domingo, 6 de outubro de 2013

ASTRONOMIA: o que se passa no interior do Sol?

No nosso sistema solar todos os planetas rodam no mesmo sentido que a estrela em torno da qual gravitam. E situam-se no mesmo disco plano em que ela se situa. E porquê? Porque, inicialmente, há muitos milhões de anos no seio de uma nebulosa, o sol e todos os planetas do seu sistema formaram-se a partir de um disco muito largo de materiais.
Uma vez constituída essa complementaridade entre uma protoestrela e os seus planetas só faltava a ignição daquela. Quando se deu, a transformação foi tão súbita, quanto irreversível!
E essa primeira libertação da fusão do materiais estelares libertou uma tal quantidade de energia, que começou assim a irradiação de luz no espaço de apenas alguns minutos. Foi um processo muito rápido!
Nessa explosão de luz a estrela passará a ser aquilo que será durante toda a sua vida: uma fábrica de produção de elementos químicos.
No mundo em que vivemos, cada átomo foi gerado no seio de uma estrela e compõe-se do mesmo elemento de base. O hidrogénio é o elemento químico mais simples. E é o principal componente de todos os demais elementos.
No interior do sol dois protões ou núcleos de hidrogénio fusionam para formarem hélio. Uma operação, que parece simples, mas apenas possível em condições extremas. É que quando esses protões comportam ambos cargas positivas não se aproximam facilmente. Só com temperaturas e pressões muito elevadas. Ora isso só se verifica na zona mais central do sol, ou seja no seu núcleo interior, que representa mais de metade da sua massa e apenas 2% do seu volume.
Nessa região as temperaturas atingem os 15 milhões de graus centigrados, e os protões colidem uns contra os outros, fusionando-se.
Um protão de hélio tem uma massa inferior à dos quatro de hidrogénio, que se fundiram para o formar. E como Einstein demonstrou, é essa pequena diferença, que corresponde à energia libertada.
Segundo a conhecida fórmula (e = mc2), ela equivale ao produto da massa com o quadrado da velocidade da luz.
Dado o valor da velocidade da luz, mesmo com uma pequena porção de massa, obtém-se uma enorme quantidade de energia. E é essa energia, que alimenta o nosso sol: em cada segundo cinco milhões de toneladas de matéria são nela convertidas no seu centro.
Isso significa que, mesmo contando já com mais de quatro mil milhões de anos de vida, a nossa estrela ainda só gastou metade das suas reservas de hidrogénio.
Ademais, a luz produzida nesse núcleo ainda tem de percorrer meio milhão de quilómetros até chegar à sua superfície. Ora, ela desloca-se muito lentamente: esse núcleo é tão denso, que ela só progride à razão de 1 milímetro por segundo. Precisa assim de 200 mil anos para fazer o trajeto entre o núcleo e a superfície do sol. Em seguida bastam-lhe apenas oito minutos para alcançar a superfície terrestre.
Numa aplicação prática, mesmo que terrível, do que se foi descobrindo sobre os fenómenos termonucleares, que se verificam no sol, a bomba H foi a primeira tentativa humana para os reproduzir utilizando o princípio de comprimir o hidrogénio suficientemente para que liberte uma enorme quantidade de energia. Essa invenção veio comprovar a correspondência entre as teorias científicas elaboradas na primeira metade do século XX e a sua execução prática.


