quinta-feira, 10 de outubro de 2013

TEATRO: Patrice Chéreau e a teatralidade crítica (2)

Em 1969 Patrice Chéreau demitiu-se de Sartrouville em contracorrente com o que então se pensava: um teatro verdadeiramente político não poderia vir dos artistas, sempre portadores de um “discurso indireto ou ambíguo”. Será esse o tema de «Preço da Revolta no Mercado Negro (1969) e, a seguir, de «Esplendor e Morte de Joaquin Murieta» (1970) de Pablo Neruda, que constituiu o primeiro espetáculo teatral no seu exílio italiano, que tinha inaugurado com uma encenação lírica: «A Italiana em Argel» de Rossini. Ainda que criado a partir de uma encomenda, esta derivação para a ópera não constituiu propriamente um acaso: melómano, Chéreau já aplicara frequentemente aos textos, a utilização dramática da música, no que era já uma aproximação à ópera. Ademais ele apreciava a hiperteatralidade do género.
Antes de colaborar com o Piccolo Teatro de Milão, convidado por Paolo Grassi, volta a França para encenar «Ricardo II de Shakespeare (1970), desempenhando o papel de protagonista numa peça, que divide a crítica. Nela apresenta-se como uma criança real, maquilhada de branco, palhaço trágico destroçado pelos desejos e pelo cinismo frio de Bolingbroke.
Menos contestado em Milão, encenará aí outro Neruda, «La Fausse Suivante» de Marivaux e «Lulu»  de Wedekind, dois textos cujos temas são a sedução e as suas consequências. Seguiu-se-lhes Toller» de Tankred Dorst (1972), peça histórica e política sobre o fracasso da República dos Conselhos da Baviera em 1919.
Foi então, que Planchon lhe propôs a codireção do novo T.N.P em Villeurbanne. Chéreau irá aproveitar aí o que aprendera com a sua equipa em Itália no sentido de criar uma arte de maior impacto visual. O contributo de Richard Peduzzi, com quem trabalhava desde 1969, assinando desde então a cenografia de todos os seus espetáculos, será considerável. Em «O Massacre em Paris» de Marlowe (1972), a reencenação de «Toller», (1973) ou «A Disputa»  (1973) de Marivaux, os cenários combinam a ocupação do espaço e o vazio, a monumentalidade dos edifícios decrépitos e a presença da natureza ou da matéria: na primeira dessas peças, os atores estão quatro horas dentro de água, e na última as “crianças selvagens” chafurdam na lama.
Esta tendência contraditória entre a violência natural e a sublimação (ou perversão?) pela arte é o eixo da obra de Chéreau, influenciada pelo romantismo alemão, que encontrará toda a sua expressão na encenação do «Anel dos Nibelungos» de Wagner para o centenário de Bayreuth em 1976. Nesse momento alto da sua carreira, feito a meias com Pierre Boulez, triunfa apesar de umas primeiras reações de contestação. Doravante Chéreau será tido como um dos mais importantes artistas do seu tempo.
O seu fascínio pela imagem, que também o leva então para o cinema («La Chair de l’Orchidée» em 1974 e «Judith Therpauve» em 1978) não constitui qualquer rutura com o que fundamenta o seu teatro: a precisão da história, o rigor dramatúrgico, a prioridade conferida aos corpos e à interpretação.
Quer em «O Massacre de Paris» (que é sobre a Noite de São Bartolomeu), quer em «Toller» (onde se defrontam o esquerdismo romântico e o comunismo realista), trata-se de compreender como a  história se alimenta das paixões dos seres para os destruir. E a dramaturgia do «Anel» procura abordar nos planos histórico e político do recurso de Wagner aos mitos: o palco só exalta a magia teatral do século XIX para a destruir no final com o incêndio final do Walhalla.
Mas, a ferocidade brechtiana dá lugar ao pessimismo, mesmo se o desespero nunca se mostre cínico, porque a revolta dos corpos apanhados na armadilha conduz os espetáculos à vitalidade obscura da sua incandescência.
A morte surge por todo o lado: sangrenta, furiosa, excessiva no «Lear» de Edward Bond (1975); insidiosa e surda em «Longe de Hagondange» de Jean Paul Wenzel (1977).
Após o esplêndido regresso à ópera, em «Lulu» (1979), dirigida por Boulez, e que é a mais erótica das suas encenações, Chéreau monta «Peer Gynt» (1981) enquanto prossegue o seu trabalho no «Anel»: a peça partilha com a Tetralogia a linguagem do conto e uma relação ambivalente com o absoluto romântico.
É também uma obra ambiciosa: oito horas de espetáculo com o humor e a poesia á solta num palco á italiana. Uma encenação, ora luxuriante, ora barroca, evolui para o cenário despido para o final, quando Peer Gynt tem de enfrentar a morte. Como que numa despedida de Chéreau de cenários carregados de informação para se vir aconcentrar preferencialmente no ator e no texto.




DOCUMENTÁRIO: o making of do «Anel» por Chéreau e Boulez

POLÍTICA: paulo portas, o chico esperto que se revelou um aldrabilhas!

