domingo, 28 de dezembro de 2014

Cinco semanas depois...

O texto de Miguel Sousa Tavares intitulado «A Prisão e o Poder», hoje publicado no «Expresso», está na linha da condenação que o escritor e jornalista tem verbalizado a propósito da desigualdade entre o que a acusação tem feito publicar nos pasquins do costume e o que a defesa tem sido impedida de responder no caso da detenção de José Sócrates. Como refere no artigo “o que incomoda o tribunal não é que Sócrates pudesse perturbar a investigação. (…) O que os incomoda é que, falando, Sócrates pudesse perturbar a verdade estabelecida e divulgada publicamente pela acusação. Assim, é, sem dúvida, mais fácil acusar, formar a opinião pública e condicionar a própria convicção do tribunal no julgamento.”
Passando-se semanas sem que nada de novo se saiba a respeito do que motivou rosário teixeira e carlos alexandre a humilharem e silenciarem o antigo primeiro-ministro, confirma-se a dificuldade em encontrarem matéria de facto para avançarem com  a fundamentação do seu julgamento. Por muita confusão, que continuem a  querer  estabelecer na opinião pública, o “caso” que especularam tem sérias fragilidades para não ser facilmente desmontado pela defesa. Resta-lhes, então, uma única arma, que estão a usar e a dela abusar: prolongar a prisão preventiva o mais possível para cristalizar nessa mesma opinião pública a suspeita de que, mesmo não havendo provas que o incriminem, José Sócrates é efetivamente culpado.
Julgam assim conseguir os dois objetivos a que, desde o início, se terão proposto: dificultar a eleição de António Costa como próximo primeiro-ministro e impedir o agora detido de voltar a desempenhar funções públicas no futuro.
Milhares de portugueses indignados com tudo quanto tem sucedido nestas cinco semanas  esperam que vejam essa estratégia ruir fragorosamente, arrastando consigo quem a congeminou!

sábado, 27 de dezembro de 2014

Comportamentos de biltres!

Olhando para o elenco governamental não é fácil responder à académica questão de definir qual é o maior biltre de entre quantos o integram! É que são tantos, que a escolha torna-se difícil!
É certo que, enquanto líder do grupo que, qual associação criminosa, tanto tem prejudicado a grande maioria dos portugueses, passos coelho merecerá decerto a distinção.
Mas que dizer de portas e os seus dúbios comprometimentos na compra de submarinos e outros equipamentos militares, bem como a autoria de decisões revogavelmente irrevogáveis?
E o crato que anda a dar cabo do ensino público e a tornar a vida dos professores num inferno? E pires de lima, ainda há tão pouco tempo convencido das vantagens de adiar a venda da TAP, e, agora, empurrado sabe-se lá por quem para a despachar provavelmente para um amigo de fernando pinto? E a marilú, que está tão convencida dos milagres prodigalizados pela austeridade que não tem pejo em jogar com os números sempre que eles não se ajustam à sua forma de ver as contas?
Poderíamos prosseguir com a mesma lógica, mas tudo isto vem a talhe de foice para falar de um dos escroques maiores desta quadrilha: o ministro mota soares que teve o descaramento de, na discussão do Orçamento de Estado para 2015, referir a existência de famílias a receberem quase mil euros de subsídios por mês como a causa para o estabelecimento de tetos destinados a promoverem o incentivo à procura de trabalho por parte desses «preguiçosos, que não querem é trabalhar».
Desde então o «Público» não teve resposta do ministério de mota soares à questão que colocou sobre os casos concretos em que ele identificara esses valores. E questionados os responsáveis das Misericórdias eles só conseguem encontrar um o outro caso entre milhares e todos eles relacionados com famílias numerosas.
Conclui-se, pois, que o homem da lambreta acumula a velhacaria mais execrável com uma tendência congénita para a mentira mais despudorada!

A darem-nos música...