MÚSICA: o caldo cultural de Nova Orleães



O jazz tem a ver com liberdade. Fala de uma espécie de libertação.
É claro que outros povos foram oprimidos nos EUA, ou sofreram brutalidades, mas apenas os afro-americanos foram escravizados. Por isso personificam a consciência e o legado histórico de não terem sido livres num país livre.
A partir de 1817 os escravos de Nova Orleães adquirem a autorização para, todos os domingos à tarde, cantarem e dançarem num local chamado Congo Square.
Aos olhos curiosos dos brancos, que ali os iam espreitar e ouvir, a música dos escravos, com os seus complexos ritmos de percussão, parecia oferecer uma visão genuína da cultura africana.
Mas a maioria dos escravos, que se reuniam ali, nunca tinha estado naquele continente. Muitos tinham acabado de chegar das Antilhas e a sua música tinha o som contagiante dos ritmos caribenhos.
Outros tinham sido trazidos para a cidade dos latifúndios do interior dos EUA e traziam consigo as canções de trabalho e os hinos religiosos das igrejas batistas.
Por essa altura Nova Orleães ainda abrigava uma comunidade muito singular e próspera de cidadãos negros livres, que se intitulavam os “creoles de cor”.  Muitos tinham a pele mais clara por serem descendentes de colonos franceses ou espanhóis e das suas esposas e amantes negras. Identificavam-se mais com as suas raízes europeias do que com as africanas e menosprezavam os negros de pele mais escura. Alguns até eram donos de escravos.
Muitos músicos dessa comunidade “creole” tinham formação clássica e orgulhavam-se de conseguirem tocar para todos os tipos de dança.
Segundo a primeira página do «Picayune Journal» de 1838 a nova mania de Nova Orleães era a música das cornetas e trompetes. Cidadãos de todas as etnias e nacionalidades acompanhavam os desfiles das bandas de metais pelas ruas, que eram invadidas para celebração de casamentos, funerais e datas festivas, sem contar com as seis a oito semanas da época do Carnaval, que todas as primaveras antecediam a festa do Mardi Gras.
Era uma cidade romântica: os vendedores ambulantes cantavam árias e existia uma verdadeira integração. Num mesmo quarteirão podiam conviver famílias italianas, negras, alemãs, crioulas e de quaisquer outras proveniências. 
Nova Orleães também tinha uma tradição boémia com jogos de fortuna e do azar, mulheres a exibirem os seus largos decotes, em contraste com as muitas igrejas e os cultos vudu.
Todas essas influencias misturavam-se na cidade. Havia quem não se conseguisse aturar, mas tinham de se obrigar a fazê-lo, porque partilhavam  a mesma cultura, a mesma tijela de “gumbo”.
Existiam, igualmente, os espetáculos dos menestréis com as suas canções camponesas, escritas por compositores brancos e negros para cantores brancos com o rosto pintado de negro e, ás vezes, em anos posteriores, por cantores negros caracterizados como brancos a fingirem-se de negros.
À primeira vista a tradição de menestréis americanos parecia reforçar os estereótipos raciais mas foi a forma mais popular de entretenimento durante cerca de oito anos a partir de 1840, produzindo a primeira fase da música popular americana.
Ainda hoje se conhecem e cantam as canções de Stephen Foster ou James Bland e contam-se anedotas clássicas desse período e dessa cultura.


LITERATURA: «Chegou a sua última hora» de Albert Ostermeier

Na Alemanha a rentrée literária trouxe consigo o novo romance de Albert Ostermeier: "Seine Zeit zu sterben" («Chegou a sua última hora»).
O cenário para a história é a “Streif”, uma das mais perigosas descidas do ski alpino. Uma vez por ano a cidade de Kitzbühel vive ao ritmo desse acontecimento:  a festa é permanente, o ambiente convida à descontração com muito champanhe e botox.
De início nada parece estar a acontecer, mas, pouco a pouco, vai começando a pressentir-se o cataclismo iminente. Que já terá ocorrido ou ainda irá suceder. Não se sabe.
Há um predador sexual, que fugiu da prisão e vagueia por ali e a mafia russa também espreita tudo quanto vai acontecer.
Até que, subitamente, num dos dias dedicados ao culto da neve e da velocidade, uma criança desaparece na pista. Aquilo que parecia um mundo quase perfeito voa em estilhaços, porque crescem as dúvidas: o que se terá passado? Um acidente? Um rapto? Ou talvez um drama familiar?
Num romance trepidante, passado num só dia, Albert Ostermeier conta uma corrida contra a morte que ameaça engolir tudo tal qual uma avalancha.
Na obra de Albert Ostermeier a morte é tema recorrente, talvez porque a paixão pela literatura remonta aos seus alunos de escola, quando leu «A Morte de Danton» de Georg Büchner pela primeira vez.
Iniciando-se nas letras como poeta e dramaturgo, já foi o autor residente do Teatro de Estado da Baviera (Bayerisches Staatsschauspiel) e do Burgtheater em Viena. Aos 45 anos é dos autores mais representados nos palcos germânicos. E tem sido diretor artístico em diversos festivais.
O seu primeiro romance «Zephyr» data de 2008, quando se interessou pela possibilidade de ficcionar o assassinato da atriz Marie Trintignant pelo namorado, Bertrand Cantat.


