quinta-feira, 26 de maio de 2016

Os embustes quotidianos das Tv’s

Não é que o artigo no seu todo não mereça leitura obrigatória, mas o que ontem assinou Rui Tavares no «Público» («Uma terra sem factos») dá três exemplos concretos do enviesamento das televisões em relação às notícias provenientes das instituições europeias.
No primeiro temos as recomendações da Comissão sobre a necessidade de se alterarem as leis da insolvência, se combaterem as desigualdades sociais e se incrementar o investimento público.  Ou seja, tudo matérias defendidas pela esquerda plural e a contracorrente da lógica implementada pela direita nos últimos quatro anos.
Notícias nas televisões: nenhumas! Os seus jornalistas terão mostrado uma singular seletividade ao não encontrarem nelas motivo para inserirem nem que fosse uma pequena peça sobre o assunto.
Mas ao lerem sobre a meta do défice a ser atingido pelo país no corrente ano, não fazem a coisa por menos. Substituem “meta” por “exigência” e até avançam as contas por eles feitas quanto aos milhões de euros em cortes, que isso implicará em austeridade.  Ora o Rui Tavares deu-se ao trabalho de ler o documento e  não encontrou o mínimo sinal que justificasse esse tom alarmista, que as televisões fomentam com óbvias intenções partidárias.
E conclua-se com as declarações de Jeroen Dijssebloem, apanhado à má-fila num átrio em intervalo da reunião do Eurogrupo e a quem a jornalista portuguesa faz a pergunta com óbvia intenção de a manipular no sentido pretendido: Portugal irá ter sanções?
Naquele momento,, o que seria expetável da reação do político holandês? Que dissesse o óbvio: os tratados assim estipulam e existem motivos que as possam justificar. É a típica resposta “by the book”, que não condiz por certo com o que se verificará na prática. Mas os embusteiros, que lideram a informação das várias televisões podem prosseguir na narrativa de uma ameaça, que estaria mais umas semanas a pender sobre a cabeça deste governo.
O que podemos concluir destes três exemplos, por muito bem que já o saibamos, é quão despudorada é o comportamento das televisões em relação ao seu compromisso de oferecerem uma informação eticamente irrepreensível.
Está a transformar-se numa urgência a substituição dos atuais titulares da ERC - que nunca se fazem ouvir nestes casos! - e conferir a tal órgão regulador os poderes para se mostrar mais interveniente. Inclusive com poderes para pôr em causa as licenças dos canais mais relapsos à mudança se tal se mostrar necessário.


quarta-feira, 25 de maio de 2016

Coincidências que não o são!

Não precisávamos da escuta telefónica a Romero Jucá para confirmarmos o carácter golpista e corrupto de toda a conspiração, que conduziu ao impeachment  a Dilma Rousseff. Mas a sua evidência só serviu para convencer os que ainda andavam ingenuamente a acreditar que a narrativa criada pelos órgãos de informação, pelas igrejas evangélicas e pelos políticos de direita, tinha alguma veracidade.
É por isso que a atual onda de contestação de 3% dos colégios privados portugueses contra o governo tem muitos aspetos reveladores do que lhes está na génese. A escolha do amarelo - a mesma dos golpistas brasileiros - para fardar as criancinhas arregimentadas pelos promotores para se manifestarem nas ruas parece bem mais do que uma mera coincidência. E essas similitudes ainda se tornam mais perturbadoras se olharmos para a data escolhida para a manifestação do próximo domingo.
Quem chamou a atenção para essa “coincidência” foi o meu amigo Arnaldo Serrão, que foi lesto a compreender as intenções omissas de fazerem coincidir esse protesto com o fim-de-semana da efeméride do movimento golpista de Braga que, em 1926, veio dar origem ao Estado Novo.
Torna-se óbvia a intenção deste grupo de contestatários, apoiados indecorosamente por Marcelo, pelas televisões, pelas igrejas e pelos partidos da direita, em derrubarem o governo de António Costa, e trazerem de volta os tempos faustosos em que Nuno Crato ia tratando de levar por diante a estratégia de tornar irreversível a degradação da Escola Pública em proveito dos colégios privados.
O golpismo é evidente e carece de uma forte resposta da esquerda, que anda a demorar demasiado tempo em organizar um firme repúdio nas ruas das principais cidades do país.
É que esse movimento de um reduzido número de colégios prefigura o que de pior tem a corrupção entre nós: não é uma imoralidade descarada, porque os seus beneficiários podem sempre alegar a sua leitura enviesada da lei, mas é uma corrupção sonsa, que envolve colégios na Educação, mas muitos outros favorecidos nas áreas da Saúde e da Segurança Social, que vivem à conta de um Orçamento pago por todos nós.
É um cancro, que sobrevive há décadas no nosso país: interesses privados, que utilizam o Estado em seu proveito, julgando-se com direitos a rendas, que nunca deveriam ter auferido. Até porque, ao contrário do que quiseram-nos convencer, está muito longe de ser provada a teoria segundo a qual a Administração Pública gere o que a ela cabe com menos eficiência do que os privados. Como o estado em que está a Banca bem comprova.
A cultura que os Tempos Novos desta esquerda plural deverá recuperar é a lógica, que abespinha os josés gomes ferreiras dos nossos dias: que as nossas vidas não devem ser comandadas pelo que eufemisticamente classificam como os interesses dos mercados, mas o são de um punhado de oportunistas gananciosos, que tudo farão para voltarem a cultivar a lógica de desigualdade crescente na nossa sociedade.
Sim! É importante revalorizar a Escola Pública e o Serviço Nacional de Saúde!
Sim! É imprescindível encontrar novas fontes de financiamento para a Segurança Social através das excessivas mais-valias das empresas, que apostam na precariedade de quem contratam!
Sim! Importa recuperar uma forte Banca estatal, que cumpra com eficácia e competência o papel, que os bancos privados têm-se mostrado tão pouco capazes de assegurar!
E, embora, isso já entre na perspetiva das vacas que voam, seria fundamental que privatizações ilegítimas, avançadas por Passos Coelho, na EDP ou na REN, revertessem pelo menos para o mesmo tipo de correlação já conseguida na TAP.

