quarta-feira, 7 de agosto de 2013

DOCUMENTÁRIO: «O negócio do comércio justo» de Donatien Lemaitre

Quantas vezes já fomos tentados pelo chamado «comércio justo» em detrimento do que resulta das trocas tradicionais entre centros comerciais ou hipermercados e clientes?
Na Europa há cada vez mais consumidores a pugnarem por um comércio ético, baseado nas etiquetas que deverão dar sentido aos produtores de bens e mercadorias integrados nessa rede internacional. Porque significarão, que os pequenos produtores africanos ou latino-americanos terão sido devidamente pagos para a criação dessa matéria-prima, sem se curvarem aos ditames dos importadores e cadeias de distribuição vinculados à economia globalizada.
Max Havelaar, Rainforest Alliance são marcas que estão a crescer graças à confiança dos seus consumidores. Mas qual é a realidade para lá das etiquetas? Foi esse o objetivo que levou Dominique Lemaître do México ao Quénia passando pela República Dominicana para demonstrar como essa ideia generosa do comércio justo está a ser recuperada pelos especialistas de marketing ou por multinacionais sem qualquer sintonia com o objetivo dos seus criadores.
Os primeiros a quererem apossar-se das marcas de comércio justo foram as grandes cadeias de distribuição: estarão os “consumidores”  preparados para pagar mais caro o seu café se os produtores  forem melhor remunerados? As grandes superfícies passaram a atribuir mais espaço aos produtos com as etiquetas do comércio justo. Mas, ao mesmo tempo, aumentaram a margem de lucro em tais produtos.
Assim, enquanto os produtores do comércio justo ganham pouco mais do que os demais concorrentes (e sem jamais saírem do patamar de pobreza em que se encontravam!), as grandes insígnias aumentam os seus lucros.
E, mesmo pelo lado dos produtores, o sistema também não se mostra irrepreensível: o realizador constata que nas plantações de bananas da República Dominicana os pequenos proprietários, que exportam de acordo com a etiqueta max Havelaar exploram o trabalho escravo de trabalhadores haitianos ilegais.
Conclui-se que o comércio justo tem as suas cooperativas, os seus programas de crescimento, mas também as suas componentes obscuras…
Outra surpresa: para corresponder à procura crescente de bananas com a etiqueta de comércio justo, a Max Havelaar também atribuiu a sua etiqueta a grandes produtores: na empresa Savid exportam-se 150 toneladas semanais de bananas graças a trabalhadores haitianos mal pagos e mal alojados, mesmo que legalizados. Assim, o consumidor europeu, que se julgava a contribuir para os pequenos plantadores do Terceiro Mundo, acaba por dar ainda mais dinheiro a ganhar às grandes explorações em regime de latifúndio.
É caso para nos questionarmos se não chegámos ``a fase da industrialização do comércio justo?
A concluir o documentário Donatien Lemaître interessa-se pelas multinacionais do setor agroalimentar. Desloca-se então ao Quénia para verificar o partenariado entre a Rainforest Alliance e a Lipton, do grupo Unilever, que garante lucros substanciais às duas partes, mas de forma alguma aos trabalhadores sazonais das plantações de chá.
O documentário mostra que, sendo uma bela ideia, o comércio justo está a dar lucro a quem já dominava anteriormente o comércio internacional.


FILME: «A Gaiola Dourada» de Ruben Alves


Confesso que comecei por ficar bastante cético a este filme de Ruben Alves, quando se estreou em França.
Muito embora passos coelho & Cª porfiem em voltar a regredir os portugueses à época em que passavam a fronteira com a mala de cartão, ainda tenho a esperança de se salvaguardar uma parte desse Portugal moderno, cosmopolita e pejado de gente culta e de elevada formação, tal qual o pretenderam os governos de José Sócrates. Por isso mesmo, quando soube tratar-se de uma comédia popular sobre uma família constituída por um pedreiro, uma porteira e os respetivos filhos, temi o pior. Tanto mais que eram apresentados como humildes, servis e trabalhadores, o que parecia dar razão aos estereótipos justificativos de um racismo tipicamente francês para com esses emigrantes da ponta ocidental do continente.
Mas as primeiras opiniões ouvidas sobre o filme - de quem está em França há quase quarenta anos e conhece bem as múltiplas realidades da emigração - questionaram-me o preconceito inicial. Até porque reconheciam algum agrado na forma como os portugueses eram aí tratados.
Nada melhor do que tirar as dúvidas no dia subsequente à estreia em ecrãs nacionais.
A primeira parte pareceu dar razão às minhas dúvidas iniciais. Nas interpretações de Rita Blanco, Joaquim de Almeida ou Maria Vieira passava a ideia de gente inculta e subserviente para com esses patrões, que os tomavam por lorpas.
Passa o intervalo e vem a segunda parte com esse jogo de enganos em que o casal tenta iludir a iminência do regresso à terra natal, sem imaginarem o quanto já todos à sua volta estavam cientes dessa forte probabilidade.
Como nas comédias mais conseguidas é pelo equívoco, que o espectador se diverte, ao colocarem-no na situação confortável de saber aquilo, que escapa aos personagens da tela.
Mas fica sempre a questão: se em vez do lusodescendente Ruben Alves fosse um francês genuíno a assinar a realização, veríamos o filme com a mesma benevolência? Ou não reconheceríamos nele esse vício xenófobo, que suspeitei nele encontrar?