Um dos comentadores mais interessantes, que analisa os fenómenos políticos em Portugal, é Augusto Santos Silva, que surge todas as terças-feiras à noite nos ecrãs da TVI24.
Com uma racionalidade, que não exclui o olhar sibilino sobre o que vai acontecendo, ele dedicou-se esta semana a lamentar que rui machete ainda se não tenha demitido e a enquadrar-nos nas três campanhas em curso para nos convencer da bondade das políticas que o governo pretende implementar.
Sobre o ministro dos negócios estrangeiros ele constatou que Portugal não se livra dos Conselheiros Acácios. Mais uma vez tratou-se de uma exibição de pompa a que corresponde zero de ideias e de conteúdo. É a exibição de um formalismo completamente bacoco.
O ministro rui machete tem um problema insanável: ou mentiu aos angolanos, falando verdade aos portugueses (não tendo de facto contactado a Procuradora Geral da República, nem ter qualquer conhecimento dos processos!); ou falou verdade aos angolanos (quando disse tratarem-se apenas de algumas formalidades burocráticas!) e mentiu aos portugueses. Ora, um ministro dos Negócios Estrangeiros não pode mentir a um país com quem Portugal tenha relações tão importantes como Angola, e muito menos aos portugueses. Portanto, rui machete está numa situação verdadeiramente insustentável. Por uma questão de dignidade pessoal, o ministro já se deveria ter demitido das suas funções.
Mais taxativo, Augusto Santos Silva confessou sentir vergonha ao ver o país representado por alguém sem o mínimo de condições políticas para exercer o alto cargo que lhe foi atribuído dadas as sucessivas “incorreções factuais” em que tem incorrido e que mais não são do que tentativas para fazer passar os portugueses por imbecis dispostos a acreditarem nas suas versões dos acontecimentos.
O ministro não percebeu que, ao pedir desculpas a Angola, ninguém respeita quem ao respeito não se dá e se ajoelha assim.
Ao ter problemas com ministros, que foi buscar ao aparelho partidário, como aconteceu com miguel relvas, com os de perfil mais técnico como maria luís albuquerque, que não se livra da história dos swaps, com os que foi buscar aos meios académicos como o par poiares maduro e pedro lomba, que só conseguiram aguentar os briefings diários durante duas semanas, e com os que angariou junto dos senadores da República, como sucede com rui machete, passos coelho dá razão a vítor gaspar, quando este, na sua carta de despedida, aludia a um problema de liderança. É passos coelho quem deve ser responsabilizado pelas suas más escolhas.
Neste momento o governo tem os dois ministros de Estado - maria luís albuquerque e rui machete - sob o fogo que eles próprios atearam, e tem problemas com o vice-primeiro ministro paulo portas, que tentou fazer de chico-esperto com a sua conferência de dia 3, ilustrativa de um “novo” estilo de comunicação, afiançando aos portugueses para sossegarem porque não viria aí mais austeridade. Esqueceu-se apenas de referir com o corte a operar nas pensões de sobrevivência, que será um pequeno ganho do Estado á custa de impor ilegítimo sofrimento em milhares de pessoas, que estão na situação mais vulnerável de todas: velhice e viuvez. O que põe problemas morais muito complexos.
Na quinta-feira paulo portas enganou os portugueses, querendo fazer de chico esperto e mostrando-se realmente um aldrabilhas. Um ataque aos pensionistas protagonizado por aqueles, que, como paulo portas e o seu discípulo mota soares, se arrogavam do título de defensores dos pensionistas.
Depois desta abordagem, Augusto Santos Silva decidiu esclarecer as três campanhas agora lançadas por passos & Cº para se preservarem o mais possível no poder.
A campanha começa, em primeiro lugar por querer convencer as pessoas de que, agora, fazem-se cortes na despesa do Estado e não se aumentam impostos. Ora, do ponto de vista económico e do que toca diretamente às famílias, as medidas anunciadas não deixam de ser impostos. O corte nas pensões é, como o reconheceu, e bem, cavaco silva, um imposto extraordinário sobre um grupo específico. Esta TSU dos viúvos e das viúvas será um imposto extraordinário sobre uma categoria de rendimentos. Há novos impostos a serem lançados sobre energia, que são taxas. Portanto, estamos muito longe daquela ideia que o setor CDS do governo quis fazer passar de que se tratava apenas de despesa, cortar nas gorduras do Estado, e não de impostos. De castigar o Estado sem sacrificar a economia nem as pessoas. Ora, pelo contrário está-se a sacrificar as pessoas, porque está-se a retirar à economia as condições para que possa crescer.
Segundo elemento da campanha em que se inscrevem as declarações deste Conselheiro Acácio, é a de considerar não existir alternativa possível e que, se estas medidas não passarem no Tribunal Constitucional será este o autor moral do segundo resgate. Esta campanha é tão despudorada, que o próprio presidente da comissão europeia, durão barroso, participou nela vindo ao Algarve, para dizer que, se Portugal não cumprir, está o caldo entornado e que todas as instituições portuguesas terão nisso responsabilidade, numa pressão que nunca víramos num responsável europeu fazer sobre instituições de um Estado-membro.
É preciso desmistificar a campanha segundo a qual, se o Tribunal Constitucional vier a declarar a inconstitucionalidade de uma ou mais destas medidas agora conhecidas será ele o responsável pelo fracasso da política do governo. Primeiro que tudo terá de ser cavaco silva a defender a inconstitucionalidade se, como tudo o indica, lhes pedir a fiscalização preventiva da constitucionalidade.
Depois, o Tribunal Constitucional não tem de se pronunciar se está ou não de acordo com essas propostas: limita-se a verificar se elas cumprem ou não o que diz a Constituição.
E o terceiro elemento desta campanha é que este governo está, quer na Segurança Social, quer na Educação, a atacar as bases morais do contrato social português. A linha lógica que leva o governo a fazer cortes retroativos nas pensões dos atuais aposentados da função pública ou aos cortes das pensões de sobrevivência aos viúvos e viúvas, é minar a relação de confiança destas pessoas no contrato, que tinham acordado com o Estado.
Este ataque é devastador para a Segurança Social pública. E o mesmo se está a passar nas escolas com alunos que, ao fim de um mês de início das aulas, ainda não têm professor. Como não acontecia desde 2004.
Inquietas, as famílias mais remediadas não deixarão de se sentirem tentadas a aceitarem o cheque com que nuno crato lhes acena o pagamento parcial de propinas no ensino privado. Remetendo a escola pública para aqueles que não se conseguem transferir para outras escolas.
Está, pois, em curso uma perigosa campanha, que coloca em causa o contrato social.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