Acabar com a sensação de vergonha alheia

Quase sempre estou de acordo com o que José Vítor Malheiros escreve na sua coluna semanal no «Público». Daí que seja um leitor assíduo de tudo quanto ele aí enuncia.
No artigo de ontem ele confessou a vergonha, que - enquanto jornalista - sente ao ver telejornais. Pelo sectarismo com que se escolhem as peças a que dedicam maior atenção e pelas opiniões - invariavelmente de gente de direita! - que as acompanham.
De facto são muitos os dias em que o exercício do zapping não resulta: se de um lado troveja, do outro soltam-se coriscos. Ou seja, ora damos com o intragável José Rodrigues dos Santos na RTP1, ora mudamos para a SIC e lá está o «alegre propagandista» José Gomes Ferreira. Tenta-se a TVI e é a Judite de Sousa em pronúncia sopinha de massa a  contar os pormenores sórdidos de algum crime.
Por estes dias não somos tolos, que não percebamos as razões óbvias, que levam os apresentadores a vestirem-se com casacos, camisas ou gravatas da mesma cor da turba dos colégios privados.
Onde recolher informação televisiva minimamente idónea e liberta da tralha neoliberal, que formatou a maioria dos seus protagonistas? O Canal Q costumava ser uma alternativa, mas o «Inferno» anda a derivar em demasia para os trilhos dos canais mainstream.
Como José Vítor Malheiros denuncia, muitos dos opinadores que surgem nos ecrãs, muito particularmente na RTP paga com o dinheiro de todos nós, provém do «Observador», que foi a tentativa canhestra dos Carrapatosos e dos Bottons cá do burgo para criarem os alicerces de uma futura Fox News com a ideologia do «Tea Party» adaptada à realidade portuguesa.
Há dezenas, senão mesmo centenas de comentadores mais interessantes do que a grande maioria dos que nos vendem as suas leituras enviesadas da realidade. Mas esses permanecem silenciados não vá ajudarem os portugueses a reduzirem ainda mais os passos coelhos e as assunções à diminuta dimensão, que merecem as suas propostas políticas.
Há, pois, algo a fazer para mudar as televisões, que nos impingem. Por muito que o aprendiz de escrevinhador da RTP1 grite aos sete ventos, que o estão a censurar.
Calá-lo será, de facto, um ato higiénico, que muito aliviará os ouvidos dos portugueses.  Porque recordando um ditado muito prezado pelo meu defunto pai (“Coitado de quem as ouve, que quem as diz fica aliviado!”) já é tempo de privar essa gente de tais desabafos, porque estamos fartos de nos sentirmos tomados da vergonha alheia de que fala José Vítor Malheiros na sua crónica.