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

POLÍTICA: os berlusconis caseiros

Quem terá dúvidas sobre o facto de passos coelho constituir a marioneta do bando criminoso, que criou, enriqueceu e tratou de passar para os contribuintes a fatura do roubo praticado no BPN?
Se a nomeação de Franquelim Alves já demonstrara a intenção de chamar ao executivo quem desempenhara funções nesse banco laranja, a de Rui Machete só veio empolar a dimensão dessa regra. Sem esquecer que, também em Belém, já figurava um dos beneficiários desse esbulho posteriormente imposto a todos os cidadãos para remendar o buraco entretanto transferido para as finanças públicas.
E que ligação existirá entre esse grupo composto por eminentes cavaquistas e quem andou a vender PPP’s e swaps  a torto e a direito para, depois, se posicionar em funções de secretários de estado com tutela sobre os setores para que haviam vendido produtos tóxicos?
Se pais jorge serve agora de alvo preferencial da atenção dos comentadores pró-PSD, que não foram mandados para férias (ao contrário do sucedido com os ligados ao PS!), todos parecem esquecer o papel de sérgio monteiro como vendedor pelos bancos das vilipendiadas PPP’s, que servem de arma de arremesso contra os incautos compradores em vez de se atribuírem as responsabilidades pelas inerentes perdas aos vigaristas, que as conceberam e propuseram.
A ministra das Finanças lançou a estratégia de defesa dessa gente: disparar primeiro, iludir as perguntas depois! E, mesmo quando todos estão convencidos da sua falta de razão, deita fora qualquer vestígio de ética, que ainda lhe restasse, decidida a prosseguir na tarefa pelos credores para prosseguir a missão de depauperar ainda mais as classes menos abonadas como forma de preservar a riqueza dos que lucraram com tais negócios!
Perante o escândalo de tais fraudes faz falta uma magistratura como a italiana, que não hesite em levar até às últimas consequências a identificação e inculpação dos berlusconis caseiros. Que, à nossa escala, roubaram tanto quanto aquele e com a esperteza de o terem conseguido com muito maior discrição ...


MÚSICA: o jazz enquanto arte da improvisação


A primeira vez que me libertei do preconceito contra o jazz, ainda não fizera vinte anos e era oficial de máquinas no petroleiro «Inago».
Um dos oficiais da ponte era o Leitão, que fascinava quase todos com um comportamento completamente a contrario dos usos e costumes de então, mesmo considerando-se quão eles estavam revoltos pela Revolução de Abril ainda tão fresca.
Por ele aprendi que a música não se limitava aos Pink Floyd ou aos Who, justificando-se atenção demorada em Beethoven ou em Miles Davis.  Ou que a política não se deveria limitar aos preceitos do Livro Vermelho de Mao, porque existia uma urgência em salvaguardar um planeta constantemente a ser agredido. A Ecologia era uma novidade, que nele encontrava expressão, o que constituía um paradoxo tendo em conta o rasto de poluição, que íamos deixando para a ré do navio, quando lavávamos os tanques aonde se tinham transportado hidrocarbonetos por refinar.
Começava aí um amadurecimento, que me levou a pôr em causa os valores e os gostos até então semelhantes a qualquer outro miúdo acabado de sair da adolescência.
A influência do Leitão perduraria desde então apesar de ter conhecido um final trágico nesse final da década de 70, quando comandava um pequeno navio de cabotagem em viagens entre São Tomé e a Ilha do Principe. Um dia, quando passeava na capital do arquipélago, foi surpreendido entre dois fogos numa malograda tentativa de golpe de Estado. Seria uma das poucas vítimas mortais desse episódio menor dos tempos pós-independências e exemplificaria para sempre o conceito de se estar no sítio errado à hora errada.
Nunca mais deixei de ouvir jazz desde então e conheci momento particularmente grato quando, uma noite em Nova Iorque, fui a uma das caves de uma das ruas com vista para a ponte para New Jersey e vivi uma madrugada memorável a beber gin e a assistir às improvisações dos cinco instrumentistas, que ali atuavam naquela noite.
Nessa altura já me convertera em marinheiro que perdera as graças do mar e, por isso, não via já hipóteses de algum dia aportar a Nova Orleães, esse berço fundador desse estilo musical, que melhor representa a América.
Wynton Marsalis define muito apropriadamente o jazz como uma forma de arte improvisada resultante do consenso de estilos pessoais de um grupo de instrumentistas reunidos para dar azo à sua capacidade para improvisar. Os músicos dialogam entre si com os seus instrumentos e explicitam, quase sem disso se aperceberem as contradições do próprio continente: entre o ter e o não ter, entre a felicidade e a tristeza, o campo e a cidade, o negro e o branco, o homem e a mulher. Entre a velha África e a velha Europa.
Uma música em permanente transformação, embora quase sempre mantenha as raízes no blues. Tocada por quem nela assegura o sustento mas, ao mesmo tempo, é capaz de arriscar ao máximo todas as noites.
Como dizia Art Blakey o jazz lava a poeira da vida do dia-a-dia. E mexe connosco por constituir uma celebração da vida.  Ou Albert Murray: Ver um músico de jazz a tocar é como ver um pioneiro, um explorador, um cientista. Porque o jazz é a materialização do processo criativo. 
O jazz desenvolveu-se em muitos sítios mas, enquanto estilo musical, nasceu em Nova Orleães que, no início do século XIX, era a cidade mais cosmopolita e musical dos EUA. Mas também um centro de tráfico de escravos ainda tolerado num país que acabara de proclamar legalmente a igualdade entre todos os homens.
E foram precisamente os descendentes dos seres que haviam sido tratados como mercadoria quem acabariam por criar essa expressão artística. Tomando por base a improvisação tão necessária ao escravo para sobreviver num ambiente adverso aonde chegava sem conhecer a língua, nem a comida, nem sequer os hábitos instituídos. Sem essa capacidade para improvisar o recém-chegado ao continente americano estava condenado.
Não admira, pois, que o jazz tenha interiorizado a estratégia dessa mesma improvisação!