sábado, 5 de outubro de 2013

DOCUMENTÁRIO: «Menos é melhor» de Karin de Miguel Wessendorf

Karin Wessendorf realizou um documentário na primeira pessoa em que começa por manifestar a preocupação com a pegada ecológica relacionada com as suas práticas quotidianas. Feito o cálculo, embora melhor do que a média relativa à dos cidadãos europeus, o resultado ainda está aquém do que julga desejável. Até porque continua a comer carne com demasiada frequência, a comprar produtos importados e a substituir o telemóvel quando surge novo modelo.
Ela tem a consciência da necessidade de ver limitado o crescimento para se alcançar uma vida melhor. Porque a explosão demográfica, a crise energética  ou o aquecimento global colocam questões, que não podem ser adiadas. Por isso mesmo vai documentar práticas seguidas em vários países europeus, que vão no sentido de reduzir o consumo e a produção de lixo urbano.
Niko Paech, professor universitário de Oldenburg, reduziu a sua pegada recorrendo exclusivamente a transportes públicos para todas as suas deslocações. Também ele salienta a importância de contribuir individual e coletivamente par ao objetivo de tornar sustentável o futuro da Humanidade.
Em Lyon, Karin visita a sede do jornal «La Decroissance», que é o porta-voz dos que se consideram “objetores do crescimento”. Por isso fazem compras em lojas de produtos biológicos aonde o condicionamento das mercadorias é o mais simplificado possível e exclui qualquer utilização de sacos ou embalagens de plástico. Os militantes da associação com o mesmo nome também defendem a paragem imediata de todas as linhas de produção da indústria automóvel, o que teria um impacto imediato em termos de dois milhões de empregos perdidos, mas que eles entendem compensáveis através da generalizada redução do horário de trabalho.
Um dos seus anfitriões, Jean Marc, leva-a a ver o seu estilo de vida, em que racionalizou ao máximo o consumo restringindo-o ao estritamente imprescindível. Fazendo entregas de documentos e pequenas mercadorias, ele trabalha em part-time, recebendo 800 euros mensais, que lhe bastam para as suas necessidades. Com o tempo livre, que passou a ter, Jean-Marc passou a dedicar-se mais intensivamente ao voluntariado ou ao ativismo ecológico, como é o caso de uma ação de apagamento forçado de todos os néones publicitários nas ruas da cidade.
De Lyon, Karin segue para Barcelona onde funciona um mercado de produtos em segunda mão, mas onde vigora a lógica da troca direta em vez do recurso ao dinheiro. Ou os ateliês em que se aprendem formas de cumprir o lema de «reparar é melhor do que renovar» equipamentos eletrónicos ou de telecomunicações.
Ainda noutro local da Catalunha, Karin visita a comunidade de Com Masdeu, aonde os 27 cooperantes partilham esforços para conseguirem ser o mais possível autossuficientes em tudo quanto necessitam a nível da sua alimentação, reciclando todos os seus dejetos. Conseguem assim reduzir ao mínimo o seu consumo de energia. Testemunha um desses cooperantes: Vivemos num mundo em que dependemos sempre dos outros para resolver os problemas. Em Com Masdeu é-se instigado a resolver os problemas por nós próprios.
Esses estilos de vida, que correspondem a uma atualização das práticas hippies dos anos 60 e 70, permitem criar novas redes alternativas para a produção e distribuição dos bens de consumo, fomentando relações humanas de maior qualidade e o acesso a alimentos mais saudáveis.
A deambulação de Karin vai concluir-se em Totnes, na Inglaterra, que já é uma das mil e quinhentas cidades europeias apostadas na transição. O objetivo é conseguir a completa libertação da dependência do petróleo até 2030.
Um dos mentores do projeto justifica: a energia barata está a acabar, já que se gastam cada vez mais recursos para a produzir.
Os habitantes de Totnes acreditam na iminente inversão da tendência para a globalização com uma revalorização da produção de produtos locais em detrimento dos que nos chegam atualmente das diversas latitudes.
Por isso criaram pomares e hortas comunitárias e generalizaram o recurso a painéis solares instalados nos telhados de quase todas as casas. Muito embora nem todos as propostas do município tenham tido a aprovação dos seus eleitores: a ideia de instalação de duas turbinas eólicas foi preterida em nome do impacto na paisagem.
Quando conclui o seu périplo, Karin interroga-se: o seu esforço individual em reduzir a sua pegada ecológica terá algum efeito prático ou não deverão ser as autoridades de cada país a preocuparem-se ativamente nesse objetivo coletivo?
A sociedade de consumo já não cumpre a promessa de assegurar uma boa qualidade de vida aos seus cidadãos e a crise atual constitui a oportunidade para repensar o sistema social e económico em que vivemos.