O dia de Natal trouxe-nos de «prenda» a mensagem de passos coelho.  Desta feita, embora aparentemente não estivessem lá, a verdade é que tivemos direito a melodiosos violinos a darem-nos música, já que as palavras do ainda primeiro-ministro falaram de nuvens negras, que já não se divisarão no horizonte, e de uma terra  farta onde brotarão cerejas e correrá o mel.
O inefável joão duque ouviu e ficou contente. Até mesmo otimista, já que acredita nos preços baixos do petróleo e em juros a preços de saldo para que o seu ídolo volte a ganhar as próximas eleições.
É essa a tónica dos defensores do governo: se chegaram ao poder exclusivamente à conta da crise financeira internacional, que sucedera à falência do Lehman Brothers, andam a fazer figas para beneficiarem de circunstâncias externas particularmente favoráveis, que lhes permita dar o golpe de misericórdia no que restará do Estado Social ao fim dos quatro anos (e meio) de mandato.
Outra é a leitura da grande maioria, que quer ver passos coelho bem enterrado no caixote do lixo da História: o seu discurso foi vergonhosamente eleitoralista imitando a lógica mentirosa com que iludiu tantos portugueses em 2011.
Por isso mesmo o melhor comentário à mensagem em causa veio da eurodeputada Marisa Matias do Bloco de Esquerda: “O mais positivo da última mensagem de Natal do primeiro-ministro é que foi a última mensagem de Natal do primeiro-ministro”.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Como as democracias justificam o injustificável (1)

Seria irónico, se não se tratasse de algo de trágico, que José Sócrates tenha redigido um ensaio sobre a tortura para a Universidade parisiense que frequentou e agora esteja sujeito a uma manifestação perversa desse mesmo tipo de fenómeno político. Porque a sua inexplicável detenção em Évora há mais de um mês não é mais do que a demonstração da arrogante prepotência do procurador rosário teixeira e do juíz carlos alexandre, que caracteriza precisamente o comportamento típico dos torturadores.
Por isso mesmo, quando terminar esta provação, será a altura de o poder político fazer o julgamento de quem usa e abusa de uma certa forma de ler a lei e é capaz de impor sanção tão absurda. Importa encontrar a forma de nos guardarem de quem nos guarda como José Sócrates sugeriu inteligentemente quando pediu um exemplar de «Os Irmãos Karamazov» para reler no cárcere a parte em que se aborda «O Grande Inquisidor».
Vem por isso a propósito uma abordagem da temática da tortura no excelente programa do canal ARTE conduzido por Raphäel Enthoven e para o qual convidou o filósofo Michel Tereschenko.
Em 2008, quando os abusos cometidos na prisão de Abu Ghraib  ainda estavam na ordem dia, este último publicara um ensaio intitulado «Du Bon Usage de la Torture», que serviria de guião para a conversa entre o anfitrião e o convidado desta edição de «Philosophie».
O caso que começou por servir de mote para a discussão teve a ver com o relato de Jean Marie Le Pen, em que este dirigente da extrema-direita francesa se orgulhava de ter torturado militantes do FLN durante a guerra da Argélia por constituir para ele a única forma de obter informações relevantes e impedir o sucesso de atentados, que abrangeriam muitas vítimas.
O torcionário apresentava-se assim como o “salvador” capaz de “sujar as mãos”, numa perspetiva com o seu quê de sacrificial. Ele até poderia sentir repugnância pelo que fazia, mas era capaz de se imolar em nome do que entendia ser o superior interesse coletivo.
A realidade parece não ter coincidido propriamente com as memórias de Le Pen, que apenas quis criar de si o mito de ter curriculum na salvação de muitas vidas francesas.
Na realidade quase sempre a lógica da questão é até que ponto a tortura pode corresponder a uma ferramenta eficaz para salvar vidas? A prática demonstra que ela não ultrapassa o âmbito académico.
Os “falcões” norte-americanos terão utilizado o exemplo de Khalid Sheikh Mohammed  como aquele que legitimaria todos os meios tido como imorais para obter informações relevantes. Dado como o organizador dos atentados do 11 de setembro não existem confirmações quanto ao facto das tais informações relevantes para evitar novos crimes terem sido obtidas antes dele ser sujeito a tortura. E, mesmo no caso das prisões por ele propiciadas, pode-se questionar se é lícito prender preventivamente alguém que, mesmo estando a preparar um delito, ainda não o chegou a cometer.
No próximo texto sobre a tortura iremos abordar o caso da série «24 Horas», cujo sucesso muito contribuiu para tornar a opinião pública mais condescendente com o ato de torturar alguém.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

E se passos coelho tivesse um botão para lançar o apocalipse?