LIVRO: «Les Immémoriaux» de Victor Segalen (1)

Victor Segalen é dos escritores franceses mais esquecidos na geração que assistiu ao prometedor início do século XX. Em Portugal a Assírio & Alvim e a Cotovia publicaram-lhe três títulos mas, excetuando algumas críticas benevolentes nos jornais do costume, quase ninguém deu por eles.
E, no entanto, Segalen foi uma personalidade de exceção, assumindo-se como um dos pioneiros da moderna antropologia e levando a literatura de viagens para lá do seu habitual registo das curiosidades capazes de espantar o entediado leitor ocidental.
«Les Immémoriaux» irá servir-nos de argumento para abordar o percurso, que o levou de Brest - aonde nasceu em 14 de janeiro de 1878 - até à Polinésia francesa aonde chega vinte e cinco anos depois.
De permeio é importante referenciar alguns aspetos biográficos, que ajudam a caracterizar o seu percurso posterior. Em primeiro lugar os estudos clássicos nos jesuítas, que lhe causarão tal aversão, que tornar-se-á um crítico acerbo da influência religiosa na escolaridade juvenil. Seguir-se-á a formação em Medicina, estudando sucessivamente em Rennes e Bordeús aonde se licencia em 1902 com a tese “Les Cliniciens és Lettres» dedicada á documentação médica rastreada em diversos escritores naturalistas. Terá sido no decurso da sua investigação, que se fez amigo de diversos escritores (Huysmans, Rémy de Gourmont) conotados com a tertúlia da editora Mercure de France.
Convertido em médico da Marinha gaulesa é nomeado para o seu primeiro posto oficial no navio «La Durance», que escala os portos polinésios.
Gauguin morrera três meses antes de aí chegar e depressa o jovem Victor conclui que a civilização maori está mortalmente ameaçada pela influência europeia e pela indiferença da respetiva população. E, no entanto, ao apreciar os quadros, os desenhos e os escritos do célebre pintor em Hiva-oa, é-lhe fácil de concluir o quanto esse povo local usufruíra uma vida feliz e marcada pela sua requintada sensualidade.
Ele nunca refreará a enorme admiração pelo artista, que melhor expressara essa realidade em iminente extinção: logo em 1904 publica o artigo «Gauguin no seu último cenário» e, muito mais tarde, em 1918, assina uma «Homenagem a Gauguin».
Da sua experiência no Taiti, que conclui em 1905, traz material suficiente para escrever «Les Immémoriaux», que publica dois anos depois.
É que, tão só chegado a Papeete, Segalen escrevera uma carta aos pais em que refletia sobre o que estaria subjacente á conceção do seu primeiro livro: É certo que a natureza permaneceu intacta, mas a civilização foi extremamente nefasta para esta bela raça maori!
E o título desse primeiro romance é para ele muito fácil de explicar: desmemoriados, porque encontrara uma população esquecida das tradições, dos saberes, dos e de todas as forças que tinham significado o  próprio passado.
Aparentemente tem uma história com princípio, meio e fim, mas o tema primordial é o da história do declínio de uma cultura por causa dos missionários e dos políticos colonizadores. E, de passagem, ainda tem a oportunidade de um  ajuste de contas com essa rigorosa educação moral e religiosa, que lhe fora imposta pelos jesuítas nos seus verdes anos.


