sábado, 20 de fevereiro de 2016

Eles sentem-se asfixiados?

Não deixa de ser curiosa a concomitância da recuperação da charla da «asfixia democrática» com a notícia do iminente julgamento de Ana Nicolau, ativista dos Precários Inflexíveis, acusada de ter integrado uma manifestação de protesto nas galerias da Assembleia da República contra um primeiro-ministro de que se descobrira, então, a conduta vergonhosa perante a Segurança Social a quem sonegara os devidos descontos.
Se podemos questionar se existe legitimidade para aquele tipo de ação de agit-prop no sítio em causa, a verdade é que essa atitude não se equipara em gravidade com o comportamento desonesto de quem deveria apresentar um currículo irrepreensível. Por isso a decisão de levar Ana Nicolau a julgamento (porquê ela e não qualquer outro que a secundou em tal protesto?) mais não corresponde do que à estratégia intimidatória de uma direita, ciosa de criar «exemplos» de retaliação cirúrgica contra quem a contesta. Mas a empáfia agora ressuscitada por Montenegro e Passos Coelho tem contornos grotescos, quando nos recordamos do terrorismo verbal alimentado pela direita e seus cães-de-fila nas várias televisões contra os juízes do Tribunal Constitucional, quando esse órgão de soberania foi o único a conseguir impor um travão no quero, posso e mando de quem se arrogava do direito de ser dono disto tudo ao ponto de privatizar e concessionar muito para além do que impunham os limites legais e nomear os seus para todos os cargos disponíveis e, mesmo para os que não estando, iam sendo para tal inventados. Ademais, se a Democracia pressupõe Cultura e Conhecimento, que dizer da autêntica asfixia causada nestes últimos quatro anos a quem se soube com talento bastante para fazer da arte e da investigação científica a sua profissão? Se não evocasse tanta tragédia advinda da sua pretérita ação, este tipo de discurso trapaceiro até nos poderia sugestionar algum riso de escárnio. Assim só nos pode suscitar repulsa.

Um beco sem saída à vista

Se fizermos uma leitura do que foi a propaganda da direita durante todo o ano transato - quando se soube em risco com a recente eleição de António Costa para a liderança do PS -, podemos facilmente concluir que ela caracterizou-se por duas estratégias distintas, mas convergentes no objetivo final: o de vencer as eleições marcadas o mais tardia e cumplicemente possível por Cavaco.
Uma delas passou por denegrir o mais possível o líder socialista, ora pondo as redes sociais a vomitarem atoardas racistas, ora deturpando tudo quanto ele ia anunciando, desde a Agenda para a Década até ao Estudo Macroeconómico de quinze reputados economistas. Com a ajuda da comunicação social a ela rendida, a direita retirou fora do contexto muito do que aí se defendia para lhe dar uma interpretação o mais falaciosa possível. Depois foi só o empolar de erros menores, mas transformados em enormes trapalhadas, que tudo descredibilizariam, como sucedeu com o caso dos cartazes. A segunda estratégia da direita consistiu em emitir um conjunto ininterrupto de mentiras sobre a realidade, ora agindo habilidosamente sobre os indicadores - a devolução da sobretaxa foi o exemplo mais óbvio -, ora dizendo deles o exato contrário do que demonstravam. O sucesso dessas duas estratégias quase foi conseguido com uma votação, que lhe permitiria reivindicar a formação do governo. Só se enganaram no facto de enfrentarem um político tão sagaz como António Costa. Além de lhes sonegar o pote, está a governar com uma enorme competência, como já se começa a verificar na TAP, na aprovação do Orçamento e na reversão de muitas das iniquidades implementadas durante quatro anos. O que as jornadas parlamentares do PSD vieram demonstrar, nomeadamente com o discurso bacoco de Montenegro, é que ainda ali não compreendeu a falência das duas estratégias anteriores numa altura em que é o Governo quem vai prosseguindo, imperturbável, o seu rumo sem se deter nos seus dislates. E com indicadores, que deixam de ser manipulados em seu favor. Vemos, pois, uma direita enredada no seu intrincado labirinto no qual não vislumbra qualquer saída...

União Europeia: this is the end...