terça-feira, 24 de maio de 2016

As lições que a eleição austríaca nos faculta

Ontem fomos muitos a congratularmo-nos com a vitória de Alexander Van der Bellen na eleição austríaca, que impossibilitou à extrema-direita europeia o arvorar de mais um cabeça-de-cartaz para a sua agenda xenófoba.
Mas, como escrevia hoje Teresa de Sousa no «Público», tratou-se de uma trégua até ao próximo susto. Porque a Áustria está a constituir um bom exemplo do que seria a concretização das teses de Francisco Assis ou Álvaro Beleza se estivesse ao seu alcance a concretização do projeto de governo de um grande centrão, que excluísse as esquerdas (porque um PS com essa natureza seria obviamente um partido de direita!) e a direita mais radical.
Esse modelo de governação apresentou um resultado eloquente nesta eleição: os dois partidos da coligação, que junta sociais-democratas a conservadores, não somaram sequer 1/4 do eleitorado.
A solução criada por António Costa é inovadora e até mesmo pioneira: ao assumir-se de esquerda, e socialista sem vergonha de o ser, empurra a direita para  posição contrária e clarifica muito mais o tipo de sociedade, defendido por ambos os lados: se uns pretendem a inclusão e maior justiça social, os outros confinar-se-ão nas formas de exclusão, que lhes são próprias.
Ademais há uma vantagem acrescida: ao reivindicar-se da representação dos operários e dos menos qualificados, para quem promete soluções passíveis de lhes dar esperança de ascensão social, António Costa evita que se repita em Portugal o sucedido em muitos países onde o operariado, no passado atraído pela esperança comunista, tenha transitado sem pudor para a extrema-direita. Em França, com a Frente Nacional, esse exemplo é mais do que lapidar.
Daí que seja asizado que se generalize por toda a Europa uma coligação frentista mais ou menos formalizada entre todos os que se situem à esquerda, de forma a evitar e melhor combater os Orbans e as Le Pens, que a ameaçam,
Algo que tarda em ser compreendido pelos atuais partidos sociais-democratas e socialistas, como se viu em Viena, onde o partido do poder, e supostamente defensor desta matriz, recusou-se a da indicação de voto aos seus eleitores. Como se pudesse haver alguma dúvida, quando estava em causa um democrata de um lado e um nazi do outro!
Mas a eleição presidencial austríaca ainda nos deve motivar outro tipo de reflexão: segundo os dados conhecidos, Bellen superou o neonazi no voto urbano, feminino (60% das mulheres votaram nele!) e nos eleitores com um nível de educação superior.
Pelo contrário o adversário contou com o voto de 86% dos operários, o que diz muito sobre o abandono ideológico a que eles foram sujeitos  pelas forças políticas mais à esquerda.
O combate pela Educação Pública tem, também, esta importância: quem mais se informa e possui capacidades analíticas mostra-se menos atraído por ideologias, que a Europa já deveria ter, há muito, erradicado.
Carneiro Pacheco, o ministro de Salazar, bem sabia o que fazia, quando fez reverteu muitos dos avanços aprovados durante a República para garantir uma melhor qualificação dos portugueses. Explica-se assim a durabilidade do regime do Estado Novo. É por isso que a direita pretende fazer da Educação um cavalo de batalha: com o “direito à escolha” criaria uma elite por si formatada e trataria de fazer degradar o ensino público. Estaria, a longo prazo, a garantir que o poder caísse perenemente sob a sua alçada.
É por isso que vivemos Tempos deveras interessantes, mas em que devemos exigir a nós mesmos um empenhamento cívico capaz de impor os Novos rumos, que a atual concertação da esquerda plural em Portugal anuncia.

Uma luta que não tem só a ver com Educação!