domingo, 4 de agosto de 2013

LIVRO: «Trilogia Suja de Havana» de Pedro Juan Gutierrez (6)

O último dos três livros inseridos na «Trilogia Suja de Havana» data de 1997. Estava-se então quase no final da década mais difícil vivida pelo regime cubano desde a fuga de Baptista. Porque, se nunca tinham faltado tentativas de invasão, de sabotagem ou de atentados a Fidel, o regime lá se ia aguentando com um contínuo trabalho de propaganda capaz de atrair a si o apoio da maioria da população.
Mas tudo foi diferente nos anos 90, quando Ieltsin pôs fim a qualquer apoio ao antigo aliado da União Soviética. A fome, o desemprego, o desespero e a prostituição cresceram numa tal dimensão que houve quem, em Miami, festejasse por antecipação a iminente derrocada da revolução.
A leitura da Trilogia de Pedro Juan Gutierrez dá uma ideia bastante interessante sobre o estado de alma dos habitantes de Havana nesses anos difíceis. Não deixando de salientar o carácter quase bipolar do seu comportamento Pedro Juan mostra a cidade como uma paisagem de catástrofe: Os prédios foram-se arruinando por falta de cuidado e a pouco e pouco foram-se convertendo em quartos com milhares de pessoas amontoadas que nem baratas. Pessoas magras, mal alimentadas, sujas, sem emprego, bebendo rum a todas as horas, fumando marijuana, tocando tambor, reproduzindo-se como coelhos. Gente sem perspetiva, com um horizonte bastante limitado. E rindo de tudo. (pág. 296)
Então quase quinquagenário Pedro Juan incorpora em si o sentimento de muitos dos amigos e conhecidos nos ambientes boémios e do mercado negro, onde anda sempre em busca do prazer e de algo para comer e beber. E sem culpabilizar o regime em si, atribui a responsabilidade a um indefinido destino coletivo: Na minha vida está sempre a desfazer-se o maldito triângulo: amor, saúde, dinheiro. O amor é mentira, o dinheiro um pássaro a voar, a saúde a arruinar-se a cada instante. E é isto. A regressar de muitos caminhos. Vive-se na utopia e a utopia desfaz-se. A culpa não é da utopia. Na realidade, ela até propunha sempre a salvação para o futuro, para a próxima geração, para amanhã. Eu também não tenho culpa. É um karma coletivo. Simplesmente. (pág. 318)
Mas essa complacência para com o regime com que nunca chegou a cortar - ao invés de outros escritores e artistas, que se apressaram a colher mordomias da sua condição de «refugiados políticos» nos EUA ou em Espanha - não o impede de concluir o seu relato com uma cenarização de Havana como um espaço caótico: Ninguém sabe onde pertence nem o que deve fazer. Nem o que quer fazer exatamente, nem para onde vai ou onde deve situar-se. Vagueamos todos com desespero atrás do dinheiro. Fazemos qualquer coisa a troco de algum dinheiro e daí saltamos para outra coisa qualquer. Na realidade, o que conseguimos foi uma grande confusão de gente envolvida em desordem. (pág. 325)
Valerá a pena revisitar livros posteriores de Pedro Juan Gutierrez para aferir o efeito das alterações entretanto implementadas por Raul Castro para fazer perdurar a sobrevivência do projeto iniciado na Sierra Maestra.


POLÍTICA: a Trafaria escapa aos seus pretensos coveiros!

