segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Vidas Improváveis - XII. José, o Professor Sem Turma

 


(Décimo segundo de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que se revela o paradoxo de quem combate o algoritmo que substitui a razão pelo primado da atenção).

 

Partidos nasceram a ensinar o país a dizer sim a coisas que ainda não tinha coragem de nomear: o casamento entre iguais, a despenalização das drogas, o direito a morrer com dignidade. O Bloco de Esquerda foi, durante duas décadas, a escola vanguardista de uma geração inteira — e José Manuel Pureza herdou-a precisamente quando a sala ficou vazia.

Catedrático de Relações Internacionais em Coimbra, católico praticante num partido de ateus convictos, com a reserva de quem prefere o seminário à claque, Pureza chega à coordenação depois de Mariana Mortágua — que partira num barco rumo a Gaza quando ainda meio país tapava o sol com a peneira, fingindo não ver o que os exércitos israelitas faziam à vista de todos, e foi detida em alto mar por dizer, com o corpo, o que a diplomacia oficial recusava dizer com palavras. Foi o gesto mais nítido do Bloco em anos: coragem sem desconto, no momento exato em que ela custava caro.

E, no entanto, nada disto trouxe de volta os jovens. É este o paradoxo que Pureza herda como quem recebe uma cátedra vazia: o partido que ensinou uma geração a dizer sim às causas fraturantes perdeu a geração seguinte para o algoritmo, que ensina outra fratura — a da masculinidade agredida, a do inimigo com nome de vizinho ou de estrangeiro, a da raiva embrulhada em vídeos de quinze segundos. Contra isto, Pureza oferece seminários, seriedade, seis parágrafos onde bastaria um meme.

É catedrático a vida toda, e é como catedrático que combate: com bibliografia, com nuance, com o hábito antigo de responder a uma frase com um argumento em vez de um insulto. A geração que devia convencer já não lê parágrafos — desliza ecrãs, e, cada vez mais depressa, para a direita, atraída por vozes que prometem certezas rápidas onde ele oferece apenas dúvidas bem fundamentadas.

Há qualquer coisa de paradoxal nesta desadequação: o homem que passou a vida a explicar o mundo às claras luzes da razão descobre, tarde, que ela deixou de ser o produto mais vendido no mercado da atenção. Explica bem, e ninguém, exatamente por isso, o segue até ao fim do vídeo.

Fica o retrato de um professor sem turma, à frente de um partido que teve razão sobre Gaza antes de a ter o resto do país, e que continua sem saber recuperar quem já não frequenta escola nenhuma — nem a dele, nem, receia-se, nenhuma outra que não caiba num ecrã de telemóvel.

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