sexta-feira, 24 de agosto de 2018

E pur si muove - 24 de agosto de 2018


1.  De acordo com uma diretiva europeia a Assembleia da República prepara-se para aprovar em breve uma legislação mais restritiva quanto ao uso e porte de  arma por particulares. Razão para os deputados estarem a receber emails de quem discorda dessa medida de elementar higiene civilizacional, porventura por ver mais distante o dia em que a Europa imite os Estados Unidos na possibilidade de cada cidadão ter acesso a grandes quantidades de armas e filiarem-se numa organização similar à National Rifle Organization.
Olhando para o quanto esses valores influíram no sucesso da eleição de Trump - como outrora tinham contribuído para as vitórias de Reagan ou dos Bush - os europeus bem se podem precaver de darem às direitas extremas ainda melhores trunfos para se imporem politicamente numa altura em que já se veem tão representadas à frente de alguns governos do continente.
2. No mínimo vêm sendo caricatas as cenas a que os novos partidos das direitas nos têm proporcionado nestes últimos dias. Após a formalização da rutura com o PSD, Santana Lopes está a transformar em farsa a continuidade do seu percurso político, anteriormente marcado pela tragicomédia. Agora é a Iniciativa Liberal, que perdeu o efémero presidente, porque este decidiu não pactuar com a ductilidade dos seus parceiros em servirem-se da barriga de aluguer que foi uma página de facebook de apoio a António Costa («Capacitar Portugal») para encontrarem um universo de leitores mais alargado para os seus dislates.
Eu que em tempos li com interesse algumas das coisas publicadas nessa página de Facebook, há muito dela me dissociei pelo que me vi imune a tal vírus, mas admito que alguns socialistas e outros simpatizantes das esquerdas tenham sido contemplados com a praga. Mas o episódio serviu para confirmar o já expetável: esta moda de novos partidos ditos liberais mais não constitui do que uma manifestação de oportunismo por uns quantos desempregados da política dispostos a criarem uma moda trendy a ver se conseguem nela satisfazer os seus intentos narcísicos...
3. Apesar de se estar a assistir a uma redução significativa do número de desempregados, traduzido na criação de emprego mesmo para muitos dos que se julgavam definitivamente marginalizados dessa hipótese, existe ao mesmo tempo um aumento dos contemplados com o Rendimento Social de Inserção: eram cerca de 208 mil no ano transato, são 222 mil atualmente. E a razão só pode ser digna de elogio por significar uma atitude proactiva do governo no combate à pobreza extrema.
“Tivemos uma quebra brutal nos beneficiários do RSI, numa altura em que o desemprego aumentou e os rendimentos diminuíram, por causa dos entraves burocráticos criados para fazer diminuir o acesso a esta prestação. Com o fim desses entraves, o sistema está a voltar a cumprir aquela que é a sua função de apoio aos mais desfavorecidos”, explica o sociólogo Carlos Farinha Rodrigues.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

E pur si muove - 23 de agosto de 2018


1. Embora os números indiciem que existem mais queixas sobre situações de racismo e xenofobia no ano em curso do que no transato, essa constatação pode ser positiva por corresponder a uma maior propensão das vítimas em exercerem o direito a serem defendidas de energúmenos que, antes da aprovação da atual lei, escapavam mais facilmente às consequências dos atos e se ufanavam da sua impunidade.
Porque queremos um país mais justo só podemos congratularmo-nos com essa tendência para as vítimas de atos hediondos não calarem as humilhações ou as agressões a que se sujeitam, exigindo a devida punição dos trogloditas, que as terão provocado.
2.  Com a aprovação da lei de proibição de abate de animais nos canis públicos, a Assembleia da República definiu um período de moratória de dois anos para que as autarquias em causa  preparassem  a concretização do cumprimento do então decidido.
Acreditando que ainda estamos no tempo em que as leis são aprovadas, mas não significam que devam ser cumpridas, muitas dessas autarquias nada fizeram no sentido de recolher e esterilizar os cães e gatos sem dono, alheando-se do que pudesse vir a acontecer.
Agora barafustam, porque imaginam os munícipes atacados por matilhas de animais sem dono, que tentarão saciar a fome mediante comportamentos agressivos. E ficam escandalizados, porque, muito corretamente, os deputados não lhes prolongam ad eternum a moratória de termo quase concluído.
3. Há um coronel reformado, de nome Tinoco Faria que, de quando em quando, tem sido notícia pelas piores razões, porque representa a continuidade da Brigada do Reumático no tempo de Marcelo Caetano.
Sempre que vê motivos para organizar almoços ou jantares de desagravo contra supostas afrontas a militares fascistoides aí o temos na primeira linha, invariavelmente com o discurso hipócrita de tais eventos não significarem o que são.
O pretexto mais recente tem a ver com o afastamento de um coronel do Regimento dos Comandos, sob cuja responsabilidade foram feitos os exercícios que provocaram a morte dos jovens recrutas.
Como a desculpabilização do presumível motivador de tais mortes não lhe chega, o Tinoco também decidiu homenagear o fundador da Associação de Comandos, um tal Vitor Ribeiro, que, além de ter participado no contragolpe fascista do 25 de novembro de 1975 - depois «moderado» por Ramalho Eanes e pelo Grupo dos Nove - foi determinante para dar a muitos dos que pertenceram àquele corpo militar, conhecido pelos piores crimes na Guerra Colonial, uma saída profissional sob a forma de musculados seguranças em salas de divertimento noturno da capital com o que isso implicaou de ligação direta ao crime organizado.
O país dispensa bem estes Tinocos que, se nunca foram confrontados com a vertente criminosa do ideário político, bem merecem continuar a ser vigiados, porque a Democracia é sempre algo que lhes provoca uma fétida azia. Nós não precisamos de Balsonaros de sotaque luso...

