quinta-feira, 21 de abril de 2016

Enxaquecas prometidas à direita

A nova dor de cabeça da direita é o conteúdo do Plano Nacional de Reformas que apresenta 143 medidas divididas por sete áreas: a valorização do território, a coesão e igualdade, a qualificação dos portugueses, a modernização do Estado, a capitalização das empresas, a inovação da economia e a sustentabilidade das finanças públicas.
Tudo valorizado, planeado e com objetivos bem concretos a alcançar para melhorar a qualidade da vida dos cidadãos. E resolver sérios problemas da relação do Estado com as empresas e os particulares, porquanto inclui o Simplex e o pagamento de mais de metade da dívida dos hospitais públicos.
Compreende-se bem o incómodo das bancadas parlamentares da direita perante tal documento: é que ele traduz uma seriedade e um rigor, que nunca existiram nos quatro anos de governação de Passos Coelho, quando tudo era amadoristicamente feito por impulso e, invariavelmente, com resultados muito aquém dos prometidos.
Secundarizado na sua importância, porque tão-só subsidiário do anterior, o Plano de Estabilidade leva em conta uma conjuntura económica que se prevê mais desfavorável, exigindo um esforço de consolidação orçamental ainda maior. O défice público para o próximo ano será de 1,4%, e o crescimento de 1,8%.
E, embora o CDS faça do mítico plano B  o seu tema de eleição, o Governo não tem qualquer intenção de apresentar medidas de consolidação adicional a Bruxelas, enquanto não se comprovar que elas são mesmo necessárias. É que os números da execução orçamental, que serão divulgados muito em breve descartam a sua necessidade.
Por todas estas razões a direita só pode temer pelo futuro próximo: é que os socialistas estão a dar provas de tal eficácia na governação e de capacidade de convergência com o Bloco de Esquerda, o PCP e os Verdes, que vai-se consolidando a ideia de contarmos com estabilidade política nos próximos três anos e meio.

E os mercados continuam a desmentir os velhos do Restelo

1. Nunca é demais enfatizar que os velhos do Restelo (e não estou a falar de Marcelo Rebelo de Sousa!) continuam a acentuar o mais que podem a iminência de más notícias para os portugueses com a governação socialista, mas os mercados continuam a desmenti-los: ontem, Portugal voltou  ao mercado de dívida tendo emitido Bilhetes do Tesouro a 3 meses e a 11 meses, num total de 1.100 milhões de euros. A dívida com maturidade de três meses, no montante de 300 milhões de euros, foi colocada com um juro negativo de -0,004%.
É verdade que, em relação a indicadores anteriores, Mário Centeno reviu em baixa os relativos ao crescimento da economia, mas é crível que existe neste Governo uma capacidade de execução orçamental, que nunca se conheceu com o de Passos Coelho, sempre obrigado a retificativos por jamais ser capaz de acertar nas contas.
Ademais os efeitos de alavancagem suscitados pelo aumento de rendimento dos funcionários públicos e dos reformados, a par da iminente entrada de fundos europeus do Programa Portugal 2020, tardarão a verificar-se, mas acabarão por refletir-se na economia. Por isso mesmo, e embora a direita cruze os dedos na esperança de intervenção divina no sentido de derrubar este governo o mais depressa possível, os meses vão passando e os portugueses há muito acordaram de um pesadelo, que não querem voltar a repetir.
2. Sempre que há revelações como as do «Panama Papers» a nossa reação reflete a deceção de outras que anteriormente prometiam mudar tudo de vez, e deixaram afinal tudo na mesma.
Esta semana, porém, Ricardo Paes Mamede previu existirem atualmente razões para acreditar, que tudo poderá vir a ser diferente. É que o efeito das exigências da Administração Obama sobre todos os países do mundo, chantageando-os no sentido de assegurarem às autoridades fiscais norte-americanas as informações sobre as movimentações de capitais dos seus cidadãos conjuga-se com o incremento da consciência coletiva quanto à imoralidade da existência dos paraísos fiscais. E, por isso mesmo, a própria OCDE, que tem andado devagar, devagarinho nestas matérias, parece ganhar disposição para impor maior velocidade ao controlo internacional desta realidade.
3. O artigo já tem uns dias, mas não quero deixar de referenciar o que Isabel do Carmo escreveu no «Público» sobre este mesmo assunto: “Com as notícias que, apesar de tudo, nos vão chegando, com os escândalos financeiros uns atrás dos outros, com a fuga dos papéis do Panamá, com o alçapão dos bancos, há uma palavra que fica oculta. Há um elefante na sala, uma presença demasiado grande e malcheirosa, mas que não é referida pelo seu verdadeiro nome. O indizível, o inominável, tem um nome — chama-se capitalismo.
E, de facto, parece existir um grande prurido em denunciar o que de pior tem acontecido à vida da maioria dos cidadãos à escala planetária como sendo o resultado da etapa a que o capitalismo chegou nos últimos anos. Cada vez mais selvagem, cada vez mais sanguinariamente predador…
4. Conheceram-se agora muito más notícias sobre o sindicalismo em Portugal: a CGTP deu a conhecer um Relatório em que reconhece ter perdido mais de 60 mil associados nos últimos quatro anos, o que somados aos 80 mil que abandonaram a UGT no mesmo período, revela um país laboral em que os que trabalham ficam cada vez mais entregues a si mesmos, sem o respaldo de uma organização coletiva, que negoceie os seus direitos.
Muito embora a crise do sindicalismo seja demasiado complexa para abordar aqui em poucas palavras, justifica-se a criação de uma estratégia da esquerda no sentido de devolver às organizações representativas dos trabalhadores a importância, que já tiveram no passado.
É que a recuperação de um país onde a Cidadania assente na representatividade volta a estar na ordem do dia, e não pode dispensar estes seus veículos sociais. 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Bancos, bancos … e mais bancos!