A meio da tarde uma amiga, que é professora no ensino público, ligou-me em tom escandalizado com a convocatória de uma manifestação da tropa fandanga dos colégios privados e da igreja para causarem poluição sonora no próximo domingo numa passeata até S. Bento.
O que podemos fazer? E se marcássemos uma concentração para o Terreiro do Paço à mesma hora em defesa da escola pública?
A ideia parece-me excelente, mas não para coincidir com esta nova mobilização de criancinhas para defenderem a ideologia retrógrada dos papás. O que nós menos precisamos é de facilitar às televisões o trabalho de compararem uma mobilização altamente profissionalizada, com cartazes e com fardetas amarelas à mistura, com a da expressão espontânea de repudio convocada em cima da hora e em moldes completamente amadores. Seria dar aos defensores da negociata de alguns interesses privados a possibilidade de dizerem: “vejam como nós somos mais do que aqueles que de nós discordam”, mesmo sabendo que quase todo o país está contra eles.
Discordo, porém, dos que pensam ser desnecessária a mobilização dos defensores da Escola Pública só porque o governo em geral, e os titulares do Ministério da Educação em particular, dão mostras de firmeza na resolução deste caso. Pelo contrário, é tempo da esquerda plural organizar uma enorme manifestação, que cale definitivamente Marcelo, a Igreja e os colégios. Que a generalidade dos que se recusam a contribuir com os seus impostos para essas rendas à conta das quais alguns têm privilégios ilegítimos, venham para a rua e digam o repúdio quanto à campanha a que Passos Coelho se volta a colar oportunisticamente.
Cabe pois a quem está nas sedes do Largo do Rato, da Rua Soeiro Pereira Gomes ou da Rua Palma, bem como aos dirigentes sindicais dos professores - calculo que não sejam muitos os seus associados nos colégios dos betinhos! - preparar e dar a devida resposta nas ruas, sob pena de as ver apenas ocupadas por esta turba.
E essa manifestação será tanto mais importante, quanto deve dar o sinal ao que a seguir se verificará: a necessidade de o Governo ceifar a eito as rendas de muitos outros negócios semelhantes nas áreas da Saúde e da Segurança Social.
Se vemos a Igreja Católica mobilizada nesta batalha é por saber que, queira António Costa prosseguir com o fim dos subsídios indevidos a quem se financia graças aos acordos para operações e exames clínicos fora dos hospitais públicos ou graças aos velhinhos arregimentados em lares só viáveis graças ao Estado, muito do dinheiro por ela acumulado sem qualquer escrutínio de um Tribunal de Contas, deixa de entrar nos seus cofres.
Em definitivo se os papás dos meninos dos colégios privados querem aí mantê-los, quando as escolas públicas os poderiam perfeitamente receber, que paguem essa opção. Se a Igreja Católica quer manter a sua fachada de praticar a caridade, que o faça à custa dos que acreditam no seu credo, mas nos liberte a nós, contribuintes, de dar para tal peditório.
Quanto aos demais, aos diretores e donos de colégios, que recebem ordenados indecorosos e se fazem deslocar em carros de alta cilindrada, que encontrem alternativas de investimento igualmente rentáveis, mas que, em si, contribuam positivamente para o crescimento económico do país.
Por muito que Marcelo e Passos o queiram evitar os portugueses estão fartos de uma numerosa quadrilha de oportunistas, que tem vivido à conta do Orçamento... 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Pensar fora da caixa

Uma das coisas, que mais me irritam é o pensamento cristalizado, aquele que recusa bater asas e voar fora da caixa. Porque, perante situações, que se vão alterando e gerando novos desafios, os discursos não mudam, ficam exatamente iguais aos que eram os de há uma, duas, quiçá mesmo três décadas.
Veja-se o artigo do «Público» em que a São José Almeida vai entrevistar diversos nomes sonantes do Partido Socialista a propósito da possibilidade de já não ser tão forte o europeísmo nas respetivas hostes. E se não me surpreendem os posicionamentos de Sérgio Sousa Pinto ou Eurico Brilhante Dias, que dizem o que fazia sentido nesse longínquo passado, já posso ficar mais inquieto com a incapacidade de Ana Catarina Mendes ou Pedro Nuno Santos não se dissociarem do «politicamente correto», recusando-se a enfatizar o facto de a União Europeia ter perdido a focalização na progressiva, e determinada, coesão entre os seus membros para possibilitar o enriquecimento dos países do Norte às custas do empobrecimento dos do sul.
Falando com muitos socialistas não posso dizer que haja já uma forte corrente eurocética, mas crescem decerto as dúvidas quanto à possibilidade de se retroceder nesse perigoso aprofundamento das desigualdades entre os membros da organização e ser altura de ir pensando no que poderá surgir como alternativa. É que, se de um momento para o outro a implosão se verificar, convirá não ser apanhado desprevenido.  E, sinceramente, essa hipótese não parece já muito distante, por muito que o Brexit só corresponda a um primeiro sinal…
Outra das situações, que me andam a irritar por estes dias, quanto à necessidade de se pensar fora da caixa, tem a ver com a provável vitória de um neonazi para a presidência da Áustria. O que demonstra a falácia de balizar a Democracia em votações universais onde todos os cidadãos sejam convidados a optar por quem consideram ideal para os representar como líderes.
Que a Democracia não tem nada a ver com a regra do «um cidadão, um voto», demonstram-no as vitórias passadas de Hitler, dos salafistas argelinos, da Irmandade Muçulmana no Egipto ou do corrupto Mugabe em sucessivas eleições no Zimbabwe.
Quando a Constituição de 1975 foi promulgada um dos seus artigos mais relevantes era o da proibição de todas as organizações de cariz fascista.
É por isso que acredito na necessidade de reduzir seriamente o âmbito do que se considera democrático ao que está inscrito na Declaração Universal dos Direitos do Homem. O que exclui por natureza regimes como o do turco Erdogan, o da Polónia ou o dos ayatollahs iranianos por misturarem religião com política e com justiça, quando só o laicismo garante a igualdade de direitos a todos os credos, inclusive aos que se assumem como ateus ou agnósticos. O que exclui o regime húngaro de Orban, que é manifestamente racista, como se comprova na perseguição assassina, que move aos ciganos. Ou ainda o do Brasil por ser ostensivamente branco e constituído por homens corruptos, que violam muitos dos preceitos de uma governação decente.
Pensar fora da caixa significa ver a Democracia como ela é implementada na governação em vez de a considerar respeitada na forma como alguém acedeu ao poder.
Tempos novos implicam formas renovadas de se pensar. E de agir politicamente. Estamos, pois, confrontados com o desafio de, para ajustarmos as nossas sociedades à matriz de mais igualdade, justiça e fraternidade, elevarmos os padrões do nosso empenho na Cidadania responsável...



