Há
derrotas que se assumem e há derrotas que se delegam ao país inteiro, como quem
reparte a fatura por convidados que nem sabiam estar na festa. A da reforma
laboral, chumbada por Chega e esquerda em conjunto, a mais pesada sofrida pelo
governo até hoje, coube-lhe assim: "não é uma derrota pessoal",
garantiu, "é uma derrota para o país" — como se o cargo de ministra
viesse com imunidade de autoria sempre que os números corressem mal.
Curioso,
porém, é ver como a mesma senhora, incapaz de convencer patrões e sindicatos de
uma reforma inteira, nunca falha a pontaria quando o alvo é pequeno. Aprovada a
Prestação Social Única, não por mérito próprio mas pela complacência
socialista, receosa de ver fugir 620 milhões de fundos europeus antes do prazo
do PRR, Palma Ramalho conseguiu, ainda assim, deixar-lhe a sua assinatura:
valor de referência fixado em 268,6 euros, reduzido a metade logo que o
beneficiário ganhe mais do que cem euros por mês — uma esmola disfarçada de
reforma, para quem já vivia da esmola disfarçada anterior.
Não
escondeu, aliás, a quem devia gratidão verdadeira: "o Chega teria sido o
nosso parceiro preferencial", lamentou em entrevista, como quem confessa,
entre duas cortesias, o namoro que preferia ter tido. O PS deu-lhe os votos
necessários; o coração ministerial, esse, ficou reservado a outro pretendente,
mais alinhado com a régua curta que gosta de aplicar aos que menos têm.
Há nisto
uma proporção quase matemática, digna de um catedrático a mais na sala das
ironias: quanto maior a reforma, menos convence; quanto menor o subsídio, mais
o define. Perde o grande combate sem se dar por vencida, ganha a pequena guerra
sem se dar por satisfeita — e sai sempre a citar o PRR, o prazo, a Comissão
Europeia, como quem invoca testemunhas para um crime que ninguém pediu para
cometer, mas que ela, com aplicação notável, comete de qualquer forma.
Fica o
retrato de uma ministra que trata os grandes números com a leveza de quem fala
do tempo, e os pequenos com o rigor de quem soma trocos ao balcão — inflexível
apenas quando a inflexibilidade dói a quem menos tem forma de reagir. Se a
reforma laboral fosse um exame, teria chumbado; a Prestação Social Única, essa,
passou — mas só porque baixou, de propósito, a fasquia até ao tamanho exato da
miséria que se dispôs a tolerar.

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