quarta-feira, 19 de agosto de 2020

À margem das polémicas artificiais


«Polémicas artificiais» assim designou António Costa todo o burburinho dos últimos dias tendo epicentro na Ordem dos Médicos e potenciado por uma imprensa que, sem incêndios e com os números dos afetados pelo covid a ficarem nas meias águas, agarra-se ao assunto como náufrago a boia de salvação.
As direitas políticas mostram-se inconsequentes, ora chamando ministras a Comissões Parlamentares a que ninguém verdadeiramente liga pela banalização decorrente do seu recurso por tudo e por nada, ora exigindo-lhes a demissão.
Quem começou a emergir para imitar o colega dos médicos nas táticas oportunistas, foi o bastonário dos advogados, um narcisista com longa carreira a guerrear inquilinos por conta dos interesses imobiliários e agora disposto a também auditar os escombros do caso de Reguengos de Monsaraz. Assisadamente os presidentes da Confederação Nacional das IPSS e da União das Misericórdias Portuguesas vieram perguntar pela legitimidade com que as Ordens querem vir meter-se onde não são chamadas. Contestando-as claro! E aí algumas direitas ter-se-ão sentido desconfortáveis porque merecendo a ministra o apoio das estruturas de Igreja Católica como podem explicar aos seus prosélitos, que estão momentaneamente na trincheira contrária?
Uma vez mais foi Catarina Martins quem apareceu desafinada no meio desta controversa história. Em vez de imitar o prudente silêncio dos comunistas, que consideraram muito justamente nada terem a opinar sobre o que minguava em substância, a líder do Bloco veio juntar-se ao Chicão e ao Chega nas críticas à ministra. O que continua a ser um sinal preocupante para quem desejava vê-la a mostrar outra sensatez e começar a negociar com o governo o acordo escrito agora proposto por quem, outrora, se mostrara a ele tão avesso. A viragem de Carlos César a 180º revela que, dentro do Partido Socialista, já perderam gás os defensores de um mirífico Bloco Central, que Rui Rio ajudou a enterrar com a sua colagem à extrema-direita. Algo de tão surpreendente que até a insuspeita Paula Teixeira da Cruz veio contestar como erro indesculpável e mereceu de Daniel Oliveira o comentário assassino de considerar que “raramente um líder partidário exibiu tamanha estupidez tática.”
Noutra vertente completamente diferente o «Público» faz capa com um estudo do Centro Nacional Oceanográfico do Reino Unido que demonstra existir dez vezes mais plástico no Atlântico do que se estimava. Com os consequentes danos na cadeia alimentar, com espécies animais enroladas ou empanturradas de plásticos e a nossa ingestão de fragmentos muito pequenos de tão nociva substância na comida, que nos chega ao prato.
Virando o mesmo jornal ao contrário damos com a crónica de Rui Tavares na última página tendo por tema a constatação de ser exatamente o contrário o que se passa relativamente à acusação dos liberais sobre o problema do socialismo ser o de esgotar-se quando acaba o dinheiro dos outros. De facto o governo do neoliberal holandês está a querer evitar a saída dos impostos da multinacional Unilever para o Reino Unido onde lhe está prometida taxa fiscal mais baixa.  De repente os frugais, que têm tido sucesso à conta dos recursos dos outros, ficam em pânico com a ingestão do veneno, que julgavam exclusivamente seu. O que poderá facilitar, segundo o autor do texto, a criação futura de um sistema fiscal comum a todo o espaço europeu. Assim desejamos que aconteça.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

A Ordem dos Médicos e a metáfora do ladrão


Filipa Lança, a relatora da «auditoria» da Ordem dos Médicos às condições do surto de covid 19 no lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva em Reguengos de Monsaraz criou um documento em defesa própria por, segundo a ARS Alentejo, “ter sido a responsável pela falta de médicos no lar”. De facto, quando o número de casos começou a crescer na instituição, alguns médicos indigitados como equipa de primeira linha para cuidar dos doentes recusaram-se a fazê-lo não só violando um dos seus mais importantes deveres deontológicos como escusando-se a cumprir a sua obrigação para com a entidade, que os emprega, o SNS, porque tanto são utentes do mesmo os que os procuram no conforto dos seus consultórios como os dos lares, que exijam a sua deslocação. Que agora venham armar-se em coitadinhos porque foram “ameaçados” por José Robalo, diretor da ARS, com a instauração de processos disciplinares, só pode suscitar espanto: se estavam a descumprir os seus deveres deontológicos e os que têm para com a sua entidade patronal, o que esperam? Sem quaisquer tibiezas, José Robalo afiança que nessa, e em qualquer situação idêntica, é esse o normal procedimento da tutela.
Daí que a mesma ARS venha muito justamente considerar que a Ordem dos Médicos de cujo Conselho Regional do Sul, Filipa Lança é vogal, tenha querido esconder os obstáculos que colocou à prestação de cuidados a quem deles necessitava, obrigando o governo a recorrer a médicos das Forças Armadas para contornar esse inaceitável procedimento. Explica-se assim que, na sua mais do que duvidosa metodologia, a coordenadora da auditoria nem sequer tenha cumprido a elementar audição daqueles a quem, desde início, pretendia acusar como culpados. Ou tenha optado por apenas ouvir os profissionais médicos que se recusaram a cumprir os seus deveres funcionais.
Se se justifica alguma auditoria por parte da Ordem dos Médicos ela deveria cingir-se à dos seus próprios membros, que violaram grosseiramente aqueles que deveriam ser os seus imperativos deontológicos. Mas compreende-se que, na sua ânsia de tudo aproveitar para pôr em causa o governo, o seu bastonário opte pelas mais ignóbeis estratégias. Mesmo sendo este um daqueles casos que lembram o do ladrão que, para desviar de si as atenções, opta por gritar tão alto quanto possível, que outro está a fugir mais adiante.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Ligações Perigosas