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

FILME: «Além da Estrada / Por el Camiño» de Charly Braun (2010)



Desde que «Easy Rider» estabeleceu o cânone do género na sétima arte, os road movies dependem de três fatores fundamentais: o tipo de pessoas, que os protagonistas vãoencontrando ao longo da estrada, a natureza das paisagens e a qualidade da banda sonora.
Quanto às duas últimas vertentes o filme de Charly Braun é excelente: as paisagens do Uruguai são de uma beleza de tirar o fôlego em certos momentos e a música, retirada da cultura hippie dos anos 70  e de quantos por ela foram influenciados posteriormente, ouve-se com agrado.
Quanto à história em si dos encontros e desencontros de Santiago e Juliette com os seus sucessivos interlocutores, é básica, muitas vezes confrangedora a nível dos diálogos, mas vai-se aguentando até à comprovação do que já sabíamos: a viagem constitui sempre a oportunidade de transformação de si próprio.
Não foi um filme memorável quanto à sua qualidade, mas garantiu hora e meia de entretenimento muito agradável...


POLÍTICA: façamos coincidir o riso inteligente com a nossa justa indignação!

Foi Albert Memmi quem disse que, quando o desesperado não tem outra solução, ri. Daí que ele tenha contado esse ambiente de galhofa existente em certos momentos dos que sofriam o cerco nazi ao gueto de Varsóvia, cientes de estarem confrontados com um destino incontornável.
Aqui, em certas alturas, também rimos desbragadamente com a forma como alguns dos nossos melhores humoristas vão cuidando de espelhar a realidade. Nesse sentido a visão quotidiana do «Inferno» no Canal Q ou a leitura do seu associado «Inimigo Público» tem propiciado material de uma enorme riqueza para testemunhar os dias que correm pelo lado da mais fina ironia.
Há dias, precisamente nesse programa do canal das Produções Fictícias, o Doutor Pina constatava que, respondendo ao Primeiro-Ministro, o Tribunal Constitucional demonstrava o quanto a nossa Lei Fundamental muito faz pelos desempregados, já que acabara de ilegalizar os despedimentos concretizados à conta de uma lei, que os facilitava.
Por seu lado, no «Negócios», João Quadros recomendava outra atitude para com a troika constatando: “na minha modesta opinião, nós já não estamos em condição de pedir. Ou exigimos, ou não vale a pena. Eles estão cá há dois anos, já não fazemos cerimónia. Seja como for, para quê pedir para flexibilizar o défice (de 4%) se nós não o vamos conseguir atingir? A flexibilização vai acontecer de forma natural.”
E, noutro exemplo, delicioso, Ricardo Araújo Pereira, treslia a realidade de forma mordaz na «Visão»: “o BPN não é o pior banco português. É o melhor. Em toda a história da banca portuguesa, foi a única instituição a merecer a confiança de todos - mesmo todos - os portugueses.
Não há nenhum português que não tenha dinheiro depositado no BPN. Sem grandes campanhas publicitárias nem ofertas mirabolantes, conseguiram que todos os portugueses pusessem lá dinheiro.
Em vez de condená-los, vamos aprender com eles!”
Perante estes exemplos façamos votos para que o riso inteligente continue a fazer parte da nossa justa indignação!


POLÍTICA: a banalidade do mal também mora aqui!

Agora que já chegou aos ecrãs de Lisboa e do Porto o filme biográfico de Margarethe von Totta sobre a personalidade de Hannah Arendt, vale a pena resgatar a sua expressão relativa à “banalidade do mal” para - mesmo extraindo-a do seu específico contexto - a aplicarmos à situação atual.
Recordei essa expressão, quando vi o irrevogável paulo e a falaz marilú a tecerem loas às avaliações da troika e à suposta inflexão do rumo da economia e das finanças nacionais na direção do desastre.
Na boca de alguém que levou quatro dias a dar um novo sentido a uma palavra, que julgáramos conter uma decisão irreversível, e da da sua parceira de mistificação, que se revelou de uma indignidade tamanha, que saneou colegas de (des)governo por terem cometido faltas tão graves ou até menores que as suas na contratação de swaps, a credibilidade do discurso do sucesso da estratégia austeritária vale o que vale.
Mas a expressão de Hannah Arendt faz sentido por não se compreender como foi possível à direita, coligada com os comunistas, os bloquistas e uma comunicação social de deontologia mais que duvidosa, demonizarem José Sócrates por casos para os quais jamais encontraram a mínima prova, e, agora, situações bem mais graves devidamente comprovadas, não merecerem idêntico tratamento.
Nos períodos em que os socialistas eram governo, bastavam indícios de comportamentos menos éticos - vide o sucedido com Armando Vara ou com Manuel Pinho - para que os visados tivessem a hombridade de se demitir.
Agora o país parece assistir impávido e sereno às relapsas “inverdades” de machete, às mentiras e estranhos extravios de documentos (depois encontrados sem explicações consistentes!) de marilú e às ridículas atitudes de portas, igualmente poupado na suspeita história dos submarinos, como se fossem de uma absoluta banalidade.
A ética republicana é coisa estranha a essa gente. E, por isso mesmo, estamos carecidos de uma vigorosa barrela, que não só varra tanto lixo para o caixote respetivo, como devolva aos portugueses a capacidade de se indignarem com o que não corresponda às virtudes esperadas em quem está comprometido com o serviço público.