A Cimeira Europeia desta semana confirmou o que conjeturamos há muito tempo: a União Europeia acabou. Quer a incapacidade para resolver minimamente a questão dos refugiados, quer as cedências ao Reino Unido, constituem o capítulo imediatamente anterior ao dobre-de-finados, que virá da crise financeira suscitada pela preferência dada aos bancos e aos especuladores financeiros em detrimento dos cidadãos e que estes se recusarão, mais cedo ou mais tarde, a acatar.
Olhando retrospetivamente para tudo quanto nos fez aqui chegar, não me sobram grandes dúvidas quanto à responsabilização de quantos, em 1989, acenaram para os povos do leste europeu com a rápida integração na Europa rica, que se autopropagandeava deste lado do muro de Berlim e os fez dinamitar os equilíbrios geopolíticos estabelecidos depois da Segunda Guerra Mundial. A impossibilidade em concretizar essas promessas frustrou as ilusões desses povos, que se tornaram presas fáceis de todo o tipo de populismos. Assim se explica a natureza atual dos regimes húngaro ou polaco, que poucas diferenças têm em relação ao mais abjeto fascismo. E são eles - não o esqueçamos! - os mais veementes opositores à distribuição justa e equitativa dos refugiados por todo o território europeu. A Europa a Quinze assumia valores, que estão a ser agora sucessivamente vilipendiados por uma Comissão dominada pela direita esvaziada das suas matrizes mais respeitáveis (a democracia-cristã, a liberal sem ser neo), que abriu a caixa de Pandora, e assiste paralisada ao despoletar dos seus piores efeitos apenas preocupada em inviabilizar as alternativas capazes de lhes darem solução. Durante uns quantos anos assumi-me como europeísta e cheguei a acreditar na transformação do Continente numa espécie de Estados Unidos da Europa com a riqueza mais ou menos equilibrada. Hoje constato a distância cada vez mais abissal, que se vai criando em relação a esse sonho. Conquanto não se soltem ainda mais monstruosidades do que as já agora percetíveis… porque, então, só poderemos temer o pior.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

inCondecorações e inConsiderações

1. Não sei o que Pilar del Rio terá sentido ao ver condecorado Sousa Lara pelo ainda inquilino do Palácio de Belém, mas provavelmente parecer-lhe-á coisa tão minúscula, que nem merece atenção. Mas, porque se trata de derradeira manifestação de mesquinhez de um individuo, que passou pela vida pública para causar danos irreparáveis a milhares, senão milhões de portugueses, não se pode deixar sem reparo esta “consagração” de um imbecil, que quis causar danos num Homem de exceção e logo se viu devidamente aviltado pelo juízo dos académicos de Estocolmo.
O Pedro Vieira publicou uma ilustração a condizer e, no tweeter, o Pedro Goulão viu no caso uma forma inesperada de Cavaco dar a mão a António Costa: “É bonito Cavaco ajudar Costa, lembrando que Sousa Lara já foi responsável pela cultura tornando o João Soares um poço de aptidão.
2. A esta hora da madrugada estará Carlos Costa a dormir descansado ou sofrerá de justas insónias por ver-se em frágil equilíbrio num tapete a ser puxado de várias direções? Depois de todas as demonstrações de autoritarismo, exercidas durante quatro anos, ainda confiará o PSD no sucesso da charla da «asfixia democrática»? E será que julgam ganhar algum crédito ao defenderem quem, de entre todos os que exercem funções públicas, é, depois de Cavaco Silva, um dos mais desconsiderados no juízo dos portugueses?
Havia alguém que, hoje nas redes sociais, pedia à direita para avisar quando é que começam a fazer oposição a sério. Porque, por agora, limita-se a repisar receitas tão obsoletas, que só convencem os seus mais acéfalos devotos.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Mas foi mesmo isso que ela disse?

Os desconchavos quotidianos da gente da direita na comunicação social têm sido tão frequentes, que caímos seriamente no risco de os vermos banalizados como se de coisa pouca se tratasse.
Só esta amanhã ouvi as declarações de Maria Luís Albuquerque a respeito do Orçamento, atualmente em apreciação na Assembleia da República, e fiquei numa daquelas situações em que me deixam muitas das afirmações recentes de Passos Coelho: será que estou a ouvir bem ou ainda ando num limbo entre os sonhos e a realidade?
Esfregados bem os olhos e apurados os ouvidos (ou pelo menos aquele que ainda funciona razoavelmente), eis que se torna óbvio o despudor de tal criatura: então não é que ela avisa Centeno em como o que distingue o bom governante do mau governante é a capacidade para conseguir executar o Orçamento, algo em que ela diz nele não acreditar?
Rebobinemos a fita um pouco atrás: esta não é a estulta personalidade que falhou na execução de tantos orçamentos quantos assinou, sempre obrigando a retificativos? Será que se deu conta de se autoqualificar de má governante, conseguindo por uma única vez a nossa concordância com quanto saiu da sua boca?
Mas sobrou outro aspeto complementar das suas afirmações: o conselho para que, numa altura de tanta turbulência nos mercados, Portugal saia dos seus holofotes.
Nesta opinião em particular só podemos sentir alguma comiseração pela autora, porque dá demonstração evidente da sua personalidade timorata, que prefere curvar-se aos por si entendidos como poderosos, em vez de os enfrentar abertamente e fazer-lhes sentir a força das suas razões.
É este Portugal, que bate o pé em Bruxelas, em Estrasburgo ou em Berlim, que assusta esta direita, por temer vê-lo novamente respeitado e engrandecido. Sem os argumentos da TINA (There is no alternative) e dos supostos méritos do bom aluno, ela fica sem quaisquer argumentos para justificar a estratégia do medo sobre o futuro com que quere novamente afivelar-se ao pote.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Não há mal que lhe não venha!