TEATRO: Patrice Chéreau e a teatralidade crítica (1)

Na segunda-feira Patrice Cheréau morreu em Paris, vítima de um cancro do pulmão, que já tornava previsível este desiderato.
Porque se tratava de um dos mais estimulantes encenadores e realizadores de cinema do nosso tempo, valerá a pena evocar a sua obra no quanto ela nos soube estimular desde os anos 60, tornando-o «compagnon de route» da nossa inesgotável curiosidade intelectual.
Artista precoce, Patrice Chéreau impôs-se rapidamente devido á originalidade dos seus pontos de vista críticos, ao poder do seu universo plástico (que se interligará, desde muito cedo, com o do cenógrafo Richard Peduzzi) e pela radicalidade da sua direção de atores. O lirismo da sua escrita cénica exalta a presença carnal, concreta dos corpos.
Desde 1963, quer no teatro, quer na ópera, desenvolve uma visão tão pessoal quanto o seria a de um escritor, de um pintor ou de um ensaísta, através de um reportório eclético e coerente.
Quando se afasta dos palcos para se dedicar mais plenamente á sua obra cinematográfica é para aí revelar a mesma força e singularidade igualmente reconhecidas.
Nascido em Lézigné, filho de um pintor e de uma desenhadora, adquire, desde muito jovem, uma vasta cultura artística e teatral.
Aos 19 anos encena «A Intervenção» de Vítor Hugo no Liceu Louis-le-Grand, transformando-o num melodrama popular quase expressionista, para o qual concebe também os cenários, já então exprimindo o gosto pela teatralidade e o fascínio lúcido pelas relações de poder e de sedução, aqui sob a perspetiva da luta de classes.
Em 1965, «Fuentovejuna» de Lope de Veja confirma o interesse por um material político: Chéreau aborda o fracasso de uma revolta camponesa num estilo épico influenciado por Brecht, Strehler e sobretudo Planchon - com objetos realistas, luminotecnia intensa e afirmação das cenas de grupos.
No ano seguinte, em «O Caso da Rua Lourcine» de Labiche, reescreve o epílogo para o tornar mais pessimista e acentua o discurso anti-burguesia através da expressão poética na intensidade grotesca (na maquilhagem e nos gestos dos atores), que se impõe como um estilo e um sentido.
Propõem-lhe então a direção do Teatro de Sartrouville nos arrabaldes parisienses. Em 1967 cria aí «Os Soldados»: numa sala de castelo em ruínas, com arquiteturas clássicas em “trompe l’oeil”, mostra um mundo aristocrático decadente. Oficiais obcecados pela luxúria, exercem um sadismo crescente sobre Marion, uma jovem burguesa à procura da emancipação.
Mostrando a derrota da sua revolta amorosa, Chéreau inaugura uma longa série de retratos de personagens traumatizados na infância pela ineficiência do seu individualismo ou idealismo: Don Juan, Ricardo II, Toller, as crianças de «A Disputa», Lulu, Peer Gynt ou Hamlet - todas elas personagens de recusa romântica ou hedonista do mundo real. Da nostalgia da inocência Chéreau nunca abstrai a sua componente de narcisismo ou de fuga.
Em Sartrouville, convida Mnouchkine, Vitez e empenha-se num significativo trabalho de animação. E logo o Maio de 1968 leva-o a, conjuntamente com os seus pares, a equacionar a ação cultural  em função do “teatro popular”.
A autocrítica radical será expressa ironicamente no «Preço da Revolta no mercado negro» (1968) de Dimitri Dimitriadis e, mais gravemente, no Don Juan» (1969) de Molière: para Chéreau a libertinagem do grande senhor comporta ao mesmo tempo uma subversão autêntica e uma trágica impotência política. O principal elemento da cenografia, a “máquina de triturar libertino” movida pelo povo, mostra o fracasso dessa aventura individual - fracasso análogo ao do artista ou do intelectual “militante”.




IDEIAS: À beira do Apocalipse?