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

POLÍTICA: eu também acho que devemos mandá-los porem-se finos!

Sinto-me completamente identificado com o deputado Pedro Nuno Santos no artigo hoje publicado no «i» («Resgate sem Austeridade»), quando expressa o que espera do Partido Socialista quando, muito em breve, se anunciar o segundo resgate.
Reiterando o que ontem aqui escrevi («Cortam-se cabeças, mas a “festa” do césar das neves está aí a chegar») existirão muitos socialistas a insurgirem-se contra quem, dentro do Partido, mostrar tibieza perante as novas chantagens, que não deixarão de vir de Belém, de Bruxelas, de Frankfurt e, menos provavelmente, de Washington.
O que se adivinha a curto prazo exigirá fibra a quem lidera o Partido Socialista. Por isso subscrevo por inteiro o juízo de Pedro Nuno Santos quando ele afirma que esse será o momento definidor do PS, na sua afirmação como alternativa ao governo PSD/CDS e à sua política austeritária.
E com a forma como conclui o seu texto: O Partido Socialista só precisa de reafirmar nesse momento o que tem dito nos últimos anos sobre austeridade: “Não funciona, destrói a economia e afasta-nos cada vez mais dos objetivos de consolidação orçamental.” Também deve dizer que só aceita um segundo resgate se a filosofia subjacente for absolutamente alterada e levar em consideração muitas das conclusões dos estudos internos do FMI. Isto é, só deve aceitar o segundo resgate se os objetivos principais do mesmo forem o crescimento económico e o desemprego e não o défice orçamental e a dívida pública. Estes últimos devem passar a ser objetivos secundários e subordinados aos dois primeiros. Deve também exigir como condição prévia uma reestruturação significativa da dívida pública, como sempre defendeu o FMI. Menos do que isto não pode ser aceite por um partido socialista.’


