Dois artigos no «Público» de hoje expõem, de ângulos diferentes, a mesma operação: a tentativa da extrema-direita e da direita radical de falsificar a História para legitimar o seu projeto político presente. Pacheco Pereira desmonta um livro, São José Almeida desmonta a sessão solene. Juntos, revelam um padrão.
Pacheco Pereira analisa o livro "50 Vezes 25 de Novembro", prefaciado por Passos Coelho e com a participação de 31 autores, na sua maioria de extrema-direita. Muitos do Chega, candidatos autárquicos, membros do "governo-sombra", do ADN, da ala passista do PSD e da multidão de "repetidores" nas redes sociais, em podcasts e na academia. Se há extrema-direita e direita radical em Portugal, ela está representada neste livro.
O objetivo é claro: usar a falsificação da história para legitimar a direita radical e tornar o 25 de Novembro, na sua interpretação, como "o farol ideológico do sistema político que sucederia ao Estado Novo". Há dois aspetos preliminares relevantes: a desvalorização e, nalguns casos, a diabolização do 25 de Abril, e a dança de palavras simpáticas e moles para caracterizar entre o positivo e o neutro a ditadura.
Como diz Pacheco Pereira, o problema da direita radical em Portugal é que toda a sua história no século XX é maldita. O que é que vão lembrar? Os 48 anos de ditadura - palavra de que fogem como o Diabo da cruz -, Salazar, Caetano, a PIDE, a guerra colonial com o seu cortejo de violência, as prisões políticas, a repressão de trabalhadores e camponeses, a expulsão de professores das universidades, a cumplicidade com o regime do apartheid, o país que colocou a bandeira a meia haste quando morreu Hitler?
O país pobre, do pé descalço, de onde se emigrava para escapar à miséria, analfabeto, com taxas de mortalidade infantil "africanas", o país em que as mulheres eram gente de segunda, o país da censura que durou sem um dia de liberdade até à manhã do 25 de Abril, o país que assassinou Delgado para Salazar mentir. O país da corrupção - sim, o Chega mente quando sugere que não havia corrupção antes da democracia, simplesmente os "desfalques" da elite eram cortados pela censura. O país da tortura.
A "história" falsa do 25 de Novembro assenta em omissões deliberadas: do 11 de Março, da contrarrevolução a norte de Rio Maior, dos atentados, incêndios e assassínios que mataram mais gente do que o dia 25 de Novembro, do papel do PCP, do contexto internacional da Conferência de Helsínquia. Apagou-se o papel de Costa Gomes, que nem sequer o PS trouxe à sessão no Parlamento. Apagou-se ou secundarizou-se Mário Soares no plano civil, ou o Grupo dos Nove, Melo Antunes, Vasco Lourenço, Sousa e Castro e Ramalho Eanes.
E a farsa não ficou apenas no livro. Materializou-se na sessão solene que São José Almeida disseca. A ideia da celebração anual do 25 de Novembro pela Assembleia da República foi apresentada pelo CDS, aprovada com o apoio decisivo do PSD, com o objetivo nítido de celebrar um 25 de Novembro relido, tentando equipará-lo ao 25 de Abril. Uma tese esdrúxula, já que a Revolução dos Cravos é o momento seminal da democracia em Portugal, pondo fim a 48 anos de ditadura, com forte adesão popular desde o primeiro momento.
Com um Parlamento onde o centro-direita e a direita radical são claramente maioritárias, o CDS - hoje muito acantonado a um reacionarismo bafiento - sentiu-se à vontade para ajustar contas e criar uma narrativa desajustada. Mas esquece-se um detalhe fundamental: o CDS foi um dos derrotados do 25 de Novembro. A 2 de Abril de 1976, o CDS foi o único partido a votar contra a aprovação da Constituição, um momento estruturante da democracia em Portugal, equiparável e resultante do 25 de Novembro.
A sessão foi o espelho da releitura radicalizada, até na infantilidade da disputa em torno de flores. Ventura exerceu a sua violência retirando dois dos três cravos da tribuna. Foi preciso um deputado do PSD, Pedro Alves, repô-los junto às rosas, representando o equilíbrio democrático de Ernesto Melo Antunes, que após o 25 de Novembro foi à televisão anunciar que o PCP não seria ilegalizado.
Marcelo Rebelo de Sousa, no seu último discurso no Parlamento, apelou à "temperança", invocando a Carta de Bruges de D. Pedro de 1426, criticando os tempos de radicalização e extremismo. Mas as suas palavras foram, como nota São José Almeida, uma crítica à cerimónia a que presidia. Uma sessão que pode ser considerada uma manifestação ridícula de poder, mas é sintoma de algo mais profundo.
Como conclui São José Almeida, a história parte dos factos, mas a cada época é reinterpretada de acordo com o presente. Foi isso que o CDS tentou fazer, apoiado pelo PSD e pelo Chega - afirmar e demonstrar o seu poder através da manipulação da memória coletiva.
E Pacheco Pereira termina com uma sugestão devastadora: no dia 25 de Abril, centenas de milhares de pessoas saem à rua para o comemorar. Por que razão se fez uma parada militar e não uma manifestação, apelando aos portugueses para apoiarem a visão do "farol" do 25 de Novembro? Não é por falta de meios, órgãos de comunicação social, autocarros, influencers e bots do Chega nas redes sociais. A não ser que só faltem os portugueses.
Aí está a resposta. A História não se reescreve por decreto nem por sessões solenes fabricadas. E o povo português, esse, continua a saber distinguir entre a manhã que trouxe a liberdade e as tentativas patéticas de a deturpar.
Neste novo ciclo histórico, o pêndulo tende cada vez mais para a direita. Devemos esperar tempos de cada vez mais radicalização e extremismo. Mas a falsificação da História, por mais recursos que mobilize, continuará a esbarrar na memória viva de quem viveu a liberdade conquistada a 25 de Abril. E isso, nem Passos Coelho nem o Chega conseguem apagar.

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