Numa entrevista dada a Jon Stewart, o biólogo inglês Richard Dawkins referiu duas das hipóteses hoje postas à discussão nos meios científicos tendo por leitmotiv a possibilidade de uma civilização como a terrestre acabar a curto prazo por iniciativa própria.
Um apocalipse, que não terá a ver, à partida, com qualquer razão bíblica, até porque Dawkins é um dos principais «maîtres à penser» dos ateus empedernidos em que me incluo, mas poderá derivar paradoxalmente de razões religiosas: até há relativamente pouco tempo, quem possuía bombas com capacidade de destruir o planeta, denotava um sentido de responsabilidade bastante para as utilizar exclusivamente como arma de dissuasão.
O exemplo mais conhecido dessa capacidade de contenção foi o episódio da Baía dos Porcos, quando John Kennedy e Nikita Khrushchev puseram o mundo à beira de um ataque de nervos e resistiram a carregar no mítico botão gerador de cogumelos tão bonitos quanto de efeitos definitivos.
Mas os anos mais próximos abrem a possibilidade de tal tipo de armamento cair nas mãos de quem não terá qualquer escrúpulo em utilizá-lo, já que acredita piamente na certeza de, ao morrer, encontrar milhares de virgens à sua espera no paraíso islâmico. Daí que um dos mais importantes responsáveis da Royal Society considere serem apenas 50% as possibilidades de a espécie humana chegar viva ao final do século XXI.
A outra tese à espera de demonstração considera que existe uma explicação para o fracasso da missão atribuída à instituição criada por Carl Sagan para ouvir todas as ondas de rádio provenientes do cosmos. Até agora, seja para que direção apontem as suas antenas, nenhuma ainda se deixou captar. Ora, põe-se a possibilidade de existir uma lei universal segundo a qual, ao atingir o patamar tecnológico de se autodestruir, todas as civilizações acabam por o fazer, contando-se apenas com uma janela de oportunidade de alguns séculos para a identificar e conhecer.
Segundo essa regra, a Terra estaria a curto prazo de a demonstrar!



POLÍTICA: quando os indignados despertarem...

À conta da crise por que passamos o (des)governo reduz drasticamente as despesas com a educação e com a saúde e quer ir ao bolso de pensionistas, reformados e funcionários públicos. Mesmo os que trabalham no setor empresarial do Estado têm prometidos cortes nos subsídios de refeição, reduzindo-os a valores mais que irrisórios. Mas, hoje, ficámos a saber que esse mesmo (des)governo arranja dinheiro para que uma das suas mais fiéis “intelectuais” - a escrevinhadora Maria João Lopo de Carvalho conhecida como emérita santanete! - ande Europa fora a dar ações de (de)formação aos professores de português.
Que importa a descida abrupta de 4º para 12º no ranking dos países com transplantes  por milhão de habitantes, naquela que é uma demonstração do vergonhoso abandono das boas práticas instituídas pelo Governo de José Sócrates, se os boys e girls dos partidos da coligação garantem as suas obscenas benesses?
O despudor desta gente não tem limites, como se vê com tudo quanto passos coelho faz para manter a marilú e o machete, apesar de toda a Oposição e alguns setores da direita exigem a sua demissão?
Não admira que Mário Soares tenha escrito ontem no «Diário de Notícias» que “é caso para perguntar: que Governo é este que atrai tantos delinquentes e que Pacheco Pereira, que é membro do PSD, teve a coragem de afirmar que "está cheio de má-fé"
Apesar das inacreditáveis declarações de cavaco silva sobre o masoquismo dos que insistem em enunciar a realidade, ela é o que é: o investimento a cair 8,5% em 2013, a dívida pública a ultrapassar os 150% do PIB e a consumir em breve 4,4% do PIB em juros. “São mais de sete mil milhões de euros por ano, o equivalente à transferência anual que o Estado faz para o Serviço Nacional de Saúde.” escreve Elizabete Miranda no «Negócios» .
As “novidades” quotidianas sobre o que irá suceder no Orçamento para 2014 ainda só merecem indignada., mas passiva rejeição. Mas, parafraseando um célebre título de 1973, a respeito do iminente despertar da China, quando os indignados acordarem do seu torpor, todo o país tremerá!


FILME: «Para Roma, Com Amor» de Woody Allen



A crítica não foi meiga para este filme de Woody Allen, como o não costuma ser com qualquer projeto que se adivinhe mercenário. E «Para Roma, Com Amor» é-o indubitavelmente. Enquadra-se no tipo de filmes que o realizador passou a assinar depois de problemas com os produtores, que o tinham acompanhado na sua fase mais grata da sua filmografia, e o haviam espoliado de muito dinheiro e de financiadores para novos projetos. Em risco de ver-se definitivamente marginalizado da indústria, ele aceitou o que lhe apareceu mais à mão e assim surgiu «Match Point» como montra publicitária de Londres a coberto de uma história mais ou menos consistente. E logo os seus sucedâneos sobre Barcelona e Paris.
Em Roma foi perfeitamente natural, que Woody Allen se deixasse influenciar pela grande tradição do cinema italiano dos anos 60, quando os estúdios da Cinecittà estavam em plena efervescência com comédias repletas de malícia e com filmes em episódios, sem esquecer os grandes títulos de Fellini, Visconti ou De Sica.
Por isso alterna quatro histórias em que se abordam grandes estereótipos da cultura italiana: a ópera (mesmo se apenas cantada no chuveiro), a timidez que esconde vulcões de sensualidade, o conservadorismo bafiento das classes abastadas, a volubilidade dos sentimentos amorosos, a efemeridade da fama suscitada pelas televisões berlusconianas e o contraste entre os costumes citadinos e os das pequenas cidades de província. Tudo embrulhado num pacote, que contempla muitas imagens dos principais monumentos romanos, sem cair na tentação de os captar numa lógica de bilhete postal.
Não será um dos grandes filmes do autor, mas vale decerto bem mais do que a maioria dos títulos estreados nos nossos cinemas com o objetivo de aumentar os volumes de vendas das pipocas e da coca-cola.
E encontramos uma multidão de caras conhecidas desde Alec Baldwin a Judy Davis, de Roberto Benigni a Ellen Page, sem esquecer os cameos de Ornella Muti ou do recentemente falecido Giuliano Gemma.
No balanço: mais um entretenimento inteligente do realizador de «Manhattan».