DOCUMENTÁRIOS: Povos em perigo

É um fenómeno em imparável aceleração nos cinco continentes como consequência da globalização: os povos tradicionais estão a perder a sua cultura, as suas línguas e os seus costumes. Na prática estamos a ver uma parte da humanidade a desaparecer à medida que os povos vão sucumbindo ao avanço da civilização industrial e da urbanização.
Há saberes que vão desaparecendo: das seis mil línguas, de que a Unesco reconhece a existência, uma desaparece em cada quinze dias. A este ritmo 80% desaparecerão nos próximos dois séculos.
Foi perante esta realidade, que o canal franco-alemão ARTE decidiu apresentar, no sábado transato, um conjunto de documentários, que terão plano cabimento em museus de etnologia, por corresponderem a testemunhos imprescindíveis de mundos em extinção.
Porventura um dos mais interessantes terá sido «Papuas entre dois mundos», que Daniel Vigne rodou em 2012 e tendo por foco os percursos de dois homens muito diferentes um do outro, mas ambos a enfrentarem a ameaça da modernidade.
Adicionar legenda
Benneth vive com os pais na cidade, que lhe propiciaram educação escolar, mas não lhe conseguem resolver quer os problemas de identidade, quer o do desemprego. Daí que tenha optado por regressar à sua tribo para reencontrar o almejado sentido da vida na identidade descaracterizada pela realidade urbana.
Decidido a levar o seu projeto até ao fim, ele acede a percorrer o difícil transe da iniciação pela qual se sujeitará à escarificação da sua pele de forma a tornar-se num “homem-crocodilo”.
Outra é a estratégia de Jethro, que se inclui na cultura moderna dos “indignados”, e luta contra a instalação da mina de ouro de Porgera que, a exemplo de outros negócios de multinacionais, exclui os papuas do seu próprio território, condenando-os á indigência mais extrema.
Num documentário de apenas 33 minutos, o reconhecido Raymond Depardon coadjuvado por Claudine Nougaret, procura dar voz a quem vê a sua cultura à beira da extinção. Em «Dar a Palavra» eles deram voz a nove homens e mulheres, que em palavras muito simples expressas em chipaya, kawespar, quéchua, mapuche, guarani, yanomani, afar, bretão e occitano, revelam a sua ligação á terra natal, à língua que sentem desaparecer e aos seus modelos de vida postos em causa pela sociedade moderna.
Trata-se de um documentário, que constitui uma boa introdução à exposição, que Depardon irá protagonizar no parisiense Grand Palais a partir do próximo mês.
Em 2012 Yves Maillard assinou «Duas Vidas Inuit», onde Johnny May, o primeiro piloto aviador inuit, dá conta da evolução por ele constatada no último meio século, quando a modernização veio suscitar uma autêntica revolução nos costumes do seu povo.
A sua sedentarização forçada e o massacre dos cães, que costumavam puxar os seus trenós, puseram um termo às suas tradições, assentes no nomadismo e na caça. Hoje veem o aquecimento climático abrir o Ártico aos promotores e especuladores e dificultarem-se as condições de preservação da sua identidade.
Igualmente datado do ano transato, «A Língua Esquecida da Amazónia»  foi assinado por Randall Wood e Michael O´Neill. O tema é surpreendente: no interior da floresta amazónica existe uma linguagem misteriosa, cuja decifração é muito recente, obrigando o ex-missionário Daniel Everett a viver com os Piraha durante trinta anos. Tempo bastante para admirar profundamente esse povo excecional, que não tem palavras para os números nem para as cores e que não se preocupa minimamente com o passado nem com o futuro. E que, claro, muito menos sente a falta de um qualquer deus!


ASTRONOMIA: buscar nas nebulosas distantes a explicação sobre a criação do Sistema Solar