Nos últimos três anos e meio os portugueses tiveram uma demonstração prática da Lei de Murphy, quando as coisas ficaram deveras complicadas com a crise dos subprimes, a falência da Lehman Brothers e o pânico da Comissão Europeia por se ver diante de uma frota completamente desgovernada.
Quando precisávamos de quem soubesse minimizar os danos e definir um rumo capaz de fazer sentido, passámos a juntar ao pior dos presidentes do Portugal democrático o pior dos primeiros-ministros.
Seria consolador que Deus, o destino ou qualquer outra explicação transcendente pudesse  compensar um mau cenário com outro bem mais luminoso. Mas, hélas, as coisas são como são e o que está mal, ainda  pode ficar bem pior se as circunstâncias promoverem políticos da estirpe de um passos coelho ou de um paulo portas.
Foi isto que pensei enquanto via um documentário extremamente divertido de Nick BroomfieldJoan Churchill.«Sara Palin: You Betcha!».
Não é preciso ter presente que passos coelho tem o néscio maçães como um dos principais braços direitos para o adivinhar fã quase incondicional da antiga governadora do Alaska e candidata derrotada a vice-presidente dos EUA nas eleições de 2008. Poderá não ser homofóbico nem racista, como ela, mas o ódio a tudo quanto cheire a Estado é o mesmo.
As semelhanças poderão ir mais além e por isso vale a pena olhar mais em detalhe para o filme em causa: tal como sarah palin, passos coelho é produto do espírito provinciano, eivado de preconceitos. Ela cresceu numa cidadezinha do Alaska onde as igrejas evangélicas têm uma relevância lamentável na difusão de valores trogloditas, ele foi radicar-se em Vila Real quando regressou a Portugal em 1974 na condição de retornado.
Um e outro também mostraram ambições políticas desde muito cedo pelo que chegaram muito naturalmente ao desempenho de funções nas associações de estudantes ou nas juventudes partidárias. Sem que revelassem qualquer talento especial para tal, já que nada os distinguiu enquanto estudantes, nem se lhes conheceu preocupações culturais dignas de realce.
Uma característica igualmente realçada pelos admiradores de uns e de outros foi a da simpatia. Os fãs de sarah ficam desvanecidos por ela os olhar atentamente enquanto lhe falam e pensam ter atenção exclusiva, por muito que já muitos tenham concluído que quem vê caras não vê corações. Por seu lado, passos coelho chegou a enganar o próprio Mário Soares que, em 2011, ainda o considerava “simpático e honrado”.
O filme de Broomfield e de Churchill expressa bem a ilusão em que incorreram  muitos dos portugueses em 2011, votando esperançosamente naquele que viam como uma alternativa interessante para o governo de José Sócrates: nos primeiros vinte minutos chegamo-nos a interrogar se estamos a ver um documentário objetivo sobre sarah palin, se um filme produzido para a elogiar enfaticamente.
Mas a ilusão de tratar-se de alguém tão merecedora de simpatia começa a desvanecer-se quando se vê o outro lado da realidade: a sanha vingativa contra os antigos colaboradores, que tanto tinham trabalhado para a levarem ao poder e depois abandonados, se não mesmo despedidos apenas porque ela rapidamente os utilizou e atirou pela borda fora.
Com passos as muitas promessas da campanha eleitoral foram espezinhadas e reduzidas a palavras vãs!
Para além da ignorância, sarah palin desmascara-se como sociopata. E quando alguns pensam na possibilidade dela ter chegado à Casa Branca até se arrepiam com a perspetiva dela ter à mão o botão capaz de suscitar o apocalipse.
Não podendo causar danos tão drásticos, e ainda parecendo relativamente normal na aparência de fanático da ideologia que professa, passos coelho não pode deixar de assustar quando se possa antever  academicamente a probabilidade, por  ele tida como crível, em como ganhará as próximas legislativas!
Tal qual sucedeu com palin, o líder do tea party à portuguesa tem de ser travado. E reduzido à insignificância correspondente à ignorância e mesquinhez de que já deu provas tão substanciais.