1. Convenhamos que esta terça-feira foi um dia animado, começando com as audiências parlamentares a Carlos Costa e a Mário Centeno. O primeiro já só encontra como linha de defesa o manter-se acossado por trás das periclitantes muralhas do “segredo obrigatório” imposto pelo banco Central Europeu. Mas confirmando nada ter dito ao Governo sobre o que se preparava em Frankfurt a respeito do Banco abandonado por Maria Luís Albuquerque à sua sorte durante três anos, ele deu ensejo a que seja invocada a «falta grave» justificativa da sua demissão.
Quanto ao Ministro das Finanças, quem tem, igualmente, uma derradeira linha de autodefesa é o PSD, que insiste na tese da mentira por muito que ela soe a desculpa esfarrapada para as responsabilidades, que lhe incumbem. Agora, como não conseguiram encostar Centeno às cordas na Comissão, e confiantes na “simpatia” ideológica de Joana Marques Vidal, ameaçam com uma queixa no Ministério Público.
Fica evidenciada a estratégia laranja de boicotar o mais possível os trabalhos da Comissão Parlamentar atirando para o espaço público tantas cortinas de fumo quantas as necessárias para impedir que se apure o essencial.
2. Segundo episódio do dia o do comunicado violento de Isabel dos Santos com a resposta mais comedida da administração do BPI.
Não havendo ainda completas certezas sobre o que se passou fica aparentemente falhada a tentativa da filha do presidente angolano em puxar a corda o mais possível, sem ter medido bem as forças de modo a não a fazer rebentar.
O problema é que o papá decidiu, há um par de anos, dar como imprestável a garantia emitida para cobrir o desfalque verificado no BES de Angola. E, por isso, quer ele, quer a família perderam qualquer possibilidade em serem reconhecidos com idoneidade bastante para se pretenderem banqueiros num qualquer país europeu.
Sendo provável que se verifiquem dificuldades acrescidas para os portugueses, que trabalham em Angola, obviamente que não havia outra alternativa política, que não fosse a criação de condições para manter a estabilidade do sistema bancário português, evitando a falência de mais uma instituição da importância do BPI. É que as multas impostas pelo BCE num cenário de paralisia na Administração não teriam outro efeito.
Depois dos dissabores suscitados pela condenação dos 17 dissidentes, que só estavam a ler um livro, o regime angolano recolhe as tempestades relativas aos ventos, que foi semeando nos últimos anos.
Isabel e José Eduardo dos Santos arriscam-se a ser vistos como párias indignos de se verem aceites como parceiros de negócios. Sobretudo nesta altura em que o petróleo deixou de ser uma arma convincente para fazer chantagem sobre governos timoratos.
3. No discurso alusivo ao 43º aniversário do Partido Socialista António Costa deu o troco ao incrível relatório emitido pela Comissão Europeia que do novo governo dizia pior que Maomé do toucinho e exigia implicitamente o regresso às “reformas” do (des)governo anterior.
A equipa de Junker ainda não compreendeuo básico: o “bom aluno”, que a todas as imposições se vergava e ainda dava cinco tostões, acabou. António Costa nada tem a ver com Passos Coelho e por isso, que se acautelem: as surpresas, que o primeiro-ministro promete divulgar com o Plano Nacional de Reformas serão as que melhor demonstrarão a falácia do There is no Alternative!