O terminal de contentores não mudará afinal de Lisboa para a Trafaria. A acreditarmos no secretário de Estado dos Transportes os calendários para a execução desse projeto irão ser revistos. Forma eufemística de dizer que o adiamento será indefinido.
Pessoalmente só posso congratular-me com esse dobre de finados por mais um ataque inqualificável à praia aonde passei um período grato da infância e já tão seriamente desfeada pelo terminal de cereais ali imposto em má hora. Porque, de facto, a margem esquerda do rio em geral e a Trafaria em particular, mereciam melhor sorte, assim houvesse ousadia para um investimento tipo Polis, que começasse no Olho de Boi em Cacilhas e se estendesse até à Cova do Vapor, incluindo o Porto Brandão e o respetivo Lazareto, associado com outro de igual ambição desde o antigo Bico da Areia até ao Meco.
Faltará o dinheiro dirão os conformados do costume! Mas o futuro não é dos timoratos, que se resguardam na invocação da sua insignificância. E a demonstração de como o retorno de tão ambiciosa obra é exequível poderia atrair capitais hoje parados por falta de ideias luminosas e com capacidade de virem a gerar receitas garantidas num prazo aceitável.
Que potencial turístico se poderia conseguir com tão ambicioso projeto! Se em vez de imaginarem um pais vocacionado em indústrias de pouco valor acrescentado para competir com a Macedónia a nível europeu (impostos baixos para os investidores e salários da ordem dos 300 euros mensais, segundo nos informa o Daniel Oliveira numa crónica do “Expresso”!) os nossos pretensos visionários optassem pela exploração inteligente das extraordinárias condições naturais a um passo da capital, seriam muitos os empregos criados à conta da inserção da Costa Azul nos itinerários mais utilizados pelos turistas de todas as latitudes. Conquanto, obviamente!, se tivessem presentes as (más) lições colhidas no Algarve não replicando os atentados ali cometidos.
Importa, pois, saudar a luta de todos os habitantes da Trafaria em prol da defesa da sua terra e dos almadenses em geral. Mas não só: se se tiver em conta que se soube , entretanto, que os contentores desembarcados na Trafaria teriam de seguir em batelões para a margem norte, com o que isso implicaria de custos adicionais à mercadoria desembarcada no porto de Lisboa, compreende-se melhor a razão do anunciado adiamento de tão absurda ideia.
É que, ademais, ninguém em Lisboa se manifestou contra a manutenção do porto na margem direita do rio, porque não faltam, por essa Europa fora, o exemplo de grandes cidades a terem nos seus portos um dos seus maiores potenciais de desenvolvimento!


FILME: «Infidelidade» de Liv Ullmann


Privada de verbas para sequer garantir a legendagem de muitos dos filmes, que continua a exibir, a equipa de Maria João Seixas à frente da Cinemateca Portuguesa vai prosseguindo o esforço de exibir o rico manancial de obras primas criadas pelas cinematografias de todas as latitudes.
Na semana transata, antes de fechar para férias em agosto, as salas da Barata Salgueiro propiciaram-nos um dos melhores filmes, que vimos no ano em curso: «Infidelidade» realizado por Liv Ullmann e  com argumento de Ingmar Bergman é um libelo acusatório ao egoísmo masculino e uma demonstração dos efeitos devastadores sofridos pelas mulheres, quando decidem render-se à ilusão do amor superlativo.
Marianne - um desempenho notável de Lena Endre! - troca o marido, o diretor de orquestra Markus, pelo encenador e realizador de cinema David. Em princípio a infidelidade até é vivida quase como um jogo sem consequências, restringido a umas pequenas férias em Paris. Até porque esse amante mostra-se imaturo, volúvel e fracassado nos seus projetos artísticos. Ao invés, Markus parece evoluir para um impressionante sucesso internacional.
Mas perdendo o controlo da sua própria vontade, Marianne deixa-se surpreender pelo marido em flagrante delito e o divórcio será uma batalha a doer, violenta e sem escrúpulos.
Por outro lado, David cumpre o papel de um Don Juan que, consumada a conquista perante o rival, dela depressa se desinteressa a coberto de uma cena de ciúmes não menos dolorosa para Marianne do que as vividas com o ex-marido.
Muitos anos depois um velho realizador - presume-se que esse mesmo David - convoca o fantasma de Marianne e, com ela revive todo esse passado de que sente tardios remorsos. Até porque acaba por ter na solidão o resultado prático dessa forma reiterada de ter passado a vida a semear os ventos dos afetos traídos agora transformados em plúmbea tempestade.


POLÍTICA: Esperemos para ver!

A demonstração mais eloquente da anunciada falência da campanha de propaganda agora lançada com o título pomposo de “Novo Ciclo” encontra-se no quadro abaixo (obtido no assaz recomendável blogue que é o «Ladrões de Bicicletas»).
Comparando a realidade de 2011 com a de 2013 só se pode qualificar de monumental DESASTRE a prática governativa destes dois anos dedicados à austeridade custe o que custar.
Agora, mantendo-se em grande parte toda a equipa ministerial e a intenção em prosseguir o cumprimento de todos os ditames da troika, poder-se-á esperar algo de novo?
Anuncia-nos o «Expresso» que, afinal, os cortes previstos de 4,7 mil milhões de euros só constarão de 2 mil milhões em 2014. Como se fosse uma boa notícia e corroborasse a ideia de um novo rumo. Esquecem-se que a paciência dos portugueses para com os cortes sucessivos operados durante este ano equivale a um copo já a extravasar sobre o qual decidem manter uma torneira a jorrar grandes fluxos de sacrifícios adicionais.
É, pois, crível o crescimento da crispação popular quando este supostamente calmo mês de agosto der lugar ao setembro de todos os perigos: com eleições autárquicas e com a preparação do Orçamento para 2014 a implicar medidas intoleráveis para muitos dos que ainda esperam ir escapando através dos pingos da chuva. Porque serão ainda mais os desempregados e os que verão sobrar mais mês ao fim do rendimento propiciado pelo salário ou pelo pequeno negócio.
Como ainda há pouco lembrava Boaventura Sousa Santos a atualidade internacional tem recentemente sido pródiga em grandes protestos surgidos quase a partir do aparente nada.
Esperemos para ver!