Qual será a potência existente no interior do Sol? Quanta energia é dele libertada?
Os cientistas recorrem a aparelhos muito simples para encontrarem respostas para essas questões através da leitura dos raios solares.
Uma das experiências mais conhecidas relacionadas com esse objetivo foi efetuada pelo astrónomo William Herschel no século XIX. Ele congeminou o que resultaria da observação de um pedaço de gelo com meio centímetro de espessura, que acompanharia no seu processo de liquefação enquanto sujeito à ação dos raios solares.
Conhecendo as propriedades do gelo ele viu nessa experiência a forma mais expedita de quantificar os raios solares, que chegavam ao solo terrestre.
Através da medição do tempo, Herschel considerou possível a medição da potência total do Sol! E calculou-a em 1027 watts, o que se aproxima do que se aferiu como sendo o valor mais provável: 4 x 1026 watts.
O Sol emite uma quantidade quase incalculável de energia. Pudéssemos armazenar a que é libertada num só segundo e ficaríamos com energia suficiente para alimentar as necessidades terrestres durante um milhão de anos.
Mas conhecer a quantidade de energia libertada pelo Sol nada nos diz quanto à forma como ela é gerada.  Até meados do século XX os cientistas não faziam a mínima ideia de como isso sucedia. O funcionamento do Sol era uma verdadeira incógnita.
Como seria alimentado o Sol para desenvolver tamanhas quantidades de energia? Gente muito respeitável sugeriu que pudesse estar a funcionar mediante a queima de carvão!
Hoje poderemos pensar quão ridícula era a sugestão, mas enquadrando-a numa época em que toda a indústria funcionava à base da queima do carvão, concluiremos que até fazia algum sentido.
Mas se o Sol fosse totalmente constituído por carvão as consequências seriam extremamente aborrecidas: em apenas alguns milhares de anos a nossa estrela consumir-se-ia totalmente.  Mas, há duzentos anos, ainda se julgava que a Terra não contava com mais do que precisamente alguns milhares de anos.
Mas, a meio do século XIX, surgiram desenvolvimentos por parte de outro ramo científico, que iria revolucionar o que então se presumia sobre a idade da Terra. Estudando as camadas geológicas de falésias desenhadas pelo tempo, os geólogos concluíram que a idade da Terra excedia tudo quanto até então se pudera imaginar. O que implicaria necessariamente na conclusão de contarmos com o Sol a brilhar durante todos esses milhões de anos!
Ao estudarem os estratos das montanhas e os fósseis aí conservados, os cientistas concluíram que a Terra contava só por si com mil milhões de anos de idade.
Para os astrónomos era inevitável a necessidade de se encontrar outra explicação, que não o carvão, para entender o que estaria a alimentar a energia solar.
Só cerca de cem anos depois é que os cientistas encontraram a resposta nas forças que asseguram a coesão dos átomos e na própria natureza da matéria.
Mas interroguemo-nos quanto à composição do Sol. O que nos obriga a olhar mais aproximadamente para a luz em si.
Quando se faz passar a luz do Sol através de um prisma e a decompomos em diversas cores, vemos que ela não é uniforme: existem zonas mais sombrias. Cada uma das quais corresponde a um elemento químico em particular.
Cada elemento tem a sua série de regras: absorvendo a luz a uma frequência distinta, provocando um escurecimento no espectro solar.
À medida que a luz viaja através do Sol, todos os elementos deixam a sua marca. Assim, quando a luz chega à superfície terrestre, traz consigo toda a fórmula química que constitui o Sol.
Se se amplificar o espectro para lhe conhecer os detalhes vemos todas essas zonas mais escuras. E para saber em que quantidade é que esses elementos estão presentes, mede-se a largura e a espessura dessas zonas.
A constituição química  do Sol assemelhar-se-á então a uma espécie de código de barras. Ferro, magnésio, hélio, mas sobretudo hidrogénio, de que o Sol é constituído em 90%.  O que não admira: o hidrogénio é o elemento mais simples e abundante no Universo.
O segredo do enorme potencial de energia do Sol estaria pois nesse gás. Se observarmos o céu através de um telescópio vemos enormes nuvens de hidrogénio a distâncias colossais: são as nebulosas, que podem estender-se por centenas de anos-luz.
Iluminadas pela intensa radiação de estrelas maciças acabadas de nascer, as nebulosas estão entre as mais claras porções do céu visível.  Constituem verdadeiras fábricas de criação de novas estrelas.
Não admira que muitos dos astrónomos as estudem para compreender como se formam as estrelas.
Estudando várias nebulosas podem-se compreender as diversas fases por que passam as estrelas, quando estão em estado de  germinação.
Tudo começa numa nuvem escura e fria, que vagueia pelo espaço.  Tratam-se de nuvens muito estáveis, porque podem passar-se milhares e milhares de anos sem que nelas nada aconteça. Porque é necessário um detonador para que se acelere o dispositivo de criação de novas estrelas. Pode ser, por exemplo, os efeitos de uma onda de choque resultante da explosão de uma supernova. As ondas de compressão disseminadas em todas as direções por uma estrela acabada de explodir vão ao encontro dessas nuvens de gás, segmentando-as em partes bastante mais densas. É aí que se formam os embriões das estrelas.
O aumento da força de gravidade nuvens mais pequenas atraem ainda mais hidrogénio.  A sua compressão progressiva ao longo de um milhão de anos provocará o seu aumento de temperatura.
A nuvem, por essa altura, ainda não irradia luz, mas não tardará a converter-se numa pequena estrela.  À medida que ela vai rodando, ela vai expulsando um conjunto de materiais, que irão constituir o seu sistema planetário.
Foi exatamente assim, que se formou o nosso sistema solar...


FILME. «Skyfall» de Sam Mendes (trailer)