1. A confirmação da vontade da direção do PSD em considerar o Chega seu potencial aliado, tão só se concluam as próximas autárquicas, confirma o que já ,sabíamos de Rui Rio: existe nele a propensão para afastar-se das margens do que é a Democracia, sentindo-se tentado pelas conceções mais extremistas. Confirmou-se isso quando era presidente da Câmara do Porto, e quis replicar o sinistro militar franquista, que asseverava puxar da pistola sempre que ouvia falar de Cultura. As direitas lusas andam a incorrer num rumo parecido ao dos Republicanos norte-americanos: julgam que quanto mais se afastam dos parâmetros habituais e constitucionais  melhor apreço colherão dos eleitores. Esperemos que tenham o devido troco!
2. Seria ridícula se não fosse elucidativa da cultura dominante nas mais altas hierarquias da PSP  a decisão de pôr em tribunal o autor do cartoon de um jornal por associar alguns dos seus elementos a comportamentos racistas. Em vez de admitir o óbvio - a existência de infiltrados clandestinamente organizados sob a sigla de Movimento Zero -, e a intenção de os identificar e punir com exemplar expulsão, essa hierarquia pretende manter a cabeça na areia e ignorar o que se passa internamente. Preferindo matar o mensageiro a levar a sério o conteúdo da mensagem. Assim sendo não espanta a notícia de alguns dos seus elementos terem assistido à manifestação nazi em frente à SOS Racismo sem cuidarem sequer de identificar quem se comportava à revelia das mais elementares leis democráticas.
3. Se conseguisse traduzir os sonhos em realidades teria Bernie Sanders como presidente dos EUA, Elizabeth Warren como sua vice, Alexandra Ocasio-Cortez a liderar o Congresso e Michael Moore como responsável pela Fox News. Como existe uma enorme diferença entre os meus desejos e a realidade já me contento com Joe Biden e Kamala Harris até reconhecendo que, nas presentes circunstâncias, são a melhor de todas as soluções possíveis. E quero crer que, apesar de não faltarem vozes a preverem nova vitória de Trump ainda haveremos de agradecer ao covid 19  a ajuda que terá dado para correr com ele definitivamente das nossas vidas...

domingo, 16 de agosto de 2020

Mais uma pífia campanha do grupo Balsemão


Ontem de manhã constatei a mais recente campanha antigoverno, que o relatório da Ordem dos Médicos sobre Reguengos de Monsaraz pariria: na Sic Notícias um dos principais responsáveis pelo «Expresso», Vítor Matos, exultava por a ministra ter-se revelado «desastrada» na entrevista, que concedera ao jornal. Adivinhava-se o que estivera subjacente a esse pedido de entrevista: levar Ana Mendes Godinho a dizer inocentemente o que andava a preparar para responder à crise sanitária - milhares de contratações para os lares da Terceira Idade e centenas de milhões de euros entretanto despendidos para a ela responderem! - não dando qualquer enfase a esse lado da notícia, para a descontextualizar e, fraudulentamente, sugerir que a entrevistada nenhuma importância dava a tal setor.
Que Vítor Matos tenha vindo secundar a campanha lançada pelo seu jornal não admira: para quem tivesse alguma dúvida ele ficou definido na intriga que, meses atrás, organizou no «Expresso» para afastar um diretor honesto, mesmo que de direita (Pedro Santos Guerreiro) por um outro, (João Vieira Pereira), que toda a vida tem-se mostrado sem escrúpulos quando se trata de fazer vingar as suas posições ideológicas na mesma área. Não se sabendo se de motu próprio, se a mando de alguém, Vitor Matos criou as condições propícias para que o «Expresso» melhor cumprisse os desígnios dos seus patrões deixando-se de quaisquer paninhos quentes que o anterior diretor quisesse assumir perante o governo. Ao ver como Vítor Matos verberava a ministra logo se concluiu sobre o que se seguiria durante o dia: o Chicão a «exigir» a demissão da governante, logo secundado pelo putativo parceiro fascista e o PSD a anunciar uma convocatória da mesma ao Parlamento.
Que tudo isto dá razão à conhecida caracterização dos meses de verão como silly season não sobrarão dúvidas: nem o Ministério Público encontrará razões na peça ideológica da Ordem dos Médicos para ir muito mais adiante quanto ao que se passou em Reguengos de Monsaraz - e se o intentar não faltarão argumentos jurídicos para a desautorizar! - como todos quantos pedem demissões de ministros sempre andam de carrinho, quando o exigem a António Costa. A campanha dura um fim-de-semana, mas não se prolongará por muitos dias mais.
Lamento, porém, que por razões institucionais Ana Mendes Godinho só tenha podido reagir com elegância no desmentido às acusações que lhe atribuem. Pudesse ela dizer o que lhe ia na alma decerto não deixaria de lembrar que tem muito mais que fazer do que perder tempo a ler relatórios desonestos produzidos com objetivos ideológicos muito óbvios (ao contrário de quem se entedia entre duas selfies  e outros tantos mergulhos e pode encontrar neles algum interesse para os seus próprios fins!) e não imaginara que chegasse tão longe a falta de vergonha dos que mandam no «Expresso» ultrapassando em muito o que pressuporia uma conduta deontológica aceitável.
Ana Mendes Godinho tem os números do quanto o seu ministério já gastou e se apresta a gastar nos lares da Segurança Social para demonstrar que muito fala quem nada faz, ao contrário do que consigo acontece.