Não me dei ao trabalho de espreitar nas demais televisões se nelas se repetia o comprometedor plano de câmara da RTP em que se via Passos Coelho a discursar para uma sala vazia num comício a propósito da sua recandidatura a líder do PSD, mas ele próprio deve ter-se-sentido incomodado com uma situação em que as pretéritas multidões de jotinhas a gritarem o seu nome e a agitarem bandeiras já são coisas do passado.
Quem organizou aquele comício bem terá mandado os curiosos concentrarem-se nas quatro filas da frente da plateia para darem uma ideia de maior resposta ao chamamento do líder, mas o resultado permanecia confrangedor apesar de, piedosamente, o operador de câmara fechar rapidamente o plano das filas traseiras.
Essa cena pôs-me a pensar no que sentirá Passos Coelho quando, todas as manhãs, se põe a compor o nó da gravata em frente ao espelho. Ainda sentirá confiança bastante para acreditar na possibilidade da mesma água do rio voltar a passar por debaixo da mesma ponte?
É verdade que conta com indefetíveis, que parecem mais confiantes do que ele próprio - não é que Luís Montenegro apareceu ontem a mostrar quanto lhe é difícil engolir o ressaibo ao prometer duro arrependimento aos portugueses por terem dado uma coça no Governo que, segundo ele e sem medo de ver-lhe o nariz crescer!), “protegia os rendimentos mais baixos e onerava os mais altos”?
Mas, por quanto tempo conseguirá Passos Coelho manter coeso o seu ridículo exército de apoiantes, que lembram o cavaleiro Negro dos Monty Python que pretendia impedir a passagem dos cavaleiros na Busca do Graal e sempre desafiador apesar de ir ficando sucessivamente sem cada um dos braços, e cortado a meio do tronco?
Uma a uma as mentiras da direita vão-se confrontando com a realidade da governação bem sucedida de António Costa e dos seus ministros. A exemplo dessa personagem ridícula arriscam mesmo objetar decisões tão óbvias como as da TAP ou do Banif, mesmo arriscando-se a perder as penas ao arriscarem-se a tanto quererem voar.
Os resultados aí estão à vista: os programas europeus de financiamento da economia portuguesa a serem aprovados com uma rapidez desconhecida nos últimos dois anos, as taxas de juro a descerem sem comentários dos que tanto as diabolizavam na semana passada e a dívida a vender-se nos mercados a juros próximos do zero.
De Perdigão, Camões diria aquilo que parece confirmar-se em Passos Coelho: não há mal que lhe não venha!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Os profetas e o falso messias

E ao décimo sexto dia de fevereiro do ano da graça do Senhor de dois mil e dezasseis os profetas continuam a prever que raios e coriscos se abaterão sobre esta terra por causa das loucuras do falso messias, que nos governa e cujo pacto com os diabos vermelhos causaram tanto transtorno nas bolsas mundiais a começar pelas asiáticas e estendendo-se até às verdejantes terras alemãs.
Inquieta-os de sobremaneira, que um italiano com nome igual ao de outro tenebroso falso salvador destas paragens, tenha a capacidade de aparentar milagres, que só escondem a malvadez que lhes vai na índole.
Nesses círculos proféticos especula-se ainda sobre o colossal buraco aberto no chão frutuoso do Deustche Bank e ainda não se descobriu como o mesmo falso messias o conseguiu causar, mas que ele é o culpado nenhum deles duvida. Se havia um florescente banco regional, que dava lucros fartos e, da noite para o dia, murchou como se a tormenta trazida por ele tivesse subitamente emurchecido o que tão pujante se revelava!
Mas maior ainda foi o escândalo dos verdadeiros apóstolos ao descobrirem haver dinheiro chinês no negócio das geringonças voadoras. Será que o falso messias estendeu a sua conspurcadora mão a quem nada tinha de seu para as comprar e se socorrera de tal solução para as conseguirem comprar sem nelas investirem um tostão de seu?
Nos círculos do falso messias acenam com notícias do outro lado do Atlântico em como se sabia isso há muito tempo, mas o escândalo continua a contorcer as faces dos iluminados...

Passos Coelho e a China aqui mesmo ao lado...


