Se o
Iluminismo histórico priorizou a vontade geral como o pilar legítimo de
governação, o Dark Enlightenment perspetiva a democracia universal não
como um feito civilizacional, mas como um erro estrutural. Na perspetiva
neoreacionária, o princípio "um cidadão, um voto" é a causa primária
do declínio das sociedades ocidentais. Argumenta-se que a democracia representativa
atrai a mediocridade, incentiva o curto-prazo eleitoral e gera uma espiral
ineficiente de redistribuição de recursos, na qual a maioria vota para
expropriar a riqueza criada por uma minoria produtiva.
Este
diagnóstico não resulta de uma mera discordância partidária, mas da aversão pelo
conceito de política enquanto espaço de deliberação coletiva.
Para os
ideólogos do Neoreacionarismo, a política pública é intrinsecamente irracional,
ruidosa e propensa à demagogia. A ideia de que o destino de infraestruturas
complexas, de redes financeiras globais e do desenvolvimento tecnológico deva
ser decidido por cidadãos comuns é vista por esta elite como uma aberração
perigosa.
A
democracia, portanto, deixa de ser tratada como um valor universal e passa a
ser qualificada como um "sistema operacional" ultrapassado, obsoleto
e incapaz de responder à velocidade da aceleração tecnológica contemporânea.
Para
substituir o modelo democrático, o movimento neoreacionário propõe uma
alternativa inspirada na estrutura das corporações de Silicon Valley: a
conversão do Estado numa empresa privada e mercantilizada.
Neste
modelo, teorizado originalmente por Curtis Yarvin sob o nome de neocameralismo,
a figura do Presidente eleito e do Parlamento deliberativo é abolida. Em seu
lugar, o Estado passa a ser propriedade de acionistas soberanos que nomeiam um
Diretor-Executivo (CEO) com poderes absolutos. Este CEO State não
presta contas a um eleitorado, mas ao conselho de administração. A eficiência,
a rentabilidade do território e a otimização dos recursos tornam-se as únicas
métricas de sucesso do governo.
Sob esta
lógica, o cidadão perde a sua dimensão política e é rebaixado à condição de
mero cliente. Se o "cliente" aprecia os serviços fornecidos pelo
Estado-Empresa — segurança, infraestrutura, estabilidade —, permanece no
território e paga a sua taxa de subscrição (os impostos). Se está descontente,
a única opção não é o protesto, a greve ou o voto, mas o exercício do
"direito de saída" (exit): emigrar para a jurisdição de outro
Estado-Empresa.
A
liberdade é assim redefinida de forma estritamente mercantil — não como o
direito de participar na construção das leis que nos regem (voice), mas
como a simples liberdade de consumo num mercado global de feudos soberanos.
A
viabilização do Estado-Empresa depende de um ingrediente fundamental que não
existia nos séculos anteriores: a automação da governação através da algoritmia
de grande escala e da inteligência artificial.
Na utopia
tecnocrática do Iluminismo das Trevas, a política é substituída pela
administração de dados. Se os problemas sociais forem reduzidos a variáveis
matemáticas e modelos de otimização, elimina-se a necessidade do debate
ideológico. O algoritmo apresenta-se como um juiz neutro e infalível, capaz de
alocar recursos, gerir fluxos migratórios, prever criminalidade e gerir a
economia sem a interferência das paixões humanas ou das exigências sindicais.
Esta
"governação por código" visa anular o conflito social. A discordância
deixa de ser vista como expressão legítima da contradição de classes e passa a
ser classificado como uma anomalia técnica, um "ruído no sistema" ou
um comportamento ineficiente a ser corrigido por via de sanções digitais
automáticas — desde a restrição do acesso a serviços até à morte financeira
digital do indivíduo através do bloqueio de contas e plataformas.
A
consequência inevitável da conversão do Estado em empresa e da política em
algoritmo é a validação e o aprofundamento das hierarquias sociais.
O
Neoreacionarismo rejeita categoricamente o ideal de igualdade humana. Defende
uma visão estritamente determinista e hierárquica, onde a posição de cada
indivíduo na pirâmide social é vista como o resultado natural do seu valor
funcional ou biológico para o sistema.
A
oligarquia que emerge deste processo não sente qualquer dever moral de
solidariedade para com os desfavorecidos. A redistribuição da riqueza é vista
como um desperdício de capital que deveria estar a financiar a próxima vaga de
inovação tecnológica. Aqueles que não contribuem para a aceleração do capital e
da tecnologia tornam-se populações excedentárias, geridas de forma securitária pelas
infraestruturas digitais de controlo.
O ódio à democracia é, em última análise, o medo da igualdade. Ao desmantelar as instituições representativas, o Iluminismo das Trevas procura blindar a riqueza e o poder da nova classe dominante, assegurando que o rumo da humanidade seja traçado, à porta fechada, por um punhado de oligarcas e seus algoritmos.

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