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

E pur si muove - 22 de agosto de 2018


1. A dois meses do processo de escolha do novo procurador-Geral da República, o Ventinhas que lidera o sindicato dos magistrados revela-se nervoso, porque não tem garantido que seja um seu apaniguado a ser bafejado com a escolha do governo e a bênção de Marcelo. A realidade política atual não corre de feição a quem tem feito da instituição um centro de contrapoder contra o Partido Socialista recorrendo aos jornais para avançar teorias, que depois não consegue demonstrar como sendo verdadeiras. Fica a suspeição, que é parte importante do objetivo, mas não suficiente para devolver o poder às direitas, que têm visto os seus casos de corrupção passearem alegremente até à prescrição, sem que os seus autores cheguem a conhecer - salvo raríssimas exceções - o opróbrio da prisão.
2. Sem qualquer sentido de pudor Assunção Cristas andou ontem a fazer campanha contra o governo nos comboios da Linha do Oeste, que até poderiam já nem existir se se tivesse concretizado a intenção do Executivo de que fez parte em extingui-los.  Não consta que tenha havido quem lho lembrasse com a «assertividade», que a situação careceria.
3. Prossegue a contínua redução dos inscritos nos centros de emprego, sendo comparativamente menos 20% do que em julho do ano passado. Ao mesmo tempo, e continuando na lista das boas notícias para o governo, o Banco de Portugal reconheceu um crescimento de  13,9% nas receitas das atividades turísticas no primeiro semestre.
4. Nas novidades da cena política internacional avulta a intenção do governo socialista espanhol em contornar a oposição da família do ditador Franco à exumação das suas ossadas do sinistro Vale dos Caídos e o isolamento acrescido de Trump, a quem o anterior advogado atribuiu responsabilidades em situações ilícitas, que podem justificar o lançamento do processo de impugnação. Na Ásia a ilha de Taiwan vai sentindo um isolamento internacional cada vez mais notório com El Salvador a juntar-se a outros cinco países que, nos últimos dois anos, romperam ligações com o seu governo e passaram a reconhecer a legitimidade da pretensão de Pequim em recuperar a soberania sobre todo o território chinês.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Os sonhos utópicos da Cavaca


O que me comovi com a explicação dada por Ana Rita Cavaco para explicar a razão de se ter aumentado para 5000 euros ilíquidos. É que a coitada da bastonária só leva para casa 2800 líquidos ao fim do mês. Quase podemos compreender-lhe o provável entusiasmo com a proposta de Santana Lopes em reduzir significativamente os impostos para lhe possibilitarem um padrão de vida mais de acordo com o seu gosto pelos trapinhos.
É claro que em vez de um Serviço Nacional de Saúde com limitações significativas de recursos - que lhe motivam tão histéricas «denúncias»! -, teríamos só hospitais e clínicas privadas.  Mas não é esse o seu sonho mais grato, aquele em que os «investidores» nos males e dores alheias, a premiariam pela ajuda inestimável dada ao cumprimento do velho sonho de um antigo ministro das direitas, que proclamava aos sete ventos a naturalidade de se exigir a quem saúde desejasse, que a pagasse... e bem?