Extrato da crónica de Nicolau Santos no «Expresso» de 15/2/2016


Fingimentos bacocos

É claro que se o ridículo matasse os telejornais estariam agora a apresentar edições especiais com muita gente lacrimosa a carpir o desaparecimento do ex-primeiro-ministro de Portugal.
As imagens de Passos Coelho a «apadrinhar» um centro escolar a funcionar há três anos pareciam as cenas de uma ópera bufa em que os tenores desafinavam ao jeito do protagonista da comédia em causa, quando ainda presumia ter futuro garantido nas cantorias de La Féria. Hipocritamente desmentiam a inauguração, que tinham anunciado, e, mais adiante, numa fábrica, voltavam a tratar de «governante» o convidado.
O que tal iniciativa demonstra é o inconformismo de uma direita narcísica incapaz de compreender o quanto se descredibiliza em cada ocasião, tão só intente em devolver ao seu líder as dragonas, que o povo lhe retirou dos ombros ao votar-lhe a oposição como destino futuro.
Ficaria bem a Passos Coelho ganhar algum sentido autocrítico para evitar desconchavos desta dimensão, mas se ele mesmo ousaria dizer ao «Jornal de Notícias», que deixara o governo com o Banif a dar lucro, é porque a tontice está concentrada na sua exaurida carola. Muito apropriadamente o Irmão Lúcia compararia tal despautério com o alemão que dissesse: «quando me suicidei no bunker ainda deixei alemães vivos!».
Felizmente que a governação de António Costa deixa-nos predispostos a olhar para tudo isso com ironia, mas não há como pensar num Passos Coelho cuja passagem pelo poder foi uma tragédia e que, nesta falsa pose de ainda se julgar primeiro-ministro, tudo transforma numa farsa…

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A desinformação ostensiva da generalidade da imprensa

Furar o cerco desinformativo, que a comunicação social anda a estabelecer em torno da ação governativa, explica porque António Costa começou agora a explicar o Orçamento aos portugueses através de pequenos filmes a disseminar o mais possível pelas redes sociais.
É que tem sido tanta a mentira sobre o que o governo faz e a deturpação de tudo quanto diz, que importa arranjar formas alternativas de dar aos cidadãos o efetivo direito a serem corretamente informados.
Comecemos, por exemplo, pela entrevista dada este fim-de-semana ao «Expresso» em que muito naturalmente António Costa disse aos entrevistadores: “Não é a solidez do Governo que está em causa, mas numa democracia o compromisso e o diálogo são importantes e não queremos, nem pretendemos excluir ninguém desse diálogo.”
O que fez a SIC durante todo o sábado? Andou a vender a ideia de que António Costa quase suplicara ao PSD para que comece a dialogar com o PS. Logo às 13 horas um dos autores da peça jornalística, Bernardo Ferrão, cuja ascensão meteórica parece ter a ver com a fidelidade canina à direita, lançou a caluniosa interpretação de ter encontrado um primeiro-ministro muito fragilizado, mais tarde ou mais cedo condenado a orçamentos retificativos e por isso ansioso por uma mãozinha dos que tinham “ganho” as eleições, mas perdido o poder.
Pelo sim, pelo não, li com redobrada atenção a entrevista em causa e, em nenhum momento se deteta um primeiro-ministro menos calmo do que costuma parecer. Pelo contrário, sempre que intervém em público, António Costa ostenta uma confiança invejável, decerto de acordo com a determinação com que pretende ver concretizada a sua visão de futuro para o país.
Na mesma entrevista António Costa volta a criticar implicitamente as leituras de Álvaro Beleza, Francisco Assis e outros críticos internos ao constatar que “o PS não perdeu as eleições para o centro, mas porque parte dos eleitores se reviu nas propostas apresentadas pelos partidos à esquerda.”
As suas palavras refletem uma interpretação do Tempo Novo, que tende a encostar a direita à defesa cega de paradigmas tornados obsoletos pela realidade - o primado da gestão privada sobre a praticada no setor público, a acentuação das desigualdades, o favorecimento de interesses crapulosos a título de facilitação de investimentos, etc. - e a defender a progressiva consolidação de uma esquerda sociologicamente maioritária e sem tibiezas em afirmá-la no terreno da política.
Quem sabe se não começa no nosso cantinho ocidental, a regeneração urgente da esquerda europeia?
Apesar de tudo, a imprensa a soldo dos derrotados da noite de 4 de outubro não pode evitar a divulgação de alguns factos eloquentes. Assim, do mesmo «Expresso», retiramos apenas dois dados que falam por si:
- o rendimento declarado por Miguel Relvas em 2014, decorrente da sua atividade de «consultor», superou o meio milhão de euros;~
- o contrato estabelecido entre Carlos Costa e Sérgio Monteiro para que este cuide da venda do Novo Banco com a mesma «habilidade» com que vendeu tantas empresas nos últimos quatro anos, prevê um pagamento de 304 mil euros.
Porque será que estas duas notícias não abrem os telejornais?

