domingo, 23 de agosto de 2026

O Iluminismo das Trevas - I - Do Neoliberalismo ao Neoreacionarismo

 


(Primeiro de uma série de textos sugeridos pelo excelente podcast de Mariana Mortágua no “Publico” – “ Senhores do Algoritmo” - que muito informou sobre o tema)

 

O Iluminismo histórico — aquele que emergiu no século XVIII — assentou a sua promessa num tripé fundamental: a emancipação do indivíduo pelo conhecimento, a crença na igualdade de direitos e a construção de instituições democráticas capazes de conter a arbitrariedade do poder absoluto.

Foi uma revolução contra a herança do privilégio de sangue e contra a tirania da autoridade inquestionável.

No entanto, nas entranhas do pensamento político e económico do século XXI, gerou-se um movimento de inversão radical que utiliza as próprias ferramentas da razão e da tecnologia para desmantelar este legado. É o chamado Dark Enlightenment (Iluminismo das Trevas) ou Neoreacionarismo (NRx).

Para compreender esta corrente, é necessário recuar à matriz do neoliberalismo da segunda metade do século XX, em particular à vertente formulada pela Escola de Chicago e por pensadores como Milton Friedman.

O neoliberalismo de Friedman nunca foi meramente uma teoria económica; foi um projeto de reestruturação da sociedade onde a liberdade de mercado passou a ser erigida como a única tangível. Contudo, na sua fase clássica, o neoliberalismo ainda mantinha uma aliança pragmática com o ecossistema das democracias liberais ocidentais. Afirmava-se, contornando contradições, que o capitalismo de livre-mercado conduziria inevitavelmente à expansão da democracia política.

O Iluminismo das Trevas nasce do momento em que essa aliança é rompida pelos próprios herdeiros do libertarianismo e do capital financeiro-tecnológico.

A tese central da mutação neoreacionária é simples e brutal: a democracia e o capitalismo de livre-mercado deixaram de ser compatíveis. E, no impasse entre a soberania popular e a aceleração do capital, a democracia deve ser descartada.

Criado nos fóruns da internet, em blogs intelectuais da década de 2000 e nas margens de prestigiadas universidades e laboratórios de reflexão americanos, o movimento Neoreacionário ganhou corpo teórico através de figuras como Curtis Yarvin (que escreveu sob o pseudónimo Mencius Moldbug) e o filósofo britânico Nick Land, um dos pais do Aceleracionismo.

Yarvin introduziu o conceito de "A Catedral" para descrever o consenso liberal-democrático, académico e mediático que governa o Ocidente.

Na ótica neoreacionária, a "Catedral" é uma estrutura ineficiente, moralista e burocrática que promove a igualdade como uma ficção prejudicial e bloqueia a verdadeira inovação. O sufrágio universal é visto não como uma conquista de cidadania, mas como um mecanismo de degeneração onde o Estado é capturado por exigências redistributivas da maioria, enfraquecendo a capacidade de liderança dos mais capazes.

Esta rutura marca a transição do libertarianismo tradicional para o absolutismo corporativo. Se o libertário clássico desejava a minimização do Estado em nome da autonomia individual, o neoreacionário conclui que a ausência de um poder forte conduz ao caos democrático.

A solução proposta não é o regresso ao passado feudal por saudosismo, mas a reinvenção do absolutismo através da tecnologia: o Estado deve deixar de ser um corpo político eleito e passar a ser gerido como uma empresa privada.

A gestação destas ideias não ocorreu num vácuo abstrato. Encontrou solo extremamente fértil nos corredores da academia e nas incubadoras de Silicon Valley, onde a cultura da "disrupção" já alimentava o desprezo pelas regras normativas da política tradicional. O ethos do capitalismo de libertação tecnológica — que celebra o fundador de startups como um herói quase divino — absorveu rapidamente o léxico neoreacionário.

Neste ambiente, a noção de que os melhores problemas são resolvidos por engenheiros e algoritmos, e não por debates parlamentares ou consensos sociais, ganhou o estatuto de dogma.

O Iluminismo das Trevas dá cobertura teórica a um sentimento latente entre a elite tecnológica: a perceção de que a democracia é demasiado lenta, ignorante e redistributiva para acompanhar o ritmo da inteligência artificial, da exploração espacial e da biotecnologia.

O neoliberalismo friedmaniano transformara o cidadão em consumidor. O Iluminismo das Trevas dá o passo seguinte e converte o cidadão em mero cliente — ou súbdito — de uma plataforma infraestrutural gerida por uma oligarquia de gestores inamovíveis.

O Iluminismo das Trevas é, no íntimo, uma filosofia de recusa sistemática do progresso humano em termos morais. Rejeita o universalismo em favor do elitismo biológico ou funcional; repudia os direitos humanos como uma sentimentalidade ineficiente; e ridiculariza a paz como uma estagnação que impede a seleção natural das ideias e das corporações.

Ao rastrear as origens deste pensamento, percebe-se que ele não constitui uma anomalia temporária, mas a consequência lógica do capitalismo desregulado levado ao seu limite ideológico. Quando o valor supremo de uma civilização passa a ser a eficiência técnica e a acumulação sem travões, o imperativo democrático deixa de ser um ativo e converte-se num obstáculo a ser eliminado.

Neste primeiro capítulo da análise, fica evidente a génese da ameaça: o Neoreacionarismo forneceu a arquitetura conceptual que faltava às elites oligárquicas do século XXI para justificarem o desejo de domínio absoluto.

No próximo artigo, examinaremos detalhadamente como este ódio à democracia se traduz no modelo do "Estado-Empresa" e na substituição do debate político pela governação algorítmica.

1 comentário:

  1. <<A solução proposta não é o regresso ao passado feudal por saudosismo, mas a reinvenção do absolutismo através da tecnologia: o Estado deve deixar de ser um corpo político eleito e passar a ser gerido como uma empresa privada.<<
    SARAMAGO é que os topava bem, conforme descreveu nos cadernos de Lanzarote
    ---E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar,
    privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez
    a exploração deles a empresas privadas,
    mediante concurso internacional.
    Aí se encontra a salvação do mundo…

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