quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Cinzas Sem Fénix

 


Há arrogâncias aparecem disfarçadas de método, e a de Fernando Alexandre veste-se com o rigor emprestado do INSEAD: o Phoenix Encounter Method, receita pensada para reformar empresas, que ele aplica ao Ministério da Educação com a confiança tranquila de quem acredita que destruir basta para que renasça, das cinzas, algo necessariamente melhor. Falta-lhe, nessa confiança, a humildade de perguntar se a metáfora resiste à travessia do privado para o público.

António Teodoro explicou-o com clareza, num artigo na Visão de 13 de agosto: numa empresa, a destruição de uma organização pode abrir espaço à emergência de outra; no Estado, a destruição de uma capacidade administrativa não garante substituto nenhum, pode simplesmente deixar um vazio que virá a ser preenchido por consultoras, agências, contratos e mercados, ou pelas capacidades desiguais dos territórios que ficam à mercê da sorte. Onde

a empresa aposta o capital dos acionistas, o Estado aposta o direito à educação de quem não tem alternativa privada à mão.

O vazio, aliás, já tem inquilino com nome e fatura: a Deloitte, chamada de urgência para resolver o caos nos exames nacionais que o próprio ministério ajudou a criar, acumulou este ano quatro contratos com o Estado, no valor de 2,65 milhões de euros, a que se soma um quinto ajuste direto que o ministério prefere manter em segredo, sem data nem montante divulgados.

Não é ineficiência pontual, é o desenho lógico do método: primeiro desmonta-se a capacidade pública de organizar um exame, depois paga-se a uma consultora privada para o fazer em nome do Estado, e no fim apresenta-se a fatura como prova de modernização.

Estudantes ficaram sem médias corretas, professores sem acesso às plataformas, provas endereçadas às disciplinas erradas — o custo da experiência, sempre pago por quem não tem lóbi nem contrato. A "destruição criativa" tem sempre vítimas que a criatividade nunca chega a compensar.

Fica a lição que Teodoro deixou, e que o ministro parece decidido a não ouvir: o Estado pode reformar-se profundamente sem precisar de arder inteiro.

Fernando Alexandre optou pelo incêndio, e trata agora as queixas dos que ficaram queimados como resistência insignificante a um progresso que só ele, entre as cinzas, consegue vislumbrar.

1 comentário:

  1. Creio que exagera sobre o INSEAD. Não há cão nem gato gestor de empresa que não tenha passado por lá. Ao que li aquilo é mais um club de networking donde se sai com um cartão de visita.

    Se quer que lhe diga o doutor de Harvard e de Cadiz do Chega tem de longe mais CV. Cadiz é o que é, uma universidade de província. Harvard já sabemos que foram duas cadeiras. Mas o homem parece ter mesmo um mestrado por Oxford e consta online da lista de docentes da London Business School. Espanta Tem mais ar de toureiro em dia de Campo Pequeno. Mas anda de facto pelo ensino superior britânico. E mais que o afamado Palma da IL, que não passa de Manchester.

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