terça-feira, 19 de abril de 2016

Branco, mais branco, não haverá?

Ontem chegou ao seu termo um ciclo de treze anos de sucessivos governos do Partido dos Trabalhadores, que garantiram a melhoria das condições de vida de milhões de brasileiros pobres.
Doravante, e como escrevia Manuel Carvalho no «Público», “o Brasil está entregue a uma horda de predadores a quem não se pode confiar uma chave de casa, quanto mais o destino de uma Presidente eleita.
Por muito que queiram reivindicar uma fundamentação legal e processual para terem derrotado no parlamento o que o PT ganhou democraticamente nas urnas, os promotores do impeachment fizeram  um despudorado golpe de Estado na Câmara dos Deputados de Brasília. Comandou-os Eduardo Cunha, que é um dos grandes campeões das suspeitas de corrupção, acolitado por uma alcateia de vozes ululantes, 60% das quais igualmente arguidas em casos de justiça.
Explicação para o que se está a passar depressa a entenderemos, e dificilmente se resumirá a um ódio ideológico: começam a ouvir-se histórias sobre Michel Terner encetar a substituição de Dilma com uma proposta de reconciliação nacional, que passará por colocar uma pedra sobre todas as histórias de corrupção política e partidária.
Estar-se-á, pois, perante uma manobra de branqueamento de todos os casos de corrupção de forma a possibilitar a continuidade do statu quo.
Como reagirá o povão se essa hipótese se concretizar? Continuará a viver impavidamente a sua vida nas favelas sem descer ruidosamente à cidade? Quero acreditar que Lula conseguirá mobilizar milhões de brasileiros para uma contestação que não dê descanso aos que celebraram por agora a vitória.
Uma coisa deverá o PT corrigir, e que o próprio Partido Socialista não compreendeu entre 2005 e 2011: ao chegar ao poder a esquerda não pode esquecer que o patronato das grandes confederações e os banqueiros não são parceiros fiáveis para com eles contar no esforço de implementar medidas sociais. Se eles aparentam complacência, e até manifestam espírito de colaboração, é só para ganharem disponibilidade e darem o golpe mortífero na primeira oportunidade.
Foi por querer negociar com eles e com quem os representava politicamente, que o PT caiu nas armadilhas suficientes para ser qualificado de corrupto. Que aprenda devidamente a lição e regresse rapidamente ao poder para prosseguir o esforço de diluição das desigualdades, que estava a conseguir. Sem voltar a ter de comprar votos e de oferecer lugares a quem consigo em nada se identifica.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Perdida esta batalha, prepare-se a seguinte

