FCT foram precisamente os medíocres por ele escolhidos para substituir gente de qualidade e currículo inatacável, que até então asseguravam as funções daquele Conselho. Ademais, as funções não remuneradas são compensadas com as generosas senhas de presença, que crato voluntariamente omitiu.
Mas, no excelente trabalho do Miguel Abrantes para o blogue «Câmara Corporativa», cuja leitura se revela indispensável para compreender a verdadeira natureza do jiadista neoliberal, que tomou conta da destruição do ensino público, denuncia-se uma manobra ainda mais sinistra: através da atribuição das bolsas de investigação nas ciências sociais, ele e os seus cúmplices pretenderão facilitar a publicação de vigarices académicas condizentes com a sua visão fanatizada da realidade portuguesa. Eliminando todos os trabalhos, que tendam a demonstrar a sua falsidade científica.  
Existe uma urgência inadiável em correr com esta gente dos centros de decisão política a que conseguiram chegar. Porque o atoleiro em que deixam o país arrisca-se a transformá-lo em zona de catástrofe!


domingo, 22 de setembro de 2013

BANDA SONORA:"Under The Neon Sky" de MarieMarie


MarieMarie é uma jovem autora e compositora de Munique. Com o seu penteado singular e tom de pele, ela parece uma extraterrestre. A exemplo da sua música, que ela designa por foltronic pop. As suas melodias lembram as dos anos 80, misturando harpa e flauta.
Música de formação, ela escreve os seus próprios textos e compõe a música para eles à harpa. Muito esforçada teve de se armar de paciência até que as grandes marcas de discos reparassem em si.


ARTE: Hendrik Beikirch

O artista de rua Hendrik Beikirch pinta rostos, que contam histórias. São imagens a preto e branco e maiores do que os respetivos modelos. Rostos que falam da vida.
Nos seus retratos Hendrik imortaliza encontros fugazes: um velho que esperava o autocarro na Sibéria, um pescador coreano no porto de Busan, uma rapariga em Manhattan.
A partir de breves esboços, cria imagens, que chegam a ter 70 metros de altura, recorrendo a aerossóis, a tinta acrílica ou a tinta da China.
O seu projeto mais recente está a desenvolver-se na ponte de Ludendorff em Remagen. No âmbito da exposição «Gewaltige Bilder» (imagens monumentais) representou duas testemunhas de tempos idos: um antigo soldado americano e um antigo soldado alemão, que se enfrentaram nesse cenário histórico durante a Segunda Guerra Mundial. Em 8 x 8 metros esses dois rostos enfrentam-se, com o rosto virado para além do Reno.
Para o artista a História reflete-se melhor nos rostos dos que a viveram. Os olhos, os rostos, constituem, de facto, a chave para tudo, e é o que tento representar.


POLÍTICA: A nossa perda de privacidade

Não é exatamente o que se esperaria do grande apelo à transparência. Desde que Edward Snowden revelou a amplitude da espionagem de dados praticada pelos serviços secretos americanos e britânicos, tem feito caminho uma ideia terrível: deveríamos dizer adeus à nossa esfera privada. O Big Brother está a ler-nos, escuta-nos e conhece-nos provavelmente melhor do que nós próprios.
Nos anos 80 os cidadãos da Alemanha Ocidental manifestavam-se aos milhões contra um projeto de recenseamento da população. Hoje, a opinião pública europeia mantém uma indiferença absoluta perante esta ameaça à sua privacidade. Não se conhecem protestos dignos desse nome.
O que será preciso para que a cólera desça à rua? Não seremos afinal responsáveis pelo desaparecimento da nossa esfera privada?


ASTRONOMIA: uma marmita cheia de sopa a ferver!