POLÍTICA: para que não se continue a confundir género humano com manuel germano!

As crónicas de Miguel Sousa Tavares no «Expresso» causam-me alguns sintomas preocupantes de bipolaridade porque, ora me sinto totalmente identificado com elas e pronto a assinar por baixo (ocorreu e continua a suceder sempre que defende a governação de José Sócrates como extremamente positiva para o país e como foi torpemente atacada por detratores, que já provaram à saciedade ao que vinham!) ora as rejeito liminarmente como sectárias e destituídas de qualquer fundamento.
Na mais recente, publicada na última edição do «Expresso», ele ainda está na ressaca das autárquicas e aborda a questão do tipo de políticos de que estamos servidos: “o desprezo a que votamos todos os políticos por igual, a demagogia de lhes pagar quase ao nível do motorista e tudo lhes exigir, é a razão direta da crescente falta de qualidade e preparação da classe política.”
Temos, pois, Miguel Sousa Tavares a alinhar no mesmo discurso antipolíticos, que perpassa por quase todos os comentadores ouvidos pelas televisões - incluindo gente altamente suspeita como o anão da trofa (que continua a ser um lídimo representante desses maus políticos!), e outra com mais responsabilidades para atentar no que diz como é o caso de Pedro Adão e Silva ou António José Teixeira - mas com uma diferença: endossando às campanhas demagógicas quanto às supostas exageradas remunerações da classe política a explicação para dela se terem arredado os mais capacitados, os que poderiam contribuir para lhe dar uma solidez, que por ora só se vislumbra em alguns casos excecionais.
Os que andaram pelas redes sociais ou pelos correios eletrónicos a distribuir mensagens destinadas a exigirem a redução dos vencimentos dos políticos lembram os que, durante a 1ª República, se empenharam em conotar os afonsos costas e os bernardinos machados com a chamada «porca da política». Com o resultado, que se viu: salazar e todos os seus apaniguados instalaram-se no poder e consolidaram o regime fascista à pala desse tipo de discurso depreciativo para com os políticos. E, lamentavelmente, muitos desses entusiásticos denunciadores da equação políticos = corruptos até se declaram votantes no Partido Comunista ou no Bloco de Esquerda!
É claro que esta condenação da demagogia primária de tantos desconcertados observadores do fenómeno político, não significa qualquer complacência com os oliveiras e costas, os duarte limas, os isaltinos ou os dias loureiros, que grassam por aí. Pelo contrário, deve-se exigir à Justiça, que faça o seu trabalho, consiga coligir as provas e julgar devidamente esses maus exemplos.
Mas, ao exercício da política, deve-se exigir elevação, devoção ao exercício do dever de cidadania e a consciência social de se estar a agir para pessoas e não para folhas de excel ou para os ditames de interesses exógenos ou minoritários do universo eleitor.
No entanto, se se lhes paga ao nível do motorista, como afiança Miguel Sousa Tavares, poderemos ter líderes reconhecidamente empenhados e capazes de sacrificarem as suas vidas pessoais em sucessivas e contínuas voltas ao país - como sucede com o líder da Oposição - mas falta-lhes o tal grão de asa, que os deveria projetar para outra dimensão de convencimento quanto às alternativas de que possam ser portadores.
Ou então sucede como com os que estão atualmente no (des)governo que se sabem a receber momentaneamente menos, mas cientes de virem a ser devidamente recompensados por aqueles a quem estão a fazer o frete de executarem políticas, que lhes garantam mais dividendos e rendas ao fim do ano. Para os relvas, os passos coelhos ou os portas existirão sempre grandes empresários preocupados com os respetivos futuros e dispostos a instalá-los em conselhos de administração ou em fundações tipo pingo doce onde colherão os frutos do permanente ataque aos bolsos da maioria dos portugueses mais desabonados.
Muito há a fazer para exigir um outro tipo de classe política, mais competente e bem remunerada, de nada valendo colocar no mesmo plano todos os atuais dirigentes políticos como se, entre os de direita (com os objetivos nefastos que os norteiam) e os de esquerda (dispostos e maior ou menor grau defender uma maior redistribuição da riqueza nacional) possam ser postos todos no mesmo saco!
Ainda assim vai um abismo entre Seguro, Jerónimo, Catarina e Semedo, por um lado, e passos e portas pelo outro!


terça-feira, 8 de outubro de 2013

POLÍTICA: e se a coligação se limitar a implodir?