Confirmada a derrota de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, quer isto dizer que a esquerda brasileira estará condenada a uma longa travessia no deserto? Não é crível, que tal aconteça. A derrota de hoje prefigurará vitórias futuras mais sólidas do que a conseguida na mais recente eleição presidencial, quando a direita gizou o plano de derrubar Dilma no mais curto prazo possível.
O que lhe era mais fácil concluiu-se esta noite: criar uma dinâmica de rejeição a quem está no poder é fácil, quando o ambiente económico é de recessão, sobretudo quando se conta com uma comunicação social tão viperina como a que diabolizou a Presidenta e Lula nos últimos meses.
No entanto os problemas começarão de imediato com a partilha das lentilhas entre os que comemoram hoje a vitória, tendo em conta que elas estão seriamente a reduzir-se no dia-a-dia. E não é por invocarem angélicas declarações de fé na Democracia e na probidade dos seus membros, que os golpistas de hoje deixarão de ser tão corruptos como se têm revelado até aqui.
Atirado para a oposição, o Partido dos Trabalhadores terá sempre o movimento sindical e popular para contestar nas ruas o imediato corte dos apoios sociais promovidos por Lula nos seus dois mandatos. A luta pela reviravolta dos acontecimentos começa de imediato.
A luta de classes vai agudizar-se nas próximas semanas e meses até tornar ingovernável a solução dos que agora trataram de apear Dilma. E porque há bastante mais marés que marinheiros, a que agora a varre, é a que, a seguir arrastará consigo os momentâneos vencedores.
Para o PT esta situação até poderá revelar-se bastante vantajosa, porque permitir-lhe-á libertar-se dos compromissos contranatura firmados com forças políticas com que não possuía qualquer identidade nos valores e nos princípios, mas compradas para que o seu voto possibilitasse a exequibilidade das políticas sociais pretendidas.
Esperemos que Lula e Dilma compreendam que convergir com gente pouco fiável capaz de trair à primeira ocasião teve um custo demasiado elevado para que deva ser repetido. Na preparação para regressar ao governo o PT deverá ser consistentemente o partido de esquerda que, nos últimos tempos, e em função das circunstâncias, se esqueceu de ser...

A saída que nada teve de limpa

Continuando a fazer uma elucidativa viagem pelo comportamento dos jornalistas da área económica ao longo do chamado «período de ajustamento» chegamos agora ao momento subsequente à grande manifestação de 15 de setembro de 2012, quando Passos Coelho recuou na questão da TSU e o FMI reconheceu a existência de uma suposta “fadiga da austeridade”.
Como tenho aqui referenciado, socorro-me para este efeito do excelente trabalho de José Castro Caldas e de João Ramos de Almeida publicado no «Le Monde Diplomatique» de março.
A expressão então na moda passou a ser “espiral recessiva”, que levava o então diretor do «Diário Económico» a reconhecer que o governo está bloqueado, o país está bloqueado (...) O programa, dizem os seus dirigentes, foi mal desenhado».
Pedro Santos Guerreiro, então à frente do «Negócios», fez um diagnóstico demolidor em 27 de março de 2013: “Em Setembro, com a TSU, tudo mudou. A política de austeridade começou a falhar, o governo mostrou-se fraco ante os mesmos interesses instalados, tem ministros (...) que são membros dos lóbis que supostamente combatem... O governo está desesperado perante o fracasso do seu plano, o país olha para a frente e vê-se para trás”. A hipótese académica  de novos cortes era olhada como passível de aumentar ainda mais a pressão social.
Outro entusiasta da austeridade, Camilo Lourenço, quase chorava perante o fracasso da redenção por ele antes acolhida com tanto entusiasmo: “eu acreditava mesmo que, com um chicote em cima de nós, não teríamos outra hipótese senão reformar o Estado e o país. É hora de dizer que, depois de ver o que vi nos últimos meses (que culminou com a paralisação do governo), enganei-me redondamente... Portugal é um país irreformável”.
O governo de Passos Coelho viveu nesse verão os seus momentos mais difíceis com a demissão de Vitor Gaspar e a irrevogabilidade revogabilizada de Paulo Portas. Foi quando a direita sentiu que o regresso dos socialistas ao governo poderia dar uma séria machadada nas suas ilusões em ver o país “reformado” de acordo com os seus interesses e começou a falar de esperança e em melhoria dos indicadores económicos.
Em janeiro de 2014 já o Costa do Económico proclamava a existência de resultados positivos como preparação para a enorme cortina de fumo suscitada pela suposta “saída limpa”. Mas Pedro Santos Guerreiro deixava perceber o incómodo com a vigarice propagandística, que estava em marcha. Em 3 de maio a propósito do fim do programa de ajustamento e da saída da troika escrevia: Foi para isso que vieram: para poderem sair. Se o país fica melhor ou pior já é assunto de quem cá fica. Eles fizeram o seu trabalho. O governo não. As reformas estruturais foram tão pouco reformas e tão pouco estruturais... A oportunidade foi perdida”.
Os entusiastas a austeridade não escondiam a desilusão: a despesa do Estado não fora reduzida à medida dos seus desejos, mantendo-se os custos com a educação, com a saúde ou com a segurança social muito acima do que pretenderiam. Por isso a recém-despedida Helena Garrido escrevia em 5 de maio de 2014 no «Negócios»: Não tenhamos ilusões. O futuro não vai ser mais fácil. Anunciar amanhãs que cantam, quando ainda temos de estar preparados para tempestades, é vender sonhos que se podem transformar em pesadelos”. E o ultraliberal João Vieira Pereira mostrava-se tão indignado nas páginas do «Expresso», que passava ao insulto: Sustentável em Portugal só há uma coisa, a estupidez”.
Hoje em dia todos estes elementos do coro pró-austeritário mantém-se muito ativos no combate ao atual governo, lançando-lhe anátemas sempre, que algo o parece enfraquecer - um bitaite do FMI ou de uma agência de notação financeira, uma décima a mais na taxa de desemprego ou uma posição mais divergente do Bloco ou do PCP.
O combate entre quem quer um país mais justo e igualitário e os que são pagos para, na comunicação social, o inviabilizarem está na ordem do dia. E não basta que o governo faça bem o seu trabalho, porque precisa de um nunca regateado apoio em todos os espaços onde ele possa sentir o respaldo do maior número possível de cidadãos, seja na rua, nas redes sociais e nas associações e organizações onde o Tempo Novo se possa expressar.