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O Tempo Novo do outro lado do Atlântico

Se as eleições norteamericanas não têm para nós tanta importância quanto as portuguesas, influenciar-nos-ão no futuro de uma forma, que não nos podem deixar indiferentes. Por isso, execrando todos os republicanos, todos eles detestáveis, foco a atenção no campo democrata e aí é evidente a preferência por Bernie Sanders em relação a Hillary Clinton.
Vivesse no outro lado do Atlântico e empenhar-me-ia nessa candidatura com o mesmo entusiasmo, que investi na de Sampaio da Nóvoa. Porque, mesmo muito diferentes, no percurso político, na retórica e no programa, ambos personificam o mesmo Tempo Novo, que se prefigura para os tempos mais próximos. E une-os, igualmente, a improbabilidade inicial em serem bem sucedidos perante tantos boicotes e constrangimentos - até os financeiros para levar por diante uma campanha efetivamente vencedora - mas ambos dispostos a ousarem a vitória e a trazerem para a ordem do dia os grandes valores da democracia, a começar pelo combate às desigualdades sociais.
O que se está a verificar por todo o mundo ocidental é o surgimento de novas correntes de pensamento à esquerda, que vêm dar resposta à paralisia ideológica das forças políticas socialistas e sociais-democratas desde que o muro de Berlim deixou pressupor, enganadoramente, o fim da História e da luta de classes. Condenados os comunistas a um crepúsculo de duração variável - curtíssimo nos antigos países de Leste e mais lento neste canto ocidental da Europa - a aspiração utópica, que tem norteado os povos nos últimos séculos, está em vias de encontrar um fio condutor em diversas latitudes.
O Syriza tentou-o na Grécia e foi derrotado. Mas, a posteriori, podemos perguntar se algum exército conta ganhar a guerra logo a partir da primeira batalha?
O Bloco de Esquerda já conseguiu integrar a maioria de apoio ao atual governo em Portugal e o Podemos está em vias de o conseguir em Espanha.
No Reino Unido Corbyn tornou-se no mais improvável dos putativos líderes trabalhistas e já começou a mudar seriamente a realidade política inglesa onde Cameron terá os dias contados tão-só se instale do outro lado da Mancha a ideia de a Europa não ser a efetiva culpada pelaa insatisfação coletiva, que ali cresce.
E, face a toda esta evolução, os históricos partidos socialistas e sociais-democratas dividem-se entre os que já compreenderam o fenómeno e dele se querem fazer parceiros com benefícios mútuos para os que chegam e para os que já há muito militam na esquerda com ambições de poder - e esse é o caso do PS de António Costa e do PSOE de Pedro Sanchez - e os que se aliam à direita ou dela imitam os programas e se apequenam. Este é o caso dos sociais-democratas alemães, dos socialistas franceses e, sobretudo, dos gregos já condenados à irrelevância grupuscular.
Bernie Sanders personifica esta nova esquerda emergente: a que se orgulha em ser socialista e em apontar o dedo aos verdadeiros culpados das misérias humanas hoje conhecidas. Essa Wall Street onde a ganância sugou os rendimentos dos mais pobres para que um número exíguo de privilegiados tenham transformado as Bolsas mundiais em salões de casino. E são esses plutocratas quem querem que tudo fique como está, quando a grande maioria aposta em que tudo mude.
Confio que a relação de forças nas próximas batalhas penda irreversivelmente para o lado dos que querem uma sociedade justa e igualitária como condiz com a matriz marxista incrustada no inconsciente coletivo das massas populares por muito que elas se deixem iludir por marcelos e trumps de ocasião.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

A Vida poderia ter-se convertido num sonho

Amanhã já terão passado três semanas desde que Marcelo Rebelo de Sousa ficou definido como próximo presidente da República e o sentimento continua a ser o mesmo, sintetizável numa bela frase de Jorge Luís Borges: “Há sempre algo de grandioso na derrota que não pertence à vitória.”
A grandeza esteve, de facto, com os que, mesmo sabendo quão difícil seria vencer alguém que andara dez anos a fazer campanha eleitoral televisiva aos domingos, não pouparam esforços para conseguir a vitória do único candidato com uma visão estimulante de futuro. O Tempo Novo, de que Sampaio da Nóvoa se fez porta-voz, é aquele que há tanto tempo desejávamos e nunca se fizera possível devido à incapacidade das esquerdas em convergirem num mínimo denominador comum. E ele era tão ansiado, que foram muitos os que na campanha das legislativas contactavam Jerónimo de Sousa e Catarina Martins para lhes exigirem esse tipo de solução. E, no entretanto, António Costa ia-o anunciando ao afirmar encerrado o tempo em que existiria um tal «arco da governação».
Foi esse o fundamento da grandeza, que não surgiu no momento da derrota: esse sentimento já vinha de antes, quando víamos congregar-se à nossa volta tanta gente disposta a colaborar e, a exemplo do que dizia o professor, a não querer nada para si, mas disposta a dar o seu melhor para tornar possível um futuro mais condizente com os seus sonhos. 
Tínhamos ainda bem presente um dos piores legados do governo de Passos Coelho e de Paulo Portas: quererem-nos obrigar a acreditar à força, que não existiria política alternativa à que eles nos impunham. Como se tivéssemos atravessado o portal para o Inferno de Dante e lido a inscrição afixada na ombreira: “Oh vós que entrais, abandonai toda a Esperança!”.
Foram quatro anos de apagada e vil tristeza, em que muitos sentiram na pele a angústia dos versos de Rosalia de Castro, quando se queixava de todos, todos se irem embora.
Perdida a grande maioria dos jovens, estaríamos condenados a envelhecer num país impróprio para velhos, com a condenação ao empobrecimento como garantida?
Se a formação do governo de António Costa nos devolveu o direito a acreditar, a confiar na exequibilidade de um outro mundo, a candidatura de Sampaio da Nóvoa prometia-nos o enaltecer das melhores energias e talentos para as potenciar num país virado para o Crescimento e o Conhecimento.
Durante semanas sucessivas as sondagens davam-nos conta de estarmos envolvidos em algo de quixotesco, porque se os moinhos de vento estavam ao nosso alcance, os verdadeiros inimigos recatavam-se muito longe para escaparem ao debate, ao confronto de ideias e de projetos. E, no entanto, não se virava a cara, antes se sentia a urgência de distribuir mais flyers, colar mais cartazes ou distribuir mais mupis pelas rotundas de todo o concelho.
Na contagem final dos votos sentimos quão perto estivemos de passar à segunda volta. E, nesse instante, lembrámo-nos de Bob Marley, quando lembrava só ser derrotado aquele que desiste.
Foi por isso que decidimos prosseguir a luta por outras vias: acabaram os Núcleos SNAP? Pois abram-se as alas para a Associação Cívica Tempo Novo da Margem Sul. E continuemos imbuídos da mesma grandeza de aspirarmos a um mundo bem melhor…
Afinal o melhor que temos a fazer é apostarmos no dia de amanhã como sendo o primeiro do resto da nossa vida… com quase tudo em aberto para nele inscrever as coisas mais belas que um homem pode fazer na vida!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Narrativas desmentidas

