Há
metáforas que envelhecem mal porque a realidade desmente o seu otimismo, e a do
"ascensor social" é uma delas.
As
candidaturas ao ensino superior confirmam, mais uma vez, que o elevador está
parado no rés-do-chão para quem lá mora: sem explicações pagas, sem colégio
privado a preparar o exame, os estudantes mais pobres acabam nos cursos que a
economia menos remunera, enquanto medicina e engenharia ficam reservadas a quem
já entrou no prédio pela porta principal.
Quem tem
menos recursos vai para cursos com menos empregabilidade — a frase resume, com
a secura de um relatório, o que a ideologia da meritocracia sempre preferiu
calar.
O mesmo
desenho repete-se, com sotaque técnico diferente, na Segurança Social. Ana
Mendes Godinho, que enquanto ministra encomendou à Organização Internacional do
Trabalho um Livro Verde sério, plural, com propostas concretas, viu o trabalho
arrumado na gaveta assim que deixou de convir.
No lugar
das propostas descartadas, avança agora um modelo de adesão automática a fundos
de pensões privados: formalmente voluntário, na prática silencioso, construído
sobre a aposta calculada de que a inércia da maioria fará o trabalho que a lei
não ousa fazer abertamente.
Primeiro
fragiliza-se o trabalho, depois a receita da Segurança Social, e a fragilidade
criada serve depois de prova para decretar a insustentabilidade do sistema
público — um ciclo tão bem desenhado que quase parece acidental.
Há uma
linha reta entre os dois casos: tanto no ensino como nas pensões, o Estado
desiste discretamente de corrigir a desigualdade, e deixa que o mercado,
disfarçado de escolha individual, decida quem sobe e quem fica a pagar por
vidas alheias mais confortáveis.
A
privatização silenciosa começa sempre pelo discurso do medo, e o medo,
convenientemente, nunca aponta para cima.
Falta
explicar este desenho ao país, e é aqui que o governo tropeça. Desde que chegou
ao poder, Luís Montenegro cultivou a distância aos jornalistas, preferindo
canais próprios, sem intermediação incómoda — estratégia que deixou de ser
reação pontual para se tornar parte estrutural da comunicação política.
Funcionava enquanto bastava esperar que a polémica se esgotasse sozinha; o
ecossistema mudou, e falar pouco já não protege ninguém da pergunta seguinte.
Fica
assim completo o retrato: um governo que trabalha, com paciência de relojoeiro,
a favor de quem já tem mais, e que descobre, tarde, não bastar o desvio do
olhar da imprensa para também obter o do país. A propaganda precisa de silêncio
para funcionar; o silêncio, esse, é precisamente o que já não se sustenta.

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