domingo, 17 de abril de 2016

Um outro cenário da crise dos refugiados

Sara Daniel é uma das mais conceituadas jornalistas francesas, autora de reportagens de referência nos mais diversos cenários de crise. No número do L’Obs» desta semana ela publicou uma reportagem sobre a escravatura a que as crianças sírias estão sujeitas na Turquia, esse país que dirigentes europeus acharam aceitável como parceiro na resolução do problema dos refugiados, mas responsável pela criação de toda uma geração de crianças analfabetas, condenadas a lumpenproletarizar-se para toda a vida e, principalmente a garantirem aos patrões a redução drástica do custo do trabalho por todo o país.
O que o regime criptofascista de Erdogan está a conseguir, com o beneplácito das democracias ocidentais é fazer-se potencial candidato à integração europeia - já não bastou a perversão aos ideais de Monnet ou Delors com a intromissão dos ex-países comunistas, quase todos defensores do que de pior subsiste como ideologia defensora da “mão invisível”! - mas também agudizar a exploração dos mais pobres pelos mais ricos.
Mas o que viu a filha do admirável Jean Daniel nas suas deambulações pela Turquia?
Em Kilis, aldeia situada a apenas 50 quilómetros de Alepo, conheceu Mohamed, um miúdo de 11 anos, que partiu a bacia ao cair das escadas da padaria onde trabalhava das seis horas da manhã às oito da noite mediante o pagamento de 30 euros mensais. Ora, ele e irmão gémeo são os únicos a auferir de um salário com que vivem oito membros da família ali refugiados.
Foi a primeira etapa de uma viagem destinada a confirmar que, aproveitando o afluxo dos refugiados, a Turquia dá preferencialmente trabalho às crianças porque são mais baratas, submissas e exigem ainda menos direitos do que os adultos.  E, no caso das raparigas, a realidade ainda é mais cruel, porque muitas são negociadas para casamentos definitivos ou temporários (o eufemismo para a prostituição) tão só chegam aos 8 anos.
Recentemente insígnias como a Next ou a H&M reconheceram vender produtos oriundos de fábricas turcas, onde trabalham crianças sírias. Nomeadamente utilizando máquinas-ferramentas sem proteções, que frequentemente lhes lesionam braços e pernas.
Na zona industrial de Antakya, Sara conheceu Houdaï, que pinta móveis à pistola, durante doze horas por dia, nos sete dias da semana. Aos doze anos está a morrer lentamente devido a um emprego, que lhe danifica os pulmões e o faz vomitar ao fim de cada dia. Na Síria esse miúdo de 12 anos era reconhecido na escola como tendo particular talento para a matemática. Agora sabe que nunca mais voltará a estudar.
Antes da «Primavera» enaltecida por uma corja de intelectuais franceses - com o sinistro Bernard Henri-Levy à cabeça - que mais não serviu do que de pretexto para a expansão jiadista por toda a região, a Síria de Bashar al Assad apresentava uma taxa de escolarização infantil de 99% para a escola primária e de 89% para a secundária, quer para rapazes, quer para raparigas, não havendo distinção entre ambos. Atualmente, das 700 mil crianças sírias refugiadas na Turquia apenas 1/4 permanece precariamente escolarizada.
Voltando a Houdaï, Sara conheceu-lhe a mãe, Asma, licenciada em economia pela faculdade de Alepo, que sobrevive graças ao trabalho dos três filhos, todos empregados na mesma fábrica, e cujo marido a abandonou, voltando para a Síria onde se terá casado de novo.
No andar por cima onde reside essa família, também vive Abdou, um miúdo de 11 anos, que trabalha numa tinturaria e recorda com saudade os tempos de escola onde sonhava vir a ser professor.
Depois de passar por Hacipasa, feudo do contrabandismo na fronteira sírio-turca por onde transitava o petróleo do Daesh, Sara Daniel conclui a sua viagem em Adana em cujas quintas são produzidos muitos dos produtos agrícolas consumidos nos mercados europeus.
No passado eram os curdos ou os anatólios que engrossavam os grandes exércitos de trabalhadores nómadas, que se deslocavam ao sabor das colheitas. Agora foram substituídos por uma nova classe de proletários agrícolas que cobram 7 euros pela jornada diária (menos ainda no caso das crianças!) em vez dos 20 anteriormente remunerados a quem os antecedeu e que, por isso mesmo, os detestam.
No acampamento Sara soube que as epidemias são crónicas e para as quais não há quaisquer medicamentos.
Chegados ao fim deste confronto com a realidade sórdida hoje vivida na Turquia - não esqueçamos que o sítio para onde estão a ser reenviados os refugiados que a Europa não quer nas suas fronteiras! - só podemos sentir maior repugnância pelos que continuam a falar de Assad como sendo um tenebroso ditador, quando já estão desmascarados os biltres, que o pretendiam substituir, nem que para tal tenham causado tanto sofrimento em grande parte da sua população.