domingo, 22 de maio de 2016

Ressabiado e desafinado me confesso!

Eu sei que alguns dirão: “cá está outra vez o ressabiado a falar!” E é verdade: eu ressabiado me confesso!
Passará muita água debaixo das pontes até conseguir aceitar que o eleitorado português tenha desperdiçado a oportunidade de ter como Presidente uma personalidade da dimensão ética e cultural de António Sampaio da Nóvoa. É que ele seria mesmo um Presidente com p grande, enquanto Marcelo nunca passará de um presidente com um p bem pequeno. Em primeiro lugar pela forma fraudulenta como conseguiu tornar-se presidenciável: planear intervenções semanais nas televisões durante anos até estar convencido da forte probabilidade de vencer denuncia um tipo de calculismo, que tem muito mais  a ver com a relevância dada à satisfação do ego do que propriamente à prioridade dada ao que mais interessaria aos portugueses. Tivesse António Guterres concorrido e nunca ele compareceria para perder!
Há, porém, o outro lado que Marcelo representa e sempre virá ao de cima: nunca deixará de ser quem é! Ou seja, o mesmo beato que travará os avanços civilizacionais em questões tidas como proibidas para a igreja - se, no passado esteve entre os que pretendiam travar a lei do aborto, pronuncia-se agora com um provável veto na das «barrigas de aluguer» e por certo tudo fará para impedir a aprovação da «morte assistida».
 No entanto, quando já lança para os jornais a possibilidade de vetar a aplicação das 35 horas à Função Pública, talvez abra os olhos aos comunistas que nele votaram - e assim lhe possibilitaram a passagem à 2ª volta! - continuando a ser dos que, nas sondagens, mais lhe garantem a elevada popularidade.
Ingénuos, que são, continuam embalados pela artimanha dele em ter comparecido duas vezes na Festa do Avante e ter disso feito abundante publicidade!
Ao vetar esse horário de trabalho, Marcelo quererá iniciar o distanciamento do governo, que se tornará mais óbvio quando contar no PSD com um líder mais a seu gosto. Nessa altura, aqueles que verberaram em Cavaco o facciosismo a favor dos seus apaniguados, talvez se surpreendam pelo facto desse tipo de atitude - mesmo que expressa de forma mais inteligente! - não constituir traço de carácter exclusivo do filho do gasolineiro de Boliqueime.
Já se adivinham os opinadores do costume a masturbarem-se intelectualmente com o dilema: dará António Costa satisfação a Marcelo ou ao PCP? Arriscará a crise política e a queda do governo ou voltará a “revelar-se nas mãos dos comunistas”, denotando assim a sua “fragilidade”?
Marcelo sabe bem que António Costa tem capacidades de negociação  fundamentais para garantirem a sua resiliência à frente do Governo, mas também é suficientemente arguto para concluir que o combate a ele só poderá resultar através das tentativas de lentamente criar as condições para desmoronar os apoios em que ele se sustenta. Não é com uma grande vaga, que derruba o Costa, mas com pequenas e sucessivas ondas destinadas a enfraquece-lo na medida do possível!
O resultado adivinha-se: se vetar ambos os diplomas, eles voltarão à Assembleia e a maioria dos deputados aprová-los-ão. Mas os suspeitos do costume andarão semanas a conjeturar sobre o fim da coabitação pacífica e tentarão convencer os incautos quanto a António Costa estar mais enfraquecido, mais próximo de voltar a entregar o pote à direita como eles tanto suspiram!
Sei que alguns responderão a este texto a dizer que sou um desafinado, porque ele até “tem feito quase tudo bem!”. Mas ressabiado e desafinado com o coro dos marcelistas me reafirmo. Porque como concluía a canção de João Gilberto: “Que no peito dos desafinados/ Também bate um coração!”

