domingo, 16 de agosto de 2026

Vidas Improváveis - XVII. Aníbal, o da Memória Seletiva

 


(Décimo sétimo de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que se constata quanto não faltam exemplos de quem se julga com muitos mais méritos do que visivelmente têm ).

 

Cavaco Silva pertence à espécie de quem se faz à boleia da bandeira alheia: Mário Soares negociara a entrada de Portugal na CEE, com o desgaste e o risco que a negociação impõs a quem a assinou, e coube a Cavaco colher os fundos que dessa entrada resultaram, gastando-os numa orgia de betão que o próprio apelidou depois de modernização.

Enquanto se erguiam viadutos e abriam avenidas, afundavam-se sectores inteiros sem cerimónia equivalente: a pesca, a marinha mercante, e as populações que deles viviam, empurradas para reconversões que ninguém lhes perguntou se queriam. O betão fica bonito nas fotografias de inauguração; os pescadores reformados à força não saem tão bem na imagem.

Há, no entanto, uma inspiração mais funda do que a do cimento, essa nunca confessada em discurso nenhum: a nostalgia discreta do Estado Novo, revelada com uma clareza quase didática quando, primeiro-ministro, recusou a Salgueiro Maia a pensão pedida por "serviços excecionais e relevantes prestados ao país" — para, depois, conceder pensão idêntica a dois antigos inspetores da PIDE.

Não é preciso psicanálise para ler o gesto: um capitão de Abril esperou em vão pelo que dois agentes da polícia política receberam sem entraves. A homenagem tardia, feita já como Presidente, chegou vinte anos depois, "tímida, envergonhada e sem chama", nas palavras de quem estudou o episódio de perto.

Quanto ao economista, o mérito fica por provar. Não deixou alunos que se lembrem dele como mestre inspirador, nem artigos científicos que tenham desbravado coisa alguma; deixou, isso sim, o hábito obstinado de intervir no espaço público com textos onde o fel pelas esquerdas nunca falha a pontaria e a generosidade para com as direitas nunca escasseia, mesmo quando os méritos que lhes atribui são, para a maioria dos leitores, difíceis de vislumbrar.

Fica o retrato de um homem que construiu obra com dinheiro alheio, memória com esquecimentos seletivos, e reputação de sábio com a repetição paciente de opiniões que a ciência económica nunca lhe pediu como prova. Talvez seja este o seu monumento mais duradouro, mais até do que o betão: a capacidade para se apresentar como estadista acima da história, precisamente para quem sabe ler, com atenção, o que a história já documentou sobre ele.

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