A conquista noturna das praças

Algo de novo está a passar-se em França com o surgimento do movimento “Nuit debout”. Porque quando tudo apontava para uma provável vitória da direita nas presidenciais do próximo ano, são os jovens quem conquistam a rua e começam a fazer-se ouvir num protesto cada vez mais ensurdecedor. De repente surgem muitas dúvidas sobre vencedores anunciados, mormente sobre a capacidade de regeneração dos socialistas e dos seus potenciais parceiros à esquerda.
Essa mobilização decorre do desemprego larvar, que faz desesperar essa juventude, ciente de nenhuma das promessas de Hollande ou de Valls terem sido cumpridas. Pelo contrário, é essa mesma geração quem rejeita com maior indignação a proposta de retirar a nacionalidade aos suspeitos de terrorismo, que constitui exemplo revelador das sucessivas traições do suposto governo socialista aos valores fundamentais da República. O copo já cheio trasvazou com a nova lei do trabalho, que promete ainda maior precarização para quem tiver a sorte de satisfazer o direito a um emprego.
A leitura feita pelos contestatários é esta: já que qualquer governo eleito com as atuais regras ditas democráticas acaba sempre por subalternizar os interesses dos cidadãos, não será altura de mudar de sistema político?
A vitória de Jeremy Corbyn para a liderança do Partido Trabalhista inglês demonstrou a exequibilidade de tornar possível o almejado revigoramento da esquerda se a opção passar pelo escrutínio dos militantes e, sobretudo, dos simpatizantes em eleições primárias. Mas os líderes do novo movimento também estão atentos ao exemplo grego onde Tsipras perdeu momentaneamente o combate contra as instituições e certos figurões, que sempre  intentam reduzir o pluralismo, quando ele se torna demasiado incómodo.
Será muito interessante acompanhar este novo movimento, porque ele parece muito determinado a recorrer às estratégias bem sucedidas, que têm feito de Bernie Sanders um candidato surpresa à Casa Branca, mas também a não se distraírem do carácter maligno hoje assumido por grande parte dos atores radicados em Bruxelas, Frankfurt ou Estrasburgo. Contra os quais há que afinar a pontaria...