Quando o Dicionário Portas clarificou o conceito de “irrevogável” e de Belém se ouviram hossanas pela ressurreição do senhor (dos) passos ao quarto dia, a direita inchou o peito e convenceu-se de que agora é que era a sério. Havia a espinha marilu, que se tinha de engolir com as devidas cautelas, mas com o papa do Independente como vice-primeiro-ministro, o machete nos Negócios Estrangeiros, o moreira da silva na Energia & Ambiente, era canja! Tanto mais que, também se contava com o lomba a acolitar o maduro na criação de fórmulas bombásticas para enriquecer os discursos de todo o governo.
Durante umas semanas, quer no Largo do Caldas, quer na Rua de S. Caetano, fizeram-se juras de amor eterno pelo menos até 2015, e brindes antecipados à meia-derrota do PS nas autárquicas, que estariam a chegar.
É certo que o PCP estava a caminho de uma grande vitória, mas não têm sido eles os mais fiéis aliados, sempre que as hostes laranjas querem derrotar os socialistas? Não só na história do PEC IV, mas também em diversos momentos da luta autárquica quando, dos lados da Soeiro Pereira Gomes, sempre se decide mais facilmente por uma coligação formal ou informal com o PSD do que com o PS?
Meneses parecia imparável! Braga estava no papo! Em Matosinhos ganharia quem Seguro ajudara a escorraçar! E em muitos outros sítios, as divisões suscitadas pelos independentes iriam mascarar os resultados menos bons, que se viessem a contabilizar!
Haveria é certo a vitória de Costa em Lisboa, mas esse seria um mal menor, ou não contribuísse para pôr o Rato a ferro e fogo, dando maior espaço para passar a ideia de uma coligação responsável perante um PS em guerra civil.
Até à semana anterior às eleições tudo parecia correr de feição para essa estratégia, como se concluía pelas sondagens. Só que…
Nuno Crato começou logo a dar um ar da sua graça com o cheque-ensino (que ainda passou menos mal na distraída opinião pública), mas espalhou-se ao comprido com a questão das aulas de inglês no primeiro ciclo. Ainda houve a tentativa de emendar a mão, mas o mal estava feito.
Depois, passos começou a agitar o papão do segundo resgate e a dar razão àqueles que já para ele olhavam como a “má moeda” capaz de recorrer a essa “solução” por duas vezes seguidas. Porque, mesmo invocando à saciedade a tese da “pesada herança”, o primeiro-ministro já não consegue ser eficaz no sacudir da água do capote quanto a ter trazido a troika para Portugal, ao derrubar o Governo Sócrates, e de a voltar a convocar quando já não conseguir iludir nos indicadores económicos a sua impreparação, incapacidade e preconceito ideológico.
Veio o dia 29 e foi a hecatombe: ainda que muitos comentadores se voluntariassem para enfatizar a dimensão da abstenção e dos votos brancos e nulos, a vitória do PS foi impossível de disfarçar. E as já abalados pilares, que sustinham o periclitante jogo de equilíbrios entre PSD e CDS, e entre o seu poder executivo e o reivindicado pelas instâncias judiciais (com o Tribunal Constitucional no seu topo!), começaram a abrir brechas cada vez mais fundas.
É então que machete nos brinda com o seu inesperado amor à oligarquia angolana e as máscaras começam a cair com fragor sucessivo. Numa conferência portas julga que ainda consegue fazer prestidigitação com as palavras e soma o ridículo do discurso do penta à incontornável demonstração de falta de qualquer escrúpulo, quando se sabe do violento ataque aos pensionistas de sobrevivência.
E se estes episódios chegam para devastar as expectativas dos crédulos arautos da direita quanto à solidez da coligação, só podem tremer de medo com os próximos episódios a que a história dos swaps os sujeitará.
Bem podem contar com as pressões de durão barroso e da troika contra os juízes do Palácio Ratton!
Quando todos esperam que os obstáculos maiores provenham de mais declarações de inconstitucionalidade, não surpreenderia, que o fim desta tragicomédia provenha de uma implosão interna! É que, quando demasiado apodrecido, um poder estilhaça-se à conta dos que dentro dele esbracejam à cata de salvar a própria pele, quando o tsunami político se revela incontornável!