sábado, 3 de agosto de 2013

DOCUMENTÁRIOS: «Um metro para medir o mundo» de Axel Engstfeld (2010) e «O enigma Diesel» de Christian Heynen (2010)

A exemplo de muitos canais televisivos, o ARTE anda a retransmitir filmes, concertos e documentários já anteriormente apresentados, mas interessantes quanto baste para merecerem nova oportunidade para serem vistos pelos seus potenciais espectadores.
Na noite de hoje, a partir das 19.45, passam novamente dois documentários de conteúdo científico, realizados em 2010, e que são bastante interessantes na forma como, com atores a reconstituírem algumas cenas mais representativas e com entrevistas a historiadores e a cientistas, se abordam dois temas distintos.
No primeiro, intitulado «Um metro para medir o mundo» somos convidados para o ambiente do final do século XVIII, quando os astrónomos Delambre e Méchain inventam o metro como padrão de medida de comprimento.
A Assembleia Constituinte francesa saída da Revolução de 1789 incumbira-os da medida do arco meridiano entre Dunquerque e Barcelona, quando já estava instalado o Terror em Paris.
Sete anos depois, em 1799, eles apresentam a proposta para a implementação do sistema métrico depois de terem superado todas as vicissitudes políticas e intrigas por parte de outros cientistas.
Graças às suas medições Delambre e Méchain provaram que a Terra não é uma esfera perfeita e criaram um modelo de medição que é hoje utilizado em quase todos os países do mundo. Apenas os EUA, a Libéria e a Birmânia ainda não se lhe renderam!
Passamos logo de seguida para «O enigma Diesel». Analisam-se nele as circunstâncias misteriosas em que morreu o inventor do motor de explosão, que tanto revolucionou o transporte terrestre e marítimo.
Ainda não existem explicações definitivas sobre a razão porque, em 29 de setembro de 1913, Diesel desapareceu em Inglaterra aonde se deslocara para a inauguração de uma fábrica.
A versão oficial optou pela tese do suicídio tendo em conta, que o cientista e homem de negócios estava praticamente arruinado. Mas outra possibilidade não menos pertinente aponta para o assassínio a mando dos serviços secretos alemães, pouco dispostos a verem um compatriota a registar patentes fora da Alemanha.

O documentário recorda as ideias progressistas de Diesel e a sua determinação para superar todos os obstáculos colocados no seu percurso para lhe dificultarem as novas descobertas que o tornariam famoso…
Não sendo dos assuntos mais glamourosos da História da Ciência, quer a invenção do sistema métrico, quer a personalidade de Diesel permitem conhecer as circunstâncias em que mudaram as vidas de milhões de pessoas graças ao engenho de tais génios…



DOCUMENTÁRIO: «L'énigme Diesel»

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

POLÍTICA: em lume brando

O briefing  de hoje não correu bem a pais jorge, o novo secretário de estado do Tesouro.  Lançado para a arena para se defender da acusação de ter pretendido vender swaps tóxicos ao Governo de José Sócrates, o novo membro da equipa de maria luís albuquerque engasgou-se, ruborizou e agitou-se na cadeira na tentativa de negar o inegável. Na sua linha de defesa figurou a redução das suas competências no Citibank às de um mero vendedor e o esquecimento quanto a ter ou não comparecido na reunião referida pela reportagem da «Visão».
Temos, pois, mais um caso de uma fogueira em lume brando a queimar o já chamuscado (dez)governo e a somarem-se às outras já conhecidas. Porque nem a nova ministra das Finanças conseguiu convencer o país quanto à veracidade dos seus atos no caso dos swaps, nem rui machete vai conseguindo dissociar-se dos seus negócios pessoais dentro do universo BPN.
Um dos jornalistas nesse briefing desta manhã perguntava ao comprometido secretário de Estado se acreditava na frase sobre a mulher de César. E essa imperiosidade em se ser, mas também parecer sério, coloca-se de facto a diversos membros da equipa de passos coelho. E ainda não começaram a surgir as histórias em torno de agostinho branquinho, cuja passagem pela Ongoing também promete novas “caixas” nas primeiras páginas dos jornais.
O nosso querido mês de agosto não parece dar-nos tréguas no que diz respeito à sucessão de casos complicados para os quais dificilmente a equipa da propaganda de poiares maduro conseguirá encontrar paliativos.
É que passos coelho tem mostrado uma capacidade invulgar em selecionar colaboradores manchados por situações justificativas de  despedimento com justa causa em funções supostamente de interesse público.
Não dará, pois, para sequer iludirem-se com as sondagens menos más desta semana: este contínuo incêndio ameaça reduzir a coligação a um amontoado de cinzas...