Desde há 4,6 mil milhões de anos que o Sol nasce todas as manhãs, sempre fiel ao encontro para banhar a Terra com a sua luz. Mas é preciso aproximarmo-nos da sua superfície para compreendermos como ele é um astro continuamente tumultuoso e violento. As suas piores cóleras podem causar efeitos nefastos à superfície do nosso planeta.
Compreender o Sol significa alcançar o entendimento das forças que regem o Universo. Se conseguirmos perceber como controlar as suas forças estaremos em condições de explorar a energia das estrelas.
Tudo começou há cerca de 13 mil milhões de anos. Num instante o universo nasceu. Desde então não cessa de se expandir, composto por centenas de milhares de galáxias entre as quais se conta a nossa. Por seu lado esta comporta centenas de milhares de estrelas. No entanto se nos fixarmos num dos braços de uma das suas múltiplas espirais encontramos uma estrela quase banal, de tamanho médio e pouco brilhante.
Banal, e no entanto…
Nos planetas que dela ficam mais próximos (Mercúrio e Vénus) o calor é intenso.
À medida que aumentam as distâncias os raios enfraquecem até já não conseguirem contrariar o frio, que predomina no espaço sideral.
Mas, a meio caminho, situa-se o planeta ideal, nem demasiado quente, nem demasiado frio. Um planeta com a temperatura perfeita para que a vida floresça. Uma vida que só se torna possível por essa presença do Sol. É ele que permite o funcionamento da generalidade dos ecossistemas e a sobrevivência das plantas e animais neles inseridos.
Sem o Sol o nosso planeta seria um vasto deserto despojado de todas as formas de vida.
Conscientes da importância deste astro os homens sempre o veneraram. E sempre tentaram decifrar-lhe os segredos.
Mais do que templos, monumentos como o de Stonehenge são calendários e observatórios. Ferramentas destinadas ao estudo do Sol. E alguns deles ainda estão perfeitamente funcionais.
Nas Orcades, ilhas britânicas a norte da Escócia, sempre foi bem conhecida a importância do Sol. No verão os dias são longos, a luz intensa, mas em Dezembro tudo muda. Apesar do frio intenso dessa estação, prosperou aí uma civilização há cinco mil anos atrás, no Neolítico. Uma sociedade ainda com muitos vestígios na ilha. Ruínas, que ainda significam mistério, porque pouco se sabe do povo que aí viveu, mas deixou provas bastantes quanto à importância do Sol nas suas vidas. Erigida mais de um milhar de anos antes das pirâmides do Egito, Maes Howe é um dos melhores exemplos de arquitetura desse período da história da humanidade.
Ao entrar nele temos de nos baixar até nos encontrarmos num corredor estreito, que parece interminável. O solo parece elevar-se ligeiramente.
Entra-se depois numa segunda passagem, que dá acesso a uma sala inacreditável. O espaço mais amplo e de pé direito mais elevado que os orcadianos do Neolítico poderiam ter edificado.
Quando foi descoberto no século XIX e o seu pavimento foi escavado, o solo de argila estava repleto de caveiras humanas: tratava-se de uma câmara mortuária.
Durante quase todo o ano, a câmara está mergulhada na obscuridade total, mas no dia mais curto do ano, no solstício de inverno, ao pôr-do-sol ocorre um fenómeno surpreendente: infiltrando-se pelo interior do monumento o sol vem iluminar o interior daquela câmara.
A partir desse dia os dias começam a crescer. Portanto despertavam-se os mortos no dia mais curto do ano.
Demonstra-se assim que havia um conhecimento profundo do movimento de sol nos céus: é uma primeira etapa na compreensão do papel do sol e da sua influência sobre o planeta.
Viajando até aos confins do universo para melhor compreender o Sol, etse não deixa de nos reservar algumas surpresas.
Para os nossos antepassados a sua força residia na sua fiabilidade, na sua imutabilidade. Mas a realidade mostrar-se-ia muito diferente.
Muitas vezes o Sol é considerado como algo de estático. Quando afinal ele está em permanente mutação.
Os observadores modernos filtram a luz do Sol para conseguirem uma imagem nítida do que se passa à sua superfície. O verdadeiro retrato do Sol é o de uma superfície em contínua ebulição. Diferente de instante a instante, ela borbulha intensamente como se fosse uma enorme marmita de sopa.
Cada uma das bolhas aí detetáveis tem um diâmetro de mais de 1600 quilómetros. E o calor que trazem no interior da estrela faz subir a temperatura até aos 5000ºC, suficientes para derreter as rochas.
O Sol ocupa um volume enorme podendo engolir mil planetas como a Terra. Imensas explosões ocorrem a todo o instante com uma libertação de energia equivalente a milhares de bombas atómicas. Daí o interesse em perscrutar o interior do Sol, o sítio onde essa energia é gerada.