quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Entre o Sufoco e a Urgência: Votar Contra o Abismo

 

A primeira volta das presidenciais coloca-me perante uma escolha clara: votarei num dos três candidatos das esquerdas verdadeiras — e nenhum deles é António José Seguro, que só por piedade ou distração se poderá classificar como "centro-esquerda", seja lá o que isso signifique em tempos de tanta confusão programática. Na segunda volta, farei o que for necessário para travar Ventura, ainda que isso implique votar em Seguro, Marques Mendes ou até Cotrim. Seguirei, se necessário, o conselho histórico de Álvaro Cunhal quando mandou os comunistas votarem em Mário Soares contra Freitas do Amaral: com o nariz tapado, mas votando.

Porém, e aqui Pedro Adão e Silva tem toda a razão no texto hoje inserido na última página do Público: as circunstâncias são radicalmente diferentes de 1986. O que então estava em jogo era a consolidação de uma democracia ainda frágil contra os restos do autoritarismo salazarista. O que está em jogo agora é a defesa daquilo a que chamam "democracia liberal" — eufemismo contemporâneo para o que outrora se designava honestamente como "democracia burguesa" — contra o fascismo puro e duro que Ventura representa sem disfarces.

E aqui reside o nó górdio desta eleição: os mileiristas de Cotrim, esses arautos do ultraliberalismo que fantasiam um Estado mínimo onde apenas sobrevive quem tem capital, estão objetivamente de braço dado com o despudor autoritário de Ventura. Não por coincidência ideológica explícita, mas porque ambos partilham o mesmo desprezo pelos mais frágeis, a mesma indiferença perante a miséria alheia, a mesma vontade de desmantelar o que resta do Estado social. A indistinção entre a base militante do Chega e a da Iniciativa Liberal nas redes sociais não é acidente — é revelação de uma cumplicidade profunda que apenas se envergonha de si própria quando as câmaras estão ligadas.

Cotrim pode declarar o que quiser sobre apoiar Ventura numa segunda volta. A verdade é que o seu projeto político já apoia Ventura todos os dias ao defender políticas que empurram os portugueses para o desespero do qual o fascismo se alimenta. É isto que Cláudia Santos - num artigo do mesmo Público -demonstra de forma irrefutável no seu texto sobre a insegurança real dos portugueses.

E aqui subscrevo totalmente a sua análise: a verdadeira insegurança que assola o país não tem nada a ver com a criminalidade — essa é apenas o biombo conveniente que Montenegro e Ventura usam para esconder a devastação que provocam. A insegurança real tem nome e morada: chama-se desgoverno, chama-se desmantelamento do Estado social, chama-se abandono dos mais vulneráveis.

Treze horas numa urgência hospitalar não são insegurança estatística — são a prova de que o Estado abandonou a sua função primordial de proteger os cidadãos. Não saber onde nascerá o seu bebé não é ansiedade abstrata — é a certeza de que a saúde pública foi sacrificada no altar da austeridade. Um homem que morre no Seixal esperando três horas por uma ambulância não é uma fatalidade — é um homicídio por negligência institucional.

E quando o Governo de Montenegro substitui políticas sociais por políticas punitivas, quando finge resolver problemas inexistentes (a criminalidade não aumentou significativamente, nem tem relação com a imigração) para ocultar os problemas reais que não resolve (saúde, habitação, emprego precário), está a fabricar ativamente as condições para o caos social que depois usará como justificação para mais repressão.

A história de Nem da Rocinha que Cláudia Santos evoca é o espelho do nosso futuro se continuarmos neste caminho: um pai que se torna criminoso porque o Estado o abandonou quando a filha adoeceu. Quantos portugueses estão hoje a um passo desta mesma encruzilhada? Quantos pais desesperados, quantos doentes sem tratamento, quantos jovens sem futuro, quantos trabalhadores precários estão a ser empurrados para a margem do abismo pela indiferença calculada de quem governa?

Montenegro escolheu a segurança como bandeira, mas apenas a segurança performativa das operações policiais espetaculares e das conferências de imprensa em horário nobre. Enquanto isso, a insegurança real — a de não ter casa, a de não ter emprego digno, a de não ter acesso a saúde — cresce exponencialmente. E é precisamente esta insegurança real que alimenta a violência delinquente que depois serve de pretexto para mais Estado policial e menos Estado social.

O círculo vicioso é perfeito: destroem-se as redes de proteção social, empurram-se as pessoas para o desespero, aguarda-se que o desespero se transforme em violência, usa-se essa violência para justificar mais repressão e menos apoio social. É o warfare a substituir o welfare, é a guerra contra os pobres disfarçada de guerra contra o crime.

E por isso, quando vou votar na primeira volta num candidato de esquerda verdadeira, não estou apenas a escolher um programa político — estou a recusar este caminho de barbarização social que nos querem impor. E quando votar, se necessário, contra Ventura na segunda volta, mesmo que seja em Seguro, não estarei a defender uma democracia liberal que me satisfaça — estarei apenas a tentar evitar que o fascismo explícito substitua a violência sistémica que já nos governa.

É pouco? É pouco. Mas entre o sufoco quotidiano da democracia burguesa e a asfixia total do fascismo, há ainda uma diferença que justifica o esforço de tapar o nariz e votar. Não por esperança, mas por recusa do pior. E porque, como Cunhal sabia, há derrotas estratégicas que se aceitam para evitar catástrofes definitivas.

O drama é que esta eleição não nos oferece a possibilidade de vencer — apenas a possibilidade de adiar a derrota. E isso, por mais miserável que seja, ainda vale o esforço de ir às urnas.

1 comentário:

  1. Pior do que o desgoverno na saúde, pior do que o caos em quase tudo o resto, é isto: a degradação moral assumida, dita sem pudor e praticada sem remorso.

    No último Natal, decidiu-se que a clemência era excessiva e que o perdão não combinava com a época. Não encontrar uma única pessoa condenada que merecesse um indulto diz tudo sobre a moral desta gente. Não surpreende. Deste género de criaturas nunca se espera humanidade, apenas frieza travestida de virtude. Um governo de ratos de sacristia, sempre pronto a exibir rigor quando ele cai sobre os mesmos de sempre, caminha de braço dado com um Presidente da República que menospreza os números quando as vítimas são crianças abusadas por padres.

    Mas isto não é apenas um problema de quem governa. É também um sintoma claro da falta de empatia de uma sociedade inteira, visível na quase total ausência de indignação perante uma decisão tão deplorável. Quem trata assim os mais vulneráveis, quem não demonstra um pingo de bondade ou compaixão, deveria ser severamente criticado — inclusive por aqueles que vestem batina e que, todos os domingos, falam de perdão e misericórdia nas liturgias do altar.

    É esta a lógica: severidade para baixo, tolerância para cima; castigo para os descartáveis, compreensão para os protegidos. Não é incompetência, é carácter. E quando assim é, daqui só se pode esperar o pior — porque quem governa sem consciência acaba inevitavelmente por governar contra todos.

    Joao

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