POLÍTICA: a inevitabilidade de ser heterodoxo!

Que legitimidade assiste ao filiado de uma organização para se exprimir de forma heterodoxa em relação à forma como ela é liderada?
Em princípio devem norteá-lo o dever de fidelidade, que reserve as críticas para o seu interior porfiando em defender as estratégias com que discorda no exterior!
Mas como agir quando elas continuam a causar danos significativos na imagem da organização que, por isso mesmo, se afasta cada vez mais dos seus objetivos principais? Torna-se, então, inevitável não calar a discordância e contribuir para uma mudança determinante no sentido de infletir o rumo dos acontecimentos.
Vem isto a propósito das sondagens da Marktest e da  Universidade Católica, agora conhecidas e que mostram diferenças mínimas, senão mesmo irrelevantes, entre o PS e o PSD!
Como é possível que, passados dois anos de tanta barbárie cometida contra a classe média e contra os trabalhadores em geral e o principal partido da coligação ainda surja a discutir a futura vitória eleitoral nos barómetros, que vão surgindo?
Torna-se inevitável colocar em questão a eficácia com que a atual direção socialista está a corresponder a este difícil momento histórico! É juízo definitivo: o discurso brando de António José Seguro não suscita empatia junto do eleitorado que, nesta altura, deveria estar rendido ao seu projeto alternativo ao da austeridade custe o que custar.
Nesse sentido talvez tenha sido um mal que viesse por bem a escusa de cavaco silva em arriscar eleições legislativas antecipadas para já. Porque importa que os militantes socialistas compreendam o beco sem saída para onde a atual liderança os está a empurrar.
É que, ao ouvirem-se as palavras de Sócrates ao domingo na RTP, ou as de alguns deputados da Oposição mais à esquerda no parlamento, fica-se com pena de não constatar esse tom de voz e tais argumentos brandidos pelo secretário-geral do PS.
Urge mudar e tão rápido quanto possível!


DOCUMENTÁRIO: «Amor e Sexo sob a ocupação nazi» de Isabelle Clarke e Daniel Costelle

