segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O Ascensor Avariado

 


Há metáforas que envelhecem mal porque a realidade desmente o seu otimismo, e a do "ascensor social" é uma delas.

As candidaturas ao ensino superior confirmam, mais uma vez, que o elevador está parado no rés-do-chão para quem lá mora: sem explicações pagas, sem colégio privado a preparar o exame, os estudantes mais pobres acabam nos cursos que a economia menos remunera, enquanto medicina e engenharia ficam reservadas a quem já entrou no prédio pela porta principal.

Quem tem menos recursos vai para cursos com menos empregabilidade — a frase resume, com a secura de um relatório, o que a ideologia da meritocracia sempre preferiu calar.

O mesmo desenho repete-se, com sotaque técnico diferente, na Segurança Social. Ana Mendes Godinho, que enquanto ministra encomendou à Organização Internacional do Trabalho um Livro Verde sério, plural, com propostas concretas, viu o trabalho arrumado na gaveta assim que deixou de convir.

No lugar das propostas descartadas, avança agora um modelo de adesão automática a fundos de pensões privados: formalmente voluntário, na prática silencioso, construído sobre a aposta calculada de que a inércia da maioria fará o trabalho que a lei não ousa fazer abertamente.

Primeiro fragiliza-se o trabalho, depois a receita da Segurança Social, e a fragilidade criada serve depois de prova para decretar a insustentabilidade do sistema público — um ciclo tão bem desenhado que quase parece acidental.

Há uma linha reta entre os dois casos: tanto no ensino como nas pensões, o Estado desiste discretamente de corrigir a desigualdade, e deixa que o mercado, disfarçado de escolha individual, decida quem sobe e quem fica a pagar por vidas alheias mais confortáveis.

A privatização silenciosa começa sempre pelo discurso do medo, e o medo, convenientemente, nunca aponta para cima.

Falta explicar este desenho ao país, e é aqui que o governo tropeça. Desde que chegou ao poder, Luís Montenegro cultivou a distância aos jornalistas, preferindo canais próprios, sem intermediação incómoda — estratégia que deixou de ser reação pontual para se tornar parte estrutural da comunicação política. Funcionava enquanto bastava esperar que a polémica se esgotasse sozinha; o ecossistema mudou, e falar pouco já não protege ninguém da pergunta seguinte.

Fica assim completo o retrato: um governo que trabalha, com paciência de relojoeiro, a favor de quem já tem mais, e que descobre, tarde, não bastar o desvio do olhar da imprensa para também obter o do país. A propaganda precisa de silêncio para funcionar; o silêncio, esse, é precisamente o que já não se sustenta.

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