FILME: «Os Quatrocentos Golpes» de François Truffaut



Contra todas as expetativas esta primeira longa-metragem de François Truffaut foi selecionada para o Festival de Cannes em 1959, ganhando o Prémio de Realização. Mas, aos 26 anos, Truffaut, crítico e temido polemista, não era propriamente um desconhecido. Daí ter-se visto violentamente atacado nas páginas dos «Cahiers du Cinéma» e do semanário «Arts» por todos quantos representavam o suposto «Cinema Francês de Qualidade», nomeadamente por Claude Autant-Lara e Jean Delannoy,
«Os Quatrocentos Golpes» foi concebido como uma antítese de «Chiens perdus sans collier», que Delannoy rodara em 1955, tendo por tema a delinquência juvenil. Para uma espécie de ensaio constituiu um notável golpe de mestre: com a apresentação em Cannes, o filme conheceu um enorme sucesso, quer em França, quer internacionalmente. Seduzido pela verosimilhança das personagens, o público aderiu ao filme numa dimensão, que Truffaut só voltaria a conhecer vinte anos depois com «O Último Metro».
Antoine Doinel é um miúdo de treze anos, que é apanhado em plena aula a ver uma fotografia de uma pin-up, que estava a circular pela turma. Punido, regressa ao exíguo apartamento onde mora, para se sujeitar aos maus tratos da mãe, mesmo se o padrasto se esforça por o fazer rir.
No dia seguinte, Antoine falta à escola com o seu amigo René, e, deambulando pelas ruas de Paris, descobre a mãe agarrada a outro homem. Quando regressa à escola justifica a falta com o pretexto da morte da mãe.
Convocados à escola, Antoine vê-se esbofeteado pelo sr. Doinel. O que o decide a sair de casa e encontrar refúgio numa tipografia.
Acordado pelos operários, vagueia por Paris, rouba uma garrafa de leite e regressa à escola.
Inquieta a mãe vem busca-lo. Antoine lê Balzac e copia um trecho de «A Busca do Absoluto» para a sua redação de francês, que lhe valerá a pior nota da turma e a ameaça de voltar ao gabinete do diretor.
Volta a fugir com René e, para arranjarem dinheiro, decidem roubar uma máquina de escrever do escritório do sr. Doinel. Mas, não a conseguindo vender, Antoine pretende devolvê-la, mas é surpreendido pelo guarda.
Conduzido ao posto da polícia pelo padrasto, Antoine é transferido para uma casa de correção. A mãe vai visitá-lo, mas avisa-o de que o faz pela última vez. O que leva Antoine a fugir e a correr para a beira-mar.
«Os Quatrocentos Golpes» começa por ser um filme sobre a adolescência, que suscitou amplos debates sobre o seu carácter autobiográfico. Truffaut baseara-se nas suas reminiscências infantis para descrever as dificuldades de comportamento do seu jovem protagonista, rejeitado, ora por um professor particularmente odioso, quer pelos pais, que ele atrapalha. Mas o filme decorre na Paris do final dos anos 50 e não propriamente durante a Segunda Guerra Mundial, quando o adolescente Truffaut vivera sob a Ocupação alemã.
O sucesso do filme muito deve ao encontro do realizador com o seu jovem alter ego: Jean-Pierre Léaud.
Truffaut soube captar o discurso e o comportamento dos rapazes nessa idade difícil entre a infância e a adolescência. A Paris popular da praça de Clichy é mostrada com realismo e minúcia, mas potenciada pelo Cinemascope e pela banda sonora de Jean Constantin.
Truffaut também inscreve o filme numa certa tradição do cinema francês dos anos 50 ao escolher para os papéis de adultos alguns dos mais conhecidos atores de então: Albert Rémy e Claire Maurier, como pais, e Guy Decomble no papel de professor.
E se entra em rutura com o referido filme de Delannoy, não deixa de inserir referências significativas da História do Cinema, como é o caso de «Anjo Azul» (1930) de Sternberg para  a primeira sequência na sala de aulas, de «Zero em Comportamento» (1933) de Jean Vigo para a ilustração do pátio da escola ou «Los Olvidados» (1950) de Buñuel  para a casa de correção.
O sucesso do filme será tal, que Truffaut deu-lhe diversas sequelas em que veremos Antoine Doinel ir crescendo e envelhecendo: «L’Amour à Vingt Ans» (1962), «Beijos Roubados» (1968), «Domicílio Conjugal» (1970) e «O Amor em Fuga» (1979).


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

BANDA SONORA: Yo-Yo Ma e as suites para violoncelo de Bach



Porque hoje é dia de aniversário de Yo-Yo Ma aqui ficam mais de duas horas de interpretação de referência da superlativa música de Bach!!!

POLÍTICA: os idiotas úteis da direita no seu esplendor!

Uma semana passada sobre as eleições autárquicas não foram apenas os deputados do PSD e do CDS a desvalorizarem a sua óbvia leitura nacional. Nas televisões e nos jornais sucederam-se comentadores a quererem desviar as atenções do óbvio, enfatizando as câmaras ou os votos perdidos pelo PS ou o significativo aumento dos que escolheram inutilizar o boletim ou entrega-lo em branco. Como se, dessa forma, a vitória socialista perdesse o seu brilho.
Esses comentadores - mormente os do cada vez mais niilista «Eixo do Mal» - não referiram que o PSD e o CDS juntos perderam 644 mil votos desde as anteriores autárquicas e 1146 mil votos desde as últimas legislativas. Ou que o risível “penta” de paulo portas vale tanto quanto isto: em conjunto, os votantes desses quatro municípios ganhos pelo CDS só chegaria para eleger um vereador na Câmara de Lisboa.
É verdade que os socialistas ainda não constituem a alternativa credível, que os portugueses almejam, mas pesem embora as limitações do seu atual secretário-geral, o PS constitui a única possibilidade ao alcance dos eleitores para se verem livres de quem os está a agredir violentamente com um pacote de austeridade, que excede todos os limites da decência.
Por isso mesmo, seria desejável que muitos desses comentadores se livrassem da função de idiotas úteis desta direita cada vez mais detestada pelos portugueses...