A direita portuguesa anda assaz desnorteada, como se comprovou no debate parlamentar desta manhã. Apesar de os seus spin doctors continuarem ativamente a procurar dar razão à máxima goebbelsiana de repetir mil vezes uma mentira até ela ser intuída como verdadeira pelos seus ouvintes, a falácia do aumento brutal de impostos está a desfazer-se a olhos vistos.
Não só se consolida a versão de existir no Orçamento para 2016 uma redução efetiva de 291 milhões de euros em relação ao exercício anterior, também se consolida a previsão de aumentar os rendimentos das famílias em 1372 milhões de euros em contraponto aos 600 milhões impostos pelas medidas adicionais exigidas pela Comissão Europeia.
No entretanto a subida das taxas de juro suscitadas por circunstâncias adversas na política e na economia mundial, fizeram a mesma direita apontar as baterias a António Costa como se até a queda abrupta das ações na Bolsa de Hong Kong fosse causada pelo previsível crescimento no consumo interno dos portugueses.
Se a ciência aceita a tese do bater de asas da borboleta causar tempestades medonhas do outro lado do mundo, essa hipótese académica está longe de se confirmar na prática e especificamente para as decisões do atual governo português.
Mas o inevitável Schäuble veio ajudar-lhes na festa alertando para o susto por que passariam os mercados em funções das mudanças ocorridas em Lisboa. É claro que o ministro alemão estava a revelar o seu lado de ilusionista tosco, apontando com uma mão para Lisboa e tapando sem grande sucesso o grande problema por que passa o Deustche Bank cuja falência iminente chegou a ser segredada nos bastidores das praças bolsistas internacionais durante esta semana.
Esgotadas, pois, essas munições, julgou a direita ter outra boia que pudesse socorre-la do previsível naufrágio das suas sucessivas narrativas: as «medidas adicionais« que Mário Centeno prometera estudar, quando o Eurogrupo o questionou quanto ao eventual insucesso na execução deste orçamento.
Obviamente que a direita conhecia de antemão a impossibilidade de elencar qualquer dessas medidas - um estudo não se faz propriamente de um dia para o outro! - mas queria dar gás à nova vertente da sua propaganda: por agora os portugueses podem ficar satisfeitos ao sentirem mais dinheiro nos bolsos, mas virão sempre essas terríveis «medidas adicionais» para lhas retirarem com juros acrescidos.
No Parlamento, António Costa não só manifestou plena confiança na capacidade para executar este orçamento, como deu explicação sibilina para o facto de não estarem previstas tais medidas: “talvez fosse assim antes, mas agora as medidas são preparadas em Lisboa e não em Bruxelas!”
E não deixou de lembrar o que anda demasiado esquecido nas mentes dos comentadores televisivos: no PEC com que se comprometeu para este ano o governo de Passos Coelho prometeu cortes adicionais de 600 milhões de euros nas pensões de reforma e mais 0,4% no aumento de impostos. Seria, pois, claro que, acaso tivesse prosseguido no poder a direita agravaria o que fez em quatro anos: espoliar as famílias portugueses de 11% do seu rendimento.
Ao invés, este é o governo que assegura já uma recuperação de 2,5% nesses rendimentos.  E essa faz toda a diferença entre um governo que cumpre quanto prometeu em comparação com quem sempre mentiu para melhor empobrecer a grande maioria dos portugueses.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A tagarelice dos pascácios