De entre as imagens da libertação da França do jugo nazi existem algumas que impressionam pelo que comportam de humilhação para as mulheres aí maltratadas: as que eram acusadas de terem sido amantes dos soldados nazis eram completamente despidas e sujeitas ao corte total do cabelo antes de serem “passeadas” pelas ruas das cidades e aldeias para depois se verem atiradas para as águas das fontes municipais.
Por muito ignóbil, que tivesse sido o seu comportamento nada justifica atos de tal barbárie.
Ora, o interesse do documentário recentemente apresentado na RTP2 tem a ver com uma questão pertinente: o que terá levado essas mulheres a sacrificarem a reputação para chegarem a essa forma de colaboracionismo com o ocupante?
Ainda assim a fonte documental em que se baseia é a mais suspeita possível: os livros de Patrick Buisson, “1940-1945: les années érotiques”.
O facto de tal “historiador” constituir um dos nomes da direita francesa que, além de próximo de Sarkozy, mais tem pugnado pela comunhão de estratégias dos partidos da sua área política com a extrema-direita de Le Pen, revela bem o tipo de complacência com que o filme toma posição ideológica a favor de todos os colaboracionistas ali evocados. A utilização das imagens degradantes das mulheres humilhadas no imediato pós-guerra só serve de alibi para passar sub-repticiamente uma compreensão implícita para muitos dos comportamentos de traição á França de quantos aderiram com entusiasmo à causa nazi.
Mas, porque até nos mais descarados documentos com que se manipula a informação podem facultar algumas conclusões interessantes, o documentário permite entender algumas justificações para a questão formulada inicialmente.
Comecemos pelo corpo: o desfile das tropas nazis a 14 de julho de 1940 nos Campos Elísios permitiu revelar aos parisienses a imagem de um exército constituído por jovens bem alimentados, bem fardados e com um garbo sugerido pelo seu comportamento prussiano.
Que diferença em relação à imagem lamentável dos soldados derrotados nas linhas Maginot, sujos e esfarrapados, que tinham claudicado na missão de proteger a França dos seus invasores!
Se antes de chegarem à capital esses alemães eram encarados com o terror de quem ainda tinha presentes as violações e os crimes cometidos nas precedentes campanhas militares de 1870 e de 1914, as ordens do Quartel General do Reich para que fossem solícitos, se não mesmo simpáticos para com os parisienses, depressa convenceram estes últimos de quanto se encontravam melhor protegidos sob a alçada da Wehrmacht.
Ademais, na sua operação de sedução à população ocupada, os alemães não tardaram a propiciar-lhes grandes concertos ao ar livre em Paris assistidos por milhares de rendidos espectadores.
O medo inicial transformou-se em curiosidade para muitos dos mais conformados com a nova realidade.
O verão de 1940 funcionou para os soldados alemães como uma espécie de férias grandes. E as francesas são o objeto do seu desejo. Muitas raparigas aceitam namoro desses jovens, apesar do Estado Maior nazi preocupar-se em enquadrar a sexualidade dos seus soldados  estipulando quais os bordéis recomendados para não incorrerem em atos mais censuráveis por uma população, que se pretendia neutralizada.
Essa época também foi caracterizada por uma moral muito conservadora que incitava as raparigas a casarem antes dos 25 anos e dedicarem-se doravante à condição de mãe de família. Era essa a versão propagandeada da mãe ideal pelo regime de Vichy.
A Resistência começou então a dar sinal da existência de um crescente inconformismo perante a Ocupação e os primeiros atentados vitimaram soldados ou oficiais, que tinham ligações amorosas com mulheres francesas.
Começou então a degradar-se a relação entre ocupantes e ocupados, com a máscara da bonomia germânica a dar lugar a sucessivos crimes de guerra, muitos deles cometidos contra mulheres francesas, violadas e assassinadas, chegando a haver soldados que registaram em fotografia ou em filme esses “atos de retaliação” contra quem os tomava como alvos.
Mas, por essa altura, ainda muitos dos principais artistas franceses andavam a participar empenhadamente nos programas e espetáculos promovidos ou frequentados pelos nazis: Sacha Guitry, Danielle Darrieux, Arletty ou Charles Trenet macularam definitivamente as respetivas biografias.
Por essa altura abundaram raparigas ainda adolescentes que, atraídas por um desafogo vedado aos compatriotas, namoraram sem problemas de consciência com soldados e oficiais alemães. Ou viúvas e mulheres de prisioneiros de guerra a prostituírem-se como mero subterfúgio de sobrevivência.
Serão essas raparigas e mulheres adultas, quem servirão de bode expiatório a uma França libertada e bem recheada de vira-casacas de última hora, desejosos de nelas demonstrarem o seu recente antifascismo. Para além dessas vergonhosas humilhações, muitas dessas vítimas acabarão sumariamente executadas em praça pública.
E o documentário conclui o seu posicionamento ideológico ao comparar o efeito da chegada dos norte-americanos a Paris com o dos soldados nazis de quatro anos antes. Com o mesmo efeito sedutor em função das suas belas fardas e da sua musculada estatura. Como se fosse uma fatalidade essa tendência feminina para se deixar seduzir pelos bíceps dos ocupantes , independentemente da ideologia de que seriam portadores.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

POLÍTICA: momentânea bonança anuncia violentas tempestades!

Em agosto muitos dos programas televisivos de comentário político foram de férias.
Foram os que mais nos interessam pela sua consistência e profundidade de argumentação (Sócrates, Louçã, Augusto Santos Silva, Quadratura do Círculo ou Eixo do Mal), elucidativos quanto ao carácter antidemocrático das políticas desta coligação. O que apazigua as atormentadas mentes de quem se tem visto atingido por críticas certeiras e para as quais faltam os argumentos em contrário. Mas até mesmo as férias dos comentadores alinhados com os partidos da coligação - que lhes poderiam ir aliviando as consciências com a ambiguidade de argumentos tendentes a dar uma no cravo e outra na ferradura (para iludirem os ingénuos quanto à sua suposta “objetividade”) - tenderão a dar essa falsa ideia de “normalização” dos detentores do poder e o progressivo esquecimento dos recentes arrufos entre portas e passos.
Entramos agora  na fase em que aquecem as temperaturas e os portugueses são convidados a esquecerem as inquietações na praia e nos tontos programas de entretenimento dos principais canais de televisão.
Mas inicia-se o mês já com a história do secretário de estado, que rivaliza com maria luís na condição de perito dos swaps! O que verdadeiramente ameaça desmentir as bonançosas semanas em que nos estava prometido o descanso quanto a mais cortes nas remunerações ou na ainda maior precarização do emprego. Ao mesmo tempo que, a acreditarmos na Marktest, e passada a baralhada de julho, os dois partidos da coligação continuam a valer menos do que o PS e a soma da CDU e do BE continua muito próxima dos 20%.
Estamos, pois, naquela fase da época dos furacões tropicais em que passado um Katrina, faz-se momentânea calmaria até se anunciar nova e violenta tempestade. Lá para altura das autárquicas e da apresentação do Orçamento para 2014, as altas pressões tenderão a soprar violentas rajadas de vento na direção de São Bento.
E a recauchutagem agora concretizada não terá dado grande resistência a um edifício governativo já a abrir fissuras por muitos dos seus elementos constitutivos!