DOCUMENTÁRIO: «Joseph Epstein, bon pour la legende» de Pascal Convert



Porque razão Joseph Epstein, fuzilado no monte Valérien em 11 de abril de 1944, ocupa um lugar discreto no teatro da História? Porque é que foi necessário esperar pelo 60º aniversário da sua morte para que tivesse uma praça parisiense batizada com o seu nome?
Porque era judeu? Polaco? Comunista? - decerto pelas três razões em simultâneo.
Durante três anos Pascal Convert partiu à procura desse resistente que dirigiu a FTP na região de Paris sob o pseudónimo de «coronel Gilles».
Dessa investigação publicou um livro e este documentário em forma de túmulo consagrado a este antigo combatente das Brigadas Internacionais, que transmitiu os princípios da guerrilha urbana à luta clandestina na França ocupada.
Escrito na segunda pessoa, o argumento é endereçado ao filho de Epstein, Georges, nascido em 1941 e registado com o apelido de Duffau e que esperou até aos 65 anos para ver o Conselho de Estado autorizá-lo a acrescentar ao seu nome o nome do seu pai apenas conhecido através dos seus feitos heroicos.
Como «escultor da memória», Pascal Convert desvenda os contornos de uma personalidade de exceção, através dos testemunhos de outros companheiros da Resistência. O documentário tornou-se num dos mais conseguidos sobre um período determinante da França do século XX.
***
Em 16 de novembro de 1943, Joseph Epstein marcara um encontro com Manouchian em Ivry. Possivelmente eles foram seguidos, ou foi descoberto o lugar em que se encontrariam. Ambos foram capturados com armas, mas não tiveram tempo para se defenderem, já que se viram inesperadamente cercados.
A instrução do processo foi conduzida com sadismo. Revestiram o rosto de Joseph com uma máscara de couro tão apertada que o seu rosto ficou transformado numa massa sangrenta. Durante três meses torturaram-no. Béranger que o visitou na prisão de Fresnes, mal o pôde reconhecer.
Mas Epstein manteve-se inabalável no seu silêncio. Os carcereiros nem sequer lhe conseguiram arrancar o verdadeiro nome.
Os serviços de espionagem da Resistência receberam uma mensagem em papel de cigarro em que ele pedia uma folha de serra para cortar as grades da prisão. Mas quando ela lhe chegou às mãos, entregue por uma corajosa mãe de dois filhos, já era demasiado tarde.
Mas os alemães não conseguiram obter dele as informações que teriam permitido montar um processo público, que servisse a propaganda nazi. Por isso Epstein não figura no célebre cartaz vermelho, que denunciava a Resistência como um exército criminoso composto por estrangeiros e apátridas.
O processo do Hotel Continental na presença de toda a imprensa hitleriana e de jornalistas vindos de todos os países ocupados tentava demonstrar que os três franceses inculpados eram atrasados mentais manipulados pelos judeus, tidos por grandes responsáveis dos sacrifícios dos franceses «honestos».


domingo, 6 de outubro de 2013

POLÍTICA: a necessidade de defender a Constituição!

De entre as questões abordadas por José Sócrates na sua intervenção dominical na RTP1 avulta a defesa da nossa Lei Fundamental, estranhando o silêncio de quem contraiu responsabilidades incontornáveis para o fazer: cavaco silva.
Não é difícil adivinhar o ataque insidioso a que a Constituição se sujeitará nos próximos meses, sobretudo se os juízes do Palácio Ratton continuarem a mostrar-se avessos às pressões e interpretarem, à luz do que ela pressupõe, a defesa de um conjunto de direitos e garantias reconhecidos a todos os cidadãos portugueses sem exceção.
No Algarve, em pleno Forum Empresarial, aonde se ouviu a ignóbil pressão de durão barroso sobre o Tribunal Constitucional, também se ouviu nogueira leite, um dos principais representantes da torpe elite que tem usufruído das benesses obscenas desta governação apostada em enriquecer os mais abonados e depauperar os bolsos de todos os demais, considerar imprescindível mudar a Constituição a bel prazer dos seus cúmplices.
José Sócrates adiantou uma possibilidade muito oportuna: por este andar teremos rui machete ou qualquer outro membro da equipa de passos coelho a pedir perdão aos credores ou aos seus representantes troikeiros por Portugal ter uma legislação soberana.
O que não seria de espantar: é quem avança com afirmações bombásticas quanto a estarmos a viver em regime de protetorado quem mais interiorizou essa aparência e se curva indignamente perante os seus interlocutores, que só representam o FMI, o BCE ou a Comissão Europeia, sem quererem ver aquilo a que até um insuspeito comentador como Fernando Madrinha enuncia no «Expresso» desta semana: Ao “resgatar” Portugal a troika resgatou também os investidores estrangeiros, que assim puderam libertar-se de perdas em caso de bancarrota. Talvez fosse essa a sua missão principal.
Deveras? Até alguns setores da direita já o reconhecem, mas os que se acolitam em torno de passos coelho - com os banqueiros do costume e os trânsfugas fiscais na primeira linha! - pressentem o fim do esplendor do seu sonho de terem conseguido derrubar o governo socialista e conjugarem um presidente, um governo e uma assembleia apostados na defesa dos seus interesses. No futuro imediato serão eles a esganiçarem as vozes até ao máximo da sua amplitude para defenderem o fim da Constituição de 1975, como se ela não tivesse sido várias vezes revista (nalguns aspetos até exageradamente!) desde então.
Fez bem José Sócrates em lançar um apelo à defesa do nosso Texto Fundamental, porque, depois de sermos espoliados de tantos símbolos importantes da nossa soberania através das privatizações, ele é o que nos resta para pôr cobro a esse vale tudo com que a direita tem pretendido impor um regime só formalmente democrático, mas de verdadeira ditadura de uma minoria privilegiada contra a maioria dos seus concidadãos.