FILME: «Skyfall» de Sam Mendes

Não frequentando habitualmente o cinema de ação - que, ora tende para leituras ideológicas controversas, ora, na melhor das hipóteses, para estéril entretenimento - decidi-me a ver «Skyfall», dias depois de gastar duas horas com o «Jack Reacher», interpretado pelo Tom Cruise.
Guiou-me a mesma razão que um conhecido historiador comunista, que inibia o filho adolescente (hoje respeitável humorista desta praça!) de ver os «Rambos» desse tempo, mas abria exceção para os não menos suspeitos filmes do agente 007.
Eu pecador me confesso de me divertir bastante a ver muitos dos filmes desta série já com mais de cinquenta anos de presença cinematográfica, sobretudo quando interpretados por Connery, Brosnan ou Craig.
É claro que, enquanto espectadores, somos obrigados a engolir cenas de uma exagerada inverosimilhança, mas se nos alhearmos dessa incontornável inevitabilidade, nota-se o dedo de um realizador muito respeitável como o é Sam Mendesneste mais recente filme da série.
Ademais, se pretendermos conferir alguma caução intelectual ao que começou por ser mero divertimento, podemos sempre aprofundar os ecos de tragédia grega pressentíveis na história através da revolta contra-edipiana de um “filho” para com a putativa “mãe”. Porque o que move o vilão Silva, interpretado por Javier Bardem, não é mais do que uma vingança definitiva contra M, que o abandonara à sua sorte, quando ele estava em risco de vida numa missão na então China comunista. Ela que representava para ele a figura maternal, traíra-o, quando se tratara de tomar opções.
Nesse sentido Silva é o contraponto de Bond, que vemos, logo no início do filme, a passar por uma situação semelhante - quase morre, porque entre perder um ficheiro precioso com a identidade dos agentes do MI6 junto de inúmeras organizações terroristas e o seu agente preferido, M preferira esta última possibilidade.
Bond teria, pois, tantas razões para se vingar de M, quanto Silva, mas isso significaria abdicar de uma perspetiva de lealdade para com a organização, que o recolhera na condição de órfão e lhe dera a «educação» necessária para se vir a tornar no espião com licença para matar.
Existe, pois, algo de luta entre Abel e Caim nas batalhas sucessivas que se decidem em Skyfall, na Escócia, naquela que fora a casa familiar de Bond até à adolescência, quando então não pudera impedir o assassinato dos progenitores.
Como de costume existem perseguições com carros, motas e dentro de comboios ou metropolitanos. Cenas memoráveis como as passadas nos telhados do Grande Bazar de Istambul, numa torre de escritórios de Xangai iluminada pelos néons dos anúncios ou com a orgasmática sucessão de explosões na quinta escocesa.
E ainda os desempenhos de gente irrepreensível como o são Craig, Judi Dench, Bardem ou Finney.
Passadas mais de duas horas de animado alheamento de toda a conjuntura inquietante, que nos afeta todos os dias, podemos voltar a essa realidade cientes de que seriam precisos dotes de superagentes secretos para eliminar de vez as troikas, as agências de rating, os banqueiros, os especuladores financeiros e toda a chusma de vilões, que usam toda a sua artilharia para nos atrapalharem a vida.



POLÍTICA: cortam-se cabeças, mas a “festa” do césar das neves está aí a chegar

Passaram dois dias sobre as autárquicas e o PSD anda reunido a discutir que cabeças cortar por causa da sua indisfarçável derrota. Mantendo a cabeça na areia para não ver os efeitos que a pretérita e a iminente futura austeridade irá causar - quando já se conseguem divisar as eleições europeias a baterem à porta! - vê-se  condenado a assinar o segundo resgate com o seu irrevogável parceiro de coligação. Porque os números do INE indiciam-no: chegaremos ao final do ano com uma dívida a rondar os 128% e com um défice da contabilidade nacional a dificilmente cumprir a meta flexibilizada pela troika. E também, porque perante as permanentes chantagens dos credores, optou pelo perfil baixo de quem tudo acata e nada discute!
Daí as palavras seráficas de poiares maduro a convidar o Partido Socialista a juntar-se à “festa”, que a troika, ou o duo Comissão Europeia e BCE, se preparam para organizar. A tal panaceia com que o césar das neves já sonha todas as noites, a imaginar enfim possível a imposição de uma nova Constituição tal qual a gizada por paulo teixeira pinto há quase três anos!
Não faltará então quem pressione António José Seguro a pôr fato e gravata para entrar nessa farsa. A começar no inquilino do Palácio de Belém e a terminar na panóplia de comentadores televisivos, que não deixarão de acusar o secretário-geral socialista de desprezo pelos “superiores interesses da Nação” para defender os do seu partido.
E será esse o momento em que Seguro será confrontado com o momento mais decisivo da sua carreira política: ou sairá da História pela porta pequena dos dirigentes transitórios, incapazes de grandeza, quando ela lhe é exigida, ou desmentirá todos (incluindo a minha pessoa!) quantos pensam, que lhe falta fibra para ser um verdadeiro líder, e joga forte com a cartada que Papandreou tentou e de que saiu chamuscado: ameaçar com a saída do euro!
Porque merckel, draghi e Cª temem que a coragem de um pequeno país deite abaixo o periclitante castelo de cartas em que se sustentam! E ainda estamos para ver como reagirão se essa eventualidade se vier, de facto, a verificar...