Há dias em que a História rasga a própria pele e mostra a carne viva. O rapto de Nicolás Maduro pelas forças especiais norte-americanas não é apenas mais um episódio de intervencionismo — é a revelação brutal de que o império decidiu despir as vestes da legalidade internacional e apresentar-se tal como sempre foi: um poder que toma o que quer, quando quer.
Donald Trump não se deu ao trabalho de disfarçar. Numa franqueza quase obscena, assumiu que os Estados Unidos vão "gerir" a Venezuela, que as suas petrolíferas vão "investir milhares de milhões de dólares" nas maiores reservas de crude do planeta. Não falou de democracia, não mencionou eleições livres, não invocou os direitos humanos. Falou de petróleo. Apenas de petróleo. Como um conquistador do século XIX que planta a bandeira em terra alheia e declara: isto agora é meu.
O que assistimos não é uma "mudança de regime" — é um assalto à mão armada a um país soberano, executado por uma superpotência que já nem se incomoda em fabricar pretextos minimamente credíveis. A narrativa do "narcoterrorismo" serviu de biombo para uma operação de pilhagem que teria feito corar os velhos praticantes da diplomacia da canhoneira. Pelo menos esses tinham o pudor de fingir civilizar os selvagens. Trump nem isso.
A pergunta que fica suspensa no ar contamina tudo: se o líder da suposta ordem liberal pode bombardear uma capital e sequestrar um chefe de Estado, com que autoridade moral se condena Putin pela Ucrânia? Com que legitimidade se critica Xi Jinping pelas ameaças a Taiwan? O senador Mark Warner teve a coragem de formular a questão que muitos preferem ignorar: que impede agora a China de invocar o mesmo precedente sobre os dirigentes de Taiwan? Que impede Putin de reclamar idêntica autoridade sobre Volodymyr Zelensky?
Trump não destruiu apenas o frágil edifício do direito internacional — destruiu o último recurso que sustentava a hegemonia americana: a legitimidade. Durante décadas, o poder dos Estados Unidos não assentava apenas em porta-aviões e mísseis, mas numa pretensão de representar algo mais — valores, normas, um horizonte civilizacional. Essa ilusão acabou. O que resta é a força nua, o apetite desavergonhado, o petróleo como única bússola moral.
E a Europa? A União Europeia, essa construção frágil que teima em acreditar no multilateralismo e no respeito pelo direito internacional, limitou-se a emitir comunicados de "preocupação". Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha manifestaram-se — governos de esquerda que ainda acreditam que as palavras têm peso. Mas onde ficou Portugal neste mapa da indignação?
A vergonha tem nome próprio: Paulo Rangel. O ministro dos Negócios Estrangeiros português, representante de um país que durante décadas sofreu sob um regime autoritário e que deveria ter a memória colonial tatuada na consciência coletiva, optou pelo silêncio cúmplice ou, pior, por alguma declaração morna que mais parece um rascunho de não-posição. Portugal, que podia ter somado a sua voz ao protesto dos países latino-americanos que partilham a mesma língua e herança cultural, preferiu a discrição de quem não quer desagradar ao império.
É o servilismo transformado em política externa. É a NATO como álibi para abdicar de qualquer postura ética. É o atlantismo como religião que exige o sacrifício da dignidade no altar da obediência. Paulo Rangel escolheu o lado da história onde os vassalos aplaudem em surdina enquanto o senhor saqueia à luz do dia.
A Venezuela não ganhou liberdade com esta operação; trocou um governo local por um protetorado petrolífero. As empresas norte-americanas vão administrar o crude venezuelano "como se fosse um protetorado dos Estados Unidos", nas palavras certeiras do economista Francisco Rodríguez. E é exatamente isso que será.
O laboratório venezuelano anuncia um mundo novo e terrível. Trump enviou uma mensagem ao planeta inteiro: nenhuma nação, por mais soberana que se julgue, está a salvo se tiver algo que Washington cobiça. A Gronelândia volta à conversa, agora com a mulher de Stephen Miller a publicar mapas da ilha coberta pela bandeira americana e a legenda "Em breve". É o imperialismo sem eufemismos, sem retórica humanitária, sem fingimentos.
E nós, europeus, assistimos de braços caídos. Pior: alguns, como Paulo Rangel, assistem de cócoras. A grande questão que fica — e que ninguém ousa responder — é esta: se Trump pode fazer isto à Venezuela, o que o impedirá de fazer o mesmo a quem mais contrarie os seus interesses? E se a Europa permanece muda perante esta brutalidade, que valor tem ainda a sua retórica sobre valores, direitos humanos e ordem internacional?
A Venezuela converteu-se no primeiro país abertamente submetido ao imperialismo predador destes nossos tempos. Não será o último. E cada silêncio cúmplice — como o de Paulo Rangel — torna o próximo assalto mais fácil, mais provável, mais inevitável.

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