segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Vidas Improváveis - XVIII. André e os seus princípios

 


(Décimo oitavo de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que se constata haver quem melhor lembre Groucho Marx ).

 

Groucho Marx dizia-o a rir, num filme, sabendo-se cómico: "Estes são os meus princípios. Se não gostarem deles, tenho outros." Ventura di-lo a sério, todos os dias, sem se dar conta de que a piada já estava feita há um século — e que ele a repete sem pagar direitos de autor a ninguém, nem sequer a si mesmo.

Aos vinte e seis anos escreveu um romance sobre Arafat e o confronto entre o "fundamentalismo" islâmico e o Ocidente, e a editora, invocando ameaças nunca provadas por ninguém, adiou-lhe a apresentação para as calendas gregas. Foi a primeira "perseguição" da carreira, e teve a vantagem rara de ser fabricável por quem dela mais lucrava: um autor sem nome, subitamente mártir de uma conspiração islâmica, sem ter escrito ainda uma linha capaz de a merecer. Poucos estreantes têm a sorte de nascer perseguidos antes de serem lidos.

Anos depois, já doutorando, escreveu precisamente o oposto do que hoje vocifera: uma tese que denunciava o "pânico social" do pós-terrorismo por estigmatizar comunidades inteiras, e alertava para os efeitos "prejudiciais a longo prazo" do securitarismo. Era o Ventura humanista, o que os avaliadores exigiam para aprovar a nota — arrumou-o na gaveta assim que percebeu haver eleitorado maior para o Ventura oposto. É porventura o único autor português cuja obra mais lida é precisamente aquela de que mais se envergonha.

Sobre ciganos não escreveu tese nenhuma, poupou-se ao trabalho e preferiu a multa: três mil trezentos e setenta euros por discriminação étnica, que se recusou a pagar, alegando perseguição a um líder político — a mesma palavra "perseguição" do livro de 2009, reciclada com a eficiência de quem já sabe que funciona. Freud teria uma palavra pronta para quem projeta nos outros, com tanta urgência, precisamente aquilo que mais teme reconhecer em si; Ventura dispensa divãs, prefere palanques, onde a introspeção nunca é exigida e o aplauso substitui sempre o diagnóstico.

Foi a Washington na comitiva dos Patriotas pela Europa, não a convite pessoal de Trump como Meloni, e a diferença notou-se com crueldade de pormenor: enquanto os líderes verdadeiros festejavam em salões dourados, ele via a festa maior de um quarto de hotel — primeiro português convidado, garantiu com orgulho, para coisa nenhuma que verdadeiramente importasse.

Na reforma laboral, executou a pirueta que os patrocinadores não perdoam a ninguém: votou contra à última hora, não por convicção súbita, mas por farejar a opinião maioritária do lado oposto, com o faro apurado de quem despreza o eleitorado em privado e o adula em público. O mesmo homem que combate "os tachos" com palavras aprova-os na prática sempre que são para os seus, acumulando autarquias suficientes para saciar o apetite que jura não ter — um jejum muito bem alimentado. Não durou a fidelidade dos convertidos: mal cheiraram vida mais confortável, trocaram-no nalgumas grandes autarquias pelo PSD, e ele ficou a gerir a sangria com o mesmo à-vontade circense com que gere as próprias contradições, como quem troca de chapéu sem nunca sair do mesmo espetáculo.

Fica o retrato de um homem sem princípio nenhum que resista ao proveito seguinte — o que Groucho fingiu em comédia, Ventura pratica em política todos os dias úteis, com o agravante de tratar a plateia, sempre, como se fosse cega ao truque repetido. A plateia, para desgraça coletiva, tem estado ultimamente mais distraída do que cega.

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