terça-feira, 11 de agosto de 2026

Vidas Improváveis XIII. Rosário, a Senhora dos Cêntimos

 


Há derrotas que se assumem e há derrotas que se delegam ao país inteiro, como quem reparte a fatura por convidados que nem sabiam estar na festa. A da reforma laboral, chumbada por Chega e esquerda em conjunto, a mais pesada sofrida pelo governo até hoje, coube-lhe assim: "não é uma derrota pessoal", garantiu, "é uma derrota para o país" — como se o cargo de ministra viesse com imunidade de autoria sempre que os números corressem mal.

Curioso, porém, é ver como a mesma senhora, incapaz de convencer patrões e sindicatos de uma reforma inteira, nunca falha a pontaria quando o alvo é pequeno. Aprovada a Prestação Social Única, não por mérito próprio mas pela complacência socialista, receosa de ver fugir 620 milhões de fundos europeus antes do prazo do PRR, Palma Ramalho conseguiu, ainda assim, deixar-lhe a sua assinatura: valor de referência fixado em 268,6 euros, reduzido a metade logo que o beneficiário ganhe mais do que cem euros por mês — uma esmola disfarçada de reforma, para quem já vivia da esmola disfarçada anterior.

Não escondeu, aliás, a quem devia gratidão verdadeira: "o Chega teria sido o nosso parceiro preferencial", lamentou em entrevista, como quem confessa, entre duas cortesias, o namoro que preferia ter tido. O PS deu-lhe os votos necessários; o coração ministerial, esse, ficou reservado a outro pretendente, mais alinhado com a régua curta que gosta de aplicar aos que menos têm.

Há nisto uma proporção quase matemática, digna de um catedrático a mais na sala das ironias: quanto maior a reforma, menos convence; quanto menor o subsídio, mais o define. Perde o grande combate sem se dar por vencida, ganha a pequena guerra sem se dar por satisfeita — e sai sempre a citar o PRR, o prazo, a Comissão Europeia, como quem invoca testemunhas para um crime que ninguém pediu para cometer, mas que ela, com aplicação notável, comete de qualquer forma.

Fica o retrato de uma ministra que trata os grandes números com a leveza de quem fala do tempo, e os pequenos com o rigor de quem soma trocos ao balcão — inflexível apenas quando a inflexibilidade dói a quem menos tem forma de reagir. Se a reforma laboral fosse um exame, teria chumbado; a Prestação Social Única, essa, passou — mas só porque baixou, de propósito, a fasquia até ao tamanho exato da miséria que se dispôs a tolerar.

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