sábado, 16 de abril de 2016

Ousar o regresso à matriz histórica do Socialismo

Um dos grandes problemas, que se coloca atualmente ao Partido Socialista é a desafeição dos jovens da militância política. Os que a tal se propõem vão para o Bloco de Esquerda ou para o PCP, quando não mesmo para o CDS. E o PSD, até há pouco tempo, atraía os arrivistas natos, que viam na sua adesão a forma mais expedita de encontrarem um dos bens mais escassos do nosso tempo: um emprego.
Independentemente de começarmos a ver esses começarem a preferir o PS, porque orientam-se, inevitavelmente, para quem tem o poder, temos de convir que necessitamos de outro tipo de jovens: os que possam militar por acreditarem nas ideias de um projeto político. Por isso mesmo, para se renovar, o que o PS precisa é de inovar nas propostas em função de uma Visão para o futuro. Exige-se, pois, ideologia!
Por muito que apoiemos com entusiasmo esta solução governativa só a sabemos norteada pela eficácia na gestão pública  de acordo com princípios de maior equidade e justiça social. Mas isso não basta para criar um pensamento coerente capaz de galvanizar quem possa sentir-se tentado a participar na sua concretização.
Uma ideologia aponta para um futuro, de acordo com um diagnóstico do presente e fundamentada nas lições do passado. Ora, perante a inevitabilidade de uma sociedade baseada nas tecnologias de informação e, particularmente, com a robotização e automatização dos processos industriais e agrários, haverá que apostar noutro tipo de fiscalidade - não apenas focalizada em quem possui um emprego ou emprega alguém - mas sobre os produtos e serviços, que comercializa. Porque a intervenção humana na criação de riqueza do produto nacional tenderá a reduzir-se, o que significará o combate à precarização através de horários de trabalho mais curtos. O que dará ensejo a uma maior aposta no emprego em setores relacionados com o lazer e com a cultura em geral.
O objetivo será pois o de antecipar as políticas necessárias para se alcançar uma sociedade avançada, em que os valores republicanos da equidade, da justiça e da solidariedade possibilitem a aproximação à Utopia da grande sociedade igualitária.
Lenine disse um dia, que o comunismo seria o somatório do marxismo com a eletricidade. Desculpe-se-lhe a pressa em chegar a um desiderato, que o capitalismo ainda haveria de adiar por mais dezenas de anos com a transformação da estratégia imperialista na globalização, que constitui a fase derradeira da sua exequibilidade, porque a lógica era a de um crescimento permanente dos mercados, das massas monetárias em circulação e dos consumidores.
Ora, não havendo a possibilidade atual para se expandir para fora do planeta, ou morre de morte natural ou acelera um final caótico traduzido nas mais sinistras distopias - aquelas que têm a ver com os monstros à solta sob a forma de xenofobia e de outras formas de imposição da força bruta dos que têm possibilidade de a exercer sobre quem só pode reagir com a força da razão do seu número. Ou seja, voltamos ao marxismo puro e duro, em que a enorme massa humana de explorados e empobrecidos rejeita de vez a ganância dos especuladores e dos plutocratas.
Temos, assim, a definição de um futuro sob a forma de uma Utopia possível, de um presente marcado pela questão leninista do «Que Fazer» e a fundamentação teórica no marxismo, que nunca deixou de estar adequado à leitura da evolução das lutas de classes com as contínuas atualizações sobre quem representa os que aí eram definidos como «burgueses» ou «proletariados».
Quer isto dizer que o Partidos Socialistas deverão tornar-se comunistas? Obviamente que não, porque essa designação passou a conotar-se com uma visão cristalizada da História dessa ideologia e, nomeadamente, com o que constituiu um trágico acervo de erros - e foram milhões os que perderam a vida por causa da visão leninista de querer impor o futuro à força bruta sem existirem condições materiais e substantivas para ela se concretizar.
Não quer dizer que o marxismo mais as tecnologias da informação não deem razão ao que Vladimir  Ilich preconizara em 1920 no III Congresso da Konsomol. Como vimos com Galileu há ideias brilhantes, que só muito tempo depois se tornam óbvias.
Ficam aqui algumas pistas para a formulação de uma ideologia de que os socialistas tanto carecem. Porque deverão regressar à sua matriz fundadora - do marxismo até aos socialistas utópicos do séc. XIX, que estiveram da génese do primeiro Partido Socialista Português criado por Antero de Quental - e que até se verá facilitada pelo recente anúncio do Tempo Novo com a demais esquerda parlamentar com a qual é possível concertar o mesmo objetivo ideológico, ainda que por vias diversas.