domingo, 11 de outubro de 2026

Uma Setúbal vazia dentro de Lisboa

 


Álvaro Santos Pereira, o antigo ministro dos pastéis de nata, voltou aos holofotes. Em 2012, perguntava por que razão não havia um franchising de pastéis para combater o défice e a dívida externa. Agora, governador do Banco de Portugal, avisa que faltam trezentas mil casas, o equivalente a uma Lisboa inteira, e que o país não encara o problema com a “urgência necessária”, nem no investimento público nem no privado. Desta vez, em abono da verdade, acerta no diagnóstico.

Acerta também, sem querer, na acusação. Portugal tem os mais baixos indicadores de investimento em habitação social de toda a OCDE, diz o governador, que classifica a habitação como o principal risco interno da economia, sobretudo social. Um Governo que enfrenta tal risco com a pressa de quem espera o comboio ouve e arruma o aviso na gaveta.

O governador receita construir mais, e ninguém o contradirá, mas construir leva anos e as famílias não esperam. Há alternativa à mão. Os Censos de 2021 contaram quase quarenta e oito mil casas vagas no concelho de Lisboa, cerca de quinze por cento do parque, e mais de cento e cinquenta mil na área metropolitana. Mais de metade não estava à venda nem para arrendar.

Parte, bem entendido, é herança por partilhar ou prédio à espera de obra. Parte é opção de quem prefere o imóvel fechado à casa habitada, porque comprou como quem compra um ativo e não como quem acolhe uma família. Só em Lisboa, as vagas alojariam, em média, mais de cem mil pessoas, quase uma Setúbal.

Pô-las no mercado exigiria taxar o abandono, obrigar a arrendar, premiar quem ocupa e castigar quem especula. Contraria os interesses que sustentam este Governo, e que dele esperam a garantia de continuarem a enriquecer na especulação imobiliária. Por isso a conversa é toda sobre construir e quase nada sobre ocupar.

Faltam trezentas mil casas, dizem-nos, e há quarenta e sete mil fechadas só na capital. Faltou ao governador acrescentar o essencial: não falta só construir, falta querer.

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