1. A queda abrupta das bolsas mundiais e do preço do petróleo estão a ter efeitos compreensíveis nos juros da dívida soberana dos países do sul da Europa, mas o efabulador Montenegro lá veio explicar sem rir (embora mantendo o costumeiro sorriso pascácio!) que a culpa é do governo de António Costa. 
No fundo é a direita a repetir a versão de 2010, quando a crise financeira internacional nem sequer existira, quanto mais tivera alguma influência nas dificuldades então sentidas pelo governo de José Sócrates.
E, como a SIC de Balsemão não anda a brincar no serviço prestado a quem a financia, lá se apressaram a procurar o senhor alemão da cadeira de rodas para dele noticiar alguns esconjuros sobre o governo português se mantiver a rota de inversão contra tudo quanto Passos Coelho garantira em prol da ideologia neoliberal europeia por muito catastróficos, que se tenham revelado os seus efeitos.
Antipatriota no seu egoísmo, a direita portuguesa troca de bom grado a melhoria da vida dos portugueses por cenários apocalíticos, que lhe devolvam o acesso ao pote.
2. Sempre estive convencido que, acaso o governo de António Costa não tivesse recuperado metade do capital acionista da TAP, e veríamos em breve alguns dos vulpinos promotores do negócio com Pedrosa e Neeleman no Conselho de Administração da empresa. Não seria essa uma explicação óbvia da pressa com que assinaram tal negociata?
Compreende-se assim a raiva da direita nos seus ataques ao ministro Pedro Marques, ciente de sem Pires de Lima, Sérgio Monteiro ou Miguel Relvas nesse(s) cargo(s) ficarem sem emprego muitos dos “boys” do PSD e do CDS, que andaram quatro anos a auferir excelentes remunerações a título de assessores ou consultores do seu governo e se veem agora sem outro préstimo que não o de telefonarem continuamente para os números da sua agenda de network a ver se escapam ao desemprego de longa duração.
Ao ouvir as explicações do ministro sobre o futuro da TAP questionamo-nos se para além dos coalhados devotos do anterior governo, ainda alguém de bom senso se escusará a aceitá-las como as mais sensatas para o interesse público?
3. Não sei se Rui Moreira está a sentir em perigo a reeleição como presidente da câmara do Porto e por isso decidiu armar-se em insólita joana d'arc a batalhar contra a seminacionalizada TAP. Mas podemos sempre pôr em causa a legitimidade para o fazer tendo em conta o seu recente empenho em multiplicar voos das companhias de low cost para o Aeroporto de Pedras Rubras.
Se queria facilitar tanto  negócio às maiores concorrentes da empresa aérea nacional, qual a admiração de a ver a prescindir de rotas menos competitivas e onde as mimadas por Rui Moreira lhe roubam passageiros com preços mais baixos?
4. Ainda falando de aeroportos, a mudança de nome do de Lisboa é uma boa notícia. Se houve quem crismasse o do Porto com o nome de nada teve a ver com a aviação - a não ser no tipo de transporte em que encontrou a morte!-, nem com nada de substantivamente positivo para a vida dos portugueses, será justo garantir ao de Lisboa a designação de quem foi, não só insigne aviador, mas também um democrata, que personalizou a aspiração de milhões de portugueses à Liberdade. 
Uma boa notícia, de que a direita não comungou no debate parlamentar sobre  negócio aéreo em Portugal. 

Parole, parole, parole

Porque toda a regra tem exceção, hoje vi «Os Negócios da Semana» por estar interessado em assistir á forma como o Ministro do Planeamento, Pedro Marques, iria corresponder aos sempre acintosos ataques do entrevistador.
Já confiava nas suas qualidades para um desempenho superlativo nos desafios da governação, mas o que constatei foi a segurança com que desmontou as suposições e as tentativas de o levar a uma afirmação passível de ser falaciosamente isolada do contexto e capaz de transmitir um juízo erróneo sobre o que tinha sido dito.
Detenhamo-nos num exemplo preciso: a nomeação dos administradores da TAP indicados pelo Governo. Relativamente a um dos nomes mais badalados, Luís Patrão, o indivíduo da SIC questionou se seria um deles, logo lembrando tratar-se de quem está a assumir a gestão financeira do Partido Socialista.
A confirmação de tal nome por Pedro Marques daria substância ao que o interlocutor pretendia explorar: que os “tachos” são para os amigos de António Costa. Como se tivesse legitimidade moral para concretizar essa “denúncia” por, por exemplo, ter denunciado em devido tempo as ligações via Tecnoforma de Passos Coelho aos administradores por ele nomeados para a Parvalorem, e que agora estão a servir de facilitadores para que outro nome ligado àquela empresa - Miguel Relvas - ganhe estatuto de banqueiro.
Perante tal armadilha, o que fez Pedro Marques? Desmentiu que já tivesse designado alguém e lembrou que Luís Patrão até tem currículo na TAP por aí já ter exercido funções de entre as muitas, que lhe foram confiadas.
A este caso poderia acrescentar muitos outros, mas seria incorrer em fútil redundância: Pedro Marques deu as informações, que repetirá hoje na Comissão Parlamentar e deixou o pretenso economista da SIC a contas com os seus incuráveis preconceitos ideológicos.
Ficaria por aqui se não estivesse a verificar-se esta constante: qualquer membro do governo que esteja confrontado com entrevistadores da comunicação social ou em debates parlamentares denota a convicção demonstrativa de saber muito bem o que pretende e o como fazer.
Que superioridade em relação ao triste espetáculo de ministros e secretários de estado do governo de Passos Coelho, que repetiam banalidades e se iam atrapalhando com as incoerências dos seus discursos. Quando tal não sucedia, e isso era evidente nos dois cabeças de cartaz da coligação da direita, era um chorrilho de mentiras na forma da imaginativa novilíngua, que vinha cá para fora.
Eu sei que não irá ser fácil dar a volta a jornais e televisões dominados por gente de direita, mas a prestação de Pedro Marques no programa da SIC explicou porque estou tão confiante quanto à lenta, mas sustentada progressão do governo nas sondagens. É que não haverá quem o consiga confrontar com contradições, incoerências ou provas de incompetência. Deixando aos seus críticos o papel de ficarem a cantar sozinhos um velho tema da Mina e de Adriano Celentano: Parole, parole, parole.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O humor de Centeno é inacessível aos mentecaptos

Ao ver o ar arrogante dos dois líderes parlamentares da direita a enunciarem as dúvidas sobre o recuperação dos 50% da TAP para o setor público, lembrei, inevitavelmente, o título do artigo da Mariana Mortágua ontem publicado no «Jornal de Notícias»: “É preciso ter lata!”.
De facto, depois de termos assistido ao tremendo escândalo, que foi a assinatura à pressa da privatização da empresa aérea pelo governo já demitido, o decoro aconselharia humildade e recato a quem revelou tão notória falta de escrúpulos.
Não é essa a intenção da direita para os tempos vindouros: Maria Luís Albuquerque fez uma fraude indisfarçável na execução do Orçamento de 2015, com 677 milhões de euros martelados e a serem pagos por quem lhe sucedesse.  Essa uma das razões porque Mário Centeno teve de ajustar o exercício de 2016  a essa «surpresa», adiando medidas, que acelerariam o crescimento e reduziriam o desemprego. E, no entanto, é ver essa mesma direita a mostrar a mesma pesporrência criticando o documento socialista como se tivesse a consciência limpa quanto à trágica herança, que lhe legou.
Mas o Ministro das Finanças está a comportar-se com uma inteligência e uma capacidade argumentativa, que me dá frequente gozo, como sucedeu na Comissão Parlamentar desta manhã em que, elegantemente, se escusou a fazer o desenho necessário para que a ignorante Cecília Meireles soubesse do que estava a querer falar.
Dias atrás, a interlocutores mais inteligentes - os dois jornalistas do «Expresso» que o entrevistaram - foi com saborosa ironia, que lhes contrapôs as dúvidas quanto aos equilíbrios entre receitas e despesas, com um definitivo: “A teia dos impostos é uma coisa terrível!”.
Um par de semanas atrás o ex-embaixador Seixas da Costa lamentava que Centeno estivesse a perder o sorriso que parecia estar sempre presente no seu rosto. Engano o seu: mesmo numa pose mais circunspecta o ministro mantém um espírito de humor, que embaraça os néscios e entusiasma os mais sagazes.
E, mesmo quando nessa entrevista o tentaram perturbar com uma questão delicada - o relacionamento com o ainda governador do Banco de Portugal, que tudo fez para o impedir de assumir na instituição o alto cargo para o qual concorrera e era, de longe, o mais qualificado, - ele mostrou o mesmo garbo, alfinetando o esdrúxulo personagem com o tom friamente assassino: “também ele, como todas as figuras públicas, deve ser sujeito a avaliação do desempenho.”
Sabendo-se tudo quanto sucedeu na Banca nos anos do mandato de Carlos Costa, não é preciso dizer mais do que isto para o confrontar com a sua reiterada incompetência.
É bom sentir o crucial ministério das Finanças entregue a quem dá mostras de saber o que faz: depois de um Vítor Gaspar, que foi bem além da troika e, depois, comprovado o falhanço total da sua estratégia, se quis pôr na alheta, e uma Maria Luís, que simbolizou o melhor exemplo possível de apedeuta presunçosa, temos enfim quem não se curva perante nenhum encadeirado e bate o pé a quem exige mais do que ditaria o respeito pela soberania dos povos.