Chama-se
Operação Imergente. Quatrocentos inspetores, sete magistrados, 60 mandados de
busca domiciliária, 32 não domiciliários, cinco detidos, 37 arguidos. A sede do
PS no Largo do Rato foi revistada — pela primeira vez na história do partido,
dizem os que contam estas coisas. O epicentro é a Junta de Freguesia de Santa
Maria Maior, o nome central é o de Miguel Coelho, os factos investigados
situam-se entre 2016 e 2022.
Repare-se
bem: entre 2016 e 2022. A investigação existe há anos. A operação acontece quando
o PS lidera as sondagens com dez pontos de vantagem sobre a AD e o Chega. A
coincidência é, no mínimo, notável.
Não se
trata de negar que ajustes diretos irregulares existem, que o favoritismo
autárquico existe, que a promiscuidade entre poder local e interesses privados
existe — existe em toda a parte e em todos os partidos, o que qualquer inspeção
igualmente zelosa às autarquias da AD, do PSD, do CDS ou do Chega confirmaria
com a mesma facilidade. Trata-se de perguntar por que razão 400 inspetores
convergem sobre o PS no dia em que as sondagens lhe são mais favoráveis, por
que razão processos que dormitam durante anos acordam com este estrondo e esta
encenação, e por que razão a Unidade Nacional de Combate à Corrupção nunca
organizou espetáculo equivalente na direção contrária.
A
resposta não é nova. O Ministério Público e a Polícia Judiciária têm uma
relação com o PS que não é de equidade — é de hostilidade seletiva. A operação Influencer
arrasta-se há anos, mantem o partido sob suspeição permanente e tem a
resultados proporcionais ao estardalhaço: escassos ou mesmo nenhuns. O padrão
repete-se: a operação é o castigo, o processo é o instrumento, a condenação é
dispensável porque o dano já foi feito.
A maior
culpa imputável aos governos de António Costa não foi a de ter tolerado
irregularidades autárquicas — foi a de ter desperdiçado a disponibilidade, que
Rui Rio mostrou, para uma reforma da justiça que a tornasse menos
ideologicamente enviesada. Costa preferiu a estabilidade ao confronto. A
estabilidade acabou. O enviesamento ficou.
Um deputado socialista disse hoje o que era preciso dizer: "No momento em que o PS aparece a reconquistar alguma confiança, demonstrada em sucessivas sondagens, aparece este tipo de notícias." Não é teoria da conspiração. É observação do calendário.

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