A primeira volta das presidenciais coloca-me perante uma escolha clara: votarei num dos três candidatos das esquerdas verdadeiras — e nenhum deles é António José Seguro, que só por piedade ou distração se poderá classificar como "centro-esquerda", seja lá o que isso signifique em tempos de tanta confusão programática. Na segunda volta, farei o que for necessário para travar Ventura, ainda que isso implique votar em Seguro, Marques Mendes ou até Cotrim. Seguirei, se necessário, o conselho histórico de Álvaro Cunhal quando mandou os comunistas votarem em Mário Soares contra Freitas do Amaral: com o nariz tapado, mas votando.
Porém, e aqui Pedro Adão e Silva tem toda a razão no texto hoje inserido na última página do Público: as circunstâncias são radicalmente diferentes de 1986. O que então estava em jogo era a consolidação de uma democracia ainda frágil contra os restos do autoritarismo salazarista. O que está em jogo agora é a defesa daquilo a que chamam "democracia liberal" — eufemismo contemporâneo para o que outrora se designava honestamente como "democracia burguesa" — contra o fascismo puro e duro que Ventura representa sem disfarces.
E aqui reside o nó górdio desta eleição: os mileiristas de Cotrim, esses arautos do ultraliberalismo que fantasiam um Estado mínimo onde apenas sobrevive quem tem capital, estão objetivamente de braço dado com o despudor autoritário de Ventura. Não por coincidência ideológica explícita, mas porque ambos partilham o mesmo desprezo pelos mais frágeis, a mesma indiferença perante a miséria alheia, a mesma vontade de desmantelar o que resta do Estado social. A indistinção entre a base militante do Chega e a da Iniciativa Liberal nas redes sociais não é acidente — é revelação de uma cumplicidade profunda que apenas se envergonha de si própria quando as câmaras estão ligadas.
Cotrim pode declarar o que quiser sobre apoiar Ventura numa segunda volta. A verdade é que o seu projeto político já apoia Ventura todos os dias ao defender políticas que empurram os portugueses para o desespero do qual o fascismo se alimenta. É isto que Cláudia Santos - num artigo do mesmo Público -demonstra de forma irrefutável no seu texto sobre a insegurança real dos portugueses.
E aqui subscrevo totalmente a sua análise: a verdadeira insegurança que assola o país não tem nada a ver com a criminalidade — essa é apenas o biombo conveniente que Montenegro e Ventura usam para esconder a devastação que provocam. A insegurança real tem nome e morada: chama-se desgoverno, chama-se desmantelamento do Estado social, chama-se abandono dos mais vulneráveis.
Treze horas numa urgência hospitalar não são insegurança estatística — são a prova de que o Estado abandonou a sua função primordial de proteger os cidadãos. Não saber onde nascerá o seu bebé não é ansiedade abstrata — é a certeza de que a saúde pública foi sacrificada no altar da austeridade. Um homem que morre no Seixal esperando três horas por uma ambulância não é uma fatalidade — é um homicídio por negligência institucional.
E quando o Governo de Montenegro substitui políticas sociais por políticas punitivas, quando finge resolver problemas inexistentes (a criminalidade não aumentou significativamente, nem tem relação com a imigração) para ocultar os problemas reais que não resolve (saúde, habitação, emprego precário), está a fabricar ativamente as condições para o caos social que depois usará como justificação para mais repressão.
A história de Nem da Rocinha que Cláudia Santos evoca é o espelho do nosso futuro se continuarmos neste caminho: um pai que se torna criminoso porque o Estado o abandonou quando a filha adoeceu. Quantos portugueses estão hoje a um passo desta mesma encruzilhada? Quantos pais desesperados, quantos doentes sem tratamento, quantos jovens sem futuro, quantos trabalhadores precários estão a ser empurrados para a margem do abismo pela indiferença calculada de quem governa?
Montenegro escolheu a segurança como bandeira, mas apenas a segurança performativa das operações policiais espetaculares e das conferências de imprensa em horário nobre. Enquanto isso, a insegurança real — a de não ter casa, a de não ter emprego digno, a de não ter acesso a saúde — cresce exponencialmente. E é precisamente esta insegurança real que alimenta a violência delinquente que depois serve de pretexto para mais Estado policial e menos Estado social.
O círculo vicioso é perfeito: destroem-se as redes de proteção social, empurram-se as pessoas para o desespero, aguarda-se que o desespero se transforme em violência, usa-se essa violência para justificar mais repressão e menos apoio social. É o warfare a substituir o welfare, é a guerra contra os pobres disfarçada de guerra contra o crime.
E por isso, quando vou votar na primeira volta num candidato de esquerda verdadeira, não estou apenas a escolher um programa político — estou a recusar este caminho de barbarização social que nos querem impor. E quando votar, se necessário, contra Ventura na segunda volta, mesmo que seja em Seguro, não estarei a defender uma democracia liberal que me satisfaça — estarei apenas a tentar evitar que o fascismo explícito substitua a violência sistémica que já nos governa.
É pouco? É pouco. Mas entre o sufoco quotidiano da democracia burguesa e a asfixia total do fascismo, há ainda uma diferença que justifica o esforço de tapar o nariz e votar. Não por esperança, mas por recusa do pior. E porque, como Cunhal sabia, há derrotas estratégicas que se aceitam para evitar catástrofes definitivas.
O drama é que esta eleição não nos oferece a possibilidade de vencer — apenas a possibilidade de adiar a derrota. E isso, por mais miserável que seja, ainda vale o esforço de ir às urnas.

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