sábado, 21 de maio de 2016

O elefante incómodo no meio da sala

O diagnóstico está feito e poucos duvidam dele: a União Europeia tal qual está atualmente a funcionar, não terá grande futuro.
Nesta altura não é só o Brexit a conferir essa ideia de se tratar de uma organização moribunda, que qualquer sacudidela aos seus frágeis equilíbrios parece acelerar  na direção do fatal desenlace.
Quando a direita quer distanciar o Partido Socialista da restante esquerda plural aponta para a suposta fronteira entre os “europeístas” e os que o não são. Mas engana-se com essa perspetiva que só poderá ter feito sentido alguns anos atrás: hoje são muitos os socialistas a ver a União Europeia como uma espécie de incómodo elefante no meio da nossa loja de porcelanas e cujo mínimo movimento poderá causar danos imprevisíveis.  Somos, ainda, “europeístas”, mas a contragosto, a partir do momento em que compreendemos a desigualdade de direitos e deveres entre as nações do Sul da Europa e as do Norte. E a Alemanha devolveu-nos a algo próximo da germanofobia, que já parecia enterrado desde o fim do nazismo.
Ao compreendermos que permanecer na União Europeia parece cada vez mais incompatível com a Democracia, põe-se a questão de saber até quando iremos suportar a permanente ingerência dos burocratas de Bruxelas na nossa soberania, arrogando-se de poderes para os quais não foram eleitos.
Porque a crise europeia não é mais do que uma das facetas da crise, por que passa o sistema capitalista, vale a pena aqui listar os seis principais desafios atualmente colocados à Europa comunitária. Em todos ela terá de vencer sob pena de conhecer inapelavelmente o seu fim.
O primeiro desafio é o da recessão económica, que já empurrou milhões de cidadãos para o desemprego e indigência. Sem um crescimento robusto, os problemas sociais agravar-se-ão e os cenários de Terceiro Mundo tornar-se-ão cada vez mais visíveis à nossa volta.
O segundo desafio focaliza-se na classe média, que importa defender enquanto estrato social capaz de estancar as crescentes desigualdades de rendimentos. Por quanto tempo aguentaremos uma situação em que 1% da população mundial tem 80% da riqueza gerada em todo o planeta?
Num terceiro desafio importará resolver com humanismo a crise dos refugiados, salvaguardando a tradição de acolhimento aos que fogem das perseguições políticas e religiosas, ou aos cenários de conflito.
Embora os anos mais recentes não tenham sido famosos para alguns dos principais países emergentes, não se poderá encarar com desatenção as estratégias da Rússia e da China para reconquistarem a importância estratégica e comercial, que já foi a sua.
O quinto desafio é o da ecologia, que exige medidas concretas para contrariar o aquecimento global e livrar a espécie humano dos riscos quanto à sua sobrevivência.
Há enfim a necessidade de combater os fenómenos de corrupção e de tráfico de influencias, que têm dado azo a todas as disfuncionalidades relacionadas com os paraísos fiscais, as bancarrotas de bancos devido às elevadas imparidades, etc.
Não havendo grandes expectativas quanto à resolução de todos esses constrangimentos,  esperemos que António Costa consiga apoios bastantes noutras capitais europeias para limitar a influência do PPE e contribua para a recuperação da matriz socialista, que há muito não se constata em tudo quanto é debitado pelos comissários, pelos membros do Eurogrupo ou